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por Maria de Lurdes Duarte

 

Somos imortais


É um facto que a Humanidade desde sempre ansiou pela imortalidade. É também um facto que, desde os tempos mais remotos da história humana, a ideia de imortalidade sempre fez parte das nossas crenças.

Sentados em redor das primeiras fogueiras, os nossos antepassados (que éramos nós) devem ter olhado para o céu e pensado: "e depois disto o quê?”. Devemos ter ansiado por algo mais do que aquela vida dura e rudimentar de sobrevivência e procurado elos com o divino que pressentíamos; por isso mesmo, criámos, na Natureza, deuses e potestades que nos protegiam e que julgávamos responsáveis por todos os fenómenos que não compreendíamos; por isso mesmo, talvez, as construções megalíticas, onde eram depositados os corpos, acompanhados por comida e pelos utensílios pessoais do falecido, se tenham constituído verdadeiros monumentos de culto aos nossos mortos, tentando perpetuar a “vida” para além do corpo que se findara.

O tempo avançou, mas a ideia ou a ânsia da imortalidade não se perdeu. Ao longo das gerações, em todos os povos se foi mantendo, fazendo crescer lendas e mitos que chegaram até aos nossos dias. Podemos apresentar alguns exemplos, de entre os inúmeros que a História nos fornece. Gilgamesh, na Suméria, atravessou o mundo à procura da planta que dava a vida eterna. Os egípcios embalsamavam os faraós e enchiam as pirâmides de comida e tesouros, porque acreditavam que o corpo tinha de durar para a alma viver para sempre. Os gregos tinham os deuses no Olimpo. Imortais, mas também invejosos dos mortais que amavam e viviam com intensidade, conscientes da sua finitude.

A fonte da juventude, o elixir, a ciência, tudo tentativas de “fugir” à finitude. Hoje a ciência tudo faz para que o tempo médio de vida se prolongue o mais possível. São as células estaminais, a criogenia, até a Inteligência Artificial. Mas, ainda assim, continuamos muito longe dos seres imortais em que nos ansiávamos tornar. Do ponto de vista do corpo físico, evidentemente.

No entanto, podemos fazer a pergunta com que já Gilgamesh se interrogava: “Se vivêssemos para sempre, o que faríamos com tanto tempo? E a vida teria o mesmo valor se não tivesse fim?” Grandes pensadores se têm debruçado sobre essa ideia. Jorge Luís Borges (escritor argentino, 1899-1986) escreveu o seu livro “O Imortal” sobre um homem que bebe da água da imortalidade e vive séculos. No fim percebe que viver para sempre é terrível. Tudo se repete, nada tem valor, porque nada acaba. Sem perda, nada tem valor. Heidegger (filósofo alemão, 1889-1976) dizia que é justamente porque sabemos que vamos morrer que a vida tem sentido. A "finitude" é o que nos faz escolher, amar com força, criar. É claro que estes pensadores encaram a questão apenas pelo lado da vida na matéria. Não colocam a hipótese de uma vida para além da física, apenas questionam o seu prolongamento indefinido, com as consequências que daí adviriam.

Outros filósofos encararam a questão por prismas diferentes. Platão dizia que a alma já é imortal. O corpo é que é a prisão. Morrer seria libertar a alma para voltar ao mundo das ideias perfeitas. Para ele, ansiar pela imortalidade no corpo era ansiar ficar preso. Epicuro foi mais direto: "A morte não é nada para nós". Se estamos vivos, a morte não está. Se a morte chegou, nós já não estamos. Logo, sofrer por ela (a morte) é ilusão. O objetivo não é viver para sempre. É viver bem no tempo que temos. Sócrates aceitou a cicuta com serenidade, ciente de que não seria o fim. Para ele, a filosofia era o "ensaio para a morte". Quanto mais pensamos, menos medo temos.

Por que aspiramos tanto a ser imortais? Será, realmente, o prolongamento indefinido do corpo material que nos move? Parece que não. Para além do medo pelo desconhecido que se desdobra perante a sua aproximação, que é evidente na larga maioria da humanidade, há a sensação da pouca importância que a vida tem, pela sua tão curta duração, acompanhada das realizações, sofrimentos e trabalhos humanos, que adquirem tão pouca relevância, se tudo acaba, num piscar de olhos, sem solução de continuidade. Há a dor da separação definitiva daqueles que amamos. Há o “mistério” de deixar de ser, que nos repugna à razão e ao sentimento. Porquê lutar, amar, trabalhar, sofrer, estudar, crescer, evoluir, criar uma personalidade, se neste instante somos e, neste mesmo instante, podemos deixar de ser? Porquê acreditar num Deus Supremo, Inteligente, Bom, Misericordioso, Criador da Vida, se essa vida é tão delicada e findável, sem mais nada restar após a sua cessação? Deus dá a vida e a suprime sem apelo nem remédio. Mais uma vez… esta ideia repugna à razão e ao sentimento humano.

As religiões, de quem a Humanidade poderia esperar consolo e esclarecimento, têm sido pouco didáticas, apresentando uma vida imortal, para além da presente, mas eivada de castigos e terrores, impostos por um Deus vingativo, o que, entre não acreditar em nada ou aceitar essa ordem de ideias, pouca opção deixa a quem se interroga e deseja ser esclarecido. São as religiões quem mais têm desacreditado a ideia de imortalidade.

Entretanto, a Humanidade tem estado “adormecida” e, como se costuma dizer, “O maior cego é aquele que não quer ver”. Jesus, há mais de dois mil anos, deixou bem patente a ideia de imortalidade da alma, quando falou, por diversas vezes, em “Vida Eterna”. Mas, não tendo sido capazes de bem interpretar as suas palavras e os seus ensinamentos, temo-nos conduzido como cegos espirituais.

Graças à Misericórdia Divina e à concretização da promessa de Jesus, que conduz a barca terrestre, promessa essa que nos assegurava da vinda do Consolador que esclareceria e reporia os seus ensinamentos, surgiu uma Doutrina Consoladora que nos traz a certeza da imortalidade. Não a imortalidade do corpo material, através do prolongamento indefinido dos anos, que não serviria aos nossos verdadeiros anseios, mas sim uma imortalidade espiritual, da nossa verdadeira essência, do nosso Eu, que é o Espírito que somos, sempre fomos desde que Deus nos criou e continuaremos a ser por toda a eternidade. A visão do Espiritismo, codificado por Allan Kardec em meados do século XIX, é bem clara: a alma é imortal. Para o Espiritismo, a morte do corpo não é o fim, é só uma "troca de roupa".

Podemos aqui relembrar os quatro pontos centrais do Espiritismo sobre a imortalidade:

  1. A alma sobrevive e continua a sua aprendizagem – O corpo morre, mas o espírito permanece vivo, consciente e com a sua personalidade. Não há "céu" ou "inferno" eternos como castigo. Há planos espirituais onde o espírito continua a sua evolução. Frase base: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre" — Kardec.

  2. Reencarnação – Evolução ao longo de várias vidas. Como uma vida só não chega para aprender tudo, a alma volta várias vezes à Terra, em corpos novos. A Terra funciona como escola, lugar de estágio, hospital, conforme as necessidades do espírito reencarnante. Cada existência terrena é, pois, uma escola, em que as dificuldades, alegrias, dores e relacionamentos servem de estágios para o Espírito evoluir, moral e intelectualmente. Objetivo: chegar a "Espíritos Puros", cheios de amor e sabedoria.

  3. Lei de Causa e Efeito – Tudo o que fazemos fica gravado na nossa consciência, que é onde está impressa a Lei Divina. O bem e o mal que praticamos voltam para nós em outras vidas. Não é castigo de Deus. É consequência natural, como plantar e colher. Isso explica por que há sofrimento e “injustiças”: são lições e acertos de contas da atual e de outras existências. Na Lei de Deus não há injustiças. Quando tomamos consciência de quem verdadeiramente somos, ao analisar o nosso Eu, verificamos que em nós está a origem de tudo quanto nos acontece, individual ou coletivamente. É aprendizagem, pela Dor ou pelo Amor.

  4. Comunicabilidade dos espíritos – Os espíritos desencarnados continuam perto de nós e podem comunicar-se. Por isso o Espiritismo valoriza tanto a oração, a caridade e a memória dos que partiram. Ajudar quem está do "outro lado" e ser ajudado por eles ajuda a evolução de todos, encarnados e desencarnados. Através da comunicação com os espíritos, temos a prova irrefutável da nossa imortalidade e uma amostra das condições, adversas ou felizes, que poderemos vir a encontrar após o desencarne.

Concordando com Sócrates, podemos dizer que, quanto mais conhecimento tivermos sobre a nossa imortalidade, menos medo teremos da morte. Essa será uma das muitas consequências que nos parecem evidentes da expansão da Doutrina dos Espíritos, para a qual devemos trabalhar da forma que Deus colocar ao nosso alcance, com Fé e propósito, convictos de que estamos a contribuir para o nosso crescimento e para o fortalecimento da Esperança nesta Humanidade terrena tão assolada de problemas e sofrimentos ímpares. Que Deus nos ampare e ajude na concretização deste intento, transformando-nos em trabalhadores da Seara do Cristo.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita