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por João Márcio F. Cruz

 

Congresso espírita tornou-se comércio da fé


Palestrante espírita cobra 12.000 para participar de Congresso Espírita no final de semana. Ingresso de 200 a 650 reais. Falta de transparência nos recursos. Se uma família composta de pai, mãe e dois filhos desejar participar, terá que desembolsar mais de 1.000 reais, contando com alimentação, livros, camisetas, transporte e entradas.

Na Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos — 1862, o codificador responde ao convite para participar de um “banquete em Lyon”.

Ele diz assim:

[...] — Ainda uma palavra, meus amigos. Indo ver-vos, uma coisa desejo: é que não haja banquete, e isto por vários motivos. Não quero que minha visita seja ocasião para despesas que poderiam impedir a presença de alguns e privar-me do prazer de ver todos reunidos. Os tempos estão duros. Não devemos fazer despesas inúteis. O dinheiro que isso custaria seria melhor empregado em auxílio aos que mais tarde necessitarão. Eu vos digo com toda a sinceridade que o pensamento de que aquilo que faríeis por mim em tal circunstância poderia ser uma causa de privação para muitos me tiraria o prazer da reunião. [...]

No livro Obras Póstumas, Allan Kardec desenvolve o conceito de “congressos espíritas”! Foi Léon Denis que colocou em prática os princípios e tornou lendários os congressos que ele presidiu, deixando um modelo científico, de pesquisas e descobertas, bem diferente dos modelos brasileiros, que mais parecem seminários de coach espiritualista, teatros circenses onde o orador comporta-se como animador da plateia, ora fazendo chorar, ora fazendo gargalhar.

Percebam! São sempre os mesmos convidados para os congressos espíritas. Seus discursos parecem eco de papagaio de décadas. Repetindo as mesmas ideias e os mesmos preconceitos oficiais. Usam o evento para autopromoção, para vender seus livros, divulgar suas mentorias e adquirir likes e seguidores em suas redes sociais. A plateia, hipnotizada pelos circunlóquios que agem no cérebro como narrativas analgésicas, são absorvidos como tranquilizantes doutrinários e todos saem satisfeitos com a “grande oratória” do célebre tribuno e artista de quinta grandeza. Ninguém tem acesso ao orador. Entre ele e o povo existem 12 assessores. É preciso agendar vaga para apertar sua mão. São “estrelas”! Um muro de fama e sucesso separa eles do resto da humanidade. Tem um palestrante que até exige da casa organizadora pagar suas despesas e as de sua comitiva de 20 pessoas.

Kardec evitava banquetes porque poderia tornar-se um ambiente de “exclusão social”, onde os pobres seriam privados de tal amistoso encontro. Diferente do que muitos pensam, embora a doutrina espírita tenha nascido burguesa, prenhe de nobres, reis e príncipes, o codificador fez questão de levar o Espiritismo para os proletários, pobres e excluídos da França. Ele teve esse ato de empatia com as classes vulneráveis. Se dependesse dos confrades espíritas, a doutrina espírita nasceria e continuaria de uma elite burguesa e aristocrática. O humanismo do professor Rivail foi abandonado pela vaidade e narcisismo de obreiros doutrinários que evitam, por exemplo, dar palestras em centros espíritas pobres. Se tiver tapete vermelho, eles fazem questão de participar!

Eles lucram com o Espiritismo e muitos já moram nos EUA e Europa. Vendem cursos, assessorias e se comportam como burocratas da fé e profissionais da religião. Kardec alertou, ninguém ouviu. Chico Xavier também já tinha advertido sobre essa “elitização do Espiritismo” e sempre dizia que a doutrina era Jesus de novo, no meio do povo. Os espíritas parecem cardeais, bispos, ostentando importância pessoal e fechados em sua torre de marfim de currículo e influência. Com um chicote nas mãos, Jesus diria:

— Vocês estão transformando a casa de Deus em covil de ladrões...

O comércio da fé e dos símbolos da espiritualidade sempre foi considerado crime contra a lei divina. Jesus chama de hipócritas aqueles que transformam teologia em commodities e sacerdotes em funcionários do templo.

Não seriam os espíritas os atuais “vendilhões do templo”?

O formato dos congressos e seminários prioriza a participação de ricos. Uma família pobre que carece de consolação, esperança e esclarecimento não tem acesso. É tudo muito caro!!!

Precisamos resgatar a simplicidade do cristianismo, e a mensagem transformadora do Espiritismo precisa descer do pedestal de orgulho e pisar no chão da comunidade. Dinheiro não leva ao inferno, nem riqueza deve ser demonizada. Reconhecemos que no mundo material tudo exige gastos e despesas e nada cai do céu; porém, os meios jamais devem predominar sobre os fins. Ao organizar um evento, de que se priva do acesso as classes pobres, precisamos rever qual objetivo de tais congressos e se realmente é edificante um encontro circunscrito aos “aristocratas” contemporâneos. Lembremos da postura de Kardec. O Espiritismo veio para todos. Cuidado com o fermento do fariseu dentro da seara, distorcendo a doutrina, transformando-a em uma filosofia longe do povo, sem o povo, com nojo do povo.

Cuidado com os banquetes.

Congresso sem pobre não tem Jesus, nem espírito superior faz-se presente.


João Márcio F. Cruz, palestrante e escritor, reside na cidade de Canindé, Ceará.

 

 

     
     

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