Entrevista

por Luiz Guimarães Gomes de Sá

Jesus é a nossa referência moral; Kardec é a base e o método que nos orienta


Autora da frase que dá título a esta entrevista, Ana Paula Pimentel (foto), natural de Olinda (PE), reside em Recife, onde participa das atividades do Centro Espírita Caminhando para Jesus e divulga a Doutrina Espírita por meio de palestras em diversas Casas Espíritas. Algumas dessas palestras estão disponíveis no canal da instituição no YouTube. Para acessá-lo, clique aqui: Caminhando para Jesus

Na presente entrevista, ela fala sobre sua iniciação no Espiritismo e aborda temas como a vivência espírita, o esvaziamento dos centros, a participação dos jovens, a divulgação doutrinária e a chamada Transição Planetária.
 

Quando e como se tornou espírita?

Meus pais não tinham propriamente uma religião, embora fossem simpáticos e conhecedores do espiritual. Minha tia paterna, a quem eu cresci chamando de avó, era uma mistura de católica, espírita e umbandista. Tinha altares com santos católicos, mediunidade bastante ostensiva e fazia o Evangelho no Lar.

Meu encontro propriamente dito com o Espiritismo aconteceu por volta dos nove anos. Minha mãe havia perdido uma filha ainda bebê e passou muitos anos vivendo um processo profundo de sofrimento, depressão e luto. Uma amiga da família, que frequentava um centro espírita, convidou minha mãe para conhecer a casa. Ela inicialmente não queria ir, mas eu insisti: “Não, vamos! Eu vou, quero ir, vamos!”.

Foi ali que tive meu primeiro contato mais efetivo com os princípios espíritas. Quando ouvi conceitos como imortalidade da alma, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e evolução espiritual, eles não me pareceram novidades. Era como se eu reconhecesse aquelas ideias. Para mim, não eram novidade.

Algum fato específico teve influência na sua adesão ao Espiritismo?

A história da minha mãe foi a circunstância que abriu a porta para o meu encontro com o Espiritismo. Mas o que me fez permanecer foi perceber que aquela Doutrina dialogava profundamente com questões que eu já trazia comigo.

Desde criança, eu tinha muita curiosidade pelas grandes perguntas da existência. Quando conheci o Espiritismo, encontrei uma Doutrina que, para mim, conseguia reunir espiritualidade, filosofia e uma proposta racional de compreensão da existência humana.

Por isso, não consigo dizer que houve um único acontecimento que me fez “aderir” ao Espiritismo. Houve uma circunstância que nos levou até ele, mas, depois que chegamos, houve algo muito maior: um reconhecimento. Sinto que encontrei uma Doutrina que deu nome, lógica e sentido a perguntas que já existiam dentro de mim.

Fale-nos de sua trajetória e sua vivência espírita.

Comecei a ir ao centro aos 9 anos, mas nunca participei de uma evangelização espírita ou de uma mocidade. Preferia ficar no auditório, ao lado da minha mãe, ouvindo as palestras. Quando ela começou a participar dos cursos oferecidos pela casa, eu a acompanhava. Havia estudos sobre mediunidade, cursos diversos e até aulas de Esperanto. Aquilo que conseguia compreender me fascinava profundamente.

A leitura também teve um papel muito importante na minha formação. Na adolescência, comecei a estudar a Codificação Espírita. Já na casa dos vinte anos, porém, acabei me afastando do centro. Eu trabalhava durante o dia e fazia faculdade à noite. Mas me afastei do centro, não da Doutrina.

No final dos vinte e poucos anos, retornei à casa, retomei os estudos e os cursos e comecei a perceber que meu caminho dentro do movimento estava ligado à oratória. Fiz o curso de oratória e minha primeira palestra foi em 2014. Desde então, não parei mais. Paralelamente, passei a atuar na área da doutrinação e, mais recentemente, surgiu uma experiência completamente inesperada para mim: a mediunidade.

De suas lembranças, há algum fato marcante que você poderia relatar?

Talvez a lembrança mais marcante não seja propriamente um acontecimento mediúnico, mas aquilo que vi acontecer com a minha mãe.

Vi uma mulher profundamente ferida pela perda de uma filha. Vi o sofrimento, a tristeza e todas as consequências emocionais que vieram depois. E vi também o que a casa espírita fez por ela.

A casa não apagou sua dor nem devolveu fisicamente minha irmã. Mas ajudou minha mãe a compreender aquela experiência, a trabalhar o sofrimento e a ressignificar a própria vida. Eu costumo dizer que a casa espírita conseguiu devolver minha mãe para mim e para meu pai.

Isso me ensinou que uma casa espírita precisa ser, antes de qualquer coisa, uma casa acolhedora. Nunca sabemos a história que existe por trás de uma pessoa que atravessa aquela porta. Às vezes, ela chega carregando uma dor que ninguém conhece. E talvez aquele seja justamente o momento em que mais precisa encontrar alguém disposto a acolhê-la com amor, escuta e o Evangelho de Jesus.

Discute-se atualmente o esvaziamento dos centros espíritas em decorrência do que ocorreu na época da pandemia de 2020. Como você vê essa questão?

Vejo o esvaziamento das casas espíritas como decorrência de vários fatores, e acho simplista atribuí-lo exclusivamente à pandemia. Nós, espíritas, precisamos ter a coragem de olhar para nós mesmos, para a nossa conduta e para a forma como estamos fazendo o nosso trabalho e perguntar: o que precisamos repensar?

Tenho a impressão de que, muitas vezes, somos excessivamente engessados. Justificamos essa rigidez em nome de uma suposta pureza doutrinária. E talvez, em alguns casos, essa preocupação com a pureza seja apenas uma forma de justificar o nosso medo de mudar.

Não estou dizendo que precisemos reformular a estrutura fundamental do Espiritismo. Precisamos trazer Kardec sempre, porque Kardec é a base da Doutrina, mas precisamos falar Kardec com a linguagem do século XXI.

As dores humanas também se transformaram. Surgiram novos conflitos, novas formas de sofrimento, novas relações sociais, novas estruturas de família e novas perguntas. Precisamos conversar sobre isso à luz do Espiritismo.

E precisamos tornar nossas casas mais vivas. A palestra doutrinária e o estudo precisam continuar existindo, mas por que não podemos também ter música, teatro, arte, encontros e atividades que aproximem as pessoas? Por que não utilizar as novas tecnologias e as redes sociais para levar a mensagem espírita a quem talvez nunca atravesse a porta de um centro?

A fidelidade a Kardec não pode significar congelar o Espiritismo no século XIX. O próprio caráter da Doutrina é progressivo. Kardec estabelece a importância da razão, da investigação e do diálogo com os avanços do conhecimento. Diante de novos conhecimentos, deveríamos estudá-los, pesquisá-los e submetê-los ao crivo da razão e dos critérios que o próprio Kardec nos ensinou.

Isso não significa aceitar qualquer novidade de maneira ingênua. Significa ter discernimento. Nem tudo o que surge como novo é verdadeiro, mas também não podemos rejeitar algo simplesmente porque é novo.

Talvez o grande desafio seja preservar os fundamentos sem transformar a Doutrina em algo imóvel. Precisamos conservar a essência, mas permitir que a forma de compreendê-la e comunicá-la acompanhe o amadurecimento da humanidade.

Outra questão momentosa diz respeito à juventude espírita, cuja participação no movimento não é mais como foi no passado. Qual é seu entendimento?

Acho que o afastamento da juventude espírita é resultado de uma conjunção de fatores. Existe uma questão de linguagem e de atividades que muitas vezes não dialogam com o universo do jovem. Mas há uma questão ainda mais profunda: qual é o lugar que estamos oferecendo a esse jovem dentro do movimento espírita?

Muitas vezes, colocamos o jovem dentro de um espaço chamado “juventude” e esperamos que ele permaneça ali. Mas ele precisa estar na casa espírita como um todo: na tribuna, nos estudos, nos projetos, nas decisões e nas atividades de divulgação. Precisa ter espaço de fala e, sobretudo, precisa ser escutado.

Nós, que estamos há mais tempo no movimento, somos, de certa forma, os irmãos mais velhos. E o irmão mais velho tem a responsabilidade de ajudar o mais novo a caminhar. Mas não pode, simplesmente por ser mais velho, falar o tempo inteiro, decidir tudo e impedir que o outro se manifeste.

É preciso confiar, abrir espaço e permitir que eles façam junto conosco, ainda que, em alguns momentos, de maneira diferente da nossa. Talvez uma das nossas maiores tarefas seja aprender a fazer essa passagem de bastão sem abandonar a experiência que acumulamos, mas também sem transformar essa experiência em uma autoridade que impeça novas ideias de surgir.

Não acho que devamos simplesmente criar atividades “para jovens”. Precisamos criar espaços em que os jovens sejam efetivamente parte do movimento: trabalhadores em formação, protagonistas e futuros responsáveis pela continuidade da Doutrina.

O mundo enfrenta dificuldades imensas. Em face disso, como você imagina que deva ser o comportamento dos espíritas?

O papel de todo espírita, esteja ele em uma posição de liderança ou não, é procurar levar adiante aquilo a que o Espiritismo se propõe: a retomada dos ensinamentos de Jesus em sua essência.

Estamos atravessando um período de grande polarização, atitudes extremadas, pouca disposição para o diálogo, intolerância, preconceitos e, muitas vezes, falta de empatia. É justamente nesse cenário que precisamos nos perguntar se estamos realmente vivendo aquilo que dizemos acreditar.

Jesus era acolhedor, profundamente empático e contrário à violência. Não ensinava o ódio ao diferente nem respondia à violência com mais violência.

Eu digo sempre que existe uma pergunta muito simples que nos ajuda a avaliar nossas atitudes: “Jesus levantaria essa bandeira que eu estou levantando? Jesus defenderia essa causa da maneira como eu estou defendendo? Ele agiria dessa forma diante dessa pessoa? Ele usaria essas palavras?”

Para mim, esse deveria ser um dos grandes critérios da vida espírita: não apenas perguntar se aquilo em que acreditamos está correto, mas se a maneira como estamos defendendo aquilo é compatível com Jesus.

Num mundo tão polarizado, talvez a contribuição mais importante que o movimento espírita possa oferecer seja justamente a demonstração de que é possível discordar sem odiar, pensar diferente sem excluir, defender princípios sem desumanizar o outro e exercer autoridade sem perder a fraternidade.

Como você avalia o trabalho de divulgação espírita atualmente realizado no Brasil?

Precisamos continuar fazendo nossa parte na divulgação doutrinária. O Espiritismo precisa ser estudado, conhecido, divulgado e levado às pessoas. Mas precisamos nos perguntar, antes de tudo, para quem estamos falando.

O mundo está cheio de dores. As pessoas chegam às nossas casas ansiosas, deprimidas, enlutadas, assustadas, vivendo dores profundas. São pessoas que, muitas vezes, já chegam cansadas de sofrer. A Doutrina Espírita precisa se propor, acima de qualquer outra coisa, a cuidar dessas dores.

Uma das principais tarefas da divulgação espírita hoje deve ser trazer para nossas pautas as problemáticas do nosso tempo. Precisamos falar sobre aquilo que as pessoas estão vivendo agora e oferecer a esses corações o bálsamo do Espiritismo. Mas também precisamos nos preocupar com a forma como fazemos isso.

Às vezes, encontramos temas maravilhosos apresentados de uma maneira que pode aumentar ainda mais o medo de quem já está sofrendo. Falamos sobre consequências, provas e expiações, mas esquecemos que aquela pessoa talvez já esteja vivendo uma dor que mal consegue suportar.

Uma pessoa que entra em uma casa espírita para ouvir uma palestra deveria sair de lá um pouco mais aliviada. Deveria sentir-se consolada, amada, acolhida, incluída e orientada. Não necessariamente porque recebeu uma resposta para tudo, mas porque encontrou um lugar onde sua dor foi reconhecida e respeitada e onde alguém lhe mostrou que ela não está sozinha.

Isso exige enorme responsabilidade de quem ocupa uma tribuna. Quando subimos a uma tribuna espírita, estamos levando conosco a imagem da Doutrina Espírita e, sobretudo, a imagem de Jesus.

Também acredito que a casa espírita não seja lugar para defendermos ideologias ou disputarmos bandeiras. É um lugar para apresentarmos novamente Jesus às pessoas e, junto com o conhecimento espírita, ajudar a secar as lágrimas de quem está chorando, oferecer orientação a quem está perdido e mostrar que existe um caminho possível.

Para mim, essa é a grande responsabilidade da divulgação espírita hoje: não apenas levar conhecimento, mas levar consolo; não apenas explicar a vida, mas ajudar a vivê-la; não apenas falar sobre Jesus, mas fazer com que quem nos ouve consiga sentir algo do amor que Jesus ensinou.

O que você acha da importância da Casa Espírita no contexto da Transição Planetária?

A casa espírita deve ser vista como um local de preparação. Preparar para a Transição Planetária não significa simplesmente falar sobre grandes acontecimentos que estariam por vir. Significa, principalmente, preparar consciências, porque são justamente consciências regeneradas que regeneram o mundo.

Não podemos transformar esse assunto em motivo de medo, catastrofismo ou expectativa diante de dores que a humanidade ainda possa enfrentar. O mundo já tem medo e ansiedade demais. A Doutrina Espírita precisa nos ajudar a olhar para esse momento com responsabilidade, mas também com esperança.

O espírita pode contribuir muito divulgando essa realidade, mas não apenas dizendo às pessoas que “o mundo está em transição”. Precisamos mostrar, principalmente, o que essa transição exige de cada um de nós: que sociedade queremos construir, que sentimentos estamos alimentando, como estamos tratando o outro e que tipo de mundo estamos ajudando a construir por meio de nossas próprias atitudes.

A melhor divulgação da Transição Planetária é aquela que convida à transformação, e não aquela que produz medo. Porque, se queremos um mundo regenerado, precisamos começar a construir essa regeneração dentro de nós.

Algo mais que queira acrescentar?

Talvez precisemos perder um pouco do medo de sermos espíritas no século XXI. Precisamos parar de confundir fidelidade à Doutrina com imobilidade. Fidelidade não significa fechar portas. Significa conhecer profundamente aquilo que recebemos, compreender seus fundamentos e ter maturidade para continuar estudando.

Kardec nos ensinou uma postura investigativa. Diante de novos conhecimentos, inclusive os que chegam de fontes espirituais ou dos avanços das diversas áreas do conhecimento humano, não deveríamos simplesmente aceitar, mas também não deveríamos simplesmente rejeitar porque são novos.

Precisamos pesquisar, estudar, comparar, questionar, submeter ao crivo da razão e verificar aquilo que encontra concordância e aquilo que não encontra. Não precisamos ter medo de descobrir. Precisamos ter responsabilidade para investigar.

Suas palavras finais.

Gostaria de deixar uma reflexão muito simples. Acho que precisamos lembrar de três coisas que não deveriam jamais estar separadas.

Primeiro, somos discípulos de Jesus. E isso significa que, em qualquer situação, inclusive quando discordamos de alguém, precisamos perguntar: “Como Jesus agiria?”. Essa deve ser a nossa principal referência.

Segundo, somos aprendizes de Kardec. E ser aprendiz de Kardec significa compreender o método, a racionalidade e o caráter progressivo do Espiritismo. Kardec nos deixou uma base extraordinariamente sólida, mas uma base não existe para impedir a construção; existe para sustentá-la.

E, finalmente, somos espíritas vivendo no século XXI. Precisamos aprender a falar com as pessoas do nosso tempo, compreender suas dores, seus conflitos e suas perguntas. Não podemos esperar que uma humanidade que mudou continue sendo alcançada exatamente pelas mesmas formas de comunicação.

Para mim, essas três coisas não são contraditórias. Ao contrário: Jesus é a nossa referência moral; Kardec é a base e o método que nos orienta; e o século XXI é o lugar onde precisamos colocar tudo isso em prática.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita