Especial

por Paulo Neto

Nosso Lar: significativos indícios de sua realidade (3ª e última parte)


Por uma razão que não conseguimos precisar, resolvemos pesquisar na Internet e encontramos mais um registro relacionado à materialização do Ministro Clarêncio. Em 3 de dezembro de 2023, foi postado no YouTube o vídeo intitulado “A materialização de Clarêncio em reunião mediúnica mineira”, no qual o palestrante Haroldo Dutra Dias relata uma experiência que lhe foi contada por antigos participantes de um grupo espírita do norte de Minas Gerais ([i]):


Olha o amor, olha a bondade do Clarêncio. Aliás, gente, eu queria contar um caso aqui muito interessante, sabe? Certa vez, eu fui ao interior de Minas, na cidade aqui do norte de Minas, e encontrei com os espíritas lá, fui fazer uma palestra e encontrei com a turma, assim, os espíritas antigos, né? A turma antiga desse grupo espírita lá do norte de Minas. E eles começaram a contar que eles tinham uma reunião de materialização lá no norte de Minas, e uma reunião de que o Chico já tinha até participado. Olha que interessante. E aí eles contaram uma experiência, gente, isso é lindo, hein? Isso é muito lindo. Eles contam, e eram, assim, coisas espetaculares, né? Porque era turma antiga, né? Turma antiga.

Então, aqueles médiuns de materialização, assim, extraordinários, né? Lá no interior, pessoal simples, mas com aquela mediunidade exuberante. E aí, um dia, teve uma materialização… Olha, vai escutando isso, gente. Materializou Emmanuel, materializou doutor Bezerra de Menezes, materializou irmã Scheilla e Meimei.

Todos materializados na sala da reunião. E aí os Espíritos disseram assim: meus irmãos, eu vou pedir agora a todos vocês muita oração, muita concentração, porque nós vamos receber uma entidade nobre, muito nobre, e a vibração tem que estar muito elevada para recebermos esse Espírito. Aí vocês imaginam, gente, Emmanuel de um lado, Bezerra do outro, irmã Scheilla e Meimei formaram um corredor. De repente, um corredor, gente. Emmanuel, Bezerra, irmã Scheilla e Meimei. De repente, materializa um velhinho de barba branca com um cajado. Era o ministro Clarêncio. O ministro Clarêncio materializou. E aí a sala da reunião mediúnica inundou de luz.

Aquela bondade, aquela vibração e a reverência, a reverência do doutor Bezerra de Menezes, a reverência de Emmanuel, de irmã Scheilla e de Meimei para com esse Espírito. Eu fiquei emocionado. Eu acho que todos já até desencarnaram, porque já tem muitos anos que eu fui lá e eles me contaram esse caso. Uns tinham 85, outros tinham 90, 92. A turma antiga, coisa que aconteceu assim na década de 50, década de 60, uma coisa por aí. Há muitos anos atrás.

E eles falaram, ficaram impressionados. Então, esse Espírito aqui é Clarêncio… é Clarêncio. É o ministro de Nosso Lar. Respeito. É um Espírito grandioso. Grandioso. ([ii])


Há, nesse relato, alguns detalhes que merecem atenção quando comparados com o depoimento de D. Ivone Werneck. Embora Haroldo Dutra Dias não tenha presenciado pessoalmente o fenômeno, ele afirma ter ouvido o relato de antigos participantes do grupo, alguns dos quais, à época de seu contato com ele, tinham 85, 90 e até 92 anos de idade. Segundo esses depoimentos, o episódio teria ocorrido nas décadas de 1950 ou 1960.

Para nós, são particularmente significativas algumas convergências entre os dois relatos, referentes a aspectos bastante específicos da manifestação do Ministro Clarêncio. Vejamos:
 

 

 

D. Ivone Werneck

Haroldo Dutra

1º

 

“uma entidade de escol”.

“vamos receber uma entidade nobre, muito nobre”.

2º

 

a) “os próprios Espíritos […] o saudavam com reverência – Senhor Ministro!…”; b) “Os Espíritos que estavam ali diziam assim: Ministro…, Ministro… Scheilla, então, Ministro, a sua presença aqui…”.

“A reverência do doutor Bezerra de Menezes, a reverência de Emmanuel, de Irmã Scheilla e de Meimei para com esse Espírito”.

3º

 

a) “Ele veio todo iluminado […] projetava luzes”; b) “o espírito a tudo iluminou, com sua luz”; c) “o salão que ficava às escuras ficou completamente claro”; d) “ficou uma claridade imensa, em pleno salão”.

“E aí, a sala da reunião mediúnica inundou de luz”.

4º

 

a) “trazia à mão um bastão igualmente luminoso”; b) “com um cajado também todo iluminado”.

“De repente, materializa um velhinho de barba branca com um cajado”.


Observa-se, portanto, uma notável semelhança entre os dois relatos, especialmente quanto à elevada condição evolutiva atribuída à entidade, à reverência dos demais Espíritos, à intensa luminosidade que acompanharia sua manifestação e à presença de um cajado ou bastão luminoso. Essas convergências tornam o episódio digno de consideração, sobretudo porque as narrativas provêm de contextos distintos e foram registradas em épocas diferentes.

Cabe explicar aqui um importante detalhe. Em A Gênese, capítulo “XIV – Os fluidos”, item 25, Allan Kardec esclarece-nos que “Assim, envolta no seu perispírito, a alma traz consigo o seu princípio luminoso” ([iii]). Isso fica mais claro em O Céu e o Inferno, Segunda Parte, capítulo “IV – Espíritos sofredores”, caso Claire, quando os Espíritos explicaram a Allan Kardec:


“Por sua natureza, o perispírito possui uma propriedade luminosa que se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da alma. Poder-se-ia dizer que essas qualidades estão para o fluido perispirítico como a fricção para o fósforo. A intensidade da luz é diretamente proporcional à pureza do Espírito, de sorte que as menores imperfeições morais a atenuam e enfraquecem. A luz irradiada por um Espírito será tanto mais viva quanto maior for o seu adiantamento. Sendo o Espírito, de algum modo, o seu próprio farol, verá mais ou menos segundo a intensidade da luz que produz, de onde se conclui que os Espíritos que não a produzem acham-se na obscuridade.” ([iv])


Ou seja, quanto maior for o adiantamento do Espírito, maior será a intensidade da luz que emana de seu perispírito. Esse ensinamento poderá, inclusive, servir-nos como parâmetro na análise de eventuais manifestações, caso um Espírito enganador pretenda fazer-se passar por outro de maior evolução.

Do livro Nosso Lar (1944), destacaremos agora dois momentos que poderão, certamente, ajudar-nos na avaliação dos relatos sobre as materializações de Clarêncio:

1º) Capítulo “3 – A Oração Coletiva”: “Clarêncio, que se apoiava num cajado de substância luminosa,” ([v]).

O significativo detalhe do cajado luminoso chama particularmente a atenção quando o comparamos com os relatos das materializações de Clarêncio, pois não é um elemento que se esperaria encontrar facilmente, por acaso, em diferentes descrições. E, antecipando uma possível objeção, vale lembrar esta explicação do Codificador: “Poderíamos citar grande número de casos em que Espíritos de mortos ou de pessoas vivas apareceram com diversos objetos, tais como bengalas, armas, cachimbos, livros etc.” ([vi])

2º) Capítulo “32 – Notícias de Veneranda”: “Com exceção do Governador, a Ministra Veneranda é a única entidade, em ‘Nosso Lar’, que já viu Jesus nas Esferas Resplandecentes” ([vii]).

Depreendemos dessa passagem que o Governador de Nosso Lar, identificado na obra como Clarêncio, também teria visto Jesus nas Esferas Resplandecentes, algo que, segundo a própria narrativa, não seria acessível a Espíritos de condição inferior. Nós, encarnados, quando muito, teríamos experiências dessa natureza durante o sono, conforme a condição espiritual de cada um.

Na obra Tertúlias Espirituais 40 anos de CEE, indicada por Thiago Toscano Ferrari, entre as cinquenta e duas comunicações por psicofonia ou psicografia, encontramos o nome de outro personagem de Nosso Lar. Trata-se de Veneranda, ministra da colônia, cuja manifestação, confirmada pelo Espírito Rosemere, ocorreu em 05.03.2022, por intermédio do médium Walace Fernando Neves ([viii]).

A respeito dessa manifestação, informa-se que “ele nos explicou esta [psicografia] não foi transmitida diretamente para si, mas intermediada por três Espíritos amigos”. O próprio médium, diante da experiência, confessou: “É muita areia para o meu caminhãozinho” ([ix]). Rosemere explica: “Um Espírito da envergadura da Veneranda não comparece em qualquer lugar” ([x]).

Ora, se admitirmos como verdadeiros os testemunhos acerca da realidade de Clarêncio e Veneranda, por que a cidade espiritual da qual fazem parte – um na condição de Governador e a outra à frente do Ministério da Regeneração – seria necessariamente mera ficção? É justamente aqui que queremos considerar o conjunto, e não os detalhes que, como dissemos, são de responsabilidade do autor espiritual e ainda carecem de avaliação pelo Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Nesse aspecto, repetimos, alinhamos-nos com o pensamento de Herculano Pires ([xi]).

Em nosso livro As Colônias Espirituais e a Codificação, registramos inicialmente 33 fontes provenientes de diversos países que dão notícias da existência de construções no mundo espiritual ([xii]). No decorrer de nossas pesquisas, esse levantamento foi ampliado para 62 fontes. Portanto, a nossa opinião sobre o assunto não se fundamenta apenas nos relatos e argumentos apresentados neste artigo.

É importante informar aos leitores que não conhecem nossa forma de agir que diversos amigos receberam este texto para análise. Esse é um procedimento que adotamos habitualmente, em especial diante de temas polêmicos, pois nos alinhamos ao pensamento de Allan Kardec: “o assentimento que encontrei numa multidão de pessoas mais esclarecidas do que eu é para uma primeira garantia” ([xiii]).

 

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[i] TURBOSCRIBE, Transcrição do vídeo “A Materialização de Clarêncio em Reunião Mediúnica mineira (Haroldo D. Dias)”: LINK 1.

[ii] PALESTRAS, LIVES, RECORTES E ESTUDOS ESPÍRITAS, A Materialização de Clarêncio em Reunião Mediúnica mineira (Haroldo D. Dias), disponível em: LINK 2.

[iii] KARDEC, A Gênese, p. 248.

[iv] KARDEC, O Céu e o Inferno, p. 258.

[v] XAVIER, Nosso Lar, p. 26.

[vi] KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 136.

[vii] XAVIER, Nosso Lar, p. 178.

[viii] GRUPO DE ESTUDOS ESPERANÇA, Tertúlias Espirituais pelos 40 anos da CEE, p. 103 e 178.

[ix] GRUPO DE ESTUDOS ESPERANÇA, Tertúlias Espirituais pelos 40 anos da CEE, p. 189.

GRUPO DE ESTUDOS ESPERANÇA, Tertúlias Espirituais pelos 40 anos da CEE, p. 190.

[xi] SILVA NETO SOBRINHO, Herculano Pires e as obras de André Luiz, disponível em: LINK 3.

[xii] SILVA NETO SOBRINHO, Colônias Espirituais X Dogmatismo de Espíritas, link: LINK 4.

[xiii] KARDEC, Revista Espírita 1859, p. 180.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita