O propósito de Jesus continua em curso
Homem de carne e osso e sangue nas veias. Vida simples,
de família operária, nascido de parto natural em Nazaré,
cidadezinha na Galileia, região então não muito bem
conceituada, habitada por gentios, pagãos. Conviveu no
meio do povo pobre e oprimido, e fez da defesa dos
direitos dos sofredores o ponto alto da sua missão na
Terra. Um homem em meio aos homens, chamado Jesus.
Jesus teve pai, mãe, irmãos. Nada leva a crer que ele
tivesse constituído família própria. A família de Jesus
foi a humanidade. As histórias de possível
relacionamento com Maria Madalena bem possivelmente não
passam de lendas.
Emocionalmente muito equilibrado, seus sentimentos de
alegria ou contrariedade eventual devem ter sido sempre
permeados pelo espírito de compreensão e tolerância.
Imagino Jesus sorrindo, jamais gargalhando, mais
orientando do que censurando ou julgando.
A partir do século quarto e ao longo dos séculos
seguintes, a igreja cristã passa a mostrar o Jesus-Deus,
partícipe da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo),
filho Unigênito, detentor de poderes milagrosos,
salvador messiânico, nascido de virgem, depois de morto
ressuscitado em corpo de carne, e outras tantas “construções” convenientes
aos interesses do poder do Estado e do poder religioso,
que serviram para tirar dele a humanidade natural e
revesti-lo de santidade, de sobrenaturalidade. Um ser
agraciado por Deus com a pureza, sem ter passado pelos
percalços comuns à trajetória humana.
O passar do tempo acabou escondendo a natureza humana de
Jesus, característica esta que seria um estímulo para
segui-lo. Séculos de doutrinação mostrando um Jesus
mitificado, deificado, cultuado na ideia do sagrado,
moldaram a figura do Mestre entre os cristãos, e entre
os espíritas também, mais recentemente.
Grande parte dos espíritas bebeu nessa fonte e muitos
não conseguem desapegar-se da simbologia da cruz
salvadora, do produtor de milagres. O mundo cristão
desconstruiu o Jesus real, o homem que existiu, nascido
de mulher, e construiu quase que um ser imaginário que
para muitos está distante, apenas idealizado.
A maioria dos cristãos se prende mais aos fatos e
fenômenos que cercaram a vida de Jesus do que
propriamente à sua doutrina, à missão educadora do
Espírito na Terra, empenhada em fazer conhecer a Lei de
Amor que rege a vida, em fazer progredir os hábitos e
costumes humanos.
A descaracterização do perfil e da doutrina original de
Jesus gerou atraso no progresso espiritual da
humanidade, mas de maneira alguma invalidou seu
propósito, que continua em curso, de inspirar os homens
a serem mais fraternos, pacíficos e solidários.
Matéria embasada em artigo de José
Herculano Pires, publicado no jornal Mensagem, ano
I, nº6, dezembro de 1975.
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