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por Osvaldo Camargo Bräscher

 

Premissas invisíveis


Todas as nossas reflexões possuem uma arquitetura prévia. Articulamos argumentos, baseados em experiências anteriores desta vida e dos reflexos das centenas de outras vidas que já tivemos, e estabelecemos as conclusões que nortearão nossa conduta. Entretanto, à semelhança do próprio Saulo de Tarso — que planejara uma ação transformadora e de gravidade para o seu destino —, nem sempre percebemos que, por trás de nossas articulações lógicas conscientes, existem premissas tão sinuosas quanto desfavoráveis.

Faz-se necessário descer um nível mais profundo e investigar os fundamentos morais e emocionais que alimentam as escolhas presentes em nossos planejamentos.

Após a experiência extraordinária na estrada de Damasco, Saulo acreditou que bastaria anunciar, aos seus antigos companheiros levitas e fariseus, o encontro com o Cristo ressuscitado para que todos reconhecessem imediatamente a verdade que ele próprio havia contemplado.

Visitemos o capítulo "Rumo ao deserto", da obra Paulo e Estêvão, em uma síntese recortada dos trechos que seguem:

“Com a palavra na Sinagoga de Damasco, o ex-rabino ergueu a fronte, nobremente, como costumava fazer nos seus dias triunfais.

— Varões de Israel! — começou em tom solene — em nome do Todo-Poderoso, venho anunciar-vos hoje, pela primeira vez, as verdades da nova revelação. Temos ignorado, até agora, o fato culminante da vida da Humanidade. O Messias prometido já veio, consoante o afirmaram os profetas que se glorificaram na virtude e no sofrimento. Jesus de Nazaré é o Salvador dos pecadores.

Uma chuva de impropérios cortou-lhe repentinamente a palavra.

— Covarde! Blasfemo! Cão do “Caminho”!... Fora o traidor de Moisés!...

Foi quando um dos levitas mais idosos assomou ao grande estrado, levantando a voz com toda a energia de que era capaz:

— Lamentemos este episódio, mas evitemos a confusão que em nada aproveita. Se Saulo está doente, só merece compaixão; se traidor, só poderá merecer absoluto desprezo. Que Jerusalém o julgue como seu embaixador. Quanto a nós, encerremos as pregações da sinagoga e recolhamo-nos à paz dos fiéis cumpridores da Lei.

Saulo suportou a increpação com grande serenidade a lhe transparecer dos olhos. Intimamente, sentia-se ferido no seu amor-próprio. Observou que o repúdio chegava. Acostumado aos aplausos onde quer que aparecesse, fora vítima da própria ilusão, acreditando que, para falar com êxito sobre Jesus, bastavam os louros efêmeros já conquistados ao mundo. Enganara-se. Seus companheiros punham-no à margem, como inútil.”

Em lógica, quando um argumento contém uma premissa não expressa, ela é chamada de entimema. Entretanto, no caso de Saulo, a questão mais profunda não estava propriamente em uma premissa omitida do raciocínio consciente, mas na influência de uma disposição interior não identificada: a vaidade.

Sua estrutura consciente poderia ser assim representada:


·
 Premissa maior: “O Messias prometido veio, Jesus de Nazaré é o Salvador anunciado pelos profetas.”

· Premissa menor: “Sou Doutor da Lei, conhecido e respeitado e vi o Cristo ressuscitado.”

· Conclusão: “Portanto, quando anunciar essa verdade aos meus antigos companheiros de fé, eles a reconhecerão e a aceitarão.”


A insuficiência encontrava-se justamente na premissa menor. Saulo avaliava corretamente a importância de sua experiência, mas acrescentava, sem perceber, uma conclusão indevida: a de que seu conhecimento e sua autoridade seriam suficientes para vencer as resistências daqueles que o ouviam.

A vaidade, permanecendo invisível à sua própria consciência, impediu-o de perceber essa fragilidade. Se identificada, ela modificaria a forma como avaliaria a própria posição diante dos demais, tornando sua expectativa mais humilde e realista.

A experiência de Saulo ensina que não basta examinar a coerência lógica de nossas conclusões; é necessário investigar as disposições íntimas que participam da formação de nossas premissas.

O pensamento de Allan Kardec ao tratar do princípio do aperfeiçoamento humano no Credo Espírita anuncia o móvel das ações.

“O princípio do aperfeiçoamento está na natureza das crenças, porque elas são o móvel das ações e transformam os sentimentos. Aquele que trabalha seriamente pelo seu próprio aperfeiçoamento garante a sua felicidade nesta vida. Além da satisfação de sua consciência, isenta-se das misérias, materiais e morais, que são o resultado inevitável de suas imperfeições. Terá a calma porque as vicissitudes não farão senão de leve roçá-lo; terá a saúde porque não usará o seu corpo para os excessos; será rico, porque se é sempre rico quando se sabe contentar-se com o essencial; terá a paz da alma, porque não terá necessidades factícias, não será mais atormentado pela sede das honras e do supérfluo, pela febre da ambição, da inveja e do ciúme; indulgente para com as imperfeições de outrem, delas sofrerá menos; excitarão a sua piedade e não a sua ira; evitando tudo o que pode prejudicar o seu próximo, em palavras e em ações, procurando, ao contrário, tudo o que pode ser útil e agradável aos outros, ninguém sofrerá com o seu contato.”

As crenças modificam os sentimentos, mas “no sentimento reside o controle da vida” (Emmanuel). A maneira como conduzimos a própria existência encontra-se, portanto, profundamente relacionada às crenças que alimentam nossos sentimentos e orientam nossas escolhas.

Entretanto, esta conclusão, por si só, pode apenas alimentar o brilho passageiro de uma satisfação mental. Já possuímos o recurso da vigilância, mas frequentemente ele é ativado pela dor, pela crise ou pela contrariedade — e não incorporado como atitude permanente de observação interior. Exige-se de nós, espíritas, que esse movimento despertado pelas circunstâncias difíceis se estenda à vida cotidiana, conduzindo-nos a compreensões sempre renovadas. Não é por outro motivo que reconhecemos no Espiritismo a ciência que estuda o elemento espiritual — nós mesmos.


Bibliografia
:

EMMANUEL (Espírito). Paulo e Estêvão. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Cap. "Rumo ao Deserto". Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Segunda parte, "Credo espírita". Tradução de Maria Ângela Baraldi. Guarulhos: Mundo Maior, 2013.

EMMANUEL (Espírito). Vinha de Luz. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Lição "Guardemos o Coração". Rio de Janeiro: FEB.


   

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita