|
Natural de Barra Bonita (SP) e residente em
Bauru (SP), ainda em formação acadêmica, Lucas
Giovanni Bachini (foto) atua
profissionalmente como Social Media, fotógrafo e
filmmaker. Vincula-se ao CEAC (Centro Espírita
Amor e Caridade), na mesma cidade onde reside.
Não exerce cargo de direção na instituição, mas
atua como voluntário em algumas frentes de
trabalho, inclusive mediunicamente.
Entrevistamos Lucas sobre sua experiência
virtual, o uso das redes sociais e a inclusão do
jovem.
Como você enxerga as redes sociais visando à
divulgação espírita?
As redes sociais hoje são um dos principais
pilares da divulgação. É outro mundo em que
precisamos estar presentes. O movimento espírita
esqueceu que os jovens estão por aí. E onde está
a grande maioria das pessoas hoje? Na internet.
Lá estão pessoas que precisam de ajuda, de
orientação, de uma palavra amiga, de mensagens
boas e de bons conteúdos. Eu acredito que a
internet hoje é um dos maiores mecanismos para
alcançar pessoas.
Considera que elas têm auxiliado efetivamente
nesse processo?
Temos vários exemplos de pessoas respeitadas que
são vistas por muitas outras. E isso acontece
porque toda doutrina, todo movimento e tudo
aquilo que você for fazer na vida precisa de
pessoas que tragam responsabilidade sobre aquilo
que falam. Quando existe uma estratégia, uma
narrativa e alguém ajudando a organizar essa
comunicação, seja de forma voluntária ou
profissional, o resultado costuma ser muito
melhor.
E como ser mais eficiente para atingir o grande
público?
Hoje, uma forma simples seria utilizar as
palestras e criar cortes de um a três minutos
dos melhores momentos, aqueles que realmente
tocaram, chamaram a atenção ou trouxeram uma
reflexão importante. Numa palestra de 40
minutos, você consegue extrair de 18 a 24
trechos. Já imaginou? São conteúdos que podem
ser publicados ao longo do mês. Também é
importante mostrar as atividades da casa, o que
está sendo realizado, quais cursos existem, os
projetos em andamento e os planejamentos. A
livraria pode gerar muito conteúdo, apresentando
um livro e comentando trechos ou capítulos.
Outro detalhe é fazer com que mais pessoas
participem. Incentivar trabalhadores,
expositores, estudantes e frequentadores a
gravarem conteúdos e relatarem experiências.
Isso faz com que a comunicação fique viva e
rotativa. O trabalho cresce quando mais pessoas
participam dele.
Isso tudo tem um custo. Equipamentos e
divulgação envolvem despesas. Por isso, é
importante pedir ajuda, envolver as pessoas e
mostrar que manter uma comunicação ativa também
faz parte do trabalho da casa. Porque, quando
não existe investimento, planejamento ou
participação coletiva, tudo fica mais difícil. E
aí acontece o que estamos vendo em muitos
lugares: centros com dificuldades para atrair
novas pessoas, com pouca presença digital e,
muitas vezes, com a participação presencial
diminuindo cada vez mais ao longo dos anos.
Qual a grande dica de aproveitamento desses
recursos virtuais?
A grande dica para aproveitar os recursos
virtuais seria utilizar as palestras de forma
estratégica. O que falta, muitas vezes, é alguém
organizando esse conteúdo. E isso dá trabalho.
Os centros não deveriam ter medo ou receio de
buscar recursos para investir nessa área.
Porque o centro poderia estar publicando vídeos
todos os dias. Outra coisa muito importante é
mostrar os bastidores: como são preparados os
alimentos, como funcionam os trabalhos, como
surgem os projetos, como as pessoas pensam e
organizam as atividades.
Não necessariamente expor quem está sendo
ajudado, mas mostrar os bastidores do trabalho.
Dinheiro é uma ferramenta. O centro, assim como
qualquer instituição, precisa de recursos para
manter atividades, melhorar sua estrutura,
divulgar palestras, promover eventos e alcançar
novas pessoas. Então, também existe um trabalho
de conscientização em relação a isso. Se o
centro quer crescer, comunicar-se melhor e
alcançar mais pessoas, precisa investir em
comunicação. E, muitas vezes, isso significa
investir em equipamentos, ferramentas ou até em
pessoas que possam ajudar a fazer esse trabalho
acontecer. Porque boa vontade é fundamental, mas
estrutura também é necessária para que as coisas
continuem crescendo.
Como incentivar mais essa integração
jovem/movimento espírita/virtualidade?
Eu conheço um pouco da realidade evangélica,
porque participei dela. E, pelo menos nos
ambientes que frequentei, a música é o que une
tudo. Depois vêm os cultos, os estudos e os
demais trabalhos. A pessoa geralmente chega pela
música, identifica-se e depois vai aprofundando
conforme vai gostando de uma coisa ou de outra.
Quando você vai a alguns centros espíritas,
muitas vezes encontra música erudita, músicas
muito antigas ou estilos voltados para um
público mais específico. Isso agrada a
determinadas pessoas, mas dificilmente alcança
uma grande massa de jovens. Para alcançar mais
gente, talvez fosse necessário pensar também em
músicas mais acessíveis, mais agradáveis de
ouvir para as novas gerações, músicas que falem
de Cristo, de Deus, de espiritualidade e de
valores humanos, numa linguagem que converse
melhor com quem está chegando. E, sobre alcançar
os jovens, eu acredito que uma das coisas mais
importantes é ouvi-los. Ouvir o que sentem, o
que pensam, quais são suas dúvidas e suas
dificuldades. Porque uma das percepções que
tenho, em alguns lugares, é que os jovens nem
sempre encontram espaço para expressar aquilo
que realmente estão vivendo. E, quando alguém se
sente ouvido, passa a sentir que também faz
parte daquele ambiente.
Em sua experiência, qual a plataforma mais
eficiente atualmente?
Não existe uma plataforma específica que seja
mais eficiente. Todas são eficientes, desde que
você saiba utilizar os recursos necessários de
cada uma. Mas não é só postar. Você precisa
responder comentários e directs, repostar
conteúdos, interagir com as pessoas e participar
da comunidade que está sendo criada. Por outro
lado, é interessante pensar em uma boa capa,
saber como iniciar o vídeo, como encerrá-lo e
como manter a atenção das pessoas durante o
conteúdo. Também é possível criar uma cultura de
apoio ao centro. Em determinados momentos da
palestra, mostrar para as pessoas a importância
das doações, da manutenção das atividades e da
participação nos projetos.
Então, existe todo um conjunto de ações. É saber
trazer recursos para o centro e também entender
que qualquer plataforma pode funcionar. O
segredo está em saber utilizá-la e ter
constância. Não pode ficar sem postar. Se o
objetivo é fazer três postagens por dia e,
naquele dia, você só conseguiu fazer uma, tudo
bem. Poste uma. Mas tente não deixar de postar.
Porque a frequência faz diferença. A partir do
momento em que você decide trabalhar com redes
sociais, também está decidindo trabalhar para o
algoritmo. Você não está publicando apenas para
as pessoas, mas para que o algoritmo compreenda
o seu conteúdo e o distribua para mais pessoas.
Então, quando você posta no YouTube, Instagram
ou TikTok, precisa entender como cada plataforma
funciona e trabalhar de uma forma que ela
compreenda o que você quer comunicar. Quando
isso acontece, a própria plataforma passa a
entregar seu conteúdo para mais gente.
E o que dizer dos vídeos curtos, os recortes?
Os vídeos curtos são a chave para levar as
pessoas aos vídeos longos do YouTube. O grande
ponto aqui é entender como utilizar os vídeos
curtos. Na grande maioria das vezes, uma única
palestra consegue gerar até 18 vídeos de corte.
Se você utilizar apenas uma palestra por mês, já
consegue ter conteúdo para praticamente um mês
inteiro de publicações. Além dessas postagens,
também é possível incluir carrosséis, imagens
estáticas, frases, reflexões e conteúdos
relacionados aos princípios e às ideias que o
centro aceita, defende e deseja divulgar.
Também podemos utilizar vídeos falando sobre a
biblioteca, apresentando livros, contando
histórias, recomendando leituras e trazendo
temas específicos. Por exemplo, separar 30 temas
de vídeos. Em um dia, grava cinco. Na semana
seguinte, grava mais cinco. E assim
sucessivamente. Por isso, acredito que um centro
espírita tenha potencial para produzir entre 100
e 120 conteúdos por mês sem grandes
dificuldades. E, com certeza, algum desses
vídeos vai alcançar muitas pessoas. Mas existe
outro ponto importante: não se pode ter medo do
diálogo. Não se pode ter medo de fazer as
pessoas pensarem. Nem todo conteúdo vai gerar
concordância. Algumas mensagens vão provocar
reflexão, discussão e questionamentos.
E isso faz parte. O importante é estar preparado
para conversar, explicar, ouvir e apresentar os
conceitos de forma respeitosa. Mas a internet
também é um espaço de diálogo. E boa parte do
crescimento acontece justamente quando existe
disposição para conversar com quem pensa
diferente. Por isso, existe muito mais por trás
dos vídeos curtos do que apenas edição. Existe
estratégia, comunicação, relacionamento,
construção de comunidade, posicionamento e,
principalmente, constância.
Algo mais que gostaria de acrescentar?
Gostaria de acrescentar uma reflexão sobre o
receio que existe em relação ao dinheiro dentro
do movimento espírita. Vejo muitas pessoas
fazendo enormes esforços, inúmeros favores e
dedicando muito tempo ao trabalho, mas, ao mesmo
tempo, existe um certo receio de solicitar ajuda
financeira para manter projetos, palestras,
divulgação e outras atividades do dia a dia.
Talvez fosse importante mostrar com mais clareza
como tudo funciona, quais são os custos e quais
são as necessidades reais das instituições. E
também não ter medo de pedir recursos. Porque,
sem recursos, fica muito difícil desenvolver
novos projetos, melhorar estruturas e ampliar o
alcance do trabalho realizado.
Outra questão é a do ego e da renovação das
lideranças. Nas igrejas das quais participei,
por exemplo, existe uma rotatividade muito
grande. Existem vários líderes e, muitas vezes,
a pessoa fica um período naquela função e depois
volta para aprender, servir de outra forma e dar
espaço para que outras pessoas também cresçam.
A ideia é que ninguém se torne indispensável.
Quando você entra para realizar um trabalho
voluntário, já começa, de certa forma, a ensinar
alguém para um dia assumir aquela função.
Quanto mais pessoas participam, mais pessoas
aprendem. E, quanto mais pessoas aprendem, mais
forte a instituição se torna ao longo do tempo.
Suas palavras finais.
Se a casa espírita não der voz às pessoas, elas
vão procurar outros lugares para se expressar.
Vão para a internet, vão criar seus próprios
espaços e vão falar da forma que conseguirem.
Quando a casa espírita abre espaço, a pessoa
tende a buscar melhorar ainda mais. Porque passa
a conviver com pessoas mais experientes, aprende
e cresce junto com o grupo. Se não houver
oportunidades, outros movimentos vão continuar
crescendo justamente porque conseguem acolher,
ouvir e dar espaço para que as pessoas
participem.
Enquanto isso, muitos centros acabam ficando
cada vez mais fechados, perdendo pessoas
importantes ao longo dos anos e tendo
dificuldade para formar novas gerações de
trabalhadores. As pessoas envelhecem, seguem
seus caminhos e, muitas vezes, não existem
outras sendo preparadas para continuar o
trabalho. Por isso, é importante desenvolver
novas pessoas, ensinar aquilo que você sabe e
abrir espaço para que outras também possam
contribuir. Não ficar na mesma função por tempo
demais. Não se apegar ao cargo, à atividade ou
àquilo que você faz. Ensinar alguém a continuar
aquilo que você começou também faz parte do
trabalho.
E, por fim, invistam em comunicação. Invistam em
redes sociais. Invistam em conteúdo. Invistam em
divulgação. Porque as pessoas estão lá. E, se
queremos alcançar novas gerações, precisamos
estar presentes onde elas estão.
 |