Por que vivemos na Terra?
Em inúmeras ocasiões ao longo da minha vida ouvi pessoas
queixando-se do fato de estar vivendo neste mundo. Suas
considerações sempre abarcavam os graves problemas que
assolam o planeta e as nossas vidas, tais como: a
crescente violência, corrupção, inflação, falta de
qualidade de vida, variações climáticas, sensação de ser
incompreendido, decepção com a família, frustrações e
assim por diante. A lista é ampla e as questões
relatadas são certamente pertinentes.
Creio que todos nós, invariavelmente, gostaríamos de
viver num mundo melhor. Trata-se de um desejo natural e
compreensível, uma aspiração legítima, principalmente se
considerarmos as complexas dificuldades que afetam a
nossa civilização. Mas será que o Pai Supremo poderia
ter errado conosco ao nos colocar, entre suas
incontáveis moradas, numa tão problemática como é a
Terra contemporânea?
É absolutamente improvável que o Senhor – na sua
onipresença, onisciência e infinita sabedoria – pudesse
cometer tamanha injustiça. Com efeito, tal coisa não é
compatível com a sua admirável condição. Por isso, é
preciso reconhecer que a Terra é, essencialmente, uma
morada adequada aos seus moradores, ou seja, nós,
humanos, seres ainda muito imperfeitos. Infere-se,
portanto, que ainda não fizemos o suficiente por merecer
o privilégio de habitar em mundos felizes. Reconheçamos
que, fundamentalmente, ainda não alcançamos um estágio
evolutivo que nos credencie para tal.
Reconheçamos também que há muito a ser feito dentro de
nós para eliminarmos nossas imperfeições milenares.
Mudamos das cavernas para as grandes cidades ao longo de
sucessivas reencarnações que se perdem na voragem do
tempo, mas o nosso comportamento ainda revela intenso
primitivismo. Apesar dos incontáveis avanços e
descobertas científicas, lá no íntimo carregamos muitas
tendências obscuras, que nos aproximam, em termos
comportamentais, muito mais de nossos ancestrais
primitivos do que dos anjos de Deus. Essa é a nossa
intrínseca realidade – gostemos ou não –, e cujas
evidências colhidas diariamente nos mostram com
meridiana clareza. Para ilustrar o raciocínio, basta
recordar que somos capazes de cometer atos ignóbeis e
abjetos sem um mínimo de piedade e compaixão.
Dito isso, não surpreende que ainda estejamos caminhando
numa paisagem (mundo) perigosa para purgar nossas
faltas, impulsos criminosos e desajustes íntimos. Por
tudo isso, cabe-nos reconhecer que estamos, sim, no
local mais apropriado à nossa natureza. Definitivamente,
não somos seres pacíficos e muito menos amorosos com os
nossos semelhantes. Em qualquer sinal de contrariedade
ou descontentamento exibimos um arsenal de torpezas e
maldades como feras descontroladas. Por conseguinte,
explica o Espírito Emmanuel, com muito acerto, na obra
Roteiro (psicografia de Francisco Cândido
Xavier), que:
“O mundo, por mais áspero, representará para o nosso
espírito a escola de perfeição,
cujos instrumentos corretivos bendiremos, um dia. Os
companheiros de jornada que o habitam, conosco, por mais
ingratos e impassíveis, são as nossas oportunidades de
materialização do bem, recursos de nossa melhoria e de
nossa redenção, e que, bem
aproveitados por nosso esforço, podem transformar-nos em
heróis.
“Não há medida para o homem, fora da sociedade em que
ele vive. [...].”
A referida entidade espiritual, em outra relevante obra
de sua autoria, Pão Nosso (também psicografada
por Francisco Cândido Xavier), argumenta que “A vida
humana, pois, apesar de transitória, é a chama que vos
coloca em contato com o serviço de que necessitais para
a ascensão justa. Nesse abençoado ensejo, é possível
resgatar, corrigir, aprender, ganhar, conquistar,
reunir, reconciliar e enriquecer-se no Senhor”
(ênfase minha).
Desse modo, por mais dolorosa e aflitiva a paisagem na
qual estamos momentaneamente inseridos, lembremo-nos de
que ela representa a oportunidade que o Senhor da Vida
nos concede para aferir o nosso real valor e
sentimentos. Nesse sentido, os companheiros da jornada –
pais, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos etc. – são
apenas instrumentos da providência divina colocados em
nosso caminho redentor para que nos aperfeiçoemos
espiritualmente.
Estivéssemos já vivendo num mundo moralmente avançado,
provavelmente nos sentiríamos desconfortáveis e
deslocados, como um aluno de segundo grau cursando
precocemente uma pós-graduação. Sentiríamos dificuldades
insuperáveis de adaptação, pois nossa mente ainda não
está suficientemente preparada a absorver certos
ensinamentos e lições. Tudo tem a hora certa, como se
diz popularmente, e quando estivermos realmente prontos,
a nossa transferência para as moradas onde reinam a
felicidade e o bem-estar se dará naturalmente, como um
justo prêmio ao aluno que se esforçou ao máximo para ser
admitido em um degrau superior.
Posto isto, aceitemos de bom grado o que o Pai celestial
nos oferece, pois é o que, por enquanto, necessitamos.
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