Especial

por Nubor Orlando Facure

Construindo o futuro


As nossas crianças do século XXI

Crianças padrão-ouro: assim são as nossas crianças de hoje.

Trazem uma percepção da realidade muito mais avançada do que seria esperado para sua idade. É como se seu "software" psíquico já viesse previamente instalado.

Quem são essas crianças que hoje convivem conosco?

Elas nos surpreendem continuamente, nas mais diversas situações.

Alguns estudos clássicos sobre desenvolvimento infantil, aprendizagem e evolução cultural ajudam a compreender esse fenômeno.


Lúria

O neuropsicólogo russo Aleksandr Lúria estudou populações rurais na época da Revolução Bolchevique, em 1917.

Encontrou uma sociedade pobre em recursos materiais e em formação cultural.

As mulheres não saíam sozinhas, não frequentavam escolas nem trabalhavam nas fábricas.

As dificuldades econômicas levavam ao reaproveitamento de tudo. Guardava-se um prego, um parafuso, uma fechadura ou um pedaço de madeira retirado de um móvel velho.

Esse modo de viver consolidou uma cultura utilitarista, na qual nada podia ser desperdiçado.

Com o avanço da sociedade de consumo, ocorreu exatamente o contrário. Os produtos tornaram-se descartáveis e passamos a produzir uma quantidade gigantesca de resíduos.


Piaget

Jean Piaget descreveu o desenvolvimento cognitivo da criança em estágios sucessivos.

No estágio sensório-motor (0 a 2 anos), a aprendizagem ocorre principalmente pelos sentidos e pelas ações motoras.

Sua interpretação privilegia a interação da criança com o mundo exterior. Os objetos precisam ser vistos, tocados e manipulados.

Na minha compreensão, porém, a mente infantil participa ativamente desse processo desde o início, interpretando e atribuindo significado às experiências vividas.

No estágio pré-operatório (2 a 7 anos), surgem a linguagem, a imaginação e o pensamento egocêntrico. A criança ainda encontra dificuldades para compreender conceitos como conservação de quantidade, volume e massa.


Freud

Freud propôs que o aparelho psíquico se estrutura progressivamente após o nascimento, a partir das experiências vividas pela criança.

Vejo essa construção de maneira diferente.

A criança já nasce trazendo um núcleo estruturado, formado por sua herança genética, além de um processador capaz de interpretar a realidade.

As experiências posteriores ampliam esse patrimônio, mas não o criam do zero.


Lev Vygotsky

Vygotsky defendia que a aprendizagem depende da interação social e da cultura, sobretudo por meio da linguagem.

Sem negar essa influência, considero que ela não explica tudo.

A cultura nasce das crenças, e estas possuem forte componente emocional.

Casei-me com uma italiana. Ela precisa ver-me bem agasalhado e alimentado; caso contrário, imagina que estou escondendo alguma doença.

Esse pequeno exemplo ilustra como determinadas crenças são incorporadas ao cotidiano.

Ao mesmo tempo, o recém-nascido já manifesta emoções herdadas, como medo e apego.

Assusta-se com um ruído intenso e chora quando a mãe se afasta.

Esses comportamentos aparecem antes mesmo de qualquer aprendizado social elaborado.

Por isso, acredito que a criança já nasce trazendo um "núcleo rígido", correspondente ao seu patrimônio genético, e um "processador" que lhe permitirá interpretar e atuar sobre a realidade.


Exemplos do cotidiano

Uma mãe consulta-me por causa de dores de cabeça.

Enquanto conversamos sobre o filho hiperativo de dois anos, a irmã, de quatro, interrompe:

— Mãe, a consulta não é da senhora?

Kátia vem de Uberlândia visitar a mãe, em Campinas.

Liz, de cinco anos, pergunta:

— Vó, há tanta gente em Campinas para cuidar da bisa... Por que a senhora precisa ir até lá?

Com apenas um ano e meio, Máximo responde à pergunta "Quem é o Máximo?" batendo no próprio peito, revelando clara noção do "eu".

Mel, na mesma idade, ganha um livro, folheia-o atentamente e assume espontaneamente a postura de quem está lendo.

A imitação continua sendo um dos mecanismos mais eficazes da aprendizagem.

Como dizia o professor Sanvito:

"A melhor maneira de estimular o cérebro é esfregá-lo no cérebro de quem sabe."


A lição espírita

Estamos em permanente evolução.

Somos herdeiros de um patrimônio genético refinado ao longo da seleção natural e acumulamos conhecimentos suficientes para resolver grande parte dos problemas humanos.

O que ainda nos falta é o progresso moral.

Embora ele já se manifeste em muitos grupos, a humanidade, como um todo, ainda caminha lentamente nessa direção.

Tenho confiança de que essas novas crianças participarão decisivamente da transformação anunciada há tanto tempo.

A casa ainda está em reforma.

Mas chegará o dia em que sua luz celestial haverá de brilhar.

 

Dr. Nubor Orlando Facure, renomado médico neurologista, neurocirurgião e ex-professor titular da UNICAMP, é autor de vários livros e conhecido por seus estudos que unem a neurociência à doutrina espírita.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita