
14ª Jornada da AME-SP reúne instituições
espíritas em torno da saúde e do cuidado integral
Encontro na nova sede da AME-Brasil aproximou
experiências de diferentes entidades e discutiu como
ciência e espiritualidade podem dialogar na atenção à
saúde
A união de diferentes instituições espíritas em torno de
um mesmo propósito — ampliar o cuidado em saúde,
respeitando o conhecimento científico, a segurança dos
tratamentos e a autonomia do paciente — marcou a 14ª
Jornada da Associação Médico-Espírita de São Paulo
(AME-SP), realizada em conjunto com o 14º CondAME, na
capital paulista, no mês passado.
Com o tema “A Dimensão Espiritual da Medicina – da
Evidência à Prática”, o encontro reuniu médicos,
psicólogos, enfermeiros, pesquisadores, estudantes e
representantes de diferentes instituições do Movimento
Espírita. A programação marcou também a inauguração da
nova sede da AME-Brasil, no Butantã, 31 anos após a
criação da entidade.
Ao longo de dois dias, as discussões passaram por
cuidado integral, saúde mental, práticas assistenciais
desenvolvidas por instituições espíritas, experiências
de fim de vida e quase-morte, comunicação após a morte,
alegadas memórias de vidas passadas, saúde de
cuidadores, crescimento pós-traumático, esperança,
gratidão e florescimento humano.
Um dos momentos que evidenciaram essa aproximação foi a
mesa dedicada às práticas de cuidado em instituições
espíritas, que reuniu representantes do Grupo Espírita
Batuíra, da Federação Espírita do Estado de São Paulo
(FEESP), do Instituto Espírita de Educação (IEE) e da
Seara Bendita. Outras atividades apresentaram ainda
experiências do Instituto de Saúde do Grupo Espírita
Cairbar Schutel (GECS) e de ações realizadas em parceria
com a Fraternidade sem Fronteiras.
A diversidade das iniciativas foi destacada pela médica
Maria Elisabete Rey, da FEESP. Ao falar das diferentes
formas de atuação das casas espíritas, ela observou que
essas experiências formam um mosaico voltado ao mesmo
objetivo: acolher e cuidar. “As nossas casas são tão
diferentes e, no entanto, uma coisa nos une: as portas
abertas”, afirmou.
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Da esq.p/dir: Aloysio Cartaxo (Seara Bendita),
Andrea Rejane dos Santos (IEE), Maria Elizabete
Rey (FEESP), Eduardo Barato (Grupo Espírita
Batuíra)
e Marcus Ribeiro (AME-SP) |
Na abertura, o presidente da AME-SP, Marcus R.C.
Ribeiro, destacou que a proposta era aproximar o
conhecimento produzido sobre espiritualidade e saúde da
prática cotidiana dos profissionais. “As demandas são
muitas, o mundo tem pedido socorro cada vez mais alto e
a gente não pode mais ficar parado”, afirmou o
psiquiatra.
O paciente para além da doença
A defesa de uma assistência capaz de enxergar a pessoa
em suas diferentes dimensões esteve presente desde a
primeira mesa. O médico e escritor Décio Iandoli Jr.
ressaltou que os avanços da Medicina ampliaram a
expectativa de vida e permitiram tratar doenças antes
fatais, mas alertou para o risco de a especialização
reduzir o paciente ao órgão ou ao diagnóstico. “Você não
atende o joelho; você atende uma pessoa que tem um
joelho”, resumiu.
Para Iandoli, aspectos biológicos, psíquicos, sociais,
ambientais e espirituais se relacionam e podem
interferir tanto no adoecimento quanto na resposta ao
tratamento. Nesse contexto, a escuta e a anamnese
espiritual podem contribuir para compreender melhor o
paciente, desde que suas crenças sejam respeitadas e o
profissional não imponha as próprias convicções.
Diferentes experiências, um mesmo compromisso com o
cuidado
A programação mostrou também como esse olhar sobre a
pessoa vem sendo colocado em prática de diferentes
maneiras. As experiências apresentadas passaram pelo
atendimento fraterno e pela assistência espiritual, por
serviços de saúde mental, acompanhamento
multiprofissional, recuperação após alta hospitalar,
educação, ações sociais e projetos de cuidados
paliativos.
No Grupo Espírita Batuíra, mais de 1,8 mil pessoas já
passaram pelo Lar Transitório, criado para receber
pessoas em situação de exclusão social que deixam o
hospital, mas ainda necessitam de recuperação e
acompanhamento. A instituição também mantém atendimento
multiprofissional para pessoas neurodivergentes e suas
famílias. O serviço, iniciado em 2024 com 18 pacientes,
atende atualmente 72 pessoas.
Na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP)há
assistências destinadas a pessoas com ansiedade,
depressão, dependências, compulsões e em situação de
luto, entre outras necessidades. Durante a apresentação,
foi reforçado que o cuidado espiritual é complementar e
não substitui o tratamento realizado por médicos ou
outros profissionais de saúde.
O Instituto Espírita de Educação (IEE) apresentou sua
experiência com o atendimento fraterno, baseado na
escuta e no acolhimento. Segundo a presidente executiva
da instituição, Andrea Rejane dos Santos, chegam à casa
pessoas com demandas relacionadas a saúde, luto,
suicídio, dificuldades familiares e questões sociais. A
proposta é compreender a necessidade de quem procura
ajuda antes de encaminhá-lo às diferentes atividades
oferecidas pela instituição.
Fundado em 1949, o IEE mantém a educação como um de seus
eixos de atuação e apresentou também o projeto Juntos
pelo Capão, que acolhe crianças e jovens e oferece
espaço e apoio para a preparação para o vestibulinho da
Etec. A experiência foi apresentada como parte de uma
compreensão ampliada de saúde, que considera também os
aspectos sociais e educacionais.
Na Seara Bendita, a discussão trouxe outra dimensão do
cuidado: a responsabilidade das próprias instituições
com a saúde e a segurança de quem trabalha e atua em
suas atividades. O médico Aloysio Cartaxo chamou atenção
para a necessidade de organização e planejamento das
casas espíritas, que reúnem funcionários, voluntários,
alunos e assistidos e também estão sujeitas a
responsabilidades legais e de gestão.
No Instituto de Saúde do GECS, apresentado pela geriatra
Talita Junqueira, a atuação se traduz em atendimento
direto à população. De fevereiro a agosto deste ano, o
serviço realizou mais de 100 atendimentos on-line e
recebeu presencialmente 280 pessoas.
As ações extrapolam ainda as sedes das instituições. Na
comunidade Terra Prometida, no extremo sul da capital
paulista, onde vivem cerca de 2 mil pessoas, uma
parceria entre a AME-SP e a Fraternidade sem Fronteiras
reuniu recentemente profissionais da Saúde e voluntários
para atendimento e acolhimento. Já na Amazônia,
expedições em barco-ambulatório da Universidade do Amor
oferecem assistência médica e odontológica a populações
com acesso limitado aos serviços de saúde.
Experiências incomuns também entram no campo da pesquisa
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Marianna de Abreu Costa, Henrique G. Ribeiro e
Eric V. Ávila Pires:
investigações científicas |
Outro eixo do encontro foi a investigação científica de
experiências humanas ainda cercadas de perguntas. O
médico e pesquisador Eric V. Ávila Pires apresentou
estudos sobre alegadas memórias de vidas passadas em
crianças. O foco clínico, destacou, não deve ser provar
ou negar a origem do relato, mas compreender seu impacto
sobre a criança e a família. “Não assumir previamente
como uma verdade ou como uma mentira, só porque eu
acredito ou desacredito naquilo”, afirmou. Para ele,
relatos desse tipo não devem ser interpretados
automaticamente como sinal de transtorno psiquiátrico.
A psiquiatra Marianna de Abreu Costa abordou pesquisas
sobre experiências percebidas de comunicação com pessoas
falecidas e suas possíveis repercussões no luto. Um dos
pontos enfatizados foi que experiências espirituais ou
consideradas incomuns podem ocorrer em pessoas saudáveis
e, isoladamente, não permitem estabelecer um diagnóstico
psiquiátrico. “Eu sei dizer que isso não é doença.
Agora, o que isso é? Eu não sei”, resumiu, defendendo
que profissionais procurem compreender o significado da
experiência para o paciente sem impor uma explicação
religiosa ou materialista.
O que sabemos — e ainda não sabemos — sobre o processo
de morrer
Experiências de quase-morte, sonhos e visões relatados
no fim da vida, momentos inesperados de lucidez em
pacientes com comprometimento cognitivo grave e
registros de atividade cerebral próximos à morte
estiveram entre os temas apresentados pelo psiquiatra
Henrique G. Ribeiro.
O pesquisador chamou atenção para os limites atuais do
conhecimento. Ao comentar estudos que identificaram
atividade elétrica organizada no cérebro durante o
processo de morte, evitou extrapolar os resultados.
“Significa o quê? Nada”, afirmou, explicando que os
registros demonstram atividade cerebral, mas não
permitem concluir, por exemplo, que o paciente estivesse
consciente naquele momento.
Para Ribeiro, essas experiências podem ter grande
significado para pacientes e familiares e, por isso, não
devem ser automaticamente desprezadas, confirmadas ou
classificadas como doença sem uma avaliação cuidadosa.
Quem cuida também precisa de cuidado
A saúde de familiares, profissionais e voluntários que
assumem diariamente a responsabilidade de cuidar de
outras pessoas também ganhou espaço. Exaustão, privação
de sono, ansiedade, culpa, isolamento, dores e abandono
de atividades pessoais estão entre os sinais de
sobrecarga discutidos.
Ao relatar a experiência de cuidar da própria mãe,
Elizabete T. do Amaral falou sobre a necessidade de
estabelecer limites e dividir responsabilidades. “Não é
bonitinho. É lindo para quem está longe, mas quem está
vivendo no dia a dia é muito difícil”, afirmou.
A psicóloga Giovana T. Campos reforçou que o cuidado
pode implicar perdas de liberdade, rotina, projetos e
convívio social. “Cuidar de alguém não significa
desaparecer”, destacou.
Esperança e gratidão como objetos de estudo
A programação terminou olhando não apenas para doença e
sofrimento, mas também para recursos que podem ser
cultivados ao longo da vida. Pesquisadores discutiram
crescimento pós-traumático, florescimento humano,
gratidão, esperança, sentido e propósito, procurando
afastar esses conceitos de uma interpretação baseada
apenas em “pensamento positivo”.
Para Marcus Ribeiro, falar em crescimento depois de uma
situação difícil não significa defender que o sofrimento
seja necessário ou desejável. “Não é o trauma que faz
crescer. É o que a gente vai fazer a partir dele”,
afirmou.
A pesquisadora Juliane P. B. Gonçalves apresentou
experiências do Programa Florescer, intervenção em grupo
que trabalha temas como bondade, espiritualidade,
propósito, compaixão e perdão. Em um dos projetos,
participantes com sintomas depressivos apresentaram
melhora em indicadores de sofrimento psíquico, qualidade
de vida e florescimento.
Já o médico Leandro Romani discutiu pesquisas sobre
gratidão e plasticidade cerebral, enquanto a terapeuta
ocupacional e pesquisadora Camilla C. Braghetta mostrou
que esperança não é sinônimo de esperar passivamente por
um bom resultado. Na chamada Teoria da Esperança, ela
envolve objetivos, caminhos possíveis para alcançá-los e
motivação para seguir adiante. “A esperança é algo que
pode ser aprendida e aprimorada”, afirmou.
Ao final dos dois dias, uma ideia conectou temas e
experiências tão diferentes: incorporar a
espiritualidade ao cuidado não significa substituir
ciência, medicamentos, exames ou tratamentos. Significa
ampliar as perguntas feitas sobre quem está diante do
profissional — suas relações, valores, crenças, medos,
sofrimento, sentido de vida e formas de enfrentamento.
A diversidade das experiências apresentadas por AMEs,
instituições espíritas, projetos assistenciais e
pesquisadores mostrou também que esse cuidado pode
assumir diferentes formas. Ao aproximar essas
iniciativas, a 14ª Jornada da AME-SP reforçou um ponto
comum: ciência, espiritualidade, escuta e ação podem
caminhar juntas quando o centro do cuidado é a pessoa.