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por Cláudio Bueno da Silva

 

Caneta versus teclado


Uma inspiração repentina me pegou, e com umas ideias na cabeça não podia deixá-las fugir, precisava registrá-las imediatamente. Se adiasse as anotações iria perder tudo, como já acontecera outras vezes. A questão é que eu estava na rua, longe do computador e esquecera o celular em casa, de novo.

Aflito, olhei em torno e divisei milagrosamente o que parecia ser uma papelaria ou um bazarzinho. Entrei e pedi, aliviado, um bloco de papel e uma caneta. Procurei um beco qualquer onde pudesse sentar e descarregar a mente daquela urgência.

Apoiei o bloco sobre os joelhos e iniciei a escrita. As palavras saiam irregulares, tremidas e as frases que consegui alinhavar começavam em cima e iam descendo, inclinadas. Melhorei a posição das pernas e segui escrevendo, mas percebi que a irregularidade da escrita não tinha a ver com a instabilidade do apoio, mas com outra coisa qualquer. Assim terminei os garranchos, e na verdade nem sei direito se consegui passar tudo para o papel.

Já em casa, usando o mesmo bloco e caneta, tentei organizar as ideias coletadas, e novamente observei a caligrafia horrenda, eu que sempre tive uma letra boa. Por fim, concluí o rascunho do que poderia vir a ser um novo texto para publicação, mas confesso que achei estranha demais a imprecisão da minha mão.


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A resposta a essa estranheza me veio meio sem querer. Assistindo a um canal de comentários sobre livros e literatura, soube dos recentes trabalhos de pesquisadores holandeses que avaliaram os efeitos do abandono da escrita à mão, substituída em grande escala pela escrita digital. Há hoje muitas instituições pesquisando a sério os danos causados pela substituição da comunicação natural pela tecnológica.

E isso tinha a ver comigo, eu fiz essa troca. Há vários anos que não tenho escrito à mão os meus textos e artigos.

Estudos da neurociência feitos pela Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia informam que, “Sim, o hábito de apenas digitar traz prejuízos significativos ao funcionamento e aos benefícios cognitivos da escrita manual. Quando substituímos completamente a caneta pelo teclado, o cérebro deixa de ativar redes neurais complexas que são exclusivas do ato de desenhar as letras”. Segundo esses estudos, os principais impactos gerados pelo abandono da escrita manual são:

“Perda de Conectividade Cerebral: na escrita manual, cada letra exige um movimento motor fino e único. O cérebro precisa planejar e executar o traçado, o que ativa simultaneamente áreas visuais, motoras e sensoriais. Isso gera ondas cerebrais (alfa e teta) sincronizadas, ideais para o aprendizado. Na digitação, o movimento é repetitivo e uniforme. Apertar a tecla "A" exige o mesmo esforço mecânico que apertar a tecla "Z". Como o cérebro opera na lógica do ‘use ou perca’, a falta de estímulo enfraquece essas conexões neurais com o tempo.”

“Piora na Retenção de Memória e Compreensão: ao digitar, a velocidade permite que as pessoas anotem informações de forma literal, quase automática e sem reflexão. Já a escrita manual é mais lenta, o que obriga o cérebro a desacelerar, processar, resumir e parafrasear o conteúdo. Estudos demonstram que estudantes que escrevem à mão fixam o conteúdo de forma muito mais profunda e duradoura do que os que apenas digitam.”

“Impacto na Alfabetização e Leitura: o mapeamento motor de desenhar uma letra está diretamente ligado à nossa capacidade de reconhecê-la visualmente. Crianças ou adultos que apenas digitam podem apresentar maior dificuldade em diferenciar letras semelhantes (como "b" e "d") e demoram mais para consolidar a fluência na leitura.”

Países que adotaram fortemente a digitalização escolar, como a Suécia, voltaram atrás recentemente para reintroduzir os livros físicos e os cadernos.

Outras fontes falam da piora da caligrafia e perda da destreza com o passar do tempo. Os músculos da mão e dos dedos perdem o condicionamento específico, o controle do tamanho, o espaçamento e a inclinação das letras ficam comprometidos.

Pronto. Achei bem razoáveis essas informações da ciência. Este artigo já saiu meio a meio.

 

Fontes:

Canal Antofágica (YouTube).

BBC News Brasil.

Revista Educação.

Superinteressante.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita