Esses três registros, produzidos em momentos diferentes
e ao longo de quase uma década, apresentam
um ponto em comum: Chico Xavier afirma que, em 1943,
após a psicografia de Nosso Lar, teve uma
experiência de desdobramento espiritual na qual conheceu
parte da colônia, inclusive sua zona hospitalar. O
episódio teria ocorrido justamente quando André Luiz se
preparava para iniciar a transmissão de Os
Mensageiros e o médium, ainda cheio de dúvidas
quanto à realidade das descrições que recebera sobre
Nosso Lar, hesitou em prosseguir, psicografando uma nova
obra do autor.
Portanto, não estamos diante de uma narrativa segundo a
qual Chico Xavier simplesmente teria imaginado uma
cidade espiritual – quiçá a partir da leitura de algum
livro – e, posteriormente, passado a defendê-la como
real. O relato apresenta situação bem diferente: diante
de suas próprias dúvidas sobre o conteúdo que vinha
psicografando, o médium teria buscado uma confirmação e,
segundo seu testemunho, foi levado em desdobramento a
conhecer pessoalmente uma parte da colônia Nosso Lar.
Por questão de coerência e ética, não vemos razão alguma
para desconsiderar seu depoimento, até mesmo porque
temos informação de que outro médium a visitou.
Outra pessoa a quem o mundo espiritual se descortinou,
como se um véu se abrisse diante de seus olhos, foi a
médium Heigorina Cunha (1923-2013), conforme seu relato
constante de Cidade no Além (1983):
[…]
no dia 2 de março de 1979, quando vivi a mais fascinante
experiência de minha vida. Vi-me saindo do
corpo, conduzida por um Espírito que não pude
identificar, seguindo para uma cidade espiritual que
depois soube tratar-se da cidade “Nosso Lar”,
da qual André Luiz, no livro que leva o mesmo nome,
traça-lhe um perfil magnífico e esclarecedor.
Via a cidade com alguns detalhes, guardando, ao
despertar, toda a recordação da experiência
daquela noite maravilhosa, quando o Espírito, que me
acompanhava, convidou-me a regressar à Terra.
Não podia perder a visão
de tão belo acontecimento e, assim, resolvi
desenhar, retratando o que me foi possível conhecer
naquela rápida visita.
Esclareço que não
sou desenhista, por isso, os desenhos que
elaborei, procurando retratar o que vi, não podem ter
pretensão técnica nem bastarem para refletir
inteiramente a beleza das formas, gravadas no papel.
Apesar disso, fiz o
desenho ([i])
e guardei-o sem revelar nada a ninguém.
Depois de três
anos, repetiu-se a experiência, com mais nitidez, e pude
ver além do que havia visto,
enquanto volitava sobre a cidade, embebendo-me nos
detalhes de sua paisagem. ([ii])
(grifo nosso)
Temos, portanto, até
aqui, os testemunhos pessoais de dois médiuns que
afirmam ter visitado a colônia Nosso Lar. Antecipando a
possível alegação de que Heigorina Cunha teria tomado
como base a descrição de Chico Xavier – uma das maneiras
mais fáceis de contestar aquilo em que não se acredita
–, solicitamos que tal hipótese seja demonstrada
mediante fontes fidedignas e seguras.
Mas a confirmação da
existência de Nosso Lar não se encerra aqui, pois
encontramos nova fonte que traz um testemunho em favor
de sua realidade. Referimo-nos ao programa
Despertar Espírita, divulgado no YouTube
pela TV Nova Luz, produzido pelo Clube de Arte,
exibido no dia 04 de abril de 2010, no qual foi
entrevistado Arnaldo Rocha, amigo íntimo de Chico Xavier
por longos anos. Após narrar o dia em que “trombou” com
o médium, em Belo Horizonte – 22 de outubro de 1946 –,
ele relata:
[…]
Chegando em casa, a
Luíza, a minha cunhada, ficou toda alegre e começou a
conversar com Chico, ligou para outros dois irmãos, o
Antônio e o Orlando, e eles foram para lá e fizeram uma
reunião. Assentei, fizeram a prece, olho pra
Chico, ele era novo, devia ter o quê, em 44 ele devia tá
com 34, é 34 anos, 46 é 36 anos. Rostinho lindo,
bonitinho, eu olhei para ele… parece que tem uma máscara
de mulher nessa cara e ela começou a falar. Gente, isso
é Meimei!, perdi as estribeiras e gritei. A
Luíza, minha cunhada, fala: “Arnaldo fica quieto,
perturba não.”
Meimei começou a
conversar,
foi contando sobre a nossa vida, como ela foi recebida
no plano espiritual, o carinho com que ela foi recebida,
e que “eu sou tratada aqui como uma princesa.”
Eu havia começado a ler, uns dois ou três dias antes, o
Nosso Lar. Eu perguntei: Oi, Meimei, essa
história do Nosso Lar é verdade? Ela falou: “Eu
já fui lá passear duas vezes, mas eu estou morando numa
outra colônia” e foi contando para nós.
[…]
([iii])
(grifo nosso)
Além do registro da
manifestação de Meimei por meio de Chico Xavier, que
constitui mais uma evidência de sua mediunidade de “psicofonia
com transfiguração” ([iv]),
temos o relato de um Espírito que confirma a realidade
de Nosso Lar e que, segundo Arnaldo Rocha,
inúmeras vezes se manifestou por intermédio do médium.
O detalhe particularmente
significativo é que isso ocorreu em 1946, apenas dois
anos após a publicação da obra, é bom lembrarmos. Mais
ainda: Arnaldo afirma que havia começado a ler Nosso
Lar apenas “uns dois ou três dias antes”
da manifestação, quando perguntou a Meimei se a colônia
descrita por André Luiz realmente existia. Segundo seu
relato, ela respondeu que já havia estado lá por duas
vezes, embora residisse em outra colônia.
Em maio/2025, o amigo
Augusto César Silva Santos nos indicou mais um fato que
constitui mais um elemento em favor da existência da
colônia espiritual Nosso Lar. Primeiramente, encontramos
esse episódio narrado no capítulo “Entrevista com Ivone
Werneck”, do livro Dossiê Peixotinho: Francisco
Peixoto Lins (1997), de Lamartine Palhano
Júnior (1946-2000) e Walace Fernando Neves, do qual
transcrevemos o seguinte trecho:
Dona Ivone
Werneck, membro do corpo de legionárias do Grupo
Espírita Aracy, testemunhou a materialização do espírito
Clarêncio, uma entidade de escol, ministro em Nosso Lar,
próspera colônia espiritual
localizada na região do Estado do Rio de Janeiro,
segundo o espírito André Luiz, no livro Nosso Lar
(FEB). Segundo dona Ivone, a cena da
materialização dessa entidade foi inesquecível.
Ele veio todo iluminado, sua túnica, aberta em crivos,
projetava luzes e trazia à mão um bastão
igualmente luminoso.
Os próprios espíritos,
que sempre atendiam na rotina do grupo, o saudavam com
reverência: – Senhor Ministro!… Ministro!…
Ele era de estatura
baixa, trazia na mão uma espécie de cajado luminoso.
Infelizmente, ninguém anotou ou gravou suas palavras. –
Uma pena, mas o que fazer? – comentou dona Ivone. –
O ambiente cultural do nosso povo ainda não dá
chance de termos um pessoal qualificado e traquejado na
arte de observar e investigar para garantir a veracidade
histórica.
Segundo outros
depoimentos, Clarêncio materializou-se vestido
com uma túnica de brocado, sendo as flores e
ramagens prateadas em fundo negro,
rosto
sereno e translúcido, uma barba rala, terminando em
ponta, suave. O ambiente estava escuro,
mas o espírito a tudo iluminou, com sua luz, e
ficou bem visível, foi visto e observado nos mínimos
detalhes.
A emoção transmitida
ficou, disse Ivone, em quem foi o bastante sensível para
recebê-la, para o resto da vida. ([v])
(grifo nosso)
Encontramos uma segunda
fonte que corrobora esse episódio. No vídeo “Peixotinho
– e as Materializações de Espíritos”, dirigido
por Victor Hugo Santos e postado em 1º de fevereiro de
2025 no canal de Oceano Vieira de Melo, após o
depoimento do biógrafo Humberto Vasconcelos e de três
filhos de Peixotinho – Alcione, Joana e Guilbert –, D.
Ivone Werneck descreve, na parte intitulada “A
materialização de Clarêncio”, o seguinte:
O Espírito que
apareceu que mais emoção me causou foi a presença de
Clarêncio, Ministro do Nosso Lar.
Quando ele apareceu,
o salão que ficava às escuras ficou
completamente claro, onde víamos todas as
pessoas com os mínimos detalhes, porque ficou uma
claridade imensa, em pleno salão. E ele apareceu com uma
túnica toda em luz, aquela túnica que ia até os joelhos,
toda em luz, e com um cajado também todo
iluminado. Ele chegou na porta da cabine,
avançou três passos para o salão e ali ele falou para
todos nós.
Foi uma coisa maravilhosa
que até os Espíritos, quando ele apareceu na cabine
antes de sair para o salão, Ministro…, Ministro…
Os Espíritos que estavam ali diziam assim: Ministro…,
Ministro… Scheilla, então, Ministro, a sua presença
aqui… Então foi uma coisa maravilhosa para
todos nós. ([vi])
(grifo nosso)
Essa materialização do
Ministro Clarêncio ocorreu no Grupo Espírita Aracy,
fundado em 25 de dezembro de 1954, na cidade de Campos
dos Goytacazes (RJ), pelo médium Francisco Peixoto Lins
(1905-1966). Seu trabalho mediúnico nessa cidade “durou
doze anos, até o dia de sua desencarnação, a 16 de junho
de 1966” ([vii]).
O que torna esse episódio
particularmente significativo é que não se trata apenas
de uma referência posterior à existência de Clarêncio
como personagem da colônia espiritual Nosso Lar. Segundo
o depoimento de D. Ivone Werneck, ele teria se
materializado diante dos participantes do Grupo Espírita
Aracy, sendo reconhecido pelos próprios Espíritos que
habitualmente atuavam nas reuniões. Temos, portanto, um
relato de um fenômeno de efeitos físicos no qual a
entidade materializada foi identificada como Clarêncio,
ministro da colônia Nosso Lar.
(Este artigo continua na próxima
edição desta revista.)
Referências:
[i]
CUNHA, Cidade no Além, “imagem de Nosso Lar”, p. 77.
.[ii]
CUNHA, Cidade no Além, p. 25-26.
[iii]
TV NOVA LUZ, A vida de Chico Xavier–parte 2, com
Arnaldo Rocha, disponível:
LINK 1
[iv]
NOBRE, Lições de Sabedoria, p. XVII.
[v].PALHANO
JÚNIOR e NEVES, Dossiê Peixotinho: Francisco Peixoto
Lins, p. 177.
[vi]
OCEANO VIEIRA DE MELO, em 01 fev. 2025, postou em seu
canal no YouTube, o vídeo “Peixotinho
– e as materializações dos Espíritos”, filme
com direção de Victor Hugo Santos, no qual há um
depoimento de Ivone Werneck (58:39 a 59:58), disponível
em:
LINK 2
[vii]
PALHANO JÚNIOR e NEVES, Dossiê Peixotinho: Francisco
Peixoto Lins, p. 34.