É
fascinação,
amor!
Certa vez, fui escalado para fazer uma palestra sobre a
obsessão e seus meandros. Como não sou expert em
mediunidade e não participo de reuniões mediúnicas,
fiquei reticente quanto o caminho que iria seguir para
elaborar a explanação de quase uma hora. A base
literária mais óbvia seria, decerto, O livro dos
médiuns, segunda obra publicada por Allan Kardec e
que estudei junto com os jovens no período em que fui
evangelizador de mocidade. Decidi, portanto, que iria
pelo caminho das informações básicas. Mesmo porque, em
reuniões públicas doutrinárias, sempre há um público
diverso, incluindo os que estão indo a um centro
espírita pela primeira vez.
Comecei pela definição que Kardec dá à obsessão: domínio
que alguns espíritos desencarnados conseguem adquirir
sobre certas pessoas. E como se dá esse domínio? Por
meio de obsessão simples, fascinação e subjugação.
Vou passar rápido pela obsessão simples e pela
subjugação, já que o objeto de análise deste artigo é a
fascinação. Obsessão simples é quando espíritos
sofredores ou de baixo padrão moral se aproximam de nós
e acabam nos perturbando, seja de forma intencional ou
não. Neste quesito, me vem à mente uma estória que ouvi,
há muitos anos, do expositor Rogério Coelho, de MG. Um
casal recém-casado não estava conseguindo consumar o
casamento. O rapaz, que era espírita, achou estranho e
colocou o nome dele e da esposa na reunião mediúnica.
Quem se manifestou? Um ex-noivo dela, homem extremamente
ciumento que morrera num acidente de moto semanas antes
do casamento, fato ocorrido cerca de três anos antes. O
ciúme e o apego eram tantos que, embora não fizesse mais
parte do mundo dos vivos, o antigo noivo se interpunha
espiritualmente entre marido e mulher na hora da relação
sexual, o que acabava cortando o clima entre ambos.
Felizmente, uma conversa repleta de cuidado e carinho
durante a reunião mediúnica fez o motoqueiro compreender
que havia desencarnado e que precisava seguir novos
rumos – agora na vida espiritual – e deixar a outrora
noiva reconstruir a vida afetiva aqui na Terra.
A subjugação, como o próprio nome diz, é quando o
espírito controla a vontade da vítima. Pode ser moral ou
corporal. Muitas vezes, o subjugado é levado a agir ou
tomar decisões absurdas como se fosse a coisa mais
natural do mundo.
Há muitos anos, por exemplo, na cidade do Rio de
Janeiro, presenciei uma cena que me entristeceu. No
cruzamento de duas movimentadas avenidas, um homem de
paletó e gravata regia o vai-e-vem de veículos como se
estivesse comandando uma orquestra. Compenetradíssimo e
como se estivesse empunhando uma batuta, ele nem
piscava. Simplesmente regia os carros, ônibus, caminhões
e motocicletas. Fiquei cortado de pena. A olho nu, uma
pessoa com sérios transtornos psíquicos. Mas aos olhos
além da matéria, provavelmente um homem subjugado por
espíritos mal-intencionados.
Mas vamos à fascinação, que é quando, segundo O livro
dos médiuns, o médium – quer ele tenha ou não
conhecimento das coisas do espírito – se deixa fascinar.
Assim, espíritos obsessores, de forma zombeteira,
paralisam o raciocínio desse médium e o fazem acreditar
que ele tem uma missão pra lá de grandiosa, fazem-no se
vestir de forma extravagante etc. Trata-se de um ou mais
espíritos embusteiros que inspiram confiança cega ao
médium e causam uma série de estragos não só na vida
dele, como também na de seus prováveis seguidores; gente
crédula e carente, em geral. Quem tiver curiosidade em
conhecer um caso assim em detalhes, recomendo ler sobre
o pastor Jim Jones, criador de uma seita chamada Templo
Popular. Em 1978, na Guiana, ele levou 918 pessoas a
cometerem suicídio ou a matarem umas às outras numa
comunidade por ele fundada e isolada do resto do mundo.
A fascinação, no entanto, me leva a deduzir que talvez
ela seja mais comum do que se pensa. Em nossas vivências
com todo tipo de pessoas, decerto já nos deparamos com
gente fascinada dos mais diversos matizes.
Maria Lúcia (nome fictício), amiga da minha família,
teve uma filha, no início da década de 1980, de um homem
então separado que, segundo ela mesma conta, nunca deu
muita atenção à menina. O tempo passou, a menina (a quem
chamarei de Tatiana) virou mulher e o tempo, pelo visto,
não passou para as duas. Digo isso porque, no início
deste século, numa tarde de sábado, fui ao centro da
cidade resolver uma série de demandas. Entre elas,
cortar o cabelo. Só que tive o infortúnio de encontrar
Maria Lúcia e, educadamente, lhe dar atenção. Ela
desfiou um rosário de lamentações e carências acerca da
filha, da própria situação afetiva, lamentou o fato de o
pai da Tatiana ser omisso... Passaram-se 10, 20, 30, 40
minutos e eu lá, em pé, vendo uma mulher fascinada pela
própria carência tomando meu tempo e eu sem poder sair
fora. Quando finalmente ela encerrou o assunto e se
despediu, percebi que teria de adiar muito do que eu
tinha ido fazer. Tempos depois, durante uma enchente
(algo típico aqui da Região Serrana do RJ), Joana, uma
amiga em comum, ficou ilhada justamente na rua onde
Maria Lúcia mora. Como nossa triste personagem havia
descido para comprar pão, encontrou Joana e a convidou
para passar a noite lá, já que as águas não baixariam
tão cedo. Joana foi obrigada a ouvir a mesma ladainha de
lamúrias, acrescidas de choro. Quando o dia amanheceu,
deu graças a Deus por voltar para casa. Faço ideia como
deve ter sido essa noite regada a lamentos e chororôs de
uma mulher fascinada pela própria carência e que,
decerto, ninguém deve ter mais condições de aguentar.
Afinal – e isso eu soube por amigos em comum – Maria
Lúcia continua do mesmo jeito.
Depois desse episódio, passei a prestar atenção nas
estórias sobre pessoas que adoram falar sobre doenças,
do quanto fulano ou sicrana sofreu no pós-operatório, de
quantos pontos levou, de como os efeitos colaterais de
um medicamento afetaram o metabolismo blábláblá. Tudo
com riqueza de detalhes e requintes de masoquismo que
ninguém aguenta ouvir. E também daquelas pessoas que
perderam um ente querido há anos e até hoje choram a
perda e contam à exaustão como foram os momentos antes
do desenlace. Pode ser que eu esteja sendo descaridoso,
mas acredito que esse tipo de comportamento tem traços
sérios de fascinação. São pessoas fascinadas por luto,
dor, doença, carência e que acabam cansando a beleza de
quem está à volta.
Nesses casos, recomendo agir com tato e, com carinho e
caridade, fazer a pessoa perceber que ela está se
tornando chata e que precisa mudar. Como diz Cezar Said
no livro Conversando com você, todos temos
carências e é saudável repartirmos o que sentimos com
alguém de confiança, mas sempre com o cuidado de não
alugarmos o próximo e criarmos nocivas dependências.
E se a pessoa ficar ofendida com o nosso toque? Problema
dela! O que não podemos é deixar que as Marias Lúcias da
vida perturbem incessantemente a nós e aos outros.
Senão, corremos o risco de nos tornarmos algozes de nós
mesmos. E isso não é ser bom. Cuidado para não
confundirmos falta de energia com bondade. Idem ser
enérgico com ser grosseiro. Podemos usar de energia com
doçura, mas sem perdermos a firmeza. É um aprendizado
que pode, inclusive, tirar muita gente inconveniente de
transes fascinantes, ou seja, de espíritos a quem se
vinculam por insistirem em se fixarem em assuntos
negativos.
Da próxima vez que nos depararmos com gente que só fala
em doença, morte, solidão, carência etc., fiquemos
atentos. Parafraseando aquela bela canção eternizada na
voz de Elis Regina, pode ser “fascinação, amor!”.
Bibliografia:
1. BBC
Brasil – Jonestown, 40 anos: o que levou ao maior
suicídio coletivo da história. Para acessar, clique
em BBC
2. KARDEC,
Allan – O livro dos médiuns, 79ª edição, 2007,
Federação Espírita Brasileira, Brasília, DF.
3. SAID,
Cezar Braga – Conversando com você, 1ª edição,
1999, Ed. Celd, Rio de Janeiro, RJ.