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por Nubor Orlando Facure

 

Provas e resgates


Numa cidadezinha do interior, onde os recursos eram escassos, Dona Rosa está prestes a dar à luz. A mãe já escolheu o nome de Daniel, caso o filho seja menino.

Quem orienta o parto é Dorotéia, a parteira mais experiente da região. Mas as contrações se acumulam a cada dez minutos, e a criança não nasce.

Não há hospitais nem médicos para providências mais complexas.

Dorotéia faz, então, as manobras que conhece, mas consegue poucos resultados. O esforço prossegue por longas horas, quando, finalmente, um menino com mais de três quilos é expelido pelo canal do parto.

Não respira bem; sua cor é arroxeada, assustando a todos e exigindo providências urgentíssimas. Oxigenação, massagens no tórax, e o quadro começa a melhorar. Mas a hipotonia é evidente.

Todas as reações de vitalidade estão presentes, mas com frequência e intensidade bem abaixo da média.

Essa criança vai ter enormes dificuldades para se desenvolver.

E está extremamente limitada seis anos depois. Na medicina da época, foi dito que sofria de paralisia cerebral.

A paralisia cerebral provoca um quadro neurológico grave e irreversível.

A marcha só será possível aos dois ou três anos, depois de muito esforço.

A criança caminha rígida, esfregando uma perna contra a outra, num movimento clássico chamado marcha em tesoura.

A fala nunca será normal, comprometendo gravemente a comunicação.

O aprendizado escolar se limita a colorir desenhos, não chegando à alfabetização.

Dona Rosa nunca tem descanso.

Vê-se de um lado para outro, buscando ajuda aqui e ali, entre fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e nutricionista.

Nessa hora, descobrimos quantos anjos estão na Terra com a missão de nos amparar, aliviando nossa sobrecarga.

Essa jornada incansável nos mostra o quanto valem as pequenas conquistas conseguidas com Daniel.

Hoje ele pediu um pedaço de bolo.

Ontem chutou a bola pela primeira vez.

Está reconhecendo o pai quando chega do serviço.

Já aceita escovar os dentes.

Fica alegre na hora do banho.


Lição espírita

Como interpretar uma situação dessa gravidade?

Serão anos de luta, e os resultados serão muito modestos.

Mas, se desistirmos, as funções motoras e intelectuais se agravarão muito?

Uma informação interessante nos textos de Kardec encontra-se em O Livro dos Médiuns (capítulo XIX, item 223, questão 19): pessoas consideradas idiotas podem, quando evocadas, revelar, por meio de suas comunicações, que seu Espírito não corresponde à condição intelectual manifestada pelo organismo físico.

Em O Livro dos Espíritos (questões 371 a 375), Kardec também explica que as limitações dos órgãos podem impedir ou dificultar a manifestação das faculdades do Espírito, sem que isso signifique inferioridade da alma.

O Espírito não está doente; está em débito com a consciência.

Reproduzo essa mesma informação para os quadros da doença de Alzheimer, em que a demência deteriora toda a identidade da pessoa.

As famílias se desesperam com a gravidade da mudança na personalidade de seus entes amados.

Ensino para todos: tomem muito cuidado com expressões negativas ou pejorativas dirigidas a essa pessoa doente, pois o Espírito sofre ao nos ver aflitos, sem estar ele mesmo doente.


Uma pergunta que nos faz pensar

Vale a pena todo o esforço que empregamos nas diversas terapias para resgatar o oligofrênico ou o demente?

A morte, quando vier, não estaria resgatando sua normalidade, seu patrimônio espiritual?

A mesma pergunta para os paralíticos, os cegos, os surdos-mudos e os esquizofrênicos.

Aprendemos com a Doutrina Espírita que o próprio Espírito costuma fazer a escolha das provas e dificuldades que entende serem pertinentes à redenção de suas culpas.

Nosso passado delituoso nem sempre foi identificado e punido pelas leis humanas, e a pressão da culpa, diante das leis divinas, mais cedo ou mais tarde, nos impõe a corrigenda.

É assim que testemunhamos, em todas as famílias, o turbilhão de sofrimentos ou de dificuldades, possibilitando o resgate.


Crime sem castigo

Seu Jonas foi capataz enérgico numa fazenda em Goiás.

A filha inocente foi seduzida e difamada, humilhando a família.

Seu Jonas não suportou a pressão psicológica, optando por expulsar a filha iludida, que, anos depois, amargava a prostituição.

Dona Júlia viu uma filha prejudicando os irmãos na distribuição da herança.

Emudeceu, optando pelo silêncio, omitindo os números que todos tinham direito de saber.

Pedrão era mestre de obras. Fazia de tudo.

Tinha, por isso, liberdade de ir de uma casa a outra, fazendo pequenos consertos.

Mas poucos sabiam que Pedrão era um grande mulherengo.

E sempre aproveitava para jogar seu charme, seduzindo uma aqui, outra ali.

Plantou remorsos e ressentimentos.

Conseguiu esconder o aborto que um dia teve de pagar.

Seu Mauro era contador.

Lidava com muito dinheiro dos clientes.

Nunca deixou de adiar pagamentos, usando os recursos em benefício próprio.

Tira daqui, põe ali.

Nunca perceberam seu jogo financeiro.


Lição de casa

Um grande sofrimento para o Espírito é aguardar por décadas a reencarnação para pôr em prática a oportunidade de redenção.

Vai estudar e planejar cuidadosamente a depuração necessária ao seu resgate.

O câncer maligno da próstata, espalhando-se pela coluna.

A leucemia, deteriorando o sangue.

A perda de memória, desfazendo a identidade.

Os transtornos hormonais que comprometem a libido.

O mieloma múltiplo, corroendo os ossos.

A paralisia cerebral, imobilizando a mente.

A epilepsia, jogando a vida no chão.

O AVC, que compromete a fala, impedindo qualquer expressão das opiniões.

A oportunidade desta encarnação que estamos trilhando nos oferece a bênção do recomeço.

“Não esmorecer para não desmerecer.”


  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita