Premissas
invisíveis
Todas as nossas reflexões possuem uma arquitetura
prévia. Articulamos argumentos, baseados em experiências
anteriores desta vida e dos reflexos das centenas de
outras vidas que já tivemos, e estabelecemos as
conclusões que nortearão nossa conduta. Entretanto, à
semelhança do próprio Saulo de Tarso — que planejara uma
ação transformadora e de gravidade para o seu destino —,
nem sempre percebemos que, por trás de nossas
articulações lógicas conscientes, existem premissas tão
sinuosas quanto desfavoráveis.
Faz-se necessário descer um nível mais profundo e
investigar os fundamentos morais e emocionais que
alimentam as escolhas presentes em nossos planejamentos.
Após a experiência extraordinária na estrada de Damasco,
Saulo acreditou que bastaria anunciar, aos seus antigos
companheiros levitas e fariseus, o encontro com o Cristo
ressuscitado para que todos reconhecessem imediatamente
a verdade que ele próprio havia contemplado.
Visitemos o capítulo "Rumo ao deserto", da obra Paulo
e Estêvão, em uma síntese recortada dos trechos que
seguem:
“Com a palavra na Sinagoga de Damasco, o ex-rabino
ergueu a fronte, nobremente, como costumava fazer nos
seus dias triunfais.
— Varões de Israel! — começou em tom solene — em nome do
Todo-Poderoso, venho anunciar-vos hoje, pela primeira
vez, as verdades da nova revelação. Temos ignorado, até
agora, o fato culminante da vida da Humanidade. O
Messias prometido já veio, consoante o afirmaram os
profetas que se glorificaram na virtude e no sofrimento.
Jesus de Nazaré é o Salvador dos pecadores.
Uma chuva de impropérios cortou-lhe repentinamente a
palavra.
— Covarde! Blasfemo! Cão do “Caminho”!... Fora o traidor
de Moisés!...
Foi quando um dos levitas mais idosos assomou ao grande
estrado, levantando a voz com toda a energia de que era
capaz:
— Lamentemos este episódio, mas evitemos a confusão que
em nada aproveita. Se Saulo está doente, só merece
compaixão; se traidor, só poderá merecer absoluto
desprezo. Que Jerusalém o julgue como seu embaixador.
Quanto a nós, encerremos as pregações da sinagoga e
recolhamo-nos à paz dos fiéis cumpridores da Lei.
Saulo suportou a increpação
com grande serenidade a lhe transparecer dos olhos.
Intimamente, sentia-se ferido no seu amor-próprio.
Observou que o repúdio chegava. Acostumado aos aplausos
onde quer que aparecesse, fora vítima da própria ilusão,
acreditando que, para falar com êxito sobre Jesus,
bastavam os louros efêmeros já conquistados ao mundo.
Enganara-se. Seus companheiros punham-no à margem, como
inútil.”
Em lógica, quando um argumento contém uma premissa não
expressa, ela é chamada de entimema. Entretanto, no caso
de Saulo, a questão mais profunda não estava
propriamente em uma premissa omitida do raciocínio
consciente, mas na influência de uma disposição interior
não identificada: a vaidade.
Sua estrutura consciente poderia ser assim representada:
· Premissa
maior: “O Messias prometido veio, Jesus de Nazaré é o
Salvador anunciado pelos profetas.”
· Premissa
menor: “Sou Doutor da Lei, conhecido e respeitado e vi o
Cristo ressuscitado.”
· Conclusão:
“Portanto, quando anunciar essa verdade aos meus antigos
companheiros de fé, eles a reconhecerão e a aceitarão.”
A insuficiência encontrava-se justamente na premissa
menor. Saulo avaliava corretamente a importância de sua
experiência, mas acrescentava, sem perceber, uma
conclusão indevida: a de que seu conhecimento e sua
autoridade seriam suficientes para vencer as
resistências daqueles que o ouviam.
A vaidade, permanecendo invisível à sua própria
consciência, impediu-o de perceber essa fragilidade. Se
identificada, ela modificaria a forma como avaliaria a
própria posição diante dos demais, tornando sua
expectativa mais humilde e realista.
A experiência de Saulo ensina que não basta examinar a
coerência lógica de nossas conclusões; é necessário
investigar as disposições íntimas que participam da
formação de nossas premissas.
O pensamento de Allan Kardec ao tratar do princípio do
aperfeiçoamento humano no Credo Espírita anuncia
o móvel das ações.
“O princípio do aperfeiçoamento está na natureza das
crenças, porque elas são o móvel das ações e transformam
os sentimentos. Aquele que trabalha seriamente pelo seu
próprio aperfeiçoamento garante a sua felicidade nesta
vida. Além da satisfação de sua consciência, isenta-se
das misérias, materiais e morais, que são o resultado
inevitável de suas imperfeições. Terá a calma porque as
vicissitudes não farão senão de leve roçá-lo; terá a
saúde porque não usará o seu corpo para os excessos;
será rico, porque se é sempre rico quando se sabe
contentar-se com o essencial; terá a paz da alma, porque
não terá necessidades factícias, não será mais
atormentado pela sede das honras e do supérfluo, pela
febre da ambição, da inveja e do ciúme; indulgente para
com as imperfeições de outrem, delas sofrerá menos;
excitarão a sua piedade e não a sua ira; evitando tudo o
que pode prejudicar o seu próximo, em palavras e em
ações, procurando, ao contrário, tudo o que pode ser
útil e agradável aos outros, ninguém sofrerá com o seu
contato.”
As crenças modificam os sentimentos, mas “no sentimento
reside o controle da vida” (Emmanuel). A maneira como
conduzimos a própria existência encontra-se, portanto,
profundamente relacionada às crenças que alimentam
nossos sentimentos e orientam nossas escolhas.
Entretanto, esta conclusão, por si só, pode apenas
alimentar o brilho passageiro de uma satisfação mental.
Já possuímos o recurso da vigilância, mas frequentemente
ele é ativado pela dor, pela crise ou pela contrariedade
— e não incorporado como atitude permanente de
observação interior. Exige-se de nós, espíritas, que
esse movimento despertado pelas circunstâncias difíceis
se estenda à vida cotidiana, conduzindo-nos a
compreensões sempre renovadas. Não é por outro motivo
que reconhecemos no Espiritismo a ciência que estuda o
elemento espiritual — nós mesmos.
Bibliografia:
EMMANUEL (Espírito). Paulo e Estêvão.
Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Cap. "Rumo ao
Deserto". Brasília: FEB.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
Segunda parte, "Credo espírita". Tradução de Maria
Ângela Baraldi. Guarulhos: Mundo Maior, 2013.
EMMANUEL (Espírito). Vinha de Luz.
Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Lição
"Guardemos o Coração". Rio de Janeiro: FEB.