Entrevista

por Ricardo Baesso de Oliveira

A baixa participação do jovem na casa espírita não é uma questão relacionada à juventude espírita em particular


Esta é a avaliação do psicólogo Chrystian Barroso Chaves (foto), nosso entrevistado, natural de Juiz de Fora (MG), onde reside e colabora com a comunidade virtual espirita.info e com o Instituto de Difusão Espírita de Juiz de Fora.

Chrystian é autor dos livros Filosofia moral de Jesus e Livre-arbítrio: uma reflexão espírita sobre escolha e determinismo e coautor dos e-books Sociedades Enfermas (Uma abordagem espírita do adoecimento social) e Personalidades Enfermas (Um modelo espírita dos transtornos mentais), ambos publicados pela EVOC – Editora Virtual O Consolador.

A seguir, a entrevista que ele gentilmente nos concedeu:


Quando e como se tornou espírita?

Ainda quando criança, acompanhando minha avó aos centros espíritas.

Algum fato específico teve influência na sua adesão ao Espiritismo?

Inicialmente, apenas a influência familiar. Mais tarde, porém, minha adesão se tornou uma escolha pessoal, pois encontrei no Espiritismo um campo de estudo e reflexão mais participativo e condizente com o que acredito, aberto a novas ideias e à releitura de muitas ideias já estabelecidas.

Qual aspecto do Espiritismo ou da prática espírita mais o atrai?

O estudo em grupo e os fenômenos mediúnicos.

Discute-se atualmente o esvaziamento dos centros espíritas em decorrência das mudanças ocorridas durante a pandemia de 2020. Como você vê essa questão e que medidas lhe parecem importantes para superar o problema?

Acredito que, após a pandemia, muitas práticas mudaram, assim como o interesse das pessoas. São apenas impressões, mas parece que elas passaram a dedicar menos tempo às atividades presenciais, que ocupam parte de seu tempo livre, e a mergulhar mais em vivências virtuais inócuas, de pouca sustentação e profundidade.

Tenho acompanhado esse fenômeno pela via profissional. A tentativa de iniciar relacionamentos por aplicativos, a invasão da vida pessoal pelo trabalho, por meio de aplicativos como o WhatsApp, e outras práticas próprias de um mundo marcado por urgências, ansiedades e competitividade crescente talvez tenham levado as pessoas a pensar que não dispõem de tempo para atender às próprias necessidades e, ainda, frequentar um centro espírita ou outro serviço religioso.

Esses fenômenos já existiam antes da pandemia, mas parecem ter-se intensificado com o avanço das tecnologias virtuais e das redes sociais. Tais recursos passaram a oferecer a ilusão de satisfação, prazer e realização sem a presença de outras pessoas. Soma-se a isso a ideia de que estar conectado e absurdamente atualizado é a maneira mais atual de se sentir incluído e aceito.

Nesse contexto, diante da escolha entre assistir a uma palestra, pregação ou missa que considerem cansativa e sair com amigos ou “maratonar” uma série, as pessoas podem tentar conciliar as atividades: ouvem um expositor pelo YouTube na velocidade 2x enquanto fazem outra coisa. Assim, têm a sensação de que não precisam escolher nem renunciar a uma atividade em favor de outra. Fazer tudo parece ser a solução.

Creio que o melhor caminho para os centros é adotar um modelo híbrido.

Outra questão momentosa diz respeito à juventude espírita, cuja participação no movimento não é mais como foi no passado. Qual é seu entendimento a respeito do assunto?

Não acredito que a baixa participação seja uma questão específica da juventude espírita. Os jovens estão afastados de muitos eventos sociais e pouco envolvidos em compromissos que exigem mais esforço para alcançar resultados. Consequentemente, também estão menos presentes nos centros espíritas, que lhes prometem paz e felicidade como resultado de muito esforço e do treinamento do autocontrole, mas somente após a morte — em geral, depois de muitas mortes.

Obviamente, estou opinando sobre uma questão cujo entendimento ainda está em construção, pois continuamos vivenciando esse fenômeno. Minhas opiniões, portanto, não passam de lucubrações em torno de um assunto de difícil compreensão.

O mundo enfrenta dificuldades imensas, não apenas nas questões econômicas e sociais. Em face disso, como você imagina que deva ser o comportamento dos espíritas e, principalmente, dos que estão à frente das entidades federativas?

Penso que devem agir com bom senso e evitar opiniões extremadas diante de questões importantes, ainda que tenham suas próprias convicções. A ideia de que precisamos defender o lado que representamos ou ao qual pertencemos é ilusória e temerária. Essa postura pode levar à exclusão de pessoas, à falta de caridade e ao desrespeito ao próximo.

Figuras públicas são referências e formadoras de opinião. Ao optarem por essa condição, precisam considerar as consequências do que expressam publicamente. Afinal, uma das ideias fundamentais do Espiritismo é a reencarnação, e nada garante que, em uma próxima existência, renasceremos no mesmo grupo social com o qual temos afinidade.

É preciso evitar que o julgamento de pessoas em situação de vulnerabilidade se traduza em manifestações de condenação ou desprezo, embora seja natural que façamos avaliações íntimas, pois ainda não somos perfeitos.

Como você avalia o trabalho de divulgação espírita atualmente realizado no Brasil?

Entre os próprios espíritas, a divulgação é ineficiente e depende de figuras públicas cujas opiniões nem sempre são ponderadas ou confiáveis. São verdadeiros showmen ou, usando um termo mais atual, influenciadores. Costumam cobrar valores pelos eventos de que participam e pelas publicações que oferecem, excluindo, assim, quem não dispõe de recursos financeiros para acompanhá-los.

Quanto à divulgação para os não espíritas, acredito que seja praticamente inexistente e que as poucas iniciativas existentes não despertem interesse significativo.

Para concluir, o que você recomendaria a uma pessoa que deseja começar a estudar a Doutrina Espírita?

Para quem deseja estudar a Doutrina com o propósito de aprofundar seus conhecimentos, considero importante participar de um grupo de estudo, no qual seja possível compartilhar dúvidas e ideias. Quanto às leituras, minha sugestão é começar por O que é o Espiritismo, em paralelo com a leitura de textos da Revista Espírita.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita