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por Bruno Abreu

 

Por que temos de perdoar?


Já alguma vez ponderou sobre o que é a mágoa?

Será que podemos dizer que a mágoa é um sentimento negativo que guardamos quando achamos que alguém nos fez mal?

Temos tendência a guardar mágoa e rancor quando alguém nos maltrata. E o que é isso que guardamos em nós?

Não será uma ideia que guardamos de determinada situação, ocorrida em determinado momento? Essa ideia pode estar tão cimentada pelo ódio ou pela raiva que se torna um peso que passa de umas vidas para outras.

Será que ninguém tem mágoa de nós? Por vezes, nem nos apercebemos do mal que fazemos. Temos determinadas reações que surgem num contexto específico e nem sempre percebemos que magoamos os outros, deixando uma marca negativa no seu íntimo.

Isso acontece quase instantaneamente, tal como as reações que surgem em nós, sem que tenhamos tempo de ponderar.

Como a vida continua e a memória é fraca relativamente àquilo a que não damos muita importância, deixamos para trás o que permanece no coração de quem foi magoado.

A vida é uma dança constante, em que o ser terreno se desenvolve, cresce, age e se relaciona, num movimento permanente. Grande parte do tempo, porém, agimos de forma inconsciente, o que se pode tornar perigoso.

Somos seres em constante evolução. Damos importância hoje ao que não dávamos no passado e, no futuro, seremos diferentes. Ou não?

Fazemos hoje coisas que não fizemos no passado, agimos de acordo com aquilo que somos, e aquilo que somos é diferente a cada dia.

Como nos esquecemos disso, enquanto a vida exterior decorre a uma velocidade impressionante, interiormente mantemos empedernidas e bem alicerçadas formas de estar que nos conduzem ao orgulho, formas de ser que nos levam ao egoísmo, ódios que nos roubam a paz e reações perante a vida que permanecem em nós e se repetem como hábitos constantes.

Conseguem ver a enorme diferença entre o exterior e o interior?

O exterior é como o vento, impossível de ser parado. No interior, queremos construir ideia após ideia, formando o Ego. Essas ideias, quando ficam cristalizadas, transformam-se em problemas psíquicos, como depressões, ódios que se mantêm connosco durante vidas e sentimentos negativos que nos conduzem a um eu perturbado e parado no tempo. Como podemos crescer se estamos parados?

A mágoa nasce do choque entre a expectativa e a ação.

Se nos lembrássemos de que somos seres em movimento constante, mudando a cada instante, poderíamos ver o mesmo nos outros. Então, poderíamos perceber que o ato que nos magoou foi praticado num determinado momento, num movimento que envolveu dois ou mais seres em crescimento. Não somos seres estáticos, mas estamos em constante movimento, tanto físico como psíquico.

Fisicamente, este corpo não tem nenhuma célula com mais de sete anos, segundo a ciência. As células duram, no máximo, esse tempo. Logo, o corpo nem é o mesmo que há dez anos: é constituído por células completamente diferentes. Nada ou quase nada permaneceu daquele tempo. O movimento é constante.

Psicologicamente, a mudança é ainda mais veloz. O que sobrou de nós de ontem, senão algumas ideias e alguns conceitos? Que verdade pode haver nisso? Essas referências têm utilidade para a vida, para sabermos orientar-nos e trabalhar, mas, psicologicamente, qual é a importância de permanecermos presos a elas?

O excesso de importância que damos às coisas é apego, e é o apego que nos conduz às más tendências. O egoísmo de querermos tudo para nós, de não partilharmos sequer um pouco do nosso tempo; o orgulho que temos de nós próprios, como se tivéssemos criado este ser; a ganância, como se fôssemos eternos e alguma coisa nos pertencesse; e as ideias que fazemos sobre os outros, como se estes fossem seres estáticos, fotografias que guardamos na memória.

O ódio está na crença de que aquele corpo, aquele ser, nos fez isto e na descrença do movimento da vida. Fixamos a imagem do outro dentro de nós e guardamos aquilo que ele fez, como dois bibelôs que ficam lado a lado na prateleira das nossas memórias.

Se nos lembrássemos de que tudo é movimento e de que nada é estático, recordaríamos que a ofensa foi apenas uma experiência que precisámos de viver para avaliarmos o nosso apego ao ser terreno e o nosso orgulho.

Não seremos outro ser quando reencarnarmos? O que significa, afinal, ser outro ser?

O sentimento de ofensa é contrário ao movimento da vida, pois é estático: uma fotografia emoldurada numa das paredes do nosso Eu.

Ter fé é saber que tudo isto é movimento, que não cabe nos nossos desejos nem nas nossas vontades; é compreender que existe algo que cria esse movimento e que aquilo que nos acontece faz parte dele e do aprendizado que temos de realizar. Nada acontece por acaso, e isso mostra o quanto estamos errados na forma como lidamos com a vida.

Se não conseguimos perceber isto, então perdoemos, pois aquilo que guardamos em nós é o único veneno que nos pode condenar ao sofrimento.

Perdoamos não para fazer bem ao outro, mas para não fazermos mal a nós próprios. Tudo aquilo que guardamos em nós de negativo são imagens que vão apodrecendo e envenenando a alma.

Olhe para fora: a vida corre. Se não consegue ver esse movimento quando olha para dentro, lembre-se de que estamos em constante evolução. Não é isso um movimento?

Não fique preso a lembranças que o maltratam. Viva.

 

Bruno Abreu reside em Lisboa, Portugal.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita