Aparências
Estava encostado no meu Corolla quando escutei alguém me
chamar:
— Fernando! Fernando! Você aqui! Mas que carrão! É seu?
— Sim — respondi, meio sem jeito.
Reconheci na hora o meu interlocutor. Era Paulo, meu
antigo colega de escola.
Notei que ele reparava no meu terno alinhado, nos meus
sapatos bem cuidados e no automóvel. Também observei os
andrajos que vestia.
— Como está? — perguntei.
E pensei rapidamente:
É claro que não poderia estar muito bem. Afinal, com
aquelas roupas...
— É! Tudo bem! Tirando o ruim, está bom — respondeu,
dando uma risadinha.
Depois, perguntou:
— Mas conte-me de você... Prosperou na vida, né?
Contei-lhe que havia feito faculdade de Administração de
Empresas e que, assim que concluí o curso, me apaixonei
por Leila, minha atual esposa.
Na época, ela fazia doces para vender. Casamo-nos e tive
a ideia de ampliar aquele negócio. Trabalhamos muito e,
com o passar dos anos, a pequena atividade se
transformou em um dos maiores empreendimentos do ramo de
doces no país.
Enquanto eu falava, percebi que Paulo continuava olhando
para mim com atenção.
Naquele instante, Leila se aproximou, cumprimentou a
todos e disse:
— Vamos, querido?
— Vamos...
Dei um abraço seco em Paulo, disse que tinha sido um
prazer reencontrá-lo e acrescentei:
— Quando quiser, pode ir à minha fábrica e à loja de
doces. Ficam logo ali.
Apontei para o outro lado da rua.
Eu e minha esposa entramos no carro. Assim que saímos,
ela me perguntou:
— Quem era aquele homem?
— Um antigo colega de escola, coitado.
Leila ficou em silêncio.
Não sei se percebeu alguma coisa, mas aquela palavra
continuou comigo durante o resto do dia: coitado.
Por que eu havia chamado Paulo de coitado?
Porque suas roupas eram velhas?
Porque ele não tinha um carro como o meu?
Porque aparentava não ter alcançado, na vida, o mesmo
sucesso material que eu?
Quanto mais pensava, mais aquela palavra me incomodava.
Eu não sabia praticamente nada sobre a vida de Paulo.
Não sabia onde morava.
Não sabia se tinha família.
Não sabia como ganhava a vida.
Não sabia se era feliz ou infeliz.
Não sabia sequer por que estava vestido daquela maneira.
Sabia apenas que suas roupas eram simples e que eu
possuía um carro caro, uma boa empresa e um terno
elegante.
E, com tão pouco conhecimento, já havia feito um
julgamento.
Naquela noite, pensei muito sobre o assunto.
Nós, seres humanos, temos uma tendência a avaliar as
pessoas pelo que conseguimos enxergar. A roupa, a casa,
o automóvel, a profissão, o dinheiro e a posição social
acabam servindo, muitas vezes, como medidas de valor.
Mas será que aquilo que conseguimos ver representa
realmente o que uma pessoa é?
O Espiritismo nos ensina que somos Espíritos imortais
temporariamente ligados a um corpo físico. A existência
atual é apenas uma etapa de uma trajetória muito maior.
Diante disso, quanto podemos realmente saber sobre
alguém apenas olhando para sua aparência?
Aquele homem que julgamos pobre pode estar atravessando
uma experiência necessária ao seu aprendizado
espiritual.
Aquele que consideramos rico pode estar diante de uma
prova muito difícil.
E aquele que admiramos pela posição que ocupa talvez
ainda tenha muito a aprender sobre humildade,
desprendimento e caridade.
A riqueza e a pobreza, por si mesmas, não determinam o
valor de um Espírito.
O que importa é a maneira como cada um utiliza os
recursos e as circunstâncias que recebeu.
Naquele momento, comecei a perceber que meu Corolla não
dizia quem eu era.
Meu terno também não.
Minha empresa, muito menos.
E as roupas de Paulo tampouco poderiam dizer quem ele
era.
Eu havia confundido aparência com realidade.
Alguns dias depois, encontrei Paulo novamente.
Dessa vez, tivemos mais tempo para conversar.
Perguntei sobre sua vida.
Soube que trabalhava modestamente e que dedicava boa
parte de seu tempo a ajudar pessoas necessitadas.
Contou-me que, havia alguns anos, participava como
voluntário de uma instituição que atendia famílias
carentes.
— Mas você não ganha nada com isso? — perguntei.
Ele sorriu.
— Ganho, sim.
Fiquei esperando que completasse a resposta.
— Ganho a satisfação de saber que fui útil para alguém.
Não soube o que dizer.
Naquele instante, lembrei-me novamente da palavra que
havia usado: coitado.
Talvez eu devesse ter sido mais cuidadoso. Eu havia
chamado de coitado um homem sobre cuja vida nada sabia.
E, enquanto fazia isso, não percebia que talvez fosse eu
quem precisasse de mais auxílio.
Não auxílio material.
Auxílio para enxergar além das aparências.
A experiência me fez pensar em quantas vezes fazemos a
mesma coisa.
Encontramos alguém vestido de maneira simples e
imaginamos que seja infeliz.
Vemos alguém bem vestido e supomos que seja realizado.
Conhecemos uma pessoa rica e pensamos que nada lhe
falta.
Encontramos alguém pobre e concluímos que sua vida é
difícil.
Mas não conhecemos as lutas íntimas de ninguém.
Não conhecemos as experiências que cada Espírito
escolheu ou aceitou enfrentar.
Não conhecemos o passado espiritual de ninguém.
E, principalmente, não sabemos quais são as necessidades
de aprendizado de cada alma.
Talvez por isso Jesus tenha recomendado que não
julgássemos.
Não se trata de deixar de perceber as diferenças
existentes entre as pessoas. Elas existem e fazem parte
da vida material.
Trata-se de não transformar essas diferenças em medidas
de superioridade ou inferioridade.
Desde aquele dia, quando vejo alguém cuja aparência é
diferente da minha, procuro me lembrar de Paulo.
E também procuro me lembrar de mim mesmo.
Porque, diante da vida espiritual, talvez sejamos todos
muito mais parecidos do que imaginamos.
Passamos pela Terra com roupas diferentes, casas
diferentes, profissões diferentes e condições materiais
diferentes.
Mas todos caminhamos para o mesmo destino: o
aperfeiçoamento espiritual.
E, quando finalmente aprendermos a olhar o próximo para
além daquilo que os olhos conseguem enxergar, talvez
deixemos de perguntar quanto alguém possui e passemos a
perguntar quanto bem é capaz de fazer.
Foi assim que aquela antiga palavra ganhou outro
significado para mim.
Coitado?
Não. Eu simplesmente não o conhecia.
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