Uma reflexão
necessária sobre
o momento atual
do Espiritismo
no Brasil
“Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vocês
vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos
ferozes.” (Mt 7, 15.)
O Espiritismo constitui uma doutrina de elevada
profundidade filosófica, científica e moral, capaz de
iluminar a razão, consolar o coração e oferecer
respostas coerentes às grandes questões da existência
humana. Desde sua codificação por Allan Kardec, no
século XIX, a Doutrina Espírita se firmou como um corpo
de princípios aberto ao progresso, fundamentado na
observação, na lógica e, sobretudo, na vivência do
Evangelho de Jesus.
Ao longo de sua história, o Espiritismo não se
desenvolveu de forma isolada. Após Kardec, inúmeros
estudiosos sérios e comprometidos deram continuidade ao
trabalho doutrinário, aprofundando investigações e
reflexões. No cenário internacional, destacam-se nomes
como Léon Denis, filósofo e legítimo continuador do
pensamento kardequiano; Gabriel Delanne, pesquisador
rigoroso da fenomenologia espírita; Camille Flammarion,
astrônomo respeitado que buscou conciliar ciência e
espiritualidade; Cesare Lombroso, médico italiano que
investigou a mediunidade sob critérios científicos;
Ernesto Bozzano, dedicado ao estudo da sobrevivência da
alma; e Charles Richet, Prêmio Nobel de Medicina,
pioneiro da pesquisa psíquica. Esses pensadores
contribuíram decisivamente para consolidar o Espiritismo
como uma doutrina séria, distante do misticismo ingênuo
e do dogmatismo religioso.
No Brasil, o Espiritismo encontrou terreno fértil para
florescer e se expandir, enriquecido por trabalhadores
que se tornaram referências morais e espirituais. Entre
eles, Bezerra de Menezes, o “médico dos pobres” e
símbolo de fraternidade; Chico Xavier, médium cuja obra
psicográfica ultrapassa o aspecto literário e se traduz
em caridade viva; Divaldo Pereira Franco, notável orador
e educador; Yvonne do Amaral Pereira, exemplo de
disciplina, renúncia e fidelidade doutrinária; além de
Cairbar Schutel, Batuíra, João Nunes Maia, Hernani
Guimarães Andrade, entre tantos outros. Todos eles, com
suas particularidades, deixaram frutos inequívocos de
amor, consolação e serviço ao próximo.
Esses trabalhadores não se destacaram por vaidade
intelectual ou protagonismo pessoal, mas pela humildade,
pelo estudo sério e pela prática constante do bem —
fundamentos essenciais da vivência espírita.
Entretanto, com o advento da internet e das redes
sociais, abriu-se um amplo espaço para o debate, a troca
de ideias e a divulgação do conhecimento. Paralelamente,
esse mesmo ambiente passou a ser utilizado por
determinados grupos que, de maneira sutil e muitas vezes
subliminar, vêm promovendo um processo de desgaste da
Doutrina Espírita. Não se trata, na maioria das vezes,
de ataques diretos e explícitos, mas de discursos
aparentemente “críticos” ou “acadêmicos”, carregados de
insinuações, generalizações e desqualificações morais.
Observa-se a atuação de grupos que se autodenominam
espíritas, mas que adotam uma postura excessivamente
literalista, aceitando apenas Allan Kardec e rejeitando
qualquer contribuição posterior, como se o Espiritismo
tivesse sido encerrado no século XIX. Esquecem-se de que
o próprio Kardec afirmou, de forma clara, que o
Espiritismo deveria acompanhar o progresso do
conhecimento humano, sob pena de se fossilizar. Essa
postura rígida e excludente aproxima-se perigosamente do
dogmatismo religioso que a própria Doutrina Espírita
sempre combateu.
Mais grave ainda é a tentativa de reescrever a história
do Espiritismo sob lentes anacrônicas. Alguns grupos
passaram a acusar Allan Kardec de racismo,
desconsiderando completamente o contexto científico do
século XIX. À época, teorias hoje superadas — como a
crença de que características cranianas determinariam a
inteligência — eram amplamente aceitas pela ciência.
Kardec, como homem de seu tempo, dialogava com esse
conhecimento vigente, sem que isso invalide sua obra nem
seus princípios morais. Julgar o passado com critérios
morais do presente, de forma simplista e
descontextualizada, não contribui para o esclarecimento,
mas para a confusão e o descrédito.
Da mesma forma, acusações recorrentes de plágio
dirigidas a Chico Xavier revelam desconhecimento do
fenômeno mediúnico e desonestidade intelectual.
Ignoram-se, deliberadamente, não apenas a coerência
espiritual das mensagens, mas, sobretudo, os frutos
morais e sociais de sua obra: instituições de caridade,
auxílio aos necessitados, consolo aos aflitos e
transformação íntima de milhões de pessoas.
As críticas às colônias espirituais descritas por André
Luiz seguem a mesma lógica reducionista. Tais descrições
jamais foram apresentadas como fotografias literais do
mundo espiritual, mas como construções didáticas,
adaptadas à compreensão humana. Se, conforme Kardec
ensina, o Espírito é capaz de agir sobre a matéria e
manipular fluidos, não há incoerência alguma em admitir
a organização de ambientes espirituais compatíveis com
diferentes estados vibratórios, regidos pela lei de
afinidade e progresso.
O que se percebe, portanto, é um momento delicado para o
movimento espírita, no qual os ataques mais nocivos não
partem de opositores externos, mas de dentro do próprio
meio espírita, muitas vezes mascarados por discursos
aparentemente racionais, mas impregnados de orgulho,
vaidade intelectual e desejo de desconstrução. Falta,
nesses discursos, o elemento essencial do Espiritismo: o
amor.
Como ensinou Jesus, “a árvore se conhece pelos frutos”.
Os frutos do trabalho de Chico Xavier, Divaldo Franco e
tantos outros são visíveis e incontestáveis: corações
consolados, famílias amparadas, vidas reconstruídas.
Esses frutos falam mais alto do que qualquer crítica
virtual ou narrativa enviesada.
Precisamos ter cautela ao acompanhar as redes sociais,
para não nos deixarmos conduzir por discursos fáceis,
revestidos de insinuações, generalizações e
desqualificações morais. Observa-se que muitos têm se
empenhado em desacreditar trabalhadores amplamente
respeitados pelo movimento espírita sério — aqueles que
estudam, perseveram e se dedicam à construção de dias
melhores para todos. Em grande parte dos casos, tais
ataques não se sustentam em argumentos consistentes, mas
parecem motivados pela busca de visibilidade,
reconhecimento ou protagonismo pessoal, revelando,
assim, a ausência de humildade e o distanciamento do
verdadeiro espírito de colaboração com a Doutrina
Espírita.
É imprescindível que o espírita exercite a razão, como
recomendou Kardec, mas sem abdicar do sentimento, da
empatia e da fraternidade. O verdadeiro espírita é
reconhecido não pelo discurso agressivo ou pela pretensa
superioridade intelectual, mas pela vivência do
Evangelho. Que saibamos estudar, orar e trabalhar,
colocando de lado o orgulho, a vaidade e a ânsia de
protagonismo, honrando o legado de benfeitores
espirituais como Emmanuel, André Luiz, Joanna de
Ângelis, Miramez, entre tantos outros.
A Doutrina Espírita, assim como a humanidade, atravessa
desafios próprios de um mundo em transição. Sua força,
contudo, reside na fidelidade aos seus princípios
fundamentais: estudo sério, união, caridade e amor ao
próximo. Como advertiu Chico Xavier, não seriam os
inimigos externos que ameaçariam o Espiritismo, mas os
próprios espíritas, quando se afastam de sua essência
moral.
Que possamos, portanto, unir esforços, fortalecer a
vibração do bem e contribuir para a regeneração moral do
planeta, não por meio de disputas ideológicas ou ataques
virtuais, mas pela vivência sincera do Evangelho, pela
caridade constante e pelo exemplo silencioso do amor em
ação.