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por Anselmo Ferreira Vasconcelos

 

Encarando a morte com naturalidade


A perspectiva da morte ainda assusta sobremaneira a mente de grande número de pessoas. Como confessou-me recentemente um mecânico: - “Ah! Doutor. Tenho um medo danado da morte”. De fato, o temor do “desconhecido” apavora as mentes incautas, que simplesmente evitam pensar no irremediável. Com efeito, a morte chega para todos, mais cedo ou mais tarde, e nada pode impedir isso.

Diante desse fato concreto, resta-nos – pela lógica – desvendá-la e assimilar o seu significado. Nesse sentido, importa antes primordialmente considerar, para que tenhamos uma “boa morte”, como efetivamente vivemos. Afinal de contas, viver e morrer são dois fenômenos naturais entrelaçados, e que permeiam a trajetória de todas as almas que envergam um corpo nesta dimensão. Desse modo, o “saber viver” é determinante para um retorno vencedor e abençoado à vida espiritual.

Diante das sábias leis espirituais que regem nossos destinos, precisamos, pois, viver existências dignas, decentes e realizadoras no campo do bem. São tais conquistas, e apenas elas - cabe frisar -, que nos facultarão o louro da real vitória. São elas, ainda, que nos credenciam a receber o socorro e assistência espiritual imediatas na transição para o além-túmulo, independente da maneira como ocorra a nossa desencarnação. Justo prêmio dado, aliás, àqueles que se empenham em ser criaturas humanas melhores, extinguindo ou pelo menos mitigando as suas imperfeições.

Por outro lado, é de bom alvitre estarmos mentalmente preparados para a possibilidade de desencarnarmos a qualquer momento de nossas vidas. Vemos, a propósito, pessoas de todas as faixas etárias e extratos sociais perecerem diariamente pelas mais diferentes razões e motivos. E tais acontecimentos deveriam nos estimular a pensar sobre a nossa hora de voltar ao Mundo Maior, que também fatalmente chegará para nós, talvez até mesmo de forma inesperada. Posto isto, é fundamental vivermos uma existência ativa e profícua sob todos os aspectos – únicas garantias para um retorno, digamos, menos atribulado.

Esses imperativos de vida levam-me a recorrer, uma vez mais, à metáfora do cinema – que, em muitas ocasiões, imita a vida real. Mais especificamente, ao filme O Resgate do Soldado Ryan, talvez o melhor desse gênero já produzido, dirigido pelo talentoso cineasta Steven Spielberg. Resumidamente, o drama inicia com o desembarque das tropas americanas na Normandia – o chamado dia D da 2ª Guerra Mundial –, na praia de Omaha, em 6 de junho de 1944, sob intenso fogo cruzado das tropas alemãs ali entrincheiradas. O personagem principal do enredo, o Capitão John Miller, estrelado pelo excelente ator Tom Hanks, tem a missão de liderar seus homens nessa espinhosa tarefa de sobreviver ao assalto à referida praia. Superado os sangrentos combates à custa de pesadas baixas, diga-se, o Capitão recebe outra missão especial: resgatar o soldado James Ryan, interpretado por outro astro do cinema americano, o ator Matt Damon.

Ryan era o único filho sobrevivente de uma família de quatro soldados, cujo paradeiro  provável era atrás das linhas inimigas. Por isso, o Exército americano decide pelo seu resgate e mobiliza todos os recursos nesse propósito. Posto isto, o Capitão Miller e o seu pelotão são incumbidos de salvar Ryan numa missão de altíssimo risco. Ele e os seus homens enfrentam situações extremas e muitos sucumbem pelo caminho – vítimas das armadilhas do inimigo. No entanto, no final, ele cumpre o dramático objetivo, mas a um preço brutal. No seu último sopro de vida, ele consegue ainda dizer a Ryan: - “Faça por merecer”.

Passam-se os anos e vemos Ryan, já bem envelhecido, acompanhado de seus familiares no Cemitério e Memorial Americano da Normandia. Ele algo claudicante inclina-se para um jazigo, cujo nome estampado era o do Capitão John Miller, e declara: - “Tentei viver minha vida da melhor maneira possível. Espero que isso tenha sido suficiente. Espero que, pelo menos aos seus olhos, eu tenha merecido tudo o que vocês fizeram por mim". Nesse comenos, a sua esposa lentamente se aproxima, e ele, muito emocionado, lhe pergunta se tinha sido um bom homem e se havia feito por merecer.

Assim sendo, creio que poderíamos fazer algo semelhante e, de tempos em tempos, indagar às nossas consciências se estamos correspondendo às expectativas de Deus na encarnação em decurso, assim como fazendo por merecer toda a ajuda recebida da espiritualidade. Nesse processo, o que realmente conta é como vivemos.

Cumpre destacar que há conteúdos extraordinários disponibilizados pela literatura espírita a respeito da morte que merecem ser apreciados. Por exemplo, o Espírito Emmanuel alerta, na introdução da obra No Mundo Maior, ditada pelo Espírito André Luiz (psicografia de Francisco Cândido Xavier):


“A morte a ninguém propiciará passaporte gratuito para a ventura celeste. Nunca promoverá compulsoriamente homens a anjos. Cada criatura transporá essa aduana da eternidade com a exclusiva bagagem do que houver semeado, e aprenderá que a ordem e a hierarquia, a paz do trabalho edificante, são característicos imutáveis da Lei, em toda a parte.

“Ninguém, depois do sepulcro, gozará de um descanso a que não tenha feito jus, porque “o Reino do Senhor não vem com aparências externas”.

“[...].

“É natural; porém, cada lavrador respira o ar do campo que escolheu.”


Por fim, arremata com profunda sabedoria a mesma ilustre entidade espiritual, em outra obra ditada pelo Espírito André Luiz, Missionários da Luz  (também psicografada por Francisco Cândido Xavier):


“A morte física não é o fim. É pura mudança de capítulo no livro da evolução e do aperfeiçoamento. Ao seu influxo, ninguém deve esperar soluções finais e definitivas, quando sabemos que cem anos de atividade no mundo representam uma fração relativamente curta de tempo para qualquer edificação na vida eterna.”


Concluindo, a morte é simplesmente a mudança de endereço, no qual deixamos uma dimensão – a material – para adentrarmos em outra - a espiritual. Assim sendo, cuidemos para que o nosso retorno seja espiritualmente glorioso por meio da paz na consciência.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita