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Autora da frase que dá título a esta entrevista,
Ana Paula Pimentel (foto), natural de
Olinda (PE), reside em Recife, onde participa
das atividades do Centro Espírita Caminhando
para Jesus e divulga a Doutrina Espírita por
meio de palestras em diversas Casas Espíritas.
Algumas dessas palestras estão disponíveis no
canal da instituição no YouTube. Para acessá-lo,
clique aqui:
Caminhando para Jesus
Na presente
entrevista, ela fala sobre sua iniciação no
Espiritismo e aborda temas como a vivência
espírita, o esvaziamento dos centros, a
participação dos jovens, a divulgação
doutrinária e a chamada Transição Planetária.
Quando e como se tornou espírita?
Meus pais não tinham propriamente uma religião,
embora fossem simpáticos e conhecedores do
espiritual. Minha tia paterna, a quem eu cresci
chamando de avó, era uma mistura de católica,
espírita e umbandista. Tinha altares com santos
católicos, mediunidade bastante ostensiva e
fazia o Evangelho no Lar.
Meu encontro propriamente dito com o Espiritismo
aconteceu por volta dos nove anos. Minha mãe
havia perdido uma filha ainda bebê e passou
muitos anos vivendo um processo profundo de
sofrimento, depressão e luto. Uma amiga da
família, que frequentava um centro espírita,
convidou minha mãe para conhecer a casa. Ela
inicialmente não queria ir, mas eu insisti:
“Não, vamos! Eu vou, quero ir, vamos!”.
Foi ali que tive meu primeiro contato mais
efetivo com os princípios espíritas. Quando ouvi
conceitos como imortalidade da alma,
reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e
evolução espiritual, eles não me pareceram
novidades. Era como se eu reconhecesse aquelas
ideias. Para mim, não eram novidade.
Algum fato específico teve influência na sua
adesão ao Espiritismo?
A história da minha mãe foi a circunstância que
abriu a porta para o meu encontro com o
Espiritismo. Mas o que me fez permanecer foi
perceber que aquela Doutrina dialogava
profundamente com questões que eu já trazia
comigo.
Desde criança, eu tinha muita curiosidade pelas
grandes perguntas da existência. Quando conheci
o Espiritismo, encontrei uma Doutrina que, para
mim, conseguia reunir espiritualidade, filosofia
e uma proposta racional de compreensão da
existência humana.
Por isso, não consigo dizer que houve um único
acontecimento que me fez “aderir” ao
Espiritismo. Houve uma circunstância que nos
levou até ele, mas, depois que chegamos, houve
algo muito maior: um reconhecimento. Sinto que
encontrei uma Doutrina que deu nome, lógica e
sentido a perguntas que já existiam dentro de
mim.
Fale-nos de sua trajetória e sua vivência
espírita.
Comecei a ir ao centro aos 9 anos, mas nunca
participei de uma evangelização espírita ou de
uma mocidade. Preferia ficar no auditório, ao
lado da minha mãe, ouvindo as palestras. Quando
ela começou a participar dos cursos oferecidos
pela casa, eu a acompanhava. Havia estudos sobre
mediunidade, cursos diversos e até aulas de
Esperanto. Aquilo que conseguia compreender me
fascinava profundamente.
A leitura também teve um papel muito importante
na minha formação. Na adolescência, comecei a
estudar a Codificação Espírita. Já na casa dos
vinte anos, porém, acabei me afastando do
centro. Eu trabalhava durante o dia e fazia
faculdade à noite. Mas me afastei do centro, não
da Doutrina.
No final dos vinte e poucos anos, retornei à
casa, retomei os estudos e os cursos e comecei a
perceber que meu caminho dentro do movimento
estava ligado à oratória. Fiz o curso de
oratória e minha primeira palestra foi em 2014.
Desde então, não parei mais. Paralelamente,
passei a atuar na área da doutrinação e, mais
recentemente, surgiu uma experiência
completamente inesperada para mim: a
mediunidade.
De suas lembranças, há algum fato marcante que
você poderia relatar?
Talvez a lembrança mais marcante não seja
propriamente um acontecimento mediúnico, mas
aquilo que vi acontecer com a minha mãe.
Vi uma mulher profundamente ferida pela perda de
uma filha. Vi o sofrimento, a tristeza e todas
as consequências emocionais que vieram depois. E
vi também o que a casa espírita fez por ela.
A casa não apagou sua dor nem devolveu
fisicamente minha irmã. Mas ajudou minha mãe a
compreender aquela experiência, a trabalhar o
sofrimento e a ressignificar a própria vida. Eu
costumo dizer que a casa espírita conseguiu
devolver minha mãe para mim e para meu pai.
Isso me ensinou que uma casa espírita precisa
ser, antes de qualquer coisa, uma casa
acolhedora. Nunca sabemos a história que existe
por trás de uma pessoa que atravessa aquela
porta. Às vezes, ela chega carregando uma dor
que ninguém conhece. E talvez aquele seja
justamente o momento em que mais precisa
encontrar alguém disposto a acolhê-la com amor,
escuta e o Evangelho de Jesus.
Discute-se atualmente o esvaziamento dos centros
espíritas em decorrência do que ocorreu na época
da pandemia de 2020. Como você vê essa questão?
Vejo o esvaziamento das casas espíritas como
decorrência de vários fatores, e acho simplista
atribuí-lo exclusivamente à pandemia. Nós,
espíritas, precisamos ter a coragem de olhar
para nós mesmos, para a nossa conduta e para a
forma como estamos fazendo o nosso trabalho e
perguntar: o que precisamos repensar?
Tenho a impressão de que, muitas vezes, somos
excessivamente engessados. Justificamos essa
rigidez em nome de uma suposta pureza
doutrinária. E talvez, em alguns casos, essa
preocupação com a pureza seja apenas uma forma
de justificar o nosso medo de mudar.
Não estou dizendo que precisemos reformular a
estrutura fundamental do Espiritismo. Precisamos
trazer Kardec sempre, porque Kardec é a base da
Doutrina, mas precisamos falar Kardec com a
linguagem do século XXI.
As dores humanas também se transformaram.
Surgiram novos conflitos, novas formas de
sofrimento, novas relações sociais, novas
estruturas de família e novas perguntas.
Precisamos conversar sobre isso à luz do
Espiritismo.
E precisamos tornar nossas casas mais vivas. A
palestra doutrinária e o estudo precisam
continuar existindo, mas por que não podemos
também ter música, teatro, arte, encontros e
atividades que aproximem as pessoas? Por que não
utilizar as novas tecnologias e as redes sociais
para levar a mensagem espírita a quem talvez
nunca atravesse a porta de um centro?
A fidelidade a Kardec não pode significar
congelar o Espiritismo no século XIX. O próprio
caráter da Doutrina é progressivo. Kardec
estabelece a importância da razão, da
investigação e do diálogo com os avanços do
conhecimento. Diante de novos conhecimentos,
deveríamos estudá-los, pesquisá-los e
submetê-los ao crivo da razão e dos critérios
que o próprio Kardec nos ensinou.
Isso não significa aceitar qualquer novidade de
maneira ingênua. Significa ter discernimento.
Nem tudo o que surge como novo é verdadeiro, mas
também não podemos rejeitar algo simplesmente
porque é novo.
Talvez o grande desafio seja preservar os
fundamentos sem transformar a Doutrina em algo
imóvel. Precisamos conservar a essência, mas
permitir que a forma de compreendê-la e
comunicá-la acompanhe o amadurecimento da
humanidade.
Outra questão momentosa diz respeito à juventude
espírita, cuja participação no movimento não é
mais como foi no passado. Qual é seu
entendimento?
Acho que o afastamento da juventude espírita é
resultado de uma conjunção de fatores. Existe
uma questão de linguagem e de atividades que
muitas vezes não dialogam com o universo do
jovem. Mas há uma questão ainda mais profunda:
qual é o lugar que estamos oferecendo a esse
jovem dentro do movimento espírita?
Muitas vezes, colocamos o jovem dentro de um
espaço chamado “juventude” e esperamos que ele
permaneça ali. Mas ele precisa estar na casa
espírita como um todo: na tribuna, nos estudos,
nos projetos, nas decisões e nas atividades de
divulgação. Precisa ter espaço de fala e,
sobretudo, precisa ser escutado.
Nós, que estamos há mais tempo no movimento,
somos, de certa forma, os irmãos mais velhos. E
o irmão mais velho tem a responsabilidade de
ajudar o mais novo a caminhar. Mas não pode,
simplesmente por ser mais velho, falar o tempo
inteiro, decidir tudo e impedir que o outro se
manifeste.
É preciso confiar, abrir espaço e permitir que
eles façam junto conosco, ainda que, em alguns
momentos, de maneira diferente da nossa. Talvez
uma das nossas maiores tarefas seja aprender a
fazer essa passagem de bastão sem abandonar a
experiência que acumulamos, mas também sem
transformar essa experiência em uma autoridade
que impeça novas ideias de surgir.
Não acho que devamos simplesmente criar
atividades “para jovens”. Precisamos criar
espaços em que os jovens sejam efetivamente
parte do movimento: trabalhadores em formação,
protagonistas e futuros responsáveis pela
continuidade da Doutrina.
O mundo enfrenta dificuldades imensas. Em face
disso, como você imagina que deva ser o
comportamento dos espíritas?
O papel de todo espírita, esteja ele em uma
posição de liderança ou não, é procurar levar
adiante aquilo a que o Espiritismo se propõe: a
retomada dos ensinamentos de Jesus em sua
essência.
Estamos atravessando um período de grande
polarização, atitudes extremadas, pouca
disposição para o diálogo, intolerância,
preconceitos e, muitas vezes, falta de empatia.
É justamente nesse cenário que precisamos nos
perguntar se estamos realmente vivendo aquilo
que dizemos acreditar.
Jesus era acolhedor, profundamente empático e
contrário à violência. Não ensinava o ódio ao
diferente nem respondia à violência com mais
violência.
Eu digo sempre que existe uma pergunta muito
simples que nos ajuda a avaliar nossas atitudes:
“Jesus levantaria essa bandeira que eu estou
levantando? Jesus defenderia essa causa da
maneira como eu estou defendendo? Ele agiria
dessa forma diante dessa pessoa? Ele usaria
essas palavras?”
Para mim, esse deveria ser um dos grandes
critérios da vida espírita: não apenas perguntar
se aquilo em que acreditamos está correto, mas
se a maneira como estamos defendendo aquilo é
compatível com Jesus.
Num mundo tão polarizado, talvez a contribuição
mais importante que o movimento espírita possa
oferecer seja justamente a demonstração de que é
possível discordar sem odiar, pensar diferente
sem excluir, defender princípios sem desumanizar
o outro e exercer autoridade sem perder a
fraternidade.
Como você avalia o trabalho de divulgação
espírita atualmente realizado no Brasil?
Precisamos continuar fazendo nossa parte na
divulgação doutrinária. O Espiritismo precisa
ser estudado, conhecido, divulgado e levado às
pessoas. Mas precisamos nos perguntar, antes de
tudo, para quem estamos falando.
O mundo está cheio de dores. As pessoas chegam
às nossas casas ansiosas, deprimidas, enlutadas,
assustadas, vivendo dores profundas. São pessoas
que, muitas vezes, já chegam cansadas de sofrer.
A Doutrina Espírita precisa se propor, acima de
qualquer outra coisa, a cuidar dessas dores.
Uma das principais tarefas da divulgação
espírita hoje deve ser trazer para nossas pautas
as problemáticas do nosso tempo. Precisamos
falar sobre aquilo que as pessoas estão vivendo
agora e oferecer a esses corações o bálsamo do
Espiritismo. Mas também precisamos nos preocupar
com a forma como fazemos isso.
Às vezes, encontramos temas maravilhosos
apresentados de uma maneira que pode aumentar
ainda mais o medo de quem já está sofrendo.
Falamos sobre consequências, provas e expiações,
mas esquecemos que aquela pessoa talvez já
esteja vivendo uma dor que mal consegue
suportar.
Uma pessoa que entra em uma casa espírita para
ouvir uma palestra deveria sair de lá um pouco
mais aliviada. Deveria sentir-se consolada,
amada, acolhida, incluída e orientada. Não
necessariamente porque recebeu uma resposta para
tudo, mas porque encontrou um lugar onde sua dor
foi reconhecida e respeitada e onde alguém lhe
mostrou que ela não está sozinha.
Isso exige enorme responsabilidade de quem ocupa
uma tribuna. Quando subimos a uma tribuna
espírita, estamos levando conosco a imagem da
Doutrina Espírita e, sobretudo, a imagem de
Jesus.
Também acredito que a casa espírita não seja
lugar para defendermos ideologias ou disputarmos
bandeiras. É um lugar para apresentarmos
novamente Jesus às pessoas e, junto com o
conhecimento espírita, ajudar a secar as
lágrimas de quem está chorando, oferecer
orientação a quem está perdido e mostrar que
existe um caminho possível.
Para mim, essa é a grande responsabilidade da
divulgação espírita hoje: não apenas levar
conhecimento, mas levar consolo; não apenas
explicar a vida, mas ajudar a vivê-la; não
apenas falar sobre Jesus, mas fazer com que quem
nos ouve consiga sentir algo do amor que Jesus
ensinou.
O que você acha da importância da Casa Espírita
no contexto da Transição Planetária?
A casa espírita deve ser vista como um local de
preparação. Preparar para a Transição Planetária
não significa simplesmente falar sobre grandes
acontecimentos que estariam por vir. Significa,
principalmente, preparar consciências, porque
são justamente consciências regeneradas que
regeneram o mundo.
Não podemos transformar esse assunto em motivo
de medo, catastrofismo ou expectativa diante de
dores que a humanidade ainda possa enfrentar. O
mundo já tem medo e ansiedade demais. A Doutrina
Espírita precisa nos ajudar a olhar para esse
momento com responsabilidade, mas também com
esperança.
O espírita pode contribuir muito divulgando essa
realidade, mas não apenas dizendo às pessoas que
“o mundo está em transição”. Precisamos mostrar,
principalmente, o que essa transição exige de
cada um de nós: que sociedade queremos
construir, que sentimentos estamos alimentando,
como estamos tratando o outro e que tipo de
mundo estamos ajudando a construir por meio de
nossas próprias atitudes.
A melhor divulgação da Transição Planetária é
aquela que convida à transformação, e não aquela
que produz medo. Porque, se queremos um mundo
regenerado, precisamos começar a construir essa
regeneração dentro de nós.
Algo mais que queira acrescentar?
Talvez precisemos perder um pouco do medo de
sermos espíritas no século XXI. Precisamos parar
de confundir fidelidade à Doutrina com
imobilidade. Fidelidade não significa fechar
portas. Significa conhecer profundamente aquilo
que recebemos, compreender seus fundamentos e
ter maturidade para continuar estudando.
Kardec nos ensinou uma postura investigativa.
Diante de novos conhecimentos, inclusive os que
chegam de fontes espirituais ou dos avanços das
diversas áreas do conhecimento humano, não
deveríamos simplesmente aceitar, mas também não
deveríamos simplesmente rejeitar porque são
novos.
Precisamos pesquisar, estudar, comparar,
questionar, submeter ao crivo da razão e
verificar aquilo que encontra concordância e
aquilo que não encontra. Não precisamos ter medo
de descobrir. Precisamos ter responsabilidade
para investigar.
Suas palavras finais.
Gostaria de deixar uma reflexão muito simples.
Acho que precisamos lembrar de três coisas que
não deveriam jamais estar separadas.
Primeiro, somos discípulos de Jesus. E isso
significa que, em qualquer situação, inclusive
quando discordamos de alguém, precisamos
perguntar: “Como Jesus agiria?”. Essa deve ser a
nossa principal referência.
Segundo, somos aprendizes de Kardec. E ser
aprendiz de Kardec significa compreender o
método, a racionalidade e o caráter progressivo
do Espiritismo. Kardec nos deixou uma base
extraordinariamente sólida, mas uma base não
existe para impedir a construção; existe para
sustentá-la.
E, finalmente, somos espíritas vivendo no século
XXI. Precisamos aprender a falar com as pessoas
do nosso tempo, compreender suas dores, seus
conflitos e suas perguntas. Não podemos esperar
que uma humanidade que mudou continue sendo
alcançada exatamente pelas mesmas formas de
comunicação.
Para mim, essas três coisas não são
contraditórias. Ao contrário: Jesus é a nossa
referência moral; Kardec é a base e o método que
nos orienta; e o século XXI é o lugar onde
precisamos colocar tudo isso em prática.
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