Congresso
espírita
tornou-se
comércio da fé
Palestrante
espírita cobra
12.000 para
participar de
Congresso
Espírita no
final de semana.
Ingresso de 200
a 650 reais.
Falta de
transparência
nos recursos. Se
uma família
composta de pai,
mãe e dois
filhos desejar
participar, terá
que desembolsar
mais de 1.000
reais, contando
com alimentação,
livros,
camisetas,
transporte e
entradas.
Na Revista
Espírita —
Jornal de
Estudos
Psicológicos —
1862, o
codificador
responde ao
convite para
participar de um
“banquete em
Lyon”.
Ele diz assim:
[...] — Ainda
uma palavra,
meus amigos.
Indo ver-vos,
uma coisa
desejo: é que
não haja
banquete, e isto
por vários
motivos. Não
quero que minha
visita seja
ocasião para despesas que
poderiam impedir
a presença de
alguns e
privar-me do
prazer de ver
todos reunidos.
Os tempos estão
duros. Não
devemos fazer despesas inúteis.
O dinheiro que
isso custaria
seria melhor
empregado em
auxílio aos que
mais tarde
necessitarão. Eu
vos digo com
toda a
sinceridade que
o pensamento de
que aquilo que
faríeis por mim
em tal
circunstância
poderia ser uma
causa de
privação para
muitos me
tiraria o prazer
da reunião.
[...]
No livro Obras
Póstumas,
Allan Kardec
desenvolve o
conceito de
“congressos
espíritas”! Foi
Léon Denis que
colocou em
prática os
princípios e
tornou lendários
os congressos
que ele
presidiu,
deixando um
modelo
científico, de
pesquisas e
descobertas, bem
diferente dos
modelos
brasileiros, que
mais parecem
seminários de coach espiritualista,
teatros
circenses onde o
orador
comporta-se como
animador da
plateia, ora
fazendo chorar,
ora fazendo
gargalhar.
Percebam! São
sempre os mesmos
convidados para
os congressos
espíritas. Seus
discursos
parecem eco de
papagaio de
décadas.
Repetindo as
mesmas ideias e
os mesmos
preconceitos
oficiais. Usam o
evento para
autopromoção,
para vender seus
livros, divulgar
suas mentorias e
adquirir likes e
seguidores em
suas redes
sociais. A
plateia,
hipnotizada
pelos
circunlóquios
que agem no
cérebro como
narrativas
analgésicas, são
absorvidos como
tranquilizantes
doutrinários e
todos saem
satisfeitos com
a “grande
oratória” do
célebre tribuno
e artista de
quinta grandeza.
Ninguém tem
acesso ao
orador. Entre
ele e o povo
existem 12
assessores. É
preciso agendar
vaga para
apertar sua mão.
São “estrelas”!
Um muro de fama
e sucesso separa
eles do resto da
humanidade. Tem
um palestrante
que até exige da
casa
organizadora
pagar suas
despesas e as de
sua comitiva de
20 pessoas.
Kardec evitava
banquetes porque
poderia
tornar-se um
ambiente de
“exclusão
social”, onde os
pobres seriam
privados de tal
amistoso
encontro.
Diferente do que
muitos pensam,
embora a
doutrina
espírita tenha
nascido
burguesa, prenhe
de nobres, reis
e príncipes, o
codificador fez
questão de levar
o Espiritismo
para os
proletários,
pobres e
excluídos da
França. Ele teve
esse ato de
empatia com as
classes
vulneráveis. Se
dependesse dos
confrades
espíritas, a
doutrina
espírita
nasceria e
continuaria de
uma elite
burguesa e
aristocrática. O
humanismo do
professor Rivail
foi abandonado
pela vaidade e
narcisismo de
obreiros
doutrinários que
evitam, por
exemplo, dar
palestras em
centros
espíritas
pobres. Se tiver
tapete vermelho,
eles fazem
questão de
participar!
Eles lucram com
o Espiritismo e
muitos já moram
nos EUA e
Europa. Vendem
cursos,
assessorias e se
comportam como
burocratas da fé
e profissionais
da religião.
Kardec alertou,
ninguém ouviu.
Chico Xavier
também já tinha
advertido sobre
essa “elitização
do Espiritismo”
e sempre dizia
que a doutrina
era Jesus de
novo, no meio do
povo. Os
espíritas
parecem
cardeais,
bispos,
ostentando
importância
pessoal e
fechados em sua
torre de marfim
de currículo e
influência. Com
um chicote nas
mãos, Jesus
diria:
— Vocês estão
transformando a
casa de Deus em
covil de
ladrões...
O comércio da fé
e dos símbolos
da
espiritualidade
sempre foi
considerado
crime contra a
lei divina.
Jesus chama de
hipócritas
aqueles que
transformam
teologia em
commodities e
sacerdotes em
funcionários do
templo.
Não seriam os
espíritas os
atuais
“vendilhões do
templo”?
O formato dos
congressos e
seminários
prioriza a
participação de
ricos. Uma
família pobre
que carece de
consolação,
esperança e
esclarecimento
não tem acesso.
É tudo muito
caro!!!
Precisamos
resgatar a
simplicidade do
cristianismo, e
a mensagem
transformadora
do Espiritismo
precisa descer
do pedestal de
orgulho e pisar
no chão da
comunidade.
Dinheiro não
leva ao inferno,
nem riqueza deve
ser demonizada.
Reconhecemos que
no mundo
material tudo
exige gastos e
despesas e nada
cai do céu;
porém, os meios
jamais devem
predominar sobre
os fins. Ao
organizar um
evento, de que
se priva do
acesso as
classes pobres,
precisamos rever
qual objetivo de
tais congressos
e se realmente é
edificante um
encontro
circunscrito aos
“aristocratas”
contemporâneos.
Lembremos da
postura de
Kardec. O
Espiritismo veio
para todos.
Cuidado com o
fermento do
fariseu dentro
da seara,
distorcendo a
doutrina,
transformando-a
em uma filosofia
longe do povo,
sem o povo, com
nojo do povo.
Cuidado com os
banquetes.
Congresso sem
pobre não tem
Jesus, nem
espírito
superior faz-se
presente.
João Márcio F.
Cruz,
palestrante e
escritor, reside
na cidade de
Canindé, Ceará.