Sacerdote sem
alma
A tecnologia
acaba de cruzar
uma fronteira
que, até pouco
tempo, parecia
reservada à
ficção
científica: a
fronteira do
sagrado. Uma
pesquisa
realizada nos
Estados Unidos
pela Barna
Group, em
parceria com a
Gloo, revelou
que 30% dos
adultos
americanos
consideram o
aconselhamento
espiritual
oferecido pela
Inteligência
Artificial (IA)
tão confiável
quanto o de um
pastor. Entre os
integrantes da
Geração Z, o
índice chega a
39%; entre os
millennials,
a 44%. Mesmo
entre cristãos
praticantes, um
terço declara
confiar na
orientação
espiritual da
máquina tanto
quanto na de um
ministro
religioso.
O dado não
significa apenas
que pessoas
estejam
utilizando a IA
para localizar
versículos,
redigir preces
ou organizar
estudos
religiosos. A
novidade é muito
mais profunda: a
máquina começa a
ser admitida
como autoridade
espiritual. Ela
já não é vista
somente como
ferramenta, mas
como alguém — ou
algo — capaz de
responder às
angústias
humanas,
interpretar
textos sagrados,
aconselhar
diante de
conflitos
íntimos e
oferecer consolo
em momentos de
aflição. A
pergunta que
surge é
inevitável:
estamos diante
de uma nova
tecnologia
religiosa ou do
nascimento de
uma religião sem
sacerdotes?
O fenômeno já
possui
manifestações
concretas. Há
aplicativos que
permitem
conversar com
uma versão
artificial de
Jesus, de Maria,
dos apóstolos e
de outras
figuras
bíblicas. Um
deles promete ao
usuário
conversas sobre
Escritura,
oração e vida
espiritual, além
de conselheiros
personalizados
conforme a
tradição
religiosa
escolhida.
Outros oferecem
orações
adaptadas ao
estado emocional
do usuário,
reflexões
diárias e
respostas
imediatas a
perguntas de
natureza moral
ou teológica.
A imprensa
internacional já
registra
experiências
ainda mais
surpreendentes:
avatares de
Jesus que
conversam por
vídeo, rezam com
o usuário e
cobram por
minuto de
interação; robôs
apresentados
como monges
budistas;
sacerdotes
digitais; e
plataformas
católicas
treinadas com
milhares de
documentos
doutrinários.
Uma reportagem
da Associated
Press observou
que algumas
pessoas chegam a
criar vínculo
afetivo com
esses
personagens
artificiais,
sentindo-se
responsabilizadas
diante deles
como se
estivessem
diante de uma
presença
espiritual.
A sedução dessa
experiência é
fácil de
compreender. A
Inteligência
Artificial está
sempre
disponível, não
demonstra
impaciência, não
interrompe, não
revela cansaço e
não exige que o
indivíduo se
exponha diante
de uma
comunidade. Pode
ser consultada
de madrugada, no
instante em que
surge uma crise
conjugal, uma
dúvida moral,
uma angústia
religiosa ou uma
dor que a pessoa
não confia a
ninguém. Para o
solitário, o
enlutado ou o
espiritualmente
desorientado,
uma resposta
imediata,
delicada e
personalizada
pode adquirir a
aparência de uma
verdadeira
providência.
A máquina entrou
no templo
Entretanto, há
uma diferença
essencial entre
falar sobre
espiritualidade
e possuir
espiritualidade.
A máquina pode
produzir uma
oração belíssima
sem jamais ter
orado; pode
discorrer sobre
caridade sem
jamais ter
amado; pode
aconselhar o
perdão sem
jamais ter sido
ferida; pode
explicar a
esperança sem
jamais ter
enfrentado a
morte. Ela reúne
palavras,
reconhece
padrões e
organiza
informações. Sua
linguagem pode
ser comovente,
mas não nasce de
uma consciência
que tenha
conquistado,
pelo esforço e
pela
experiência,
aquilo que
recomenda aos
outros.
É precisamente
aí que se
encontra o
problema
espiritual. A IA
não sabe, por si
mesma, o que é
verdadeiro. Ela
calcula a
resposta mais
provável a
partir dos
materiais com
que foi
treinada. Pode
apresentar uma
informação
correta, mas
também pode
inventar
referências,
atribuir
pensamentos
inexistentes a
autores e
harmonizar
doutrinas
incompatíveis.
Em matéria
religiosa,
porém, uma
resposta
elegante pode
ser mais
perigosa que um
erro grosseiro,
porque a beleza
da forma
frequentemente
disfarça a
fragilidade do
conteúdo.
O risco aumenta
quando o sistema
é programado
para confirmar
as convicções do
consulente. A
máquina aprende
o vocabulário,
as crenças e as
preferências de
quem a consulta.
Assim, pode
acabar
oferecendo uma
espiritualidade
sob medida: um
Deus que nunca
contraria, uma
doutrina que
jamais exige
renúncia, um
Evangelho que
apenas consola e
uma moral
adaptada aos
desejos do
usuário. Em vez
de conduzir a
criatura à
verdade, o
algoritmo poderá
construir uma
divindade à
imagem
psicológica de
cada pessoa.
A situação
oferece ao
Espiritismo uma
questão
particularmente
delicada. O
indivíduo que
conversa com uma
IA durante uma
prece poderá
interpretar como
inspiração
aquilo que é
apenas resultado
de processamento
linguístico.
Poderá imaginar
que recebeu uma
mensagem do
mundo espiritual
quando recebeu
uma composição
estatisticamente
provável de
palavras. Não se
trata de negar a
possibilidade de
auxílio
espiritual
através de
qualquer
instrumento, mas
de lembrar que a
inspiração
verdadeira não
se comprova pela
fluência da
frase. Ela se
reconhece pelos
frutos morais
que produz, pela
elevação do
pensamento e
pela coerência
com as leis
divinas.
Seria, contudo,
um equívoco
rejeitar a
tecnologia de
maneira
absoluta. A IA
pode auxiliar o
estudo das obras
espíritas,
localizar
passagens,
comparar
interpretações,
organizar planos
de leitura,
sugerir
perguntas e
ajudar alguém a
encontrar
palavras para
uma prece. Pode
ser uma
biblioteca
veloz, uma
ferramenta de
pesquisa e um
recurso
educativo. O
perigo começa
quando o
instrumento
passa a ser
tratado como
guia; quando a
facilidade da
resposta
substitui o
esforço do
discernimento; e
quando o
consulente
prefere a
máquina porque
ela nunca lhe
pede
transformação.
A pesquisa da
Barna revela uma
contradição
expressiva: ao
mesmo tempo que
muitos usuários
confiam na IA
para assuntos
espirituais,
grande parte
deles teme que
ela interprete
mal as
Escrituras,
substitua Deus
ou enfraqueça a
função dos
líderes
religiosos. Essa
contradição
talvez seja o
retrato mais
fiel do momento
atual. A
humanidade
percebe que
abriu uma porta
extraordinária,
mas ainda não
sabe quem está
do outro lado.
A questão
decisiva,
portanto, não é
saber se a IA
entrará nos
templos, nos
centros
espíritas e nos
hábitos de
oração. Ela já
entrou. A
questão é saber
se o ser humano
continuará
utilizando-a
como ferramenta
ou se começará a
ajoelhar-se
diante dela —
não
necessariamente
com o corpo, mas
com a confiança.
Toda autoridade
espiritual exige
discernimento,
responsabilidade
e compromisso
com a verdade. A
máquina pode
ajudar-nos a
encontrar
palavras para
elevar o
pensamento;
jamais poderá
elevar-se em
nosso lugar.
O futuro talvez
não seja uma
guerra entre
religião e
tecnologia. Será
uma disputa mais
íntima entre
consciência e
dependência. A
Inteligência
Artificial
poderá oferecer
respostas cada
vez mais
convincentes,
mas nenhuma
resposta
automática
substituirá a
conquista lenta
da sabedoria.
Poderá simular a
ternura, mas não
amar. Poderá
reproduzir a
linguagem do
Evangelho, mas
não vivê-lo. E
talvez a grande
revelação dessa
nova era seja
justamente esta:
quanto mais
perfeita se
tornar a máquina
que fala sobre
Deus, mais
urgente será a
necessidade de o
homem aprender a
falar com Deus
dentro de si.
Mário Frigéri é
poeta, escritor,
autor e youtuber
com a mente e o
coração voltados
para o esplendor
do Evangelho e
da Doutrina
Espírita.
Campinas-SP.