Brasil
por Cláudia Santos

Ano 20 - N° 996 - 18 de Outubro de 2026

14ª Jornada da AME-SP reúne instituições espíritas em torno da saúde e do cuidado integral


Encontro na nova sede da AME-Brasil aproximou experiências de diferentes entidades e discutiu como ciência e espiritualidade podem dialogar na atenção à saúde


A união de diferentes instituições espíritas em torno de um mesmo propósito — ampliar o cuidado em saúde, respeitando o conhecimento científico, a segurança dos tratamentos e a autonomia do paciente — marcou a 14ª Jornada da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP), realizada em conjunto com o 14º CondAME, na capital paulista, no mês passado.

Com o tema “A Dimensão Espiritual da Medicina – da Evidência à Prática”, o encontro reuniu médicos, psicólogos, enfermeiros, pesquisadores, estudantes e representantes de diferentes instituições do Movimento Espírita. A programação marcou também a inauguração da nova sede da AME-Brasil, no Butantã, 31 anos após a criação da entidade. 

Ao longo de dois dias, as discussões passaram por cuidado integral, saúde mental, práticas assistenciais desenvolvidas por instituições espíritas, experiências de fim de vida e quase-morte, comunicação após a morte, alegadas memórias de vidas passadas, saúde de cuidadores, crescimento pós-traumático, esperança, gratidão e florescimento humano. 

Um dos momentos que evidenciaram essa aproximação foi a mesa dedicada às práticas de cuidado em instituições espíritas, que reuniu representantes do Grupo Espírita Batuíra, da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP), do Instituto Espírita de Educação (IEE) e da Seara Bendita. Outras atividades apresentaram ainda experiências do Instituto de Saúde do Grupo Espírita Cairbar Schutel (GECS) e de ações realizadas em parceria com a Fraternidade sem Fronteiras. 

A diversidade das iniciativas foi destacada pela médica Maria Elisabete Rey, da FEESP. Ao falar das diferentes formas de atuação das casas espíritas, ela observou que essas experiências formam um mosaico voltado ao mesmo objetivo: acolher e cuidar. “As nossas casas são tão diferentes e, no entanto, uma coisa nos une: as portas abertas”, afirmou. 

Da esq.p/dir: Aloysio Cartaxo (Seara Bendita), Andrea Rejane dos Santos (IEE), Maria Elizabete Rey (FEESP), Eduardo Barato (Grupo Espírita Batuíra)
e Marcus Ribeiro (AME-SP)

Na abertura, o presidente da AME-SP, Marcus R.C. Ribeiro, destacou que a proposta era aproximar o conhecimento produzido sobre espiritualidade e saúde da prática cotidiana dos profissionais. “As demandas são muitas, o mundo tem pedido socorro cada vez mais alto e a gente não pode mais ficar parado”, afirmou o psiquiatra. 


O paciente para além da doença

A defesa de uma assistência capaz de enxergar a pessoa em suas diferentes dimensões esteve presente desde a primeira mesa. O médico e escritor Décio Iandoli Jr. ressaltou que os avanços da Medicina ampliaram a expectativa de vida e permitiram tratar doenças antes fatais, mas alertou para o risco de a especialização reduzir o paciente ao órgão ou ao diagnóstico. “Você não atende o joelho; você atende uma pessoa que tem um joelho”, resumiu. 

Para Iandoli, aspectos biológicos, psíquicos, sociais, ambientais e espirituais se relacionam e podem interferir tanto no adoecimento quanto na resposta ao tratamento. Nesse contexto, a escuta e a anamnese espiritual podem contribuir para compreender melhor o paciente, desde que suas crenças sejam respeitadas e o profissional não imponha as próprias convicções. 


Diferentes experiências, um mesmo compromisso com o cuidado

A programação mostrou também como esse olhar sobre a pessoa vem sendo colocado em prática de diferentes maneiras. As experiências apresentadas passaram pelo atendimento fraterno e pela assistência espiritual, por serviços de saúde mental, acompanhamento multiprofissional, recuperação após alta hospitalar, educação, ações sociais e projetos de cuidados paliativos.

No Grupo Espírita Batuíra, mais de 1,8 mil pessoas já passaram pelo Lar Transitório, criado para receber pessoas em situação de exclusão social que deixam o hospital, mas ainda necessitam de recuperação e acompanhamento. A instituição também mantém atendimento multiprofissional para pessoas neurodivergentes e suas famílias. O serviço, iniciado em 2024 com 18 pacientes, atende atualmente 72 pessoas.

Na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP)há assistências destinadas a pessoas com ansiedade, depressão, dependências, compulsões e em situação de luto, entre outras necessidades. Durante a apresentação, foi reforçado que o cuidado espiritual é complementar e não substitui o tratamento realizado por médicos ou outros profissionais de saúde. 

O Instituto Espírita de Educação (IEE) apresentou sua experiência com o atendimento fraterno, baseado na escuta e no acolhimento. Segundo a presidente executiva da instituição, Andrea Rejane dos Santos, chegam à casa pessoas com demandas relacionadas a saúde, luto, suicídio, dificuldades familiares e questões sociais. A proposta é compreender a necessidade de quem procura ajuda antes de encaminhá-lo às diferentes atividades oferecidas pela instituição. 

Fundado em 1949, o IEE mantém a educação como um de seus eixos de atuação e apresentou também o projeto Juntos pelo Capão, que acolhe crianças e jovens e oferece espaço e apoio para a preparação para o vestibulinho da Etec. A experiência foi apresentada como parte de uma compreensão ampliada de saúde, que considera também os aspectos sociais e educacionais. 

Na Seara Bendita, a discussão trouxe outra dimensão do cuidado: a responsabilidade das próprias instituições com a saúde e a segurança de quem trabalha e atua em suas atividades. O médico Aloysio Cartaxo chamou atenção para a necessidade de organização e planejamento das casas espíritas, que reúnem funcionários, voluntários, alunos e assistidos e também estão sujeitas a responsabilidades legais e de gestão. 

No Instituto de Saúde do GECS, apresentado pela geriatra Talita Junqueira, a atuação se traduz em atendimento direto à população. De fevereiro a agosto deste ano, o serviço realizou mais de 100 atendimentos on-line e recebeu presencialmente 280 pessoas. 

As ações extrapolam ainda as sedes das instituições. Na comunidade Terra Prometida, no extremo sul da capital paulista, onde vivem cerca de 2 mil pessoas, uma parceria entre a AME-SP e a Fraternidade sem Fronteiras reuniu recentemente profissionais da Saúde e voluntários para atendimento e acolhimento. Já na Amazônia, expedições em barco-ambulatório da Universidade do Amor oferecem assistência médica e odontológica a populações com acesso limitado aos serviços de saúde. 

 
Experiências incomuns também entram no campo da pesquisa

Marianna de Abreu Costa, Henrique G. Ribeiro e Eric V. Ávila Pires:
investigações científicas

Outro eixo do encontro foi a investigação científica de experiências humanas ainda cercadas de perguntas. O médico e pesquisador Eric V. Ávila Pires apresentou estudos sobre alegadas memórias de vidas passadas em crianças. O foco clínico, destacou, não deve ser provar ou negar a origem do relato, mas compreender seu impacto sobre a criança e a família. “Não assumir previamente como uma verdade ou como uma mentira, só porque eu acredito ou desacredito naquilo”, afirmou. Para ele, relatos desse tipo não devem ser interpretados automaticamente como sinal de transtorno psiquiátrico. 

A psiquiatra Marianna de Abreu Costa abordou pesquisas sobre experiências percebidas de comunicação com pessoas falecidas e suas possíveis repercussões no luto. Um dos pontos enfatizados foi que experiências espirituais ou consideradas incomuns podem ocorrer em pessoas saudáveis e, isoladamente, não permitem estabelecer um diagnóstico psiquiátrico. “Eu sei dizer que isso não é doença. Agora, o que isso é? Eu não sei”, resumiu, defendendo que profissionais procurem compreender o significado da experiência para o paciente sem impor uma explicação religiosa ou materialista. 


O que sabemos — e ainda não sabemos — sobre o processo de morrer

Experiências de quase-morte, sonhos e visões relatados no fim da vida, momentos inesperados de lucidez em pacientes com comprometimento cognitivo grave e registros de atividade cerebral próximos à morte estiveram entre os temas apresentados pelo psiquiatra Henrique G. Ribeiro. 

O pesquisador chamou atenção para os limites atuais do conhecimento. Ao comentar estudos que identificaram atividade elétrica organizada no cérebro durante o processo de morte, evitou extrapolar os resultados. “Significa o quê? Nada”, afirmou, explicando que os registros demonstram atividade cerebral, mas não permitem concluir, por exemplo, que o paciente estivesse consciente naquele momento. 

Para Ribeiro, essas experiências podem ter grande significado para pacientes e familiares e, por isso, não devem ser automaticamente desprezadas, confirmadas ou classificadas como doença sem uma avaliação cuidadosa. 

Quem cuida também precisa de cuidado

A saúde de familiares, profissionais e voluntários que assumem diariamente a responsabilidade de cuidar de outras pessoas também ganhou espaço. Exaustão, privação de sono, ansiedade, culpa, isolamento, dores e abandono de atividades pessoais estão entre os sinais de sobrecarga discutidos. 

Ao relatar a experiência de cuidar da própria mãe, Elizabete T. do Amaral falou sobre a necessidade de estabelecer limites e dividir responsabilidades. “Não é bonitinho. É lindo para quem está longe, mas quem está vivendo no dia a dia é muito difícil”, afirmou.

A psicóloga Giovana T. Campos reforçou que o cuidado pode implicar perdas de liberdade, rotina, projetos e convívio social. “Cuidar de alguém não significa desaparecer”, destacou. 

Esperança e gratidão como objetos de estudo

A programação terminou olhando não apenas para doença e sofrimento, mas também para recursos que podem ser cultivados ao longo da vida. Pesquisadores discutiram crescimento pós-traumático, florescimento humano, gratidão, esperança, sentido e propósito, procurando afastar esses conceitos de uma interpretação baseada apenas em “pensamento positivo”. 

Para Marcus Ribeiro, falar em crescimento depois de uma situação difícil não significa defender que o sofrimento seja necessário ou desejável. “Não é o trauma que faz crescer. É o que a gente vai fazer a partir dele”, afirmou. 

A pesquisadora Juliane P. B. Gonçalves apresentou experiências do Programa Florescer, intervenção em grupo que trabalha temas como bondade, espiritualidade, propósito, compaixão e perdão. Em um dos projetos, participantes com sintomas depressivos apresentaram melhora em indicadores de sofrimento psíquico, qualidade de vida e florescimento. 

Já o médico Leandro Romani discutiu pesquisas sobre gratidão e plasticidade cerebral, enquanto a terapeuta ocupacional e pesquisadora Camilla C. Braghetta mostrou que esperança não é sinônimo de esperar passivamente por um bom resultado. Na chamada Teoria da Esperança, ela envolve objetivos, caminhos possíveis para alcançá-los e motivação para seguir adiante. “A esperança é algo que pode ser aprendida e aprimorada”, afirmou. 

Ao final dos dois dias, uma ideia conectou temas e experiências tão diferentes: incorporar a espiritualidade ao cuidado não significa substituir ciência, medicamentos, exames ou tratamentos. Significa ampliar as perguntas feitas sobre quem está diante do profissional — suas relações, valores, crenças, medos, sofrimento, sentido de vida e formas de enfrentamento.

A diversidade das experiências apresentadas por AMEs, instituições espíritas, projetos assistenciais e pesquisadores mostrou também que esse cuidado pode assumir diferentes formas. Ao aproximar essas iniciativas, a 14ª Jornada da AME-SP reforçou um ponto comum: ciência, espiritualidade, escuta e ação podem caminhar juntas quando o centro do cuidado é a pessoa.


  


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 Revista Semanal de Divulgação Espírita