Entrevista

por Orson Peter Carrara

Uso das redes sociais e inclusão do jovem: uma visão crítica construtiva a ser pensada


Natural de Barra Bonita (SP) e residente em Bauru (SP), ainda em formação acadêmica, Lucas Giovanni Bachini (foto) atua profissionalmente como Social Media, fotógrafo e filmmaker. Vincula-se ao CEAC (Centro Espírita Amor e Caridade), na mesma cidade onde reside. Não exerce cargo de direção na instituição, mas atua como voluntário em algumas frentes de trabalho, inclusive mediunicamente. Entrevistamos Lucas sobre sua experiência virtual, o uso das redes sociais e a inclusão do jovem.


Como você enxerga as redes sociais visando à divulgação espírita?

As redes sociais hoje são um dos principais pilares da divulgação. É outro mundo em que precisamos estar presentes. O movimento espírita esqueceu que os jovens estão por aí. E onde está a grande maioria das pessoas hoje? Na internet. Lá estão pessoas que precisam de ajuda, de orientação, de uma palavra amiga, de mensagens boas e de bons conteúdos. Eu acredito que a internet hoje é um dos maiores mecanismos para alcançar pessoas.

Considera que elas têm auxiliado efetivamente nesse processo?

Temos vários exemplos de pessoas respeitadas que são vistas por muitas outras. E isso acontece porque toda doutrina, todo movimento e tudo aquilo que você for fazer na vida precisa de pessoas que tragam responsabilidade sobre aquilo que falam. Quando existe uma estratégia, uma narrativa e alguém ajudando a organizar essa comunicação, seja de forma voluntária ou profissional, o resultado costuma ser muito melhor.

E como ser mais eficiente para atingir o grande público?

Hoje, uma forma simples seria utilizar as palestras e criar cortes de um a três minutos dos melhores momentos, aqueles que realmente tocaram, chamaram a atenção ou trouxeram uma reflexão importante. Numa palestra de 40 minutos, você consegue extrair de 18 a 24 trechos. Já imaginou? São conteúdos que podem ser publicados ao longo do mês. Também é importante mostrar as atividades da casa, o que está sendo realizado, quais cursos existem, os projetos em andamento e os planejamentos. A livraria pode gerar muito conteúdo, apresentando um livro e comentando trechos ou capítulos. Outro detalhe é fazer com que mais pessoas participem. Incentivar trabalhadores, expositores, estudantes e frequentadores a gravarem conteúdos e relatarem experiências. Isso faz com que a comunicação fique viva e rotativa. O trabalho cresce quando mais pessoas participam dele.

Isso tudo tem um custo. Equipamentos e divulgação envolvem despesas. Por isso, é importante pedir ajuda, envolver as pessoas e mostrar que manter uma comunicação ativa também faz parte do trabalho da casa. Porque, quando não existe investimento, planejamento ou participação coletiva, tudo fica mais difícil. E aí acontece o que estamos vendo em muitos lugares: centros com dificuldades para atrair novas pessoas, com pouca presença digital e, muitas vezes, com a participação presencial diminuindo cada vez mais ao longo dos anos.

Qual a grande dica de aproveitamento desses recursos virtuais?

A grande dica para aproveitar os recursos virtuais seria utilizar as palestras de forma estratégica. O que falta, muitas vezes, é alguém organizando esse conteúdo. E isso dá trabalho. Os centros não deveriam ter medo ou receio de buscar recursos para investir nessa área.

Porque o centro poderia estar publicando vídeos todos os dias. Outra coisa muito importante é mostrar os bastidores: como são preparados os alimentos, como funcionam os trabalhos, como surgem os projetos, como as pessoas pensam e organizam as atividades.

Não necessariamente expor quem está sendo ajudado, mas mostrar os bastidores do trabalho.

Dinheiro é uma ferramenta. O centro, assim como qualquer instituição, precisa de recursos para manter atividades, melhorar sua estrutura, divulgar palestras, promover eventos e alcançar novas pessoas. Então, também existe um trabalho de conscientização em relação a isso. Se o centro quer crescer, comunicar-se melhor e alcançar mais pessoas, precisa investir em comunicação. E, muitas vezes, isso significa investir em equipamentos, ferramentas ou até em pessoas que possam ajudar a fazer esse trabalho acontecer. Porque boa vontade é fundamental, mas estrutura também é necessária para que as coisas continuem crescendo.

Como incentivar mais essa integração jovem/movimento espírita/virtualidade?

Eu conheço um pouco da realidade evangélica, porque participei dela. E, pelo menos nos ambientes que frequentei, a música é o que une tudo. Depois vêm os cultos, os estudos e os demais trabalhos. A pessoa geralmente chega pela música, identifica-se e depois vai aprofundando conforme vai gostando de uma coisa ou de outra. Quando você vai a alguns centros espíritas, muitas vezes encontra música erudita, músicas muito antigas ou estilos voltados para um público mais específico. Isso agrada a determinadas pessoas, mas dificilmente alcança uma grande massa de jovens. Para alcançar mais gente, talvez fosse necessário pensar também em músicas mais acessíveis, mais agradáveis de ouvir para as novas gerações, músicas que falem de Cristo, de Deus, de espiritualidade e de valores humanos, numa linguagem que converse melhor com quem está chegando. E, sobre alcançar os jovens, eu acredito que uma das coisas mais importantes é ouvi-los. Ouvir o que sentem, o que pensam, quais são suas dúvidas e suas dificuldades. Porque uma das percepções que tenho, em alguns lugares, é que os jovens nem sempre encontram espaço para expressar aquilo que realmente estão vivendo. E, quando alguém se sente ouvido, passa a sentir que também faz parte daquele ambiente.

Em sua experiência, qual a plataforma mais eficiente atualmente?

Não existe uma plataforma específica que seja mais eficiente. Todas são eficientes, desde que você saiba utilizar os recursos necessários de cada uma. Mas não é só postar. Você precisa responder comentários e directs, repostar conteúdos, interagir com as pessoas e participar da comunidade que está sendo criada. Por outro lado, é interessante pensar em uma boa capa, saber como iniciar o vídeo, como encerrá-lo e como manter a atenção das pessoas durante o conteúdo. Também é possível criar uma cultura de apoio ao centro. Em determinados momentos da palestra, mostrar para as pessoas a importância das doações, da manutenção das atividades e da participação nos projetos.

Então, existe todo um conjunto de ações. É saber trazer recursos para o centro e também entender que qualquer plataforma pode funcionar. O segredo está em saber utilizá-la e ter constância. Não pode ficar sem postar. Se o objetivo é fazer três postagens por dia e, naquele dia, você só conseguiu fazer uma, tudo bem. Poste uma. Mas tente não deixar de postar.

Porque a frequência faz diferença. A partir do momento em que você decide trabalhar com redes sociais, também está decidindo trabalhar para o algoritmo. Você não está publicando apenas para as pessoas, mas para que o algoritmo compreenda o seu conteúdo e o distribua para mais pessoas. Então, quando você posta no YouTube, Instagram ou TikTok, precisa entender como cada plataforma funciona e trabalhar de uma forma que ela compreenda o que você quer comunicar. Quando isso acontece, a própria plataforma passa a entregar seu conteúdo para mais gente.

E o que dizer dos vídeos curtos, os recortes?

Os vídeos curtos são a chave para levar as pessoas aos vídeos longos do YouTube. O grande ponto aqui é entender como utilizar os vídeos curtos. Na grande maioria das vezes, uma única palestra consegue gerar até 18 vídeos de corte. Se você utilizar apenas uma palestra por mês, já consegue ter conteúdo para praticamente um mês inteiro de publicações. Além dessas postagens, também é possível incluir carrosséis, imagens estáticas, frases, reflexões e conteúdos relacionados aos princípios e às ideias que o centro aceita, defende e deseja divulgar.

Também podemos utilizar vídeos falando sobre a biblioteca, apresentando livros, contando histórias, recomendando leituras e trazendo temas específicos. Por exemplo, separar 30 temas de vídeos. Em um dia, grava cinco. Na semana seguinte, grava mais cinco. E assim sucessivamente. Por isso, acredito que um centro espírita tenha potencial para produzir entre 100 e 120 conteúdos por mês sem grandes dificuldades. E, com certeza, algum desses vídeos vai alcançar muitas pessoas. Mas existe outro ponto importante: não se pode ter medo do diálogo. Não se pode ter medo de fazer as pessoas pensarem. Nem todo conteúdo vai gerar concordância. Algumas mensagens vão provocar reflexão, discussão e questionamentos.

E isso faz parte. O importante é estar preparado para conversar, explicar, ouvir e apresentar os conceitos de forma respeitosa. Mas a internet também é um espaço de diálogo. E boa parte do crescimento acontece justamente quando existe disposição para conversar com quem pensa diferente. Por isso, existe muito mais por trás dos vídeos curtos do que apenas edição. Existe estratégia, comunicação, relacionamento, construção de comunidade, posicionamento e, principalmente, constância.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Gostaria de acrescentar uma reflexão sobre o receio que existe em relação ao dinheiro dentro do movimento espírita. Vejo muitas pessoas fazendo enormes esforços, inúmeros favores e dedicando muito tempo ao trabalho, mas, ao mesmo tempo, existe um certo receio de solicitar ajuda financeira para manter projetos, palestras, divulgação e outras atividades do dia a dia. Talvez fosse importante mostrar com mais clareza como tudo funciona, quais são os custos e quais são as necessidades reais das instituições. E também não ter medo de pedir recursos. Porque, sem recursos, fica muito difícil desenvolver novos projetos, melhorar estruturas e ampliar o alcance do trabalho realizado.

Outra questão é a do ego e da renovação das lideranças. Nas igrejas das quais participei, por exemplo, existe uma rotatividade muito grande. Existem vários líderes e, muitas vezes, a pessoa fica um período naquela função e depois volta para aprender, servir de outra forma e dar espaço para que outras pessoas também cresçam.

A ideia é que ninguém se torne indispensável. Quando você entra para realizar um trabalho voluntário, já começa, de certa forma, a ensinar alguém para um dia assumir aquela função.

Quanto mais pessoas participam, mais pessoas aprendem. E, quanto mais pessoas aprendem, mais forte a instituição se torna ao longo do tempo.

Suas palavras finais.

Se a casa espírita não der voz às pessoas, elas vão procurar outros lugares para se expressar. Vão para a internet, vão criar seus próprios espaços e vão falar da forma que conseguirem. Quando a casa espírita abre espaço, a pessoa tende a buscar melhorar ainda mais. Porque passa a conviver com pessoas mais experientes, aprende e cresce junto com o grupo. Se não houver oportunidades, outros movimentos vão continuar crescendo justamente porque conseguem acolher, ouvir e dar espaço para que as pessoas participem.

Enquanto isso, muitos centros acabam ficando cada vez mais fechados, perdendo pessoas importantes ao longo dos anos e tendo dificuldade para formar novas gerações de trabalhadores. As pessoas envelhecem, seguem seus caminhos e, muitas vezes, não existem outras sendo preparadas para continuar o trabalho. Por isso, é importante desenvolver novas pessoas, ensinar aquilo que você sabe e abrir espaço para que outras também possam contribuir. Não ficar na mesma função por tempo demais. Não se apegar ao cargo, à atividade ou àquilo que você faz. Ensinar alguém a continuar aquilo que você começou também faz parte do trabalho.

E, por fim, invistam em comunicação. Invistam em redes sociais. Invistam em conteúdo. Invistam em divulgação. Porque as pessoas estão lá. E, se queremos alcançar novas gerações, precisamos estar presentes onde elas estão.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita