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por Mário Frigéri

 

A roda dos enjeitados


A roda dos enjeitados — também chamada roda dos expostos — foi uma das mais dramáticas instituições criadas pela sociedade cristã para proteger crianças abandonadas. Seu nome continua a provocar tristeza, mas também convida à reflexão: quantas criaturas foram deixadas à porta da vida porque seus pais não encontraram auxílio, compreensão ou esperança?

A estrutura era relativamente simples. Um cilindro de madeira, embutido na parede ou na porta de conventos, mosteiros, hospitais e Santas Casas de Misericórdia, girava em torno de um eixo vertical. De um lado, alguém colocava o bebê. Depois, fazia o cilindro girar, e a criança passava para o interior da instituição.

Muitas rodas possuíam uma sineta. A pessoa que deixava o recém-nascido tocava-a para avisar as freiras ou os funcionários. Em seguida, afastava-se rapidamente. O mecanismo assegurava o anonimato, pois quem recebia a criança não conseguia ver quem a havia colocado ali.

Na linguagem da época, “expor” ou “enjeitar” significava abandonar uma criança aos cuidados de terceiros. Os termos não possuíam necessariamente o sentido cruel que hoje lhes atribuímos. Muitas mães entregavam os filhos acreditando que eles teriam melhores condições de sobrevivência dentro de uma instituição religiosa.

A roda surgiu na Europa medieval e se difundiu principalmente nos países de tradição católica. Uma das primeiras referências conhecidas aparece em Marselha, no século XII. A tradição também associa a criação de uma roda, em Roma, ao papa Inocêncio III, sensibilizado por relatos de bebês encontrados mortos no rio Tibre.

Seu objetivo era duplo. De um lado, pretendia evitar que recém-nascidos fossem abandonados em ruas, rios, terrenos baldios ou lixeiras, onde poderiam morrer de fome, frio ou violência. De outro, permitia que fossem recolhidos, batizados e criados dentro da fé cristã.

A existência da roda revelava, porém, uma contradição dolorosa. Ela era uma resposta humanitária a uma sociedade que não oferecia apoio suficiente às mães pobres, solteiras, viúvas ou abandonadas. Protegia algumas crianças, mas também denunciava a ausência de políticas públicas e de amparo familiar.

Em Portugal, as rodas se espalharam especialmente a partir da atuação das Santas Casas de Misericórdia. No Brasil, chegaram durante o período colonial. Salvador criou sua roda em 1726; o Rio de Janeiro, em 1738; e Recife passou a contar com instituição semelhante no fim do século XVIII.

As crianças eram geralmente entregues a amas de leite ou famílias que recebiam auxílio para criá-las. Algumas mães deixavam junto do bebê uma fita, um medalhão, um pedaço de tecido ou uma mensagem. Esses sinais poderiam permitir o reconhecimento posterior da criança ou registrar o desejo de que ela fosse batizada com determinado nome.

Apesar de suas intenções protetoras, as rodas enfrentaram graves problemas. A superlotação, a falta de recursos, as doenças, a precariedade dos cuidados e os atrasos no pagamento das amas contribuíram para elevadas taxas de mortalidade. Por isso, durante o século XIX, o sistema passou a ser cada vez mais questionado e foi progressivamente extinto.


A roda que acolhia o corpo

 A história da roda dos enjeitados não pode ser contada apenas como uma história de caridade, nem somente como uma história de abandono. Ela foi as duas coisas ao mesmo tempo. Nasceu de uma necessidade real, salvou vidas, mas também funcionou dentro de uma estrutura social que frequentemente deixava os vulneráveis sem alternativas.

A roda acolhia o corpo da criança, mas não conseguia acolher plenamente a história de sua mãe. Atrás de cada bebê havia uma mulher em sofrimento, uma família desestruturada, uma pobreza silenciosa, uma gravidez escondida ou uma situação que a sociedade preferia não conhecer.

Por isso, o sino da roda pode ser ouvido como um dos sons mais comoventes da história humana. Não anunciava apenas a chegada de um bebê. Anunciava a presença de uma dor que não encontrara outro caminho para pedir socorro.

A pessoa que girava o cilindro talvez carregasse vergonha, medo e desespero. Talvez desejasse proteger o filho. Talvez tivesse sido abandonada pelo pai da criança. Talvez não possuísse alimento nem abrigo. Talvez acreditasse que a instituição religiosa seria a última porta aberta diante de uma sociedade que lhe havia fechado todas as outras.

A roda, portanto, era anônima para proteger quem abandonava, mas a criança recebia um nome, uma história institucional e, muitas vezes, uma nova oportunidade de viver. O anonimato podia esconder a identidade dos pais, mas não eliminava a dignidade daquele pequeno ser.

À luz do Espiritismo, nenhuma criança é um acaso biológico ou um acidente sem significado. Cada espírito traz consigo uma história anterior, necessidades educativas, vínculos familiares e experiências que integram o planejamento reencarnatório. Isso, porém, não autoriza ninguém a transformar a dor em fatalidade nem o abandono em justificativa religiosa.

A reencarnação amplia nossa responsabilidade. Se a criança de hoje pode ter sido alguém ligado a nós em existência anterior, o dever de ampará-la torna-se ainda mais profundo. Mas mesmo que nada soubéssemos sobre o passado espiritual de uma criatura, ela já teria direito ao cuidado por ser filha de Deus.

O Espiritismo não deve procurar explicações para a dor antes de oferecer amparo àquele que sofre. A compreensão da lei de causa e efeito jamais pode ser usada para acusar a vítima, justificar a indiferença ou dizer que alguém “merece” a prova pela qual passa.

O primeiro movimento diante do sofrimento deve ser o da compaixão. Depois virão o esclarecimento, a orientação e a busca das causas. Jesus não perguntava inicialmente por que alguém estava enfermo, pobre ou desamparado. Aproximava-se, acolhia e ajudava.

Nesse sentido, as casas espíritas podem representar uma espécie de roda dos enjeitados espiritual. Não para receber crianças abandonadas em um cilindro de madeira, mas para acolher espíritos que a vida social, familiar ou íntima deixou à margem.


A roda espiritual do acolhimento

Quantas pessoas chegam a uma casa espírita como quem se aproxima de uma roda? Não trazem um recém-nascido nos braços, mas carregam uma alma exausta, um coração ferido, uma consciência atormentada ou uma esperança quase morta.

Há os tristes, os desiludidos, os solitários, os deprimidos, os enlutados, os enfermos e os que perderam o sentido da existência. Muitos chegam discretamente, sem saber explicar o que procuram. Sentam-se no fundo da sala e aguardam, em silêncio, que alguém perceba sua presença.

A casa espírita deve ser uma porta aberta para essas criaturas. Seu acolhimento não pode depender da aparência, da cultura, da posição social, da orientação religiosa ou da capacidade de contribuir financeiramente. A dor não apresenta documentos antes de pedir auxílio.

Receber alguém, entretanto, não significa oferecer respostas prontas para todos os problemas. Significa escutar com atenção, tratar com respeito, evitar julgamentos e reconhecer que, muitas vezes, a pessoa precisa primeiro sentir-se segura para depois conseguir compreender alguma coisa.

O passe, a prece, a reunião pública, o estudo, a água fluidificada e a assistência fraterna podem constituir instrumentos de amparo. Mas nenhum deles dispensa o cuidado humano, a orientação profissional e o encaminhamento médico ou psicológico quando necessários.

A depressão, por exemplo, não deve ser reduzida a uma simples influência espiritual ou a uma falta de fé. Pode envolver fatores biológicos, psicológicos, sociais e espirituais. A casa espírita acolhe a dimensão espiritual da pessoa sem desprezar os recursos da ciência.

A verdadeira caridade não compete com a medicina, com a psicologia, com o serviço social ou com as políticas públicas. Ao contrário, coopera com todos esses campos. O amor espírita não pretende substituir o cuidado especializado, mas integrá-lo numa visão mais ampla do ser humano.

Jesus ensinou que dar um copo de água a um pequenino é servi-lo pessoalmente. A imagem é de extraordinária força. O Cristo não considera o gesto dirigido apenas à criatura necessitada. Ele próprio se sente alcançado por aquele ato de amor.

Abrir os braços à dor é, em última instância, abrir os braços a Jesus. O Cristo está presente na criança abandonada, no idoso esquecido, na mãe aflita, no trabalhador sem esperança, no jovem que pensa em desistir e no companheiro que chega à reunião carregando uma noite inteira dentro do peito.

A antiga roda protegia o recém-nascido contra a morte nas ruas. A roda espiritual precisa proteger o espírito contra a morte moral. Deve ajudar o indivíduo a reencontrar a esperança, recuperar a dignidade, reconstruir os vínculos e perceber que sua vida ainda possui finalidade.

A roda física praticamente desapareceu, mas a necessidade que lhe deu origem não foi totalmente vencida. Ainda existem mães desesperadas, crianças ameaçadas, famílias sem recursos e pessoas que não encontram apoio para atravessar as próprias crises.

Em alguns países, existem mecanismos modernos de entrega segura de recém-nascidos, como as Babyklappen alemãs e as chamadas caixas de acolhimento dos Estados Unidos. Elas procuram evitar abandonos perigosos, embora também sejam alvo de críticas porque podem privar a criança de informações sobre sua origem e não substituem o atendimento integral à mãe.

A solução mais humana não é simplesmente oferecer uma caixa anônima. É garantir assistência pré-natal, parto seguro, apoio psicológico, proteção social, orientação jurídica e alternativas dignas para a mulher e para a criança. A caridade verdadeira não apenas recebe o problema: procura impedir que o desespero chegue àquele ponto.

O mesmo vale para a roda espiritual. Não basta acolher alguém depois da queda. É necessário trabalhar pela prevenção da queda, fortalecendo famílias, educando consciências, combatendo preconceitos e criando redes de solidariedade capazes de alcançar o sofredor antes que ele se sinta completamente abandonado.

Uma casa espírita cumpre sua missão quando ninguém precisa esconder a própria dor para ser recebido. Ali, aquele que errou encontra oportunidade de recomeço, o enfermo recebe encorajamento, o obsidiado é tratado com respeito e o desesperado percebe que ainda existem mãos estendidas.

A roda dos enjeitados nos ensina que uma sociedade pode ser avaliada pela forma como trata os seres mais frágeis. Não basta celebrar a prosperidade, a cultura ou o progresso tecnológico. É preciso verificar se as crianças, os doentes, os velhos e os solitários encontram proteção.

Também o movimento espírita deve perguntar a si mesmo se suas instituições são verdadeiramente acessíveis. Há casas que recebem bem quem já conhece a linguagem doutrinária, mas não sabem acolher aquele que chega confuso, assustado ou emocionalmente desorganizado. A simplicidade, a delicadeza e a fraternidade precisam preceder qualquer explicação.

A antiga roda girava para dentro e retirava o bebê do abandono exterior. A roda espiritual deve girar para fora e levar o amor ao encontro de quem sofre. Não pode ficar esperando que todos descubram sozinhos o caminho da casa espírita.

É preciso sair ao encontro das dores do mundo. Visitar hospitais, apoiar famílias, colaborar com instituições sociais, atender pessoas em situação de rua, proteger crianças e idosos, orientar jovens e oferecer escuta aos que pensam em desistir são formas atuais de fazer a roda do amor funcionar.

No fim, a roda dos enjeitados deixa de ser apenas uma peça da história para transformar-se em símbolo. Ela nos pergunta o que fazemos quando alguém é colocado diante de nossa porta pela Providência: giramos o mecanismo e o recebemos, ou permanecemos indiferentes ao som da sineta?

Cada pessoa que procura auxílio pode estar tocando uma campainha invisível. Talvez não diga claramente “ajude-me”. Talvez apenas permaneça calada, falte ao trabalho, perca o brilho dos olhos ou repita que está tudo bem. A sensibilidade cristã escuta até mesmo o silêncio.

O Espiritismo possui uma mensagem capaz de devolver sentido à existência: somos espíritos imortais, filhos de Deus, viajores da Eternidade e aprendizes do amor. Mas essa mensagem só alcançará plenamente o mundo quando se transformar em acolhimento concreto.

A roda espiritual não terá madeira, eixo ou cilindro. Será feita de braços abertos, ouvidos atentos, palavras fraternas, conhecimento responsável, oração sincera e serviço perseverante. Seu movimento não esconderá pessoas, mas lhes devolverá identidade, dignidade e esperança.

Que cada casa espírita se torne uma roda de amor. Que ninguém chegue às suas portas sentindo-se enjeitado. Que toda criatura ali encontre amparo para o corpo, esclarecimento para a mente, consolo para o coração e luz para o espírito.

Porque, quando acolhemos a dor de um pequenino, de um aflito ou de um abandonado, não estamos apenas praticando uma boa ação. Estamos recebendo o próprio Cristo, que continua a bater à porta dos bons corações em cada criatura que às vezes precisa de um mundo, mas pede, timidamente, apenas um copo de água fresca.


Mário Frigéri é poeta, escritor, autor e youtuber com a mente e o coração voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita. Campinas-SP.


   

     
     

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 Revista Semanal de Divulgação Espírita