O centro espírita é um laboratório
O centro espírita dispõe de um campo permanente de
prática da Ciência Espírita. Nas atividades de imposição
de mãos e nas reuniões mediúnicas, ocorrem fatos que
podem ser observados, registrados, comparados e
discutidos à luz dos fundamentos doutrinários.
Kardec oferece o fundamento doutrinário dessa proposta
ao afirmar:
“A instrução espírita não abrange apenas o ensinamento
moral que os Espíritos dão, mas também o estudo dos
fatos. Incumbe-lhe a teoria de todos os fenômenos, a
pesquisa das causas, a comprovação do que é possível e
do que não o é; em suma, a observação de tudo o que
possa contribuir para o avanço da ciência.” (KARDEC,
1861, cap. 20, item 328).
Aécio Pereira Chagas expressou essa perspectiva ao
conduzir o foco da investigação espírita ao ambiente da
célula máter do Espiritismo: o próprio centro espírita.
“É necessário que tudo possa ser estudado à luz da
Doutrina Espírita. O passe, por exemplo. Alguns
fenômenos ou práticas envolvendo fluidos são muito
utilizados, porém pouco conhecidos do ponto de vista
científico-espírita. É preciso estudá-los. Como? O
laboratório da ciência espírita é o centro espírita. Há
muito o que estudar e aprender, em termos de Ciência
Espírita, simplesmente observando o que acontece nas
reuniões mediúnicas e sem perturbar e alterar o objetivo
do trabalho.” (CHAGAS, 2002).
Os instrumentos de investigação
Kardec apresenta a mediunidade como instrumento de
investigação:
“A mediunidade é o meio direto de observação. O médium —
permitam-nos a comparação — é o instrumento de
laboratório pelo qual a ação do mundo invisível se
traduz de maneira patente. Pela facilidade que ela nos
oferece de repetir as experiências, permite-nos estudar
o modo e as diversas nuanças dessa ação. Foi desses
estudos e dessas observações que nasceu a ciência
espírita.” (KARDEC, 1863).
Essa compreensão valoriza a descoberta de conhecimentos
novos entre os acontecimentos habituais. Kardec
ressalta:
“Ora, fora erro acreditar-se que os fatos se limitam aos
fenômenos extraordinários; que só são dignos de atenção
os que mais fortemente impressionam os sentidos. A cada
passo, eles ressaltam das comunicações inteligentes e de
forma a não merecerem desprezados por homens que se
reúnem para estudar.
“Esses fatos, que seria impossível enumerar, surgem de
um sem-número de circunstâncias fortuitas. Embora de
menor relevo, nem por isso menos dignos são do mais alto
interesse para o observador, que neles vai encontrar ou
a confirmação de um princípio conhecido, ou a revelação
de um princípio novo, que o faz penetrar um pouco mais
nos mistérios do mundo invisível. Isso também é
filosofia.” (KARDEC, 1861, cap. 20, item 328).
A coleta das mais variadas ocorrências, com seus
respectivos dados, sua organização, classificação, e o
seu exame metódico constituem etapas de um processo
sistemático de observação cujo registro permite a
comparação entre casos, a formulação de hipóteses e
verificação dessas hipóteses diante de novas
ocorrências.
Essa sistematização abre um leque de novos estudos,
abrangendo diferentes dimensões das práticas espíritas,
como o registro das sensações e percepções dos médiuns
passistas durante as atividades de imposição de mãos; a
organização das características que enfeixam os tipos de
comunicantes reconhecidos na literatura espírita e novos
tipos registrados ao longo do tempo; o registro das
questões dirigidas à equipe espiritual responsável pelo
trabalho e das respostas obtidas, sempre submetidas ao
exame doutrinário; bem como a análise dos modos de
diálogo e das abordagens mais adequadas ao
esclarecimento dos diferentes perfis de comunicantes em
situação de necessidade.
À luz dessa compreensão, o centro espírita integra
divulgação, assistência, estudo doutrinário e
investigação, recuperando uma unidade metodológica
presente em sua origem.
Referências:
CHAGAS, Aécio Pereira. Entrevista ao Boletim
GEAE. Boletim GEAE, ano 10, n. 427, jan.
2002. Transcrição disponível em: GEAE
1992.
Acesso em: 23 jul. 2026.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
Paris: Didier, 1861. Cap. XX, item 328.
KARDEC, Allan. Revista Espírita.
Paris, jan. 1863.
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