Especial

por Paulo Neto

Nosso Lar: significativos indícios de sua realidade (2ª Parte)


Esses três registros, produzidos em momentos diferentes e ao longo de quase uma década, apresentam um ponto em comum: Chico Xavier afirma que, em 1943, após a psicografia de Nosso Lar, teve uma experiência de desdobramento espiritual na qual conheceu parte da colônia, inclusive sua zona hospitalar. O episódio teria ocorrido justamente quando André Luiz se preparava para iniciar a transmissão de Os Mensageiros e o médium, ainda cheio de dúvidas quanto à realidade das descrições que recebera sobre Nosso Lar, hesitou em prosseguir, psicografando uma nova obra do autor.

Portanto, não estamos diante de uma narrativa segundo a qual Chico Xavier simplesmente teria imaginado uma cidade espiritual – quiçá a partir da leitura de algum livro – e, posteriormente, passado a defendê-la como real. O relato apresenta situação bem diferente: diante de suas próprias dúvidas sobre o conteúdo que vinha psicografando, o médium teria buscado uma confirmação e, segundo seu testemunho, foi levado em desdobramento a conhecer pessoalmente uma parte da colônia Nosso Lar. Por questão de coerência e ética, não vemos razão alguma para desconsiderar seu depoimento, até mesmo porque temos informação de que outro médium a visitou.

Outra pessoa a quem o mundo espiritual se descortinou, como se um véu se abrisse diante de seus olhos, foi a médium Heigorina Cunha (1923-2013), conforme seu relato constante de Cidade no Além (1983):

[…] no dia 2 de março de 1979, quando vivi a mais fascinante experiência de minha vida. Vi-me saindo do corpo, conduzida por um Espírito que não pude identificar, seguindo para uma cidade espiritual que depois soube tratar-se da cidade “Nosso Lar”, da qual André Luiz, no livro que leva o mesmo nome, traça-lhe um perfil magnífico e esclarecedor.

Via a cidade com alguns detalhes, guardando, ao despertar, toda a recordação da experiência daquela noite maravilhosa, quando o Espírito, que me acompanhava, convidou-me a regressar à Terra.

Não podia perder a visão de tão belo acontecimento e, assim, resolvi desenhar, retratando o que me foi possível conhecer naquela rápida visita.

Esclareço que não sou desenhista, por isso, os desenhos que elaborei, procurando retratar o que vi, não podem ter pretensão técnica nem bastarem para refletir inteiramente a beleza das formas, gravadas no papel.

Apesar disso, fiz o desenho ([i]) e guardei-o sem revelar nada a ninguém.

Depois de três anos, repetiu-se a experiência, com mais nitidez, e pude ver além do que havia visto, enquanto volitava sobre a cidade, embebendo-me nos detalhes de sua paisagem. ([ii]) (grifo nosso)

Temos, portanto, até aqui, os testemunhos pessoais de dois médiuns que afirmam ter visitado a colônia Nosso Lar. Antecipando a possível alegação de que Heigorina Cunha teria tomado como base a descrição de Chico Xavier – uma das maneiras mais fáceis de contestar aquilo em que não se acredita –, solicitamos que tal hipótese seja demonstrada mediante fontes fidedignas e seguras.

Mas a confirmação da existência de Nosso Lar não se encerra aqui, pois encontramos nova fonte que traz um testemunho em favor de sua realidade. Referimo-nos ao programa Despertar Espírita, divulgado no YouTube pela TV Nova Luz, produzido pelo Clube de Arte, exibido no dia 04 de abril de 2010, no qual foi entrevistado Arnaldo Rocha, amigo íntimo de Chico Xavier por longos anos. Após narrar o dia em que “trombou” com o médium, em Belo Horizonte – 22 de outubro de 1946 –, ele relata:

[…]

Chegando em casa, a Luíza, a minha cunhada, ficou toda alegre e começou a conversar com Chico, ligou para outros dois irmãos, o Antônio e o Orlando, e eles foram para lá e fizeram uma reunião. Assentei, fizeram a prece, olho pra Chico, ele era novo, devia ter o quê, em 44 ele devia tá com 34, é 34 anos, 46 é 36 anos. Rostinho lindo, bonitinho, eu olhei para ele… parece que tem uma máscara de mulher nessa cara e ela começou a falar. Gente, isso é Meimei!, perdi as estribeiras e gritei. A Luíza, minha cunhada, fala: “Arnaldo fica quieto, perturba não.”

Meimei começou a conversar, foi contando sobre a nossa vida, como ela foi recebida no plano espiritual, o carinho com que ela foi recebida, e que “eu sou tratada aqui como uma princesa.” Eu havia começado a ler, uns dois ou três dias antes, o Nosso Lar. Eu perguntei: Oi, Meimei, essa história do Nosso Lar é verdade? Ela falou: “Eu já fui lá passear duas vezes, mas eu estou morando numa outra colônia” e foi contando para nós. […] ([iii])
(grifo nosso)

Além do registro da manifestação de Meimei por meio de Chico Xavier, que constitui mais uma evidência de sua mediunidade de “psicofonia com transfiguração” ([iv]), temos o relato de um Espírito que confirma a realidade de Nosso Lar e que, segundo Arnaldo Rocha, inúmeras vezes se manifestou por intermédio do médium.

O detalhe particularmente significativo é que isso ocorreu em 1946, apenas dois anos após a publicação da obra, é bom lembrarmos. Mais ainda: Arnaldo afirma que havia começado a ler Nosso Lar apenas “uns dois ou três dias antes” da manifestação, quando perguntou a Meimei se a colônia descrita por André Luiz realmente existia. Segundo seu relato, ela respondeu que já havia estado lá por duas vezes, embora residisse em outra colônia.

Em maio/2025, o amigo Augusto César Silva Santos nos indicou mais um fato que constitui mais um elemento em favor da existência da colônia espiritual Nosso Lar. Primeiramente, encontramos esse episódio narrado no capítulo “Entrevista com Ivone Werneck”, do livro Dossiê Peixotinho: Francisco Peixoto Lins (1997), de Lamartine Palhano Júnior (1946-2000) e Walace Fernando Neves, do qual transcrevemos o seguinte trecho:

Dona Ivone Werneck, membro do corpo de legionárias do Grupo Espírita Aracy, testemunhou a materialização do espírito Clarêncio, uma entidade de escol, ministro em Nosso Lar, próspera colônia espiritual localizada na região do Estado do Rio de Janeiro, segundo o espírito André Luiz, no livro Nosso Lar (FEB). Segundo dona Ivone, a cena da materialização dessa entidade foi inesquecível. Ele veio todo iluminado, sua túnica, aberta em crivos, projetava luzes e trazia à mão um bastão igualmente luminoso. Os próprios espíritos, que sempre atendiam na rotina do grupo, o saudavam com reverência: – Senhor Ministro!… Ministro!…

Ele era de estatura baixa, trazia na mão uma espécie de cajado luminoso. Infelizmente, ninguém anotou ou gravou suas palavras. – Uma pena, mas o que fazer? – comentou dona Ivone. – O ambiente cultural do nosso povo ainda não dá chance de termos um pessoal qualificado e traquejado na arte de observar e investigar para garantir a veracidade histórica.

Segundo outros depoimentos, Clarêncio materializou-se vestido com uma túnica de brocado, sendo as flores e ramagens prateadas em fundo negro, rosto sereno e translúcido, uma barba rala, terminando em ponta, suave. O ambiente estava escuro, mas o espírito a tudo iluminou, com sua luz, e ficou bem visível, foi visto e observado nos mínimos detalhes.

A emoção transmitida ficou, disse Ivone, em quem foi o bastante sensível para recebê-la, para o resto da vida. ([v])
(grifo nosso)

Encontramos uma segunda fonte que corrobora esse episódio. No vídeo “Peixotinho – e as Materializações de Espíritos”, dirigido por Victor Hugo Santos e postado em 1º de fevereiro de 2025 no canal de Oceano Vieira de Melo, após o depoimento do biógrafo Humberto Vasconcelos e de três filhos de Peixotinho – Alcione, Joana e Guilbert –, D. Ivone Werneck descreve, na parte intitulada “A materialização de Clarêncio”, o seguinte:

O Espírito que apareceu que mais emoção me causou foi a presença de Clarêncio, Ministro do Nosso Lar.

Quando ele apareceu, o salão que ficava às escuras ficou completamente claro, onde víamos todas as pessoas com os mínimos detalhes, porque ficou uma claridade imensa, em pleno salão. E ele apareceu com uma túnica toda em luz, aquela túnica que ia até os joelhos, toda em luz, e com um cajado também todo iluminado. Ele chegou na porta da cabine, avançou três passos para o salão e ali ele falou para todos nós.

Foi uma coisa maravilhosa que até os Espíritos, quando ele apareceu na cabine antes de sair para o salão, Ministro…, Ministro… Os Espíritos que estavam ali diziam assim: Ministro…, Ministro… Scheilla, então, Ministro, a sua presença aqui… Então foi uma coisa maravilhosa para todos nós. ([vi])
(grifo nosso)

Essa materialização do Ministro Clarêncio ocorreu no Grupo Espírita Aracy, fundado em 25 de dezembro de 1954, na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ), pelo médium Francisco Peixoto Lins (1905-1966). Seu trabalho mediúnico nessa cidade “durou doze anos, até o dia de sua desencarnação, a 16 de junho de 1966” ([vii]).

O que torna esse episódio particularmente significativo é que não se trata apenas de uma referência posterior à existência de Clarêncio como personagem da colônia espiritual Nosso Lar. Segundo o depoimento de D. Ivone Werneck, ele teria se materializado diante dos participantes do Grupo Espírita Aracy, sendo reconhecido pelos próprios Espíritos que habitualmente atuavam nas reuniões. Temos, portanto, um relato de um fenômeno de efeitos físicos no qual a entidade materializada foi identificada como Clarêncio, ministro da colônia Nosso Lar.


(Este artigo continua na próxima edição desta revista.)


Referências:

[i] CUNHA, Cidade no Além, “imagem de Nosso Lar”, p. 77.

.[ii] CUNHA, Cidade no Além, p. 25-26.

[iii] TV NOVA LUZ, A vida de Chico Xavier–parte 2, com Arnaldo Rocha, disponível:
LINK 1

[iv] NOBRE, Lições de Sabedoria, p. XVII.

[v].PALHANO JÚNIOR e NEVES, Dossiê Peixotinho: Francisco Peixoto Lins, p. 177.

[vi] OCEANO VIEIRA DE MELO, em 01 fev. 2025, postou em seu canal no YouTube, o vídeo “Peixotinho – e as materializações dos Espíritos”, filme com direção de Victor Hugo Santos, no qual há um depoimento de Ivone Werneck (58:39 a 59:58), disponível em: LINK 2

[vii] PALHANO JÚNIOR e NEVES, Dossiê Peixotinho: Francisco Peixoto Lins, p. 34.
 
 

     
     

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