No bojo da atual crise planetária, talvez prenúncio de
acontecimentos ainda mais graves, a figura do homo
economicus se sobressai, por sua suposta
racionalidade e perspicácia voltada à obtenção crescente
de ganhos financeiros e materiais, na qual a relação
custo-benefício é quase sempre exageradamente enfocada.
De fato, nos tempos presentes, essencialmente marcados
pela ânsia dos indivíduos em ter e possuir,
predomina a proliferação de tais indivíduos, cujo
excessivo poder gera um quadro social de enormes
disparidades e insegurança.
Nesse sentido, não há como negar que estamos enfrentando
uma crise civilizatória sem precedentes – em muito
agravada pela intervenção do homo economicus -,
já que temos tudo para organizar um ambiente de
bem-estar coletivo, mas deliberadamente não o fazemos.
Dito isso, não é difícil perceber que o homo
economicus contemporâneo encontra solo fértil à
ampliação desmesurada do seu patrimônio, graças a sua
acuidade mental, destreza, visão empresarial e
substanciosos recursos, que lhe facultam aproveitar as
oportunidades de negócios como um leão faminto em plena
caça nas savanas. A financeirização (rentismo)
decorrente da crescente concentração de riqueza desse
seletíssimo grupo compõe o denominado hodiernamente de
super-ricos.
Reportando-se a eles, no prefácio do relatório da
Oxfam Internacional, intitulado Resistindo ao
domínio dos ricos. Defendendo a Liberdade Contra o Poder
dos Bilionários, a Secretária Geral da Anistia
Internacional, Agnès Callamard, observa que:
“... no último ano, as fortunas dos bilionários
cresceram três vezes mais rápido do que nos cinco anos
desde 2020. O primeiro trilionário está no horizonte.
Enquanto isso, uma em cada quatro pessoas se preocupa
regularmente em não ter comida suficiente para comer,
tendo que pular refeições para sobreviver, e a vida das
pessoas comuns está se tornando impossível de custear”
(ênfase minha).
Analisando esse quadro desestabilizador, o economista
Ladislau Dowbor conjectura em seu livro, A Revolução
Digital: Uma Sociedade à Beira de Rupturas, que os
110 trilhões de dólares de bens e serviços atualmente
gerados pelo PIB mundial, poderia proporcionar cerca de
21 mil reais por mês por cada família de quatro pessoas.
Como ele bem pondera, “o desafio não é produzir mais, e
sim de reorganizar o que produzimos, para quem, e com
que impactos ambientais”.
No entanto, é visível a falta de interesse na
viabilização de um cenário construtivo de prosperidade
geral, já que o homo economicus usufrui de um
poder extraordinário, açambarcando as principais
decisões no mundo. Ao desfrutar de uma posição altamente
privilegiada, essa classe enriquece cada vez mais à
custa dos seus semelhantes como nunca ocorreu antes. Com
efeito, tais indivíduos e suas organizações exercem um
controle férreo nas suas cadeias produtivas, ditando,
assim, praticamente o que deve ser produzido e a que
preço.
Por conseguinte, a maior parte da população mundial
empobrece dramaticamente. No Brasil, por exemplo, mais
de 80% das famílias têm algum grau de endividamento, sem
falar do comprometimento de suas rendas. Ou seja, as
pessoas não conseguem mais progredir economicamente,
considerando que a mobilidade social não lhes é viável
como outrora foi. Além disso, as suas condições de vida
deterioram-se significativamente tendo-se em vista que
as suas rendas são cada vez mais declinantes.
De modo geral, a influência do homo economicus no
mundo atual é altamente perniciosa, pois ele é o
responsável por gerar cruéis anomalias sociais. Nessa
altura da análise, é importante frisar que tais
criaturas são geralmente moldadas pelo desejo
irrefreável de conquistar o lucro imediato e volumoso.
Como não floresce nessas almas cogitações de ordem
transcendental – haja vista os valores e crenças pelas
quais se guiam -, vivem, essencialmente, para acumular
bens provisórios que não levarão para o além-túmulo.
Por isso, o homo economicus tende a ser
absolutamente materialista, egoísta e manipulador. De
modo geral, seus irmãos de estrada são apenas um meio
para atingir os seus objetivos nefastos. E pessoas desse
jaez pouco ou nada se importam com questões humanistas,
e quando demonstram interesse é apenas por razões de
conveniência. Basicamente, o seu interesse se
circunscreve às cifras gigantescas dos seus
empreendimentos, nos quais os mecanismos espúrios, prima
facie, são amplamente usados tais como golpes,
negociatas, lobby, corrupção, suborno, entre outros. O homo
economicus é um ser diabólico, pois lhe falta a
inteligência espiritual, que poderia lhe atenuar os
impulsos infelizes.
Outros há, na sociedade em que vivemos, adeptos em
escala bem mais reduzida dessa forma de pensar, mas que
causam grande estrago devidos às suas ideias insensatas.
Por exemplo, é comum na atualidade ver certos
economistas criticarem acerbamente o valor do Salário
Mínimo (SM) do país, atribuindo-lhe todos os males do
descontrole das finanças do Estado. Esse raciocínio
enviesado lamentavelmente desconsidera outros fatores
essenciais, como o esforço empreendido – e consequente
direito – de trabalhadores na ativa ou dos aposentados e
pensionistas para desfrutar de uma renda digna na
velhice, bem como os gastos nababescos gerados por
certas “castas” do funcionalismo público. Desse modo, o
raciocínio do homo economicus é tendencioso,
tacanho e incompleto. A sua forma limitada de ver as
coisas não o credencia a resolver os graves problemas
que ora afligem a humanidade. Os princípios humanistas
sequer permeiam as suas análises e propostas, como
recentemente vi um consagrado economista-empresário
(dono de banco de investimento, por sinal) defender o
congelamento do valor do SM por seis anos.
Dito isso, pode-se inferir que o homo economicus vive
mergulhado na mais profunda ilusão. Como bem explica o
Espírito Joanna de Ângelis, na obra Desperte e Seja
Feliz (psicografia de Divaldo Pereira Franco):
“A ilusão é responsável por inúmeros sofrimentos.
“Valorizando, excessivamente, os bens transitórios e
apegando-se em demasia aos interesses materiais –
paixões sensuais, valores amoedados, propriedades,
juventude, saúde orgânica, entre outros -, o indivíduo
teme vê-los desaparecer, transformar-se ou gerar
conflitos, no entanto, deixando-os todos, um dia,
mediante o fenômeno da morte.
“[...].
“A sobrevivência da vida à morte é a única e legitima
expressão da existência humana.
“Preparar-se para essa luminosa experiência inevitável,
treinando o desapego e a solidariedade fraternal, é uma
forma eficaz de diluir a ilusão, evitando perdas e
sofrimentos futuros.
“Somente, porém, sobrevive livre aquele que aprendeu no
corpo a desatar-se das amarras das paixões enganadoras,
nas quais em algum momento tentaram aprisioná-lo”.
Portanto, a melhor salvaguarda para se experienciar uma
vida equilibrada é a nossa transformação em homo
spiritualis. O Senhor da vida tem nos proporcionado
todos os cuidados necessários à nossa redenção,
facultando-nos, amorosamente, experiências, desafios e
aprendizados indispensáveis. Com Ele ao nosso lado
fazemos um curso permanente de aquisição de sabedoria.
Além disso, é notório que Ele deseja que acumulemos
riquezas muito maiores do que as puramente econômicas,
isto é, as de natureza espiritual, pois estas são
imperecíveis. Ao conquistá-las, ninguém jamais poderá
nos subtraí-las, já que serão um patrimônio eternamente
nosso. Ainda ao conquistá-las, seremos, então,
autênticos homo spiritualis: criaturas que pensam
e agem pela bússola do bem e os valores do Evangelho de
Jesus. Ao conquistarmos tais riquezas, estaremos
servindo a Deus e aos nossos irmãos de estrada com
dedicação e amor, e, assim, ajudando a construir,
efetivamente, um mundo melhor. Por fim, é inquestionável
que nessa hora turbulenta precisamos – mais do que nunca
– de seres humanos que se comportem como homo
spiritualis.