Caneta versus teclado
Uma inspiração repentina me pegou, e com umas ideias na
cabeça não podia deixá-las fugir, precisava registrá-las
imediatamente. Se adiasse as anotações iria perder tudo,
como já acontecera outras vezes. A questão é que eu
estava na rua, longe do computador e esquecera o celular
em casa, de novo.
Aflito, olhei em torno e divisei milagrosamente o que
parecia ser uma papelaria ou um bazarzinho. Entrei e
pedi, aliviado, um bloco de papel e uma caneta. Procurei
um beco qualquer onde pudesse sentar e descarregar a
mente daquela urgência.
Apoiei o bloco sobre os joelhos e iniciei a escrita. As
palavras saiam irregulares, tremidas e as frases que
consegui alinhavar começavam em cima e iam descendo,
inclinadas. Melhorei a posição das pernas e segui
escrevendo, mas percebi que a irregularidade da escrita
não tinha a ver com a instabilidade do apoio, mas com
outra coisa qualquer. Assim terminei os garranchos, e na
verdade nem sei direito se consegui passar tudo para o
papel.
Já em casa, usando o mesmo bloco e caneta, tentei
organizar as ideias coletadas, e novamente observei a
caligrafia horrenda, eu que sempre tive uma letra boa.
Por fim, concluí o rascunho do que poderia vir a ser um
novo texto para publicação, mas confesso que achei
estranha demais a imprecisão da minha mão.
*
A resposta a essa estranheza me veio meio sem querer.
Assistindo a um canal de comentários sobre livros e
literatura, soube dos recentes trabalhos de
pesquisadores holandeses que avaliaram os efeitos do
abandono da escrita à mão, substituída em grande escala
pela escrita digital. Há hoje muitas instituições
pesquisando a sério os danos causados pela substituição
da comunicação natural pela tecnológica.
E isso tinha a ver comigo, eu fiz essa troca. Há vários
anos que não tenho escrito à mão os meus textos e
artigos.
Estudos da neurociência feitos pela Universidade
Norueguesa de Ciência e Tecnologia informam que, “Sim, o
hábito de apenas digitar traz prejuízos significativos
ao funcionamento e aos benefícios cognitivos da escrita
manual. Quando substituímos completamente a caneta pelo
teclado, o cérebro deixa de ativar redes neurais
complexas que são exclusivas do ato de desenhar as
letras”. Segundo esses estudos, os principais impactos
gerados pelo abandono da escrita manual são:
“Perda de Conectividade Cerebral: na escrita
manual, cada letra exige um movimento motor fino e
único. O cérebro precisa planejar e executar o traçado,
o que ativa simultaneamente áreas visuais, motoras e
sensoriais. Isso gera ondas cerebrais (alfa e teta)
sincronizadas, ideais para o aprendizado. Na
digitação, o movimento é repetitivo e uniforme.
Apertar a tecla "A" exige o mesmo esforço mecânico que
apertar a tecla "Z". Como o cérebro opera na lógica do
‘use ou perca’, a falta de estímulo enfraquece essas
conexões neurais com o tempo.”
“Piora na Retenção de Memória e Compreensão:
ao digitar, a velocidade permite que as pessoas
anotem informações de forma literal, quase automática e
sem reflexão. Já a escrita manual é mais
lenta, o que obriga o cérebro a desacelerar, processar,
resumir e parafrasear o conteúdo. Estudos demonstram que
estudantes que escrevem à mão fixam o conteúdo de forma
muito mais profunda e duradoura do que os que apenas
digitam.”
“Impacto na Alfabetização e Leitura: o mapeamento
motor de desenhar uma letra está diretamente ligado à
nossa capacidade de reconhecê-la visualmente. Crianças
ou adultos que apenas digitam podem apresentar maior
dificuldade em diferenciar letras semelhantes (como "b"
e "d") e demoram mais para consolidar a fluência na
leitura.”
Países que adotaram fortemente a digitalização escolar,
como a Suécia, voltaram atrás recentemente para
reintroduzir os livros físicos e os cadernos.
Outras fontes falam da piora da caligrafia e perda da
destreza com o passar do tempo. Os músculos da mão e
dos dedos perdem o condicionamento específico, o
controle do tamanho, o espaçamento e a inclinação das
letras ficam comprometidos.
Pronto. Achei bem razoáveis essas informações da
ciência. Este artigo já saiu meio a meio.
Fontes:
Canal Antofágica (YouTube).
BBC News Brasil.
Revista Educação.
Superinteressante.
|