Somos imortais
É um facto que a Humanidade desde sempre ansiou pela
imortalidade. É também um facto que, desde os tempos
mais remotos da história humana, a ideia de imortalidade
sempre fez parte das nossas crenças.
Sentados em redor das primeiras fogueiras, os nossos
antepassados (que éramos nós) devem ter olhado para o
céu e pensado: "e depois disto o quê?”. Devemos ter
ansiado por algo mais do que aquela vida dura e
rudimentar de sobrevivência e procurado elos com o
divino que pressentíamos; por isso mesmo, criámos, na
Natureza, deuses e potestades que nos protegiam e que
julgávamos responsáveis por todos os fenómenos que não
compreendíamos; por isso mesmo, talvez, as construções
megalíticas, onde eram depositados os corpos,
acompanhados por comida e pelos utensílios pessoais do
falecido, se tenham constituído verdadeiros monumentos
de culto aos nossos mortos, tentando perpetuar a “vida”
para além do corpo que se findara.
O tempo avançou, mas a ideia ou a ânsia da imortalidade
não se perdeu. Ao longo das gerações, em todos os povos
se foi mantendo, fazendo crescer lendas e mitos que
chegaram até aos nossos dias. Podemos apresentar alguns
exemplos, de entre os inúmeros que a História nos
fornece. Gilgamesh, na Suméria, atravessou o mundo à
procura da planta que dava a vida eterna. Os egípcios
embalsamavam os faraós e enchiam as pirâmides de comida
e tesouros, porque acreditavam que o corpo tinha de
durar para a alma viver para sempre. Os gregos tinham os
deuses no Olimpo. Imortais, mas também invejosos dos
mortais que amavam e viviam com intensidade, conscientes
da sua finitude.
A fonte da juventude, o elixir, a ciência, tudo
tentativas de “fugir” à finitude. Hoje a ciência tudo
faz para que o tempo médio de vida se prolongue o mais
possível. São as células estaminais, a criogenia, até a
Inteligência Artificial. Mas, ainda assim, continuamos
muito longe dos seres imortais em que nos ansiávamos
tornar. Do ponto de vista do corpo físico,
evidentemente.
No entanto, podemos fazer a pergunta com que já
Gilgamesh se interrogava: “Se vivêssemos para sempre, o
que faríamos com tanto tempo? E a vida teria o mesmo
valor se não tivesse fim?” Grandes pensadores se têm
debruçado sobre essa ideia. Jorge Luís Borges (escritor
argentino, 1899-1986) escreveu o seu livro “O Imortal”
sobre um homem que bebe da água da imortalidade e vive
séculos. No fim percebe que viver para sempre é
terrível. Tudo se repete, nada tem valor, porque nada
acaba. Sem perda, nada tem valor. Heidegger (filósofo
alemão, 1889-1976) dizia que é justamente porque sabemos
que vamos morrer que a vida tem sentido. A "finitude" é
o que nos faz escolher, amar com força, criar. É claro
que estes pensadores encaram a questão apenas pelo lado
da vida na matéria. Não colocam a hipótese de uma vida
para além da física, apenas questionam o seu
prolongamento indefinido, com as consequências que daí
adviriam.
Outros filósofos encararam a questão por prismas
diferentes. Platão dizia que a alma já é imortal. O
corpo é que é a prisão. Morrer seria libertar a alma
para voltar ao mundo das ideias perfeitas. Para ele,
ansiar pela imortalidade no corpo era ansiar ficar
preso. Epicuro foi mais direto: "A morte não é nada para
nós". Se estamos vivos, a morte não está. Se a morte
chegou, nós já não estamos. Logo, sofrer por ela (a
morte) é ilusão. O objetivo não é viver para sempre. É
viver bem no tempo que temos. Sócrates aceitou a cicuta
com serenidade, ciente de que não seria o fim. Para ele,
a filosofia era o "ensaio para a morte". Quanto mais
pensamos, menos medo temos.
Por que aspiramos tanto a ser imortais? Será, realmente,
o prolongamento indefinido do corpo material que nos
move? Parece que não. Para além do medo pelo
desconhecido que se desdobra perante a sua aproximação,
que é evidente na larga maioria da humanidade, há a
sensação da pouca importância que a vida tem, pela sua
tão curta duração, acompanhada das realizações,
sofrimentos e trabalhos humanos, que adquirem tão pouca
relevância, se tudo acaba, num piscar de olhos, sem
solução de continuidade. Há a dor da separação
definitiva daqueles que amamos. Há o “mistério” de
deixar de ser, que nos repugna à razão e ao
sentimento. Porquê lutar, amar, trabalhar, sofrer,
estudar, crescer, evoluir, criar uma personalidade, se
neste instante somos e, neste mesmo instante,
podemos deixar de ser? Porquê acreditar num Deus
Supremo, Inteligente, Bom, Misericordioso, Criador da
Vida, se essa vida é tão delicada e findável, sem mais
nada restar após a sua cessação? Deus dá a vida e a
suprime sem apelo nem remédio. Mais uma vez… esta ideia
repugna à razão e ao sentimento humano.
As religiões, de quem a Humanidade poderia esperar
consolo e esclarecimento, têm sido pouco didáticas,
apresentando uma vida imortal, para além da presente,
mas eivada de castigos e terrores, impostos por um Deus
vingativo, o que, entre não acreditar em nada ou aceitar
essa ordem de ideias, pouca opção deixa a quem se
interroga e deseja ser esclarecido. São as religiões
quem mais têm desacreditado a ideia de imortalidade.
Entretanto, a Humanidade tem estado “adormecida” e, como
se costuma dizer, “O maior cego é aquele que não quer
ver”. Jesus, há mais de dois mil anos, deixou bem
patente a ideia de imortalidade da alma, quando falou,
por diversas vezes, em “Vida Eterna”. Mas, não tendo
sido capazes de bem interpretar as suas palavras e os
seus ensinamentos, temo-nos conduzido como cegos
espirituais.
Graças à Misericórdia Divina e à concretização da
promessa de Jesus, que conduz a barca terrestre,
promessa essa que nos assegurava da vinda do Consolador
que esclareceria e reporia os seus ensinamentos, surgiu
uma Doutrina Consoladora que nos traz a certeza da
imortalidade. Não a imortalidade do corpo material,
através do prolongamento indefinido dos anos, que não
serviria aos nossos verdadeiros anseios, mas sim uma
imortalidade espiritual, da nossa verdadeira essência,
do nosso Eu, que é o Espírito que somos, sempre fomos
desde que Deus nos criou e continuaremos a ser por toda
a eternidade. A visão do Espiritismo, codificado por
Allan Kardec em meados do século XIX, é bem clara: a
alma é imortal. Para o Espiritismo, a morte do corpo não
é o fim, é só uma "troca de roupa".
Podemos aqui relembrar os quatro pontos centrais do
Espiritismo sobre a imortalidade:
-
A alma sobrevive e continua a sua aprendizagem
– O corpo morre, mas o espírito permanece vivo,
consciente e com a sua personalidade. Não há "céu"
ou "inferno" eternos como castigo. Há planos
espirituais onde o espírito continua a sua evolução.
Frase base: "Nascer, morrer, renascer ainda e
progredir sempre" — Kardec.
-
Reencarnação
– Evolução ao longo de várias vidas. Como uma vida
só não chega para aprender tudo, a alma volta várias
vezes à Terra, em corpos novos. A Terra funciona
como escola, lugar de estágio, hospital, conforme as
necessidades do espírito reencarnante. Cada
existência terrena é, pois, uma escola, em que as
dificuldades, alegrias, dores e relacionamentos
servem de estágios para o Espírito evoluir, moral e
intelectualmente. Objetivo: chegar a "Espíritos
Puros", cheios de amor e sabedoria.
-
Lei de Causa e Efeito
– Tudo o que fazemos fica gravado na nossa
consciência, que é onde está impressa a Lei Divina.
O bem e o mal que praticamos voltam para nós em
outras vidas. Não é castigo de Deus. É consequência
natural, como plantar e colher. Isso explica por que
há sofrimento e “injustiças”: são lições e acertos
de contas da atual e de outras existências. Na Lei
de Deus não há injustiças. Quando tomamos
consciência de quem verdadeiramente somos, ao
analisar o nosso Eu, verificamos que em nós está a
origem de tudo quanto nos acontece, individual ou
coletivamente. É aprendizagem, pela Dor ou pelo
Amor.
-
Comunicabilidade dos espíritos
– Os espíritos desencarnados continuam perto de nós
e podem comunicar-se. Por isso o Espiritismo
valoriza tanto a oração, a caridade e a memória dos
que partiram. Ajudar quem está do "outro lado" e ser
ajudado por eles ajuda a evolução de todos,
encarnados e desencarnados. Através da comunicação
com os espíritos, temos a prova irrefutável da nossa
imortalidade e uma amostra das condições, adversas
ou felizes, que poderemos vir a encontrar após o
desencarne.
Concordando com Sócrates, podemos dizer que, quanto mais
conhecimento tivermos sobre a nossa imortalidade, menos
medo teremos da morte. Essa será uma das muitas
consequências que nos parecem evidentes da expansão da
Doutrina dos Espíritos, para a qual devemos trabalhar da
forma que Deus colocar ao nosso alcance, com Fé e
propósito, convictos de que estamos a contribuir para o
nosso crescimento e para o fortalecimento da Esperança
nesta Humanidade terrena tão assolada de problemas e
sofrimentos ímpares. Que Deus nos ampare e ajude na
concretização deste intento, transformando-nos em
trabalhadores da Seara do Cristo.
|