A
roda dos
enjeitados
A roda dos enjeitados — também chamada roda dos expostos
— foi uma das mais dramáticas instituições criadas pela
sociedade cristã para proteger crianças abandonadas. Seu
nome continua a provocar tristeza, mas também convida à
reflexão: quantas criaturas foram deixadas à porta da
vida porque seus pais não encontraram auxílio,
compreensão ou esperança?
A estrutura era relativamente simples. Um cilindro de
madeira, embutido na parede ou na porta de conventos,
mosteiros, hospitais e Santas Casas de Misericórdia,
girava em torno de um eixo vertical. De um lado, alguém
colocava o bebê. Depois, fazia o cilindro girar, e a
criança passava para o interior da instituição.
Muitas rodas possuíam uma sineta. A pessoa que deixava o
recém-nascido tocava-a para avisar as freiras ou os
funcionários. Em seguida, afastava-se rapidamente. O
mecanismo assegurava o anonimato, pois quem recebia a
criança não conseguia ver quem a havia colocado ali.
Na linguagem da época, “expor” ou “enjeitar” significava
abandonar uma criança aos cuidados de terceiros. Os
termos não possuíam necessariamente o sentido cruel que
hoje lhes atribuímos. Muitas mães entregavam os filhos
acreditando que eles teriam melhores condições de
sobrevivência dentro de uma instituição religiosa.
A roda surgiu na Europa medieval e se difundiu
principalmente nos países de tradição católica. Uma das
primeiras referências conhecidas aparece em Marselha, no
século XII. A tradição também associa a criação de uma
roda, em Roma, ao papa Inocêncio III, sensibilizado por
relatos de bebês encontrados mortos no rio Tibre.
Seu objetivo era duplo. De um lado, pretendia evitar que
recém-nascidos fossem abandonados em ruas, rios,
terrenos baldios ou lixeiras, onde poderiam morrer de
fome, frio ou violência. De outro, permitia que fossem
recolhidos, batizados e criados dentro da fé cristã.
A existência da roda revelava, porém, uma contradição
dolorosa. Ela era uma resposta humanitária a uma
sociedade que não oferecia apoio suficiente às mães
pobres, solteiras, viúvas ou abandonadas. Protegia
algumas crianças, mas também denunciava a ausência de
políticas públicas e de amparo familiar.
Em Portugal, as rodas se espalharam especialmente a
partir da atuação das Santas Casas de Misericórdia. No
Brasil, chegaram durante o período colonial. Salvador
criou sua roda em 1726; o Rio de Janeiro, em 1738; e
Recife passou a contar com instituição semelhante no fim
do século XVIII.
As crianças eram geralmente entregues a amas de leite ou
famílias que recebiam auxílio para criá-las. Algumas
mães deixavam junto do bebê uma fita, um medalhão, um
pedaço de tecido ou uma mensagem. Esses sinais poderiam
permitir o reconhecimento posterior da criança ou
registrar o desejo de que ela fosse batizada com
determinado nome.
Apesar de suas intenções protetoras, as rodas
enfrentaram graves problemas. A superlotação, a falta de
recursos, as doenças, a precariedade dos cuidados e os
atrasos no pagamento das amas contribuíram para elevadas
taxas de mortalidade. Por isso, durante o século XIX, o
sistema passou a ser cada vez mais questionado e foi
progressivamente extinto.
A roda que acolhia o corpo
A
história da roda dos enjeitados não pode ser contada
apenas como uma história de caridade, nem somente como
uma história de abandono. Ela foi as duas coisas ao
mesmo tempo. Nasceu de uma necessidade real, salvou
vidas, mas também funcionou dentro de uma estrutura
social que frequentemente deixava os vulneráveis sem
alternativas.
A roda acolhia o corpo da criança, mas não conseguia
acolher plenamente a história de sua mãe. Atrás de cada
bebê havia uma mulher em sofrimento, uma família
desestruturada, uma pobreza silenciosa, uma gravidez
escondida ou uma situação que a sociedade preferia não
conhecer.
Por isso, o sino da roda pode ser ouvido como um dos
sons mais comoventes da história humana. Não anunciava
apenas a chegada de um bebê. Anunciava a presença de uma
dor que não encontrara outro caminho para pedir socorro.
A pessoa que girava o cilindro talvez carregasse
vergonha, medo e desespero. Talvez desejasse proteger o
filho. Talvez tivesse sido abandonada pelo pai da
criança. Talvez não possuísse alimento nem abrigo.
Talvez acreditasse que a instituição religiosa seria a
última porta aberta diante de uma sociedade que lhe
havia fechado todas as outras.
A roda, portanto, era anônima para proteger quem
abandonava, mas a criança recebia um nome, uma história
institucional e, muitas vezes, uma nova oportunidade de
viver. O anonimato podia esconder a identidade dos pais,
mas não eliminava a dignidade daquele pequeno ser.
À luz do Espiritismo, nenhuma criança é um acaso
biológico ou um acidente sem significado. Cada espírito
traz consigo uma história anterior, necessidades
educativas, vínculos familiares e experiências que
integram o planejamento reencarnatório. Isso, porém, não
autoriza ninguém a transformar a dor em fatalidade nem o
abandono em justificativa religiosa.
A reencarnação amplia nossa responsabilidade. Se a
criança de hoje pode ter sido alguém ligado a nós em
existência anterior, o dever de ampará-la torna-se ainda
mais profundo. Mas mesmo que nada soubéssemos sobre o
passado espiritual de uma criatura, ela já teria direito
ao cuidado por ser filha de Deus.
O Espiritismo não deve procurar explicações para a dor
antes de oferecer amparo àquele que sofre. A compreensão
da lei de causa e efeito jamais pode ser usada para
acusar a vítima, justificar a indiferença ou dizer que
alguém “merece” a prova pela qual passa.
O primeiro movimento diante do sofrimento deve ser o da
compaixão. Depois virão o esclarecimento, a orientação e
a busca das causas. Jesus não perguntava inicialmente
por que alguém estava enfermo, pobre ou desamparado.
Aproximava-se, acolhia e ajudava.
Nesse sentido, as casas espíritas podem representar uma
espécie de roda dos enjeitados espiritual. Não para
receber crianças abandonadas em um cilindro de madeira,
mas para acolher espíritos que a vida social, familiar
ou íntima deixou à margem.
A roda espiritual do acolhimento
Quantas pessoas chegam a uma casa espírita como quem se
aproxima de uma roda? Não trazem um recém-nascido nos
braços, mas carregam uma alma exausta, um coração
ferido, uma consciência atormentada ou uma esperança
quase morta.
Há os tristes, os desiludidos, os solitários, os
deprimidos, os enlutados, os enfermos e os que perderam
o sentido da existência. Muitos chegam discretamente,
sem saber explicar o que procuram. Sentam-se no fundo da
sala e aguardam, em silêncio, que alguém perceba sua
presença.
A casa espírita deve ser uma porta aberta para essas
criaturas. Seu acolhimento não pode depender da
aparência, da cultura, da posição social, da orientação
religiosa ou da capacidade de contribuir
financeiramente. A dor não apresenta documentos antes de
pedir auxílio.
Receber alguém, entretanto, não significa oferecer
respostas prontas para todos os problemas. Significa
escutar com atenção, tratar com respeito, evitar
julgamentos e reconhecer que, muitas vezes, a pessoa
precisa primeiro sentir-se segura para depois conseguir
compreender alguma coisa.
O passe, a prece, a reunião pública, o estudo, a água
fluidificada e a assistência fraterna podem constituir
instrumentos de amparo. Mas nenhum deles dispensa o
cuidado humano, a orientação profissional e o
encaminhamento médico ou psicológico quando necessários.
A depressão, por exemplo, não deve ser reduzida a uma
simples influência espiritual ou a uma falta de fé. Pode
envolver fatores biológicos, psicológicos, sociais e
espirituais. A casa espírita acolhe a dimensão
espiritual da pessoa sem desprezar os recursos da
ciência.
A verdadeira caridade não compete com a medicina, com a
psicologia, com o serviço social ou com as políticas
públicas. Ao contrário, coopera com todos esses campos.
O amor espírita não pretende substituir o cuidado
especializado, mas integrá-lo numa visão mais ampla do
ser humano.
Jesus ensinou que dar um copo de água a um pequenino é
servi-lo pessoalmente. A imagem é de extraordinária
força. O Cristo não considera o gesto dirigido apenas à
criatura necessitada. Ele próprio se sente alcançado por
aquele ato de amor.
Abrir os braços à dor é, em última instância, abrir os
braços a Jesus. O Cristo está presente na criança
abandonada, no idoso esquecido, na mãe aflita, no
trabalhador sem esperança, no jovem que pensa em
desistir e no companheiro que chega à reunião carregando
uma noite inteira dentro do peito.
A antiga roda protegia o recém-nascido contra a morte
nas ruas. A roda espiritual precisa proteger o espírito
contra a morte moral. Deve ajudar o indivíduo a
reencontrar a esperança, recuperar a dignidade,
reconstruir os vínculos e perceber que sua vida ainda
possui finalidade.
A roda física praticamente desapareceu, mas a
necessidade que lhe deu origem não foi totalmente
vencida. Ainda existem mães desesperadas, crianças
ameaçadas, famílias sem recursos e pessoas que não
encontram apoio para atravessar as próprias crises.
Em alguns países, existem mecanismos modernos de entrega
segura de recém-nascidos, como as Babyklappen
alemãs e as chamadas caixas de acolhimento dos Estados
Unidos. Elas procuram evitar abandonos perigosos, embora
também sejam alvo de críticas porque podem privar a
criança de informações sobre sua origem e não substituem
o atendimento integral à mãe.
A solução mais humana não é simplesmente oferecer uma
caixa anônima. É garantir assistência pré-natal, parto
seguro, apoio psicológico, proteção social, orientação
jurídica e alternativas dignas para a mulher e para a
criança. A caridade verdadeira não apenas recebe o
problema: procura impedir que o desespero chegue àquele
ponto.
O mesmo vale para a roda espiritual. Não basta acolher
alguém depois da queda. É necessário trabalhar pela
prevenção da queda, fortalecendo famílias, educando
consciências, combatendo preconceitos e criando redes de
solidariedade capazes de alcançar o sofredor antes que
ele se sinta completamente abandonado.
Uma casa espírita cumpre sua missão quando ninguém
precisa esconder a própria dor para ser recebido. Ali,
aquele que errou encontra oportunidade de recomeço, o
enfermo recebe encorajamento, o obsidiado é tratado com
respeito e o desesperado percebe que ainda existem mãos
estendidas.
A roda dos enjeitados nos ensina que uma sociedade pode
ser avaliada pela forma como trata os seres mais
frágeis. Não basta celebrar a prosperidade, a cultura ou
o progresso tecnológico. É preciso verificar se as
crianças, os doentes, os velhos e os solitários
encontram proteção.
Também o movimento espírita deve perguntar a si mesmo se
suas instituições são verdadeiramente acessíveis. Há
casas que recebem bem quem já conhece a linguagem
doutrinária, mas não sabem acolher aquele que chega
confuso, assustado ou emocionalmente desorganizado. A
simplicidade, a delicadeza e a fraternidade precisam
preceder qualquer explicação.
A antiga roda girava para dentro e retirava o bebê do
abandono exterior. A roda espiritual deve girar para
fora e levar o amor ao encontro de quem sofre. Não pode
ficar esperando que todos descubram sozinhos o caminho
da casa espírita.
É preciso sair ao encontro das dores do mundo. Visitar
hospitais, apoiar famílias, colaborar com instituições
sociais, atender pessoas em situação de rua, proteger
crianças e idosos, orientar jovens e oferecer escuta aos
que pensam em desistir são formas atuais de fazer a roda
do amor funcionar.
No fim, a roda dos enjeitados deixa de ser apenas uma
peça da história para transformar-se em símbolo. Ela nos
pergunta o que fazemos quando alguém é colocado diante
de nossa porta pela Providência: giramos o mecanismo e o
recebemos, ou permanecemos indiferentes ao som da
sineta?
Cada pessoa que procura auxílio pode estar tocando uma
campainha invisível. Talvez não diga claramente
“ajude-me”. Talvez apenas permaneça calada, falte ao
trabalho, perca o brilho dos olhos ou repita que está
tudo bem. A sensibilidade cristã escuta até mesmo o
silêncio.
O Espiritismo possui uma mensagem capaz de devolver
sentido à existência: somos espíritos imortais, filhos
de Deus, viajores da Eternidade e aprendizes do amor.
Mas essa mensagem só alcançará plenamente o mundo quando
se transformar em acolhimento concreto.
A roda espiritual não terá madeira, eixo ou cilindro.
Será feita de braços abertos, ouvidos atentos, palavras
fraternas, conhecimento responsável, oração sincera e
serviço perseverante. Seu movimento não esconderá
pessoas, mas lhes devolverá identidade, dignidade e
esperança.
Que cada casa espírita se torne uma roda de amor. Que
ninguém chegue às suas portas sentindo-se enjeitado. Que
toda criatura ali encontre amparo para o corpo,
esclarecimento para a mente, consolo para o coração e
luz para o espírito.
Porque, quando acolhemos a dor de um pequenino, de um
aflito ou de um abandonado, não estamos apenas
praticando uma boa ação. Estamos recebendo o próprio
Cristo, que continua a bater à porta dos bons corações
em cada criatura que às vezes precisa de um mundo, mas
pede, timidamente, apenas um copo de água fresca.
Mário Frigéri é poeta, escritor,
autor e youtuber com a mente e o coração voltados para o
esplendor do Evangelho e da Doutrina Espírita.
Campinas-SP.