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por Anselmo Ferreira Vasconcelos

 

Por que vivemos na Terra?


Em inúmeras ocasiões ao longo da minha vida ouvi pessoas queixando-se do fato de estar vivendo neste mundo. Suas considerações sempre abarcavam os graves problemas que assolam o planeta e as nossas vidas, tais como: a crescente violência, corrupção, inflação, falta de qualidade de vida, variações climáticas, sensação de ser incompreendido, decepção com a família, frustrações e assim por diante.  A lista é ampla e as questões relatadas são certamente pertinentes.

Creio que todos nós, invariavelmente, gostaríamos de viver num mundo melhor. Trata-se de um desejo natural e compreensível, uma aspiração legítima, principalmente se considerarmos as complexas dificuldades que afetam a nossa civilização. Mas será que o Pai Supremo poderia ter errado conosco ao nos colocar, entre suas incontáveis moradas, numa tão problemática como é a Terra contemporânea?

É absolutamente improvável que o Senhor – na sua onipresença, onisciência e infinita sabedoria – pudesse cometer tamanha injustiça. Com efeito, tal coisa não é compatível com a sua admirável condição. Por isso, é preciso reconhecer que a Terra é, essencialmente, uma morada adequada aos seus moradores, ou seja, nós, humanos, seres ainda muito imperfeitos. Infere-se, portanto, que ainda não fizemos o suficiente por merecer o privilégio de habitar em mundos felizes. Reconheçamos que, fundamentalmente, ainda não alcançamos um estágio evolutivo que nos credencie para tal.

Reconheçamos também que há muito a ser feito dentro de nós para eliminarmos nossas imperfeições milenares. Mudamos das cavernas para as grandes cidades ao longo de sucessivas reencarnações que se perdem na voragem do tempo, mas o nosso comportamento ainda revela intenso primitivismo. Apesar dos incontáveis avanços e descobertas científicas, lá no íntimo carregamos muitas tendências obscuras, que nos aproximam, em termos comportamentais, muito mais de nossos ancestrais primitivos do que dos anjos de Deus.  Essa é a nossa intrínseca realidade – gostemos ou não –, e cujas evidências colhidas diariamente  nos mostram com meridiana clareza. Para ilustrar o raciocínio, basta recordar que somos capazes de cometer atos ignóbeis e abjetos sem um mínimo de piedade e compaixão. 

Dito isso, não surpreende que ainda estejamos caminhando numa paisagem (mundo) perigosa para purgar nossas faltas, impulsos criminosos e desajustes íntimos. Por tudo isso, cabe-nos reconhecer que estamos, sim, no local mais apropriado à nossa natureza. Definitivamente, não somos seres pacíficos e muito menos amorosos com os nossos semelhantes. Em qualquer sinal de contrariedade ou descontentamento exibimos um arsenal de torpezas e maldades como feras descontroladas. Por conseguinte, explica o Espírito Emmanuel, com muito acerto, na obra Roteiro (psicografia de Francisco Cândido Xavier), que:  


“O mundo, por mais áspero, representará para o nosso espírito a escola de perfeição,

cujos instrumentos corretivos bendiremos, um dia. Os companheiros de jornada que o habitam, conosco, por mais ingratos e impassíveis, são as nossas oportunidades de

materialização do bem, recursos de nossa melhoria e de nossa redenção, e que, bem

aproveitados por nosso esforço, podem transformar-nos em heróis.

“Não há medida para o homem, fora da sociedade em que ele vive. [...].”


A referida entidade espiritual, em outra relevante obra de sua autoria, Pão Nosso (também psicografada por Francisco Cândido Xavier), argumenta que “A vida humana, pois, apesar de transitória, é a chama que vos coloca em contato com o serviço de que necessitais para a ascensão justa. Nesse abençoado ensejo, é possível resgatar, corrigir, aprender, ganhar, conquistar, reunir, reconciliar e enriquecer-se no Senhor” (ênfase minha). 

Desse modo, por mais dolorosa e aflitiva a paisagem na qual estamos momentaneamente inseridos, lembremo-nos de que ela representa a oportunidade que o Senhor da Vida nos concede para aferir o nosso real valor e sentimentos. Nesse sentido, os companheiros da jornada – pais, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos etc. – são apenas instrumentos da providência divina colocados em nosso caminho redentor para que nos aperfeiçoemos espiritualmente.

Estivéssemos já vivendo num mundo moralmente avançado, provavelmente nos sentiríamos desconfortáveis e deslocados, como um aluno de segundo grau cursando precocemente uma pós-graduação. Sentiríamos dificuldades insuperáveis de adaptação, pois nossa mente ainda não está suficientemente preparada a absorver certos ensinamentos e lições. Tudo tem a hora certa, como se diz popularmente, e quando estivermos realmente prontos, a nossa transferência para as moradas onde reinam a felicidade e o bem-estar se dará naturalmente, como um justo prêmio ao aluno que se esforçou ao máximo para ser admitido em um degrau superior.

Posto isto, aceitemos de bom grado o que o Pai celestial nos oferece, pois é o que, por enquanto, necessitamos.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita