Entrevista

por Orson Peter Carrara

Perseverança no estudo espírita: dedicação forma a consciência doutrinária


Natural de Santos (SP), onde também reside, Márcio Gonçalves Felipe (foto) é advogado e professor universitário. Vincula-se ao Centro Espírita Chico Xavier, integrando a diretoria da instituição. Estudioso e dedicado às atividades espíritas, conheçamos sua experiência por meio da entrevista que gentilmente nos concedeu.


Como se aproximou do Espiritismo?

Aproximei-me do Espiritismo quando recebi por empréstimo o livro Nosso Lar, da psicografia de Chico Xavier. Ao ler a obra, identifiquei-me completamente com seu conteúdo e passei a estudar a doutrina.

E quais suas percepções iniciais naqueles primeiros contatos?

Ao ler Nosso Lar, fiquei surpreso com a coerência das informações e com a capacidade da doutrina de apresentar respostas às questões humanas.

E atualmente, após esse tempo de estudos e vivências, como se sente interiormente na condição de espírita?

Em 2025 completei 30 anos de vivência espírita. A condição de espírita me completa, e a filosofia espírita é a bússola das minhas motivações e, ao mesmo tempo, a professora das minhas ações. O Espiritismo, enquanto Cristianismo Redivivo, rege meus atos e se apresenta como conexão com o Cristo, filosofia de vida e método de análise dos fatos.

E a experiência com a COVID?

Esse fato foi marcante em minha vida. Em 2021 fui internado no Hospital Santa Casa de Misericórdia de Santos após passar mal em decorrência da doença da qual estava acometido. Com baixa saturação, fui levado ao hospital por um grande amigo e acabei sendo internado.

Na época, sentia-me, em razão dos acontecimentos do cotidiano, um pouco desanimado e triste. Acabei permitindo que esse estado de espírito gerasse desinteresse até mesmo pelo restabelecimento. Quando os profissionais de saúde me perguntavam como eu me sentia, respondia que estava relativamente bem, mas que, se precisasse partir, também estaria tudo bem. Certamente minha família seguiria sem mim e a vida teria seu curso normal. Era, de certo modo, um pensamento de desvalorização da vida.

Certo dia, durante a internação, lembrei-me de uma passagem do filme Ressurreição, que fazia parte do catálogo da Netflix, em que o Cristo curava um leproso, e acabei adormecendo levemente. Nesse estado de quase adormecimento, ouvi uma frase em minha mente: "Você está errado! Se você retornar ao mundo espiritual agora, não será bem recebido. Faça as pequenas coisas com o maior zelo possível, e o resto é com Ele".

Fiquei profundamente impressionado. Enquanto ouvia essas palavras, surgiam imagens em meu pensamento. Ao escutar "Você está errado!", vi-me diante da minha biblioteca, repleta de obras espíritas, e compreendi que, apesar de tanto conhecimento adquirido, minha atitude naquele momento era equivocada.

Quando ouvi: "Se você voltar agora, não será bem recebido", compreendi que toda a minha trajetória de serviço — atendimento fraterno, esclarecimento de espíritos, aulas, palestras e assistência aos necessitados — não me autorizava a pedir dispensa antes da hora nem me garantiria qualquer privilégio no plano espiritual. Ao contrário, poderia trazer-me sérios dissabores.

Por fim, ao ouvir: "Faça as pequenas coisas com o maior zelo possível, e o resto é com Ele", tive a certeza íntima de que até nossos menores passos são acompanhados pela espiritualidade superior. Cabe-nos realizar cada tarefa com dedicação e os melhores sentimentos, para que o espírito se aperfeiçoe no cumprimento dos deveres cotidianos, sejam eles pequenos ou grandes.

Desde então, jamais esqueci essa experiência.

Os diversos compromissos doutrinários, inclusive as palestras públicas e o atendimento aos espíritos, abriram qual ângulo mais expressivo de sua vida pessoal diante dos inúmeros dramas humanos?

Levaram-me à compreensão de que o mundo físico foi criado para que o homem realize sua jornada de divinização e de que os dramas humanos fazem parte dessa grande oficina de trabalho interior, que espera de nós o melhor, de acordo com os ensinamentos de Jesus em seu inesquecível Evangelho.

Comente sobre as palestras, inclusive virtuais. Reação do público presencial, preparo delas, escolha dos temas, preferência temática, entre outros itens que considerar importantes.

As palestras que preparo e ministro no centro ao qual pertenço ou em outras instituições seguem, em geral, o cronograma de cada casa, embora algumas sejam de tema livre. Procuro dar a elas um caráter essencialmente prático, mostrando como os ensinamentos espíritas podem ser aplicados no cotidiano.

As reações costumam ser positivas. Sempre há alguém que vem conversar comigo ao final. Naturalmente, cada ouvinte interpreta a exposição à sua maneira e há quem não a aprecie, o que considero absolutamente normal.

Minha preferência, atualmente, é o estudo da Bíblia à luz do Espiritismo, pois entendo que esse conhecimento é indispensável aos dirigentes e trabalhadores das instituições espíritas, em razão de sua ampla aplicação nas atividades da casa.

As palestras virtuais tornaram-se um recurso extremamente importante para a divulgação da mensagem espírita em locais distantes. Vieram para ficar.

Quanto ao preparo, considero indispensáveis o estudo diário e a formação de uma bibliografia ampla, ainda que em formato digital.

No atendimento fraterno presencial e também aos espíritos em dificuldade, o que mais lhe marca interiormente?

O que mais me impressiona, tanto no atendimento presencial quanto no espiritual, é perceber que o sofrimento, em grande parte, decorre do afastamento dos ensinamentos do Cristo. A grande mazela humana é justamente esse distanciamento. Por isso, a reforma íntima fundamentada nos princípios espírita-cristãos é tão necessária.

Alguma recordação inesquecível para trazer aos leitores?

Tenho muitas recordações inesquecíveis, mas uma se destaca. Ao término do estudo da série de livros de André Luiz, durante a prece de encerramento, surgiu em minha mente uma imagem do espaço pontilhado de estrelas, tendo o rosto translúcido do Cristo entre elas.

Em seguida, vi o planeta Terra repousando na palma de sua mão, como se fosse uma bola de gude, enquanto ouvia a frase: "Eu sou muito mais do que você imagina". As lágrimas vieram naturalmente diante da certeza da grandeza desse Mestre Divino, que cuida de todos nós.

Algo mais a acrescentar?

Apenas meu agradecimento pela oportunidade de compartilhar essas experiências.

Suas palavras finais.

Aos espíritas: as obras de Kardec e dos autores sérios — desde seus contemporâneos, como Denis, Delanne e Flammarion, até Chico Xavier, Divaldo Franco e tantos outros — devem ser estudadas com afinco, sempre em conjunto com a Bíblia. É um aprendizado que acompanhará o espírita por toda a eternidade, tornando-o um trabalhador mais sério, responsável, capacitado e, sobretudo, um ser humano alinhado com o projeto cristão de transformar este mundo em um mundo de regeneração.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita