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por Roni Ricardo Osorio Maia

 

A parábola do servo


Apresentaremos a narrativa suprarreferida e constante do livro Estante da Vida
[1], ditado por  Irmão X,  psicografado por Francisco Cândido Xavier;  como um repórter do além-túmulo, tal espírito  nos ofereceu quadros em linguagem figurada, contudo, muito compatível com habitantes de nosso mundo, que por aqui se hospedam e mal utilizam suas faculdades morais,  sobretudo querem utilizar as posses materiais, efêmeras como as existências corpóreas. Nobre espírito se divisava entre a Terra e o Céu, vislumbrava adentrar ambiência de luz; no exterior refletia alva aparência, com fala harmoniosa e pedia passagem ao responsável instalado em majestoso pórtico, que separava os planos bem distintos.

Seria necessário se submeter a um instrumento de pesagem para ingressar na região do firmamento. Foi reprovado; chorou, lastimou e argumentou junto ao responsável que lhe propôs retornar à Terra e vivenciar o maior dos sentimentos. “Desce à Terra e planta o amor cada dia. A colheita da caridade dar-te-á íntima luz, assegurando-te a elevação”. (XAVIER, 2008, 162)

A entidade aceitou a sugestão, reencarnou e, com riqueza em nova trajetória, cumpria o prometido com extenso número de criados; com  bondade distribuía alimentos, remédios e roupas; após quase uns cem anos, retornou ao posto aduaneiro, no mundo espiritual, com a esperança de transpor o pórtico. Em vão, não estava habilitado. Novamente deveria regressar ao mundo físico e experimentar a prática do amor.

O espírito, decepcionado, preparou-se a uma nova reencarnação e  então se tornou político, aplicou o bem e  os recursos financeiros que tinha em mãos; destinou o dinheiro volumoso  que possuía  para obras  sociais, tais como: estradas, escolas, artes e  indústria para geração de empregos. Colaborou em inúmeras doações a necessitados.

Novo século vivido e ele aportou naquele conhecido pórtico de ascensão às esferas superiores. Outra vez a balança de pesagem reprovou-lhe o acesso. O benfeitor e recepcionista lhe advertiu o título e as benesses que o cargo de representante público lhe granjeara – porém, faltou-lhe o amor.

Notemos as negativas, até aqui narradas, e o mesmo item impeditivo –  a falta do sentimento de amor nas atitudes.

Ao ressurgir em novo corpo, tratou de juntar dinheiro e distribuí-lo, admitiu trabalhadores, assalariou  empregados, socorreu e consolou. Após quase um século vivido, lá se apresentou, na expectativa de ser finalmente recebido. Todavia, houve novo entrave no instrumento de precisão. Faltou-lhe amor nas investidas filantrópicas pela Terra... Ele chorou, rebateu a ordem de reprovação. Enfim, nova existência seria a resolução para a elevação almejada.

Voltou à vida física, desprendido da fortuna. Em seu poder, atendeu a todos indistintamente, limpou feridas em doentes, reergueu os caídos nas amargas estradas, neutralizou o crime, dissipou intrigas, sem titubear em seus tentames caritativos. Rumou, após a morte, ao conhecido posto de acesso às dimensões superiores. Nesse retorno, não trajava riqueza, apesar de ter sido rico; com apuro,  deu outra destinação ao bens usufruídos, apresentava-se maltrapilho e miserável. Ao se submeter à pesagem, o fiel da balança  apontou positivamente, dessa forma o candidato estava habilitado. Dessa vez ele foi aprovado, assim poderia transpor o portal iluminado conduzido pelo anjo emissário responsável. Por conseguinte, o guardião lhe deu as boas-vindas. E, nimbado por um halo de luz, elevou-se aos planos celestes, “Bem-aventurado sejas tu, meu irmão! Conquistaste o título de Servo. Podes agora atravessar o limite, demandando a Vida Superior” (IBIDEM, p. 164).

Irmão X (Humberto de Campos), com sua didática costumeira e maestria de escritor renomado na Terra, nos apresentou quatro séculos de lutas para se melhorar. Uma condição para elevação espiritual foi primordial no contexto – obras com amor; nada adiantaria doar sem desprender devoção a si e ao semelhante; não haverá passaporte à vida sublimada, se não aplicarmos o maior dos sentimentos humanos – o amor em nossos propósitos cognitivos e existenciais.

As premissas espíritas vêm demonstrar aos homens, em peregrinações terrenas, que se deverão ter  compromissos voltados ao sentimento mais puro, praticado pelo Mestre dos Mestres, e, alicerçado em suas confabulações com todos aqueles sedentos do alimento espiritual ao se acercarem dele naquela época.

Jesus diversas vezes comentou sobre a vida futura, enalteceu o rumo da humanidade ao porvir. Muitos que o ouviam se esqueceram disso ou não deram a mínima importância a essa predição.

Eis, agora, o Consolador, por meio do Espiritismo, a nos relembrar tudo isso e a despertar-nos ao futuro. Tal praticidade apresentada na narrativa de Humberto de Campos não é fácil de se realizar; entretanto, não é impossível de se colocar em ação. Basta querermos! [2] E tal recado daquele tempo se estende a todos nós – peregrinos da atual “viagem” [3]  terrestre.

Paz a todos!

 


[1] FEB.

[2] Questão 845 de O Livro dos Espíritos:  “Lembrai-vos de
que querer é poder”. (KARDEC, 2924, P. 269). Ed. EME.

[3] Allan Kardec citou este termo (o qual foi adotado para a telenovela) no Capítulo IV de O Evangelho segundo o Espiritismo, item 18.

  

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita