Laços de família –
porque às vezes são frágeis e nada amistosos
A fonte deste texto é a obra de Allan Kardec,
codificador do Espiritismo, intitulada O Evangelho
segundo o Espiritismo, cap. XIV, do qual destacamos
dois tópicos: 1) a parentela corporal e a parentela
espiritual; 2) a ingratidão dos filhos e os laços de
família.
O primeiro tópico é de
autoria do próprio Allan Kardec; o segundo é de autoria
do Espírito de Santo Agostinho, um dos instrutores
espirituais que participaram da obra de codificação dos
ensinamentos espíritas, razão pela qual o Espiritismo
era também chamado por Kardec como Doutrina Espírita ou Doutrina
dos Espíritos.
A parentela corporal e a parentela espiritual
Os laços do sangue não criam forçosamente os liames
entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o
Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito
já existia antes da formação do corpo. Não é o pai quem
cria o Espírito de seu filho; ele mais não faz do que
lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no
entanto, auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral
do filho, para fazê-lo progredir.
Os que encarnam numa família, sobretudo como parentes
próximos, são, as mais das vezes, Espíritos simpáticos,
ligados por anteriores relações, que se expressam por
uma afeição recíproca na vida terrena. Mas, também pode
acontecer sejam completamente estranhos uns aos outros
esses Espíritos, afastados entre si por antipatias
igualmente anteriores, que se traduzem na Terra por um
mútuo antagonismo, que aí lhes serve de provação.
Não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de
família e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os
quais prendem os Espíritos antes,
durante e depois de suas encarnações.
Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes
podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem
pelo sangue. Podem então atrair-se, buscar-se, sentir
prazer quando juntos, ao passo que dois irmãos
consanguíneos podem repelir-se, conforme se observa
todos os dias: problema moral que só o Espiritismo podia
resolver pela pluralidade das existências. (Cap. IV, nº
13)
Há, pois, duas espécies de famílias: as
famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos
laços corporais. Duráveis, as primeiras se
fortalecem pela purificação e se perpetuam no mundo dos
Espíritos, através das várias migrações da alma; as
segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o
tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na
existência atual. Foi o que Jesus quis tornar
compreensível, dizendo de seus discípulos: Aqui estão
minha mãe e meus irmãos, isto é, minha família pelos
laços do Espírito, pois todo aquele que faz a vontade de
meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e
minha mãe.
A hostilidade que lhe
moviam seus irmãos se acha claramente expressa em a
narração de São Marcos, que diz terem eles o propósito
de se apoderarem do Mestre, sob o pretexto de que este perdera
o espírito. Informado da chegada deles,
conhecendo os sentimentos que nutriam a seu respeito,
era natural que Jesus dissesse, referindo-se a seus
discípulos, do ponto de vista espiritual: “Eis aqui meus
verdadeiros irmãos”. Embora na companhia daqueles
estivesse sua mãe, ele generaliza o ensino que de
maneira alguma implica haja pretendido declarar que sua
mãe segundo o corpo nada lhe era como Espírito, que só
indiferença lhe merecia. Provou suficientemente o
contrário em várias outras circunstâncias. -
Allan Kardec (Obra citada, cap. XIV, item 8.)
A ingratidão dos filhos e os laços de família
A ingratidão é um dos frutos mais diretos do egoísmo.
Revolta sempre os corações honestos. Mas, a dos filhos
para com os pais apresenta caráter ainda mais odioso. É,
em particular, desse ponto de vista que a vamos
considerar, para lhe analisar as causas e os efeitos.
Também nesse caso, como em todos os outros, o
Espiritismo projeta luz sobre um dos grandes problemas
do coração humano.
Quando deixa a Terra, o Espírito leva consigo as paixões
ou as virtudes inerentes à sua natureza e se aperfeiçoa
no espaço, ou permanece estacionário, até que deseje
receber a luz. Muitos, portanto, se vão cheios de ódios
violentos e de insaciados desejos de vingança; a alguns
dentre eles, porém, mais adiantados do que os outros, é
dado entrevejam uma partícula da verdade; apreciam então
as funestas consequências de suas paixões e são
induzidos a tomar resoluções boas. Compreendem que, para
chegarem a Deus, uma só é a senha: caridade. Ora,
não há caridade sem esquecimento dos ultrajes e das
injúrias; não há caridade sem perdão, nem com o coração
tomado de ódio.
Então, mediante inaudito esforço, conseguem tais
Espíritos observar os a quem eles odiaram na Terra. Ao
vê-los, porém, a animosidade se lhes desperta no íntimo;
revoltam-se à ideia de perdoar, e, ainda mais, à de
abdicarem de si mesmos, sobretudo à de amarem os que
lhes destruíram, quiçá, os haveres, a honra, a família.
Entretanto, abalado fica o coração desses infelizes.
Eles hesitam, vacilam, agitados por sentimentos
contrários. Se predomina a boa resolução, oram a Deus,
imploram aos bons Espíritos que lhes deem forças, no
momento mais decisivo da prova.
Por fim após anos de meditações e preces, o Espírito se
aproveita de um corpo em preparo na família daquele a
quem detestou, e pede aos Espíritos incumbidos de
transmitir as ordens superiores permissão para ir
preencher na Terra os destinos daquele corpo que acaba
de formar-se.
Qual será o seu procedimento na família escolhida?
Dependerá da sua maior ou menor persistência nas boas
resoluções que tomou. O incessante contacto com seres a
quem odiou constitui prova terrível, sob a qual não raro
sucumbe, se não tem ainda bastante forte a vontade.
Assim, conforme prevaleça ou não a resolução boa, ele
será o amigo ou inimigo daqueles entre os quais foi
chamado a viver. É como se explicam esses ódios, essas
repulsões instintivas que se notam da parte de certas
crianças e que parecem injustificáveis. Nada, com
efeito, naquela existência há podido provocar semelhante
antipatia; para se lhe apreender a causa, necessário se
torna volver o olhar ao passado.
Ó espíritas! Compreendei agora o grande papel da
Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a
alma que nele encarna vem do espaço para progredir;
inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso
amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que
vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se
fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação
que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu
bem-estar futuro.
Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará
Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se
por culpa vossa ele se conservou atrasado, tereis como
castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de
vós dependia que fosse ditoso. Então, vós mesmos,
assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido
reparar a vossa falta; solicitareis, para vós e para
ele, outra encarnação em que o cerqueis de melhores
cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos
retribuirá com o seu amor.
Não escorraceis, pois, a criancinha que repele sua mãe,
nem a que vos paga com a ingratidão; não foi o acaso que
a fez assim e que vo-la deu. Imperfeita intuição do
passado se revela, do qual podeis deduzir que um ou
outro já odiou muito, ou foi muito ofendido; que um ou
outro veio para perdoar ou para expiar. Mães! Abraçai o
filho que vos dá desgostos e dizei convosco mesmas: Um
de nós dois é culpado. Fazei-vos merecedoras dos gozos
divinos que Deus conjugou à maternidade, ensinando aos
vossos filhos que eles estão na Terra para se
aperfeiçoar, amar e bendizer. Mas, oh! muitas dentre
vós, em vez de eliminar por meio da educação os maus
princípios inatos de existências anteriores, entretêm e
desenvolvem esses princípios, por uma culposa fraqueza,
ou por descuido, e, mais tarde, o vosso coração,
ulcerado pela ingratidão dos vossos filhos, será para
vós, já nesta vida, um começo de expiação.
A tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não
exige o saber do mundo. Podem desempenhá-la assim o
ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o
desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da
alma humana.
Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons
ou maus que traz da sua existência anterior. A
estudá-los devem os pais aplicar-se. Todos os males se
originam do egoísmo e do orgulho. Espreitem, pois, os
pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais
vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que lancem
raízes profundas. Façam como o bom jardineiro, que corta
os rebentos defeituosos à medida que os vê
apontar na árvore. Se deixarem se desenvolvam o egoísmo
e o orgulho, não se espantem de serem mais tarde pagos
com a ingratidão.
Quando os pais hão feito tudo o que devem pelo
adiantamento moral de seus filhos, se não alcançam
êxito, não têm de que se inculpar a si mesmos e podem
conservar tranquila a consciência. À amargura muito
natural que então lhes advém da improdutividade de seus
esforços, Deus reserva grande e imensa consolação, na certeza de
que se trata apenas de um retardamento, que concedido
lhes será concluir noutra existência a obra agora
começada e que um dia o filho ingrato os recompensará
com seu amor. (Cap. XIII, nº 19.)
Deus não dá prova superior às forças
daquele que a pede; só permite as que podem ser
cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte
possibilidade: falta a vontade. Com efeito, quantos há
que, em vez de resistirem aos maus pendores, se
comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os
gemidos em existências posteriores.
Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha
a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado,
cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus
abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe
lança aos pés. As
provas rudes, ouvi-me bem, são
quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um
aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o
pensamento em Deus. É um momento supremo, no
qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir
murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas
e ter de recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei
a Deus o ensejo que vos proporciona de vencerdes, a fim
de vos deferir o prêmio da vitória. Então, saindo do
turbilhão do mundo terrestre, quando entrardes no mundo
dos Espíritos, sereis aí aclamados como o soldado que
sai triunfante da refrega.
De todas as provas, as mais duras são as que afetam o
coração. Um, que suporta com coragem a miséria e as
privações materiais, sucumbe ao peso das amarguras
domésticas, pungido da ingratidão dos seus. Oh! que
pungente angústia essa! Mas, em tais circunstâncias, que
mais pode, eficazmente, restabelecer a coragem moral, do
que o conhecimento das causas do mal e a certeza de que,
se bem haja prolongados despedaçamentos d’alma, não há
desesperos eternos, porque não é possível seja da
vontade de Deus que a sua criatura sofra
indefinidamente?
Que de mais reconfortante, de mais animador do que a
ideia que de cada um dos seus esforços é que depende
abreviar o sofrimento, mediante a destruição, em si, das
causas do mal? Para isso, porém, preciso se faz que o
homem não retenha na Terra o olhar e só veja uma
existência; que se eleve, a pairar no infinito do
passado e do futuro. Então, a justiça infinita de Deus
se vos patenteia, e esperais com paciência, porque
explicável se vos torna o que na Terra vos parecia
verdadeiras monstruosidades.
As feridas que aí se vos abrem, passais a considerá-las
simples arranhaduras. Nesse golpe de vista lançado sobre
o conjunto, os laços de família se vos apresentam sob
seu aspecto real. Já não vedes, a ligar-lhes os membros,
apenas os frágeis laços da matéria; vedes, sim, os laços
duradouros do Espírito, que se perpetuam e consolidam
com o depurarem-se, em vez de se quebrarem por efeito da
reencarnação.
Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos,
a identidade do progresso moral e a afeição induzem a
reunir-se. Esses mesmos Espíritos, em suas migrações
terrenas, se buscam, para se gruparem, como o fazem no
espaço, originando-se daí as famílias unidas e
homogêneas. Se, nas suas peregrinações, acontece ficarem
temporariamente separados, mais tarde tornam a
encontrar-se, venturosos pelos novos progressos que
realizaram. Mas, como não lhes cumpre trabalhar apenas
para si, permite Deus que Espíritos menos adiantados
encarnem entre eles, a fim de receberem conselhos e bons
exemplos, a bem de seu progresso. Esses Espíritos se
tornam, por vezes, causa de perturbação no meio daqueles
outros, o que constitui para estes a prova e a tarefa a
desempenhar.
Acolhei-os, portanto, como irmãos; auxiliai-os, e
depois, no mundo dos Espíritos, a família se felicitará
por haver salvo alguns náufragos que, a seu turno,
poderão salvar outros. – Santo
Agostinho - Paris, 1862. (Obra citada, cap.
XIV, item 9.)