Especial

por Anselmo Ferreira Vasconcelos

Homo economicus x homo spiritualis: de quem precisamos mais?


No bojo da atual crise planetária, talvez prenúncio de acontecimentos ainda mais graves, a figura do homo economicus se sobressai, por sua suposta racionalidade e perspicácia voltada à obtenção crescente de ganhos financeiros e materiais, na qual a relação custo-benefício é quase sempre exageradamente enfocada. De fato, nos tempos presentes, essencialmente marcados pela ânsia dos indivíduos em ter possuir, predomina a proliferação de tais indivíduos, cujo excessivo poder gera um quadro social de enormes disparidades e insegurança.

Nesse sentido, não há como negar que estamos enfrentando uma crise civilizatória sem precedentes – em muito agravada pela intervenção do homo economicus -, já que temos tudo para organizar um ambiente de bem-estar coletivo, mas deliberadamente não o fazemos. Dito isso, não é difícil perceber que o homo economicus contemporâneo encontra solo fértil à ampliação desmesurada do seu patrimônio, graças a sua acuidade mental, destreza, visão empresarial e substanciosos recursos, que lhe facultam aproveitar as oportunidades de negócios como um leão faminto em plena caça nas savanas. A financeirização (rentismo) decorrente da crescente concentração de riqueza desse seletíssimo grupo compõe o denominado hodiernamente de super-ricos.

Reportando-se a eles, no prefácio do relatório da Oxfam Internacional, intitulado  Resistindo ao domínio dos ricos. Defendendo a Liberdade Contra o Poder dos Bilionários, a Secretária Geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, observa que:

“... no último ano, as fortunas dos bilionários cresceram três vezes mais rápido do que nos cinco anos desde 2020. O primeiro trilionário está no horizonte. Enquanto isso, uma em cada quatro pessoas se preocupa regularmente em não ter comida suficiente para comer, tendo que pular refeições para sobreviver, e a vida das pessoas comuns está se tornando impossível de custear” (ênfase minha).

Analisando esse quadro desestabilizador, o economista Ladislau Dowbor conjectura em seu livro, A Revolução Digital: Uma Sociedade à Beira de Rupturas, que os 110 trilhões de dólares de bens e serviços atualmente gerados pelo PIB mundial, poderia proporcionar cerca de 21 mil reais por mês por cada família de quatro pessoas. Como ele bem pondera, “o desafio não é produzir mais, e sim de reorganizar o que produzimos, para quem, e com que impactos ambientais”.

No entanto, é visível a falta de interesse na viabilização de um cenário construtivo de prosperidade geral, já que o homo economicus usufrui de um poder extraordinário, açambarcando as principais decisões no mundo. Ao desfrutar de uma posição altamente privilegiada, essa classe enriquece cada vez mais à custa dos seus semelhantes como nunca ocorreu antes. Com efeito, tais indivíduos e suas organizações exercem um controle férreo nas suas cadeias produtivas, ditando, assim, praticamente o que deve ser produzido e a que preço.

Por conseguinte, a maior parte da população mundial empobrece dramaticamente. No Brasil, por exemplo, mais de 80% das famílias têm algum grau de endividamento, sem falar do comprometimento de suas rendas. Ou seja, as pessoas não conseguem mais progredir economicamente, considerando que a mobilidade social não lhes é viável como outrora foi. Além disso, as suas condições de vida deterioram-se significativamente tendo-se em vista que as suas rendas são cada vez mais declinantes.

De modo geral, a influência do homo economicus no mundo atual é altamente perniciosa, pois ele é o responsável por gerar cruéis anomalias sociais. Nessa altura da análise, é importante frisar que tais criaturas são geralmente moldadas pelo desejo irrefreável de conquistar o lucro imediato e volumoso. Como não floresce nessas almas cogitações de ordem transcendental – haja vista os valores e crenças pelas quais se guiam -, vivem, essencialmente, para acumular bens provisórios que não levarão para o além-túmulo.

Por isso, o homo economicus tende a ser absolutamente materialista, egoísta e  manipulador. De modo geral, seus irmãos de estrada são apenas um meio para atingir os seus objetivos nefastos. E pessoas desse jaez pouco ou nada se importam com questões humanistas, e quando demonstram interesse é apenas por razões de conveniência. Basicamente, o seu interesse se circunscreve às cifras gigantescas dos seus empreendimentos, nos quais os mecanismos espúrios, prima facie, são amplamente usados tais como golpes, negociatas, lobby, corrupção, suborno, entre outros. O homo economicus é um ser diabólico, pois lhe falta a inteligência espiritual, que poderia lhe atenuar os impulsos infelizes.

Outros há, na sociedade em que vivemos, adeptos em escala bem mais reduzida dessa forma de pensar, mas que causam grande estrago devidos às suas ideias insensatas. Por exemplo, é comum na atualidade ver certos economistas criticarem acerbamente o valor do Salário Mínimo (SM) do país, atribuindo-lhe todos os males do descontrole das finanças do Estado. Esse raciocínio enviesado lamentavelmente desconsidera outros fatores essenciais, como o esforço empreendido – e consequente direito – de trabalhadores na ativa ou dos aposentados e pensionistas para desfrutar de uma renda digna na velhice, bem como os gastos nababescos gerados por certas “castas” do funcionalismo público. Desse modo, o raciocínio do homo economicus é tendencioso, tacanho e incompleto. A sua forma limitada de ver as coisas não o credencia a resolver os graves problemas que ora afligem a humanidade. Os princípios humanistas sequer permeiam as suas análises e propostas, como recentemente vi um consagrado economista-empresário (dono de banco de investimento, por sinal) defender o congelamento do valor do SM por seis anos.

Dito isso, pode-se inferir que o homo economicus vive mergulhado na mais profunda ilusão. Como bem explica o Espírito Joanna de Ângelis, na obra Desperte e Seja Feliz (psicografia de Divaldo Pereira Franco):

“A ilusão é responsável por inúmeros sofrimentos.

“Valorizando, excessivamente, os bens transitórios e apegando-se em demasia aos interesses materiais – paixões sensuais, valores amoedados, propriedades, juventude, saúde orgânica, entre outros -, o indivíduo teme vê-los desaparecer, transformar-se ou gerar conflitos, no entanto, deixando-os todos, um dia, mediante o fenômeno da morte.

“[...].

“A sobrevivência da vida à morte é a única e legitima expressão da existência humana.

“Preparar-se para essa luminosa experiência inevitável, treinando o desapego e a solidariedade fraternal, é uma forma eficaz de diluir a ilusão, evitando perdas e sofrimentos futuros.

“Somente, porém, sobrevive livre aquele que aprendeu no corpo a desatar-se das amarras das paixões enganadoras, nas quais em algum momento tentaram aprisioná-lo”.

 Portanto, a melhor salvaguarda para se experienciar uma vida equilibrada é a nossa transformação em homo spiritualis. O Senhor da vida tem nos proporcionado todos os cuidados necessários à nossa redenção, facultando-nos, amorosamente, experiências, desafios e aprendizados indispensáveis. Com Ele ao nosso lado fazemos um curso permanente de aquisição de sabedoria. Além disso, é notório que Ele deseja que acumulemos riquezas muito maiores do que as puramente econômicas, isto é, as de natureza espiritual, pois estas são imperecíveis. Ao conquistá-las, ninguém jamais poderá nos subtraí-las, já que serão um patrimônio eternamente nosso. Ainda ao conquistá-las, seremos, então, autênticos homo spiritualis: criaturas que pensam e agem pela bússola do bem e os valores do Evangelho de Jesus. Ao conquistarmos tais riquezas, estaremos servindo a Deus e aos nossos irmãos de estrada com dedicação e amor, e, assim, ajudando a construir, efetivamente, um mundo melhor. Por fim, é inquestionável que nessa hora turbulenta precisamos – mais do que nunca – de seres humanos que se comportem como homo spiritualis.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita