Por que
temos de perdoar?
Já alguma vez ponderou sobre o que é a mágoa?
Será que podemos dizer que a mágoa é um sentimento
negativo que guardamos quando achamos que alguém nos fez
mal?
Temos tendência a guardar mágoa e rancor quando alguém
nos maltrata. E o que é isso que guardamos em nós?
Não será uma ideia que guardamos de determinada
situação, ocorrida em determinado momento? Essa ideia
pode estar tão cimentada pelo ódio ou pela raiva que se
torna um peso que passa de umas vidas para outras.
Será que ninguém tem mágoa de nós? Por vezes, nem nos
apercebemos do mal que fazemos. Temos determinadas
reações que surgem num contexto específico e nem sempre
percebemos que magoamos os outros, deixando uma marca
negativa no seu íntimo.
Isso acontece quase instantaneamente, tal como as
reações que surgem em nós, sem que tenhamos tempo de
ponderar.
Como a vida continua e a memória é fraca relativamente
àquilo a que não damos muita importância, deixamos para
trás o que permanece no coração de quem foi magoado.
A vida é uma dança constante, em que o ser terreno se
desenvolve, cresce, age e se relaciona, num movimento
permanente. Grande parte do tempo, porém, agimos de
forma inconsciente, o que se pode tornar perigoso.
Somos seres em constante evolução. Damos importância
hoje ao que não dávamos no passado e, no futuro, seremos
diferentes. Ou não?
Fazemos hoje coisas que não fizemos no passado, agimos
de acordo com aquilo que somos, e aquilo que somos é
diferente a cada dia.
Como nos esquecemos disso, enquanto a vida exterior
decorre a uma velocidade impressionante, interiormente
mantemos empedernidas e bem alicerçadas formas de estar
que nos conduzem ao orgulho, formas de ser que nos levam
ao egoísmo, ódios que nos roubam a paz e reações perante
a vida que permanecem em nós e se repetem como hábitos
constantes.
Conseguem ver a enorme diferença entre o exterior e o
interior?
O exterior é como o vento, impossível de ser parado. No
interior, queremos construir ideia após ideia, formando
o Ego. Essas ideias, quando ficam cristalizadas,
transformam-se em problemas psíquicos, como depressões,
ódios que se mantêm connosco durante vidas e sentimentos
negativos que nos conduzem a um eu perturbado e parado
no tempo. Como podemos crescer se estamos parados?
A mágoa nasce do choque entre a expectativa e a ação.
Se nos lembrássemos de que somos seres em movimento
constante, mudando a cada instante, poderíamos ver o
mesmo nos outros. Então, poderíamos perceber que o ato
que nos magoou foi praticado num determinado momento,
num movimento que envolveu dois ou mais seres em
crescimento. Não somos seres estáticos, mas estamos em
constante movimento, tanto físico como psíquico.
Fisicamente, este corpo não tem nenhuma célula com mais
de sete anos, segundo a ciência. As células duram, no
máximo, esse tempo. Logo, o corpo nem é o mesmo que há
dez anos: é constituído por células completamente
diferentes. Nada ou quase nada permaneceu daquele tempo.
O movimento é constante.
Psicologicamente, a mudança é ainda mais veloz. O que
sobrou de nós de ontem, senão algumas ideias e alguns
conceitos? Que verdade pode haver nisso? Essas
referências têm utilidade para a vida, para sabermos
orientar-nos e trabalhar, mas, psicologicamente, qual é
a importância de permanecermos presos a elas?
O excesso de importância que damos às coisas é apego, e
é o apego que nos conduz às más tendências. O egoísmo de
querermos tudo para nós, de não partilharmos sequer um
pouco do nosso tempo; o orgulho que temos de nós
próprios, como se tivéssemos criado este ser; a
ganância, como se fôssemos eternos e alguma coisa nos
pertencesse; e as ideias que fazemos sobre os outros,
como se estes fossem seres estáticos, fotografias que
guardamos na memória.
O ódio está na crença de que aquele corpo, aquele ser,
nos fez isto e na descrença do movimento da vida.
Fixamos a imagem do outro dentro de nós e guardamos
aquilo que ele fez, como dois bibelôs que ficam lado a
lado na prateleira das nossas memórias.
Se nos lembrássemos de que tudo é movimento e de que
nada é estático, recordaríamos que a ofensa foi apenas
uma experiência que precisámos de viver para avaliarmos
o nosso apego ao ser terreno e o nosso orgulho.
Não seremos outro ser quando reencarnarmos? O que
significa, afinal, ser outro ser?
O sentimento de ofensa é contrário ao movimento da vida,
pois é estático: uma fotografia emoldurada numa das
paredes do nosso Eu.
Ter fé é saber que tudo isto é movimento, que não cabe
nos nossos desejos nem nas nossas vontades; é
compreender que existe algo que cria esse movimento e
que aquilo que nos acontece faz parte dele e do
aprendizado que temos de realizar. Nada acontece por
acaso, e isso mostra o quanto estamos errados na forma
como lidamos com a vida.
Se não conseguimos perceber isto, então perdoemos, pois
aquilo que guardamos em nós é o único veneno que nos
pode condenar ao sofrimento.
Perdoamos não para fazer bem ao outro, mas para não
fazermos mal a nós próprios. Tudo aquilo que guardamos
em nós de negativo são imagens que vão apodrecendo e
envenenando a alma.
Olhe para fora: a vida corre. Se não consegue ver esse
movimento quando olha para dentro, lembre-se de que
estamos em constante evolução. Não é isso um movimento?
Não fique preso a lembranças que o maltratam. Viva.
Bruno Abreu reside em Lisboa, Portugal.
|