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por Eder Andrade

Tempo de superação


Muitas pessoas que frequentam as Casas Espíritas, buscando tratamento, assistem a palestras e recebem atendimento, mas nem sempre ficam satisfeitas com a atenção recebida. Às vezes, queixam-se da demora em se recuperarem do quadro das enfermidades de que são portadoras.

Por ingenuidade ou pouco conhecimento doutrinário, costumam perguntar aos trabalhadores e médiuns por que algumas pessoas apresentam uma recuperação mais rápida do que outras. Quais os fatores que poderiam influenciar nesse processo de recuperação?

Fica difícil responder a essa pergunta, porque existe uma combinação de elementos que podem apontar a diversidade de alguns enfermos em relação a outros, como, por exemplo, a disciplina, que é um fator importante para o restabelecimento. Mas, em alguns casos, a insistência e o merecimento são fatores bem diferentes, que devem ser melhor compreendidos espiritualmente.

Podemos dizer que o nosso processo de Reforma Íntima e de superação das nossas questões mais remotas está relacionado diretamente à nossa trajetória espiritual.

Em outras palavras, o comprometimento moral e espiritual vai exigir, em alguns casos, um tempo maior de convalescência do enfermo. O Espírito Emmanuel, em suas passagens, procura nos chamar a atenção para a relação entre os acontecimentos passados e o que vivemos no presente, quando escreveu:

Espíritos culpados! Somos quase todos.

Julgávamos que o poder transitório entre os homens nos fosse conferido como sendo privilégio e imaginário merecimento, e usamo-lo por espada destruidora, aniquilando a alegria dos semelhantes...

Contudo, renascemos nos últimos degraus da subalternidade, aprendendo quanto dói o cativeiro da humilhação. ¹

O sofrimento atua como um mecanismo de correção da nossa trajetória moral, pois corrige os desvios causados pelo mau uso do livre-arbítrio e impulsiona o espírito acomodado a buscar, de forma contínua e ativa, o bem, além de acender a luz da própria consciência espiritual, despertando no indivíduo a necessidade da transformação interior.

Da mesma forma que o corpo humano tem um tempo para se recuperar de uma enfermidade, o espírito também tem um tempo bastante variável de recuperação dos desequilíbrios que acumulou ao longo das suas encarnações.

Algumas pessoas, por fatores pessoais, recuperam-se mais rápido do que outras. Dessa forma, fica difícil prever ou até mesmo entender por que dois indivíduos que passaram pelo mesmo problema têm curvas de superação e recuperação diferentes.

Existe ainda um outro fator que deve ser levado em conta. Alguns espíritos, inicialmente, mais por ignorância do que por maldade, como diz Emmanuel, resistem ao processo de transformação por não se acharem merecedores ou dignos da oportunidade de mudança. Já outros aproveitam essa oportunidade e se dedicam com fervor, tentando superar o tempo perdido. Existem aqueles que têm dificuldades de amadurecimento por limitações pessoais.

O Livro dos Espíritos nos explica de forma bem didática:

Os Espíritos são bons ou maus por natureza, ou são eles mesmos que se melhoram?

São os próprios Espíritos que se melhoram e, melhorando-se, passam de uma ordem inferior para outra mais elevada.²

Nossa individualidade e o Livre-Arbítrio são os fatores que vão influenciar em nosso processo evolutivo, levando em conta que existem a evolução moral e a intelectual, que acontecem simultaneamente. Dessa forma, esse processo é pessoal, e cada indivíduo tem uma curva de evolução particular, na qual a trajetória espiritual, acrescida do desejo de superar os equívocos do passado, irá influenciar, ajudando em seu processo de Reforma Íntima.

Depende dos Espíritos o progredirem mais ou menos rapidamente para a perfeição?

Certamente. Eles a alcançam mais ou menos rápido, conforme o desejo que têm de alcançá-la e a submissão que testemunham à vontade de Deus. Uma criança dócil não se instrui mais depressa do que outra recalcitrante? ²

Em alguns momentos, poderíamos até dizer que esse processo pode acelerar ou não, mas nunca regride, podendo até estacionar por algum tempo, pois o espírito, motivado por elementos externos ou internos, vai acelerar sua evolução ou não. O seu amadurecimento do senso moral será sua bússola da razão e da iniciativa de evolução pessoal.

Além de Kardec, muitos estudiosos do Espiritismo procuraram explicar a diversidade da Humanidade como um todo. Entre eles, podemos destacar o Consolidador do Espiritismo na Europa, ou o Apóstolo do Espiritismo, que conheceu e teve a chance de trocar ideias com o Mestre de Lyon, quando escreveu:

A reencarnação, afirmada pelas vozes de além-túmulo, é a única forma racional pela qual se pode admitir a reparação das faltas cometidas e a evolução gradual dos seres. Sem ela não se vê sanção moral satisfatória e completa, não há possibilidade de conceber a existência de um Ser que governe o universo com justiça.³

Léon Denis afirma que a Lei da Encarnação é o mecanismo que possibilita oferecer aos espíritos a chance de se harmonizarem com as leis divinas, pelas oportunidades oferecidas em cada encarnação, permitindo ao espírito devedor para com sua consciência saldar suas dívidas para com as leis de Deus, vivenciando diferentes experiências e resgatando as faltas cometidas em vidas anteriores.

Com a doutrina das vidas sucessivas, pelo contrário, tudo se explica, se torna claro. A lei de justiça revela-se nas menores particularidades da existência. As desigualdades que nos chocam resultam das diferentes situações ocupadas pelas almas nos seus graus infinitos de evolução. O destino do ser não é mais do que o desenvolvimento, através das idades, da longa série de causas e efeitos gerados por seus atos.³

 

Referências:

1) Xavier, Francisco Cândido; Justiça Divina (1962); Cap. 11 – Culpa e reencarnação. Ed. FEB.

2) Kardec, Allan; O Livro dos Espíritos (1857); 2ª parte – Cap. 1: Progressão dos Espíritos – p. 114 e 117; Ed. FEB.

3) Denis, Léon; O Problema do Ser, do Destino e da Dor (1908); 2ª parte – Cap. XIII – As vidas sucessivas – A encarnação e suas leis; Ed. FEB.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita