Especial

por Paulo Neto

Nosso Lar: significativos indícios de sua realidade (1ª Parte)


“Quando temos uma ideia preconcebida sobre determinado ponto, nada vemos além dos limites que ela nos impõe; em razão disso, não enxergamos o óbvio.”


Apresentaremos fatos que, a nosso ver, constituem significativos indícios da existência da colônia espiritual Nosso Lar (i), citada nas obras da série André Luiz, psicografadas por Chico Xavier (1910-2002). Nossa percepção é de que esses fatos confirmam, de modo genérico, a existência de uma realidade espiritual compatível com a descrita pelo autor espiritual.

Quanto aos detalhes, como observou Herculano Pires (1914-1979), ficam por conta da “maneira particular de ver do autor espiritual”. Acreditamos ser importante ir diretamente à fonte. Por essa razão, consultaremos a obra O Infinito e o Finito (1983), na qual o nobre jornalista inicialmente explica que Emmanuel esclareceu que “os relatos de André Luiz não devem ser tomados ao pé da letra, mas como um esforço para objetivar, em linguagem terrena, as visões do mundo espiritual” (ii). Na sequência, Herculano Pires acrescenta:

[…] a existência de cidades espirituais no além-túmulo, de habitações, vegetais e animais, não é, como supõem, uma invenção dos espíritas. O Velho Testamento e o Novo Testamento, por exemplo, estão cheios de descrições dessa ordem. Basta lembrar-se o que diz Isaías (33:17,20) sobre “a terra de longe” e a “Sião da solenidade”, e o Apocalipse de João sobre a Jerusalém celeste.

No tocante às revelações mediúnicas, as descrições de André Luiz não constituem novidade, a não ser quanto ao que trazem de pessoal, da maneira de ver do autor. Já em O Céu e o Inferno, Kardec apresenta descrições semelhantes. Na Revue Spirite, o codificador publicou numerosos relatos de além-túmulo no mesmo sentido. Sir Oliver Lodge apresenta quadros semelhantes em Raymond, Denis Bradley em Rumo às Estrelas, e assim por diante. Agora, a Editora O Pensamento, desta capital, acaba de lançar a tradução de Life in the World Unseen, de Anthony Borgia, com a versão do título para A Vida nos Mundos Invisíveis. O trabalho de tradução foi confiado a J. Escobar Faria, que realizou primoroso trabalho. (iii) (grifo nosso)

Não podemos deixar de realçar que Herculano Pires, objetivamente, afirma que “a existência de cidades espirituais no além-túmulo, de habitações, vegetais e animais” é anterior às descrições de André Luiz. Em nossa pesquisa, identificamos as seguintes fontes:

Construções no mundo espiritual

Fontes anteriores a André Luiz — 1944

A 1ª obra do médium Chico Xavier que cita construções no mundo espiritual é Cartas de Uma Morta (1935), mas antes dela existem outras, conforme se poderá ver nesta lista. (# = data provável)

Ord./data

Autor / título da obra

01) 1728

Elizabeth Singer Rowe, Amizade Depois da Morte

02) 1758

Emanuel Swedenborg, História do Espiritismo

03) 1847 #

Andrew Jackson Davis, História do Espiritismo

04) 1874

Antoinette Bourdin, Entre Dois Mundos

05) 1877

Robert Dale Owen, Região em Litígio

06) 1889

Léon Denis, Depois da Morte

07) 1889

E. B. Duffey (médium), A Crise da Morte

08) 1908

Edward C. Randall, The Future of Man

09) 1913

James H. Hyslop, American Journal of the S. P. R.

10) 1914

Elza Barker, Cartas de Um Morto-vivo

11) 1916

Sir Oliver Lodge, Raymond

12) 1921

Rev. G. Vale Owen, A Vida Além do Véu

13) 1923

Lilian Walbrook, O Caso de Lester Coltman

14) 1923/24

Hester Travers Smith, Rumo às Estrelas

15) 1924

Anna Wickland, Trinta Anos Entre os Mortos

16) 1924

Ernesto Bozzano, Joy Snell e a Missão dos Anjos

17) 1926

Sadhu Sundar Sing, Visões do Mundo Espiritual

18) 1926

Arthur Conan Doyle, História do Espiritismo

19) 1926

Yvonne do Amaral Pereira, Memórias de Um Suicida

20) 1930

Ernesto Bozzano, A Crise da Morte

21) 1931

Gladys Osborne Leonard, Minha Vida em Dois Mundos

22) 1931

James Arthur Findlay, No Limiar do Infinito

23) 1932

Cairbar Schutel, A Vida no Outro Mundo

24) 1933

Jozef Rulof, Uma Olhada no Além

25) 1935

Chico Xavier, Cartas de Uma Morta

26) 1940

Francisco V. Lorenz, Chamas de Ódio e a Luz do Puro Amor

27) 1943

José dos Santos Junior, Mensagens de Além-túmulo

(SILVA NETO SOBRINHO, P. As Colônias Espirituais e a Codificação, edição ampliada e revisada.)

Julgamo-nos no pleno direito de seguir a seguinte orientação de Allan Kardec: “entre duas doutrinas, preferimos aquela cujo autor nos parece mais esclarecido, mais capaz, mais judicioso, menos acessível às paixões” (iv). É por essa razão que, em nossas pesquisas, procuramos sempre conhecer e considerar o pensamento de autores e pesquisadores consagrados.

Sabemos que muitos confrades não querem nem ouvir falar de Nosso Lar, mas não nos apresentam pesquisas ou evidências consistentes que sustentem a rejeição à sua existência. Suas posições, muitas vezes, apoiam-se apenas em interpretações pessoais, quando não em meras opiniões ou conjecturas.

Quem usa o argumento de que as colônias espirituais não “constam da Codificação” parece desconsiderar o pensamento de Allan Kardec, que afirmou: “Sem dúvida, ela [a Doutrina] pode sofrer modificações em seus detalhes, em consequência de novas observações” (v). Acrescente-se o seguinte esclarecimento do Codificador: “Os Espíritos não podiam ensinar tudo ao mesmo tempo, mas, como hábeis professores, à medida que as ideias se desenvolvem, entram em maiores detalhes” (vi).

Na página no Facebook da FEB (vii), destacamos do vídeo “Momento com Divaldo Franco – Com base na obra ‘Sexo e Obsessão’”, gravado em 18/07/2020, um trecho da resposta do renomado médium à pergunta: “Você poderia nos falar um pouco desse mundo espiritual inferior, principalmente dessa cidade perversa?” (viii)

Nestas três fontes seguintes, encontraremos elementos que corroboram a história narrada por Divaldo P. Franco (1927-2025):

1ª) No Mundo de Chico Xavier (1967)

No mês de julho de 1967, quando completava 40 anos de mediunidade, o médium Chico Xavier concedeu uma entrevista ao Dr. Jarbas Leone Varanda (1929-2003), registrada por Elias Barbosa (1934-2011), autor da obra, no capítulo “Chico Xavier e o Dr. Jarbas Leone Varanda”. Dela, destacamos:

3 – Qual foi o acontecimento que mais o alegrou na seara espírita até o dia de hoje?

– Tenho tido sempre muitas alegrias em minha vida mediúnica, principalmente na recepção dos livros de nossos Instrutores do Alto; no entanto, assinalo, como sendo uma das mais belas surpresas da minha vida de médium, a saída de meu corpo físico, durante algumas horas, em julho de 1943, na companhia de nosso amigo desencarnado, André Luiz, a fim de conhecer uma faixa suburbana de “Nosso Lar”, a cidade que ele descreve no primeiro livro que ele escreveu, por meu intermédio, providência essa que Emmanuel permitiu fosse tomada para que eu não prejudicasse a psicografia de André Luiz, cujas narrações eram para mim inteiramente novas. (ix) (grifo nosso)

2ª) Anuário Espírita – 1969

Nessa obra, encontramos registrada outra entrevista concedida pelo médium Chico Xavier, em 6 de maio de 1968, ao repórter Saulo Gomes, do então Canal 4 – TV Tupi, de São Paulo, gravada na Comunhão Espírita Cristã, em Uberaba (MG). Destacamos o seguinte trecho:

P. – O espírito de André Luiz descreveu experiências de sua vida na condição de desencarnado, numa cidade espiritual em seu livro, exatamente este que aqui está, traduzido para o japonês (“Nosso Lar”). Como médium, o senhor pode atestar cidade como esta, fora do plano terrestre?

R. – Eu não posso transferir a minha certeza àqueles que me ouvem, mas posso dizer que, em 1943, quando o espírito André Luiz começou a escrever por nosso intermédio, senti grande estranheza com o que ele ditava e escrevia. Certa noite, tomadas as providências necessárias, segundo a orientação de Emmanuel, ele próprio e André Luiz me levaram a determinada parte, a determinado bairro na cidade de “Nosso Lar”. Posso dizer que fui em desdobramento espiritual na chamada zona hospitalar da cidade. Foi para mim uma excursão espiritual inesquecível, como se eu desfrutasse os favores de um espírito liberto. Mas eu preciso explicar aos telespectadores que fui em função de serviço, naturalmente, assim como um animal – no tempo em que não tínhamos automóvel, locomotiva e avião – um animal que servia a professores para determinados tipos de viagem. Vi muita coisa maravilhosa sem compreender tudo ou entender muito pouco, porque fui em função de serviço, não por mérito.
(x) (itálico do original, negrito nosso)

Essa entrevista também se encontra registrada na obra Entrevistas – Francisco Cândido Xavier/Emmanuel (1972). (xi) No site Espiritismo.TV, foi posteriormente disponibilizado o vídeo com essa entrevista de Chico Xavier a Saulo Gomes. (xii)

3ª) Lições de Sabedoria: Chico Xavier nos 23 Anos da Folha Espírita (1997)

Do capítulo “XXI – Vida em outros mundos”, tópico “Vida em Marte contestada”, transcrevemos o seguinte trecho da fala do médium, ocorrida em setembro de 1976:

Devo informar à “Folha Espírita” que antes de psicografarmos o livro “Nosso Lar”, de nosso amigo André Luiz, a nossa ideia sobre qualquer cidade em outros planetas se fixava em quadros que seriam absolutamente iguais aos do nosso Plano Físico, na Terra. Quando os amigos espirituais se reportavam a cidades em outros mundos, não possuía, de minha parte, outros padrões comparativos senão os que identificava neste mundo mesmo. Entretanto, em 1943, quando iniciei a psicografia dos livros de André Luiz, passei a reconhecer que a matéria se caracterizava por diferentes gradações e compreendi que, em torno de paisagens cósmicas, sejam elas quais forem, podem existir cidades e vida comunitária, em condições que nos escapam, por enquanto, ao conhecimento condicionado de espíritos temporariamente encarnados na existência física. (xiii) (itálico do original, negrito nosso)


(Este artigo continua na próxima edição desta revista.)


Referências:

(i) GEAE, Filme: Nosso Lar, imagem, disponível em: LINK 1

(ii) PIRES, O infinito e o finito, p. 98.

(iii) PIRES, O infinito e o finito, p. 99-100.

(iv) KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 340-341.

(v) KARDEC, Revista Espírita 1865, p. 40.

(vi) KARDEC, Revista Espírita 1865, p. 156.

(vii) FEB (Facebook): LINK 2

(viii) FEB. Momento com Divaldo Franco – Com base na obra “Sexo e Obsessão”, disponível em: LINK 3, de 12’45” a 13’50”.

(ix) BARBOSA, No Mundo de Chico Xavier, p. 106-107.

(x) IDE, Anuário Espírita 1969, Entrevista de Francisco Cândido Xavier (Espiritismo na Televisão), p. 88.

(xi) GENTILE e ARANTES (Org.). Entrevistas – Francisco Cândido Xavier/Emmanuel, p. 23-24.

(xii) ESPIRITISMO.TV. Saulo Gomes entrevista Chico Xavier em 1968, disponível em: LINK 4, de 53:31 a 55:48.

(xiii) NOBRE, Lições de Sabedoria: Chico Xavier nos 23 Anos da Folha Espírita, p. 228.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita