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Natural de Santo André, no ABC Paulista, onde
reside, Sandra Patrocínio (foto) é
bacharel em Ciências Contábeis e atua
profissionalmente como contadora. Vincula-se ao
Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes, na
cidade em que nasceu, onde exerce diversas
atividades: coordena o Departamento de
Divulgação Institucional, integra o Atendimento
Fraterno, é monitora do Curso Básico de
Espiritismo e do Grupo de Estudos André Luiz,
além de atuar como palestrante. Nesta
entrevista, ela fala sobre sua trajetória e suas
vivências no movimento espírita.
Quando foi seu primeiro contato com o
Espiritismo?
Foi uma situação interessante. Quando conheci
meu marido, a família dele já era espírita e
realizava o Evangelho no Lar. Nessas reuniões,
davam-me pequenos folhetos para leitura.
Em pouco tempo, percebi que iria me casar com
uma família espírita e pensei comigo mesma:
"Preciso entender o que é esse tal de
Espiritismo." Foi assim que me matriculei no
curso.
Lá encontrei um aluno bastante difícil, que
desafiava a professora o tempo todo. Pensei
então: "Preciso ajudá-la nas respostas." Por
isso, passei a estudar com muito afinco.
Concluído o curso, que durou quatro anos,
comecei a dar aulas. Logo depois, fiz também o
curso de Oratória e, como gosto um pouquinho de
falar, fui seguindo em frente.
E a vinculação ao Bezerra de Menezes em Santo
André?
Em 1991, quando já era espírita havia oito anos,
senti necessidade de atuar também na área
assistencial, além da doutrinária. Sabendo que o
Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes tinha
como braço assistencial a Instituição
Assistencial e Educacional Amélia Rodrigues,
decidi mudar de Casa, apesar do carinho e do
respeito que tinha pela instituição da qual
participava anteriormente.
Integrei-me rapidamente aos trabalhos. A então
presidente, Terezinha Sardano, com seu olhar
atento e acolhedor, percebeu meu interesse e
dedicação, confiando-me imediatamente a
responsabilidade pelo setor de eventos e
arrecadação, função que exerci durante dez anos.
Simultaneamente, coordenei a Mocidade Espírita,
fortalecendo ainda mais meus vínculos com a
Casa.
Nesse mesmo período, e ao longo dos últimos 37
anos, como o casal Sardano era responsável pela
agenda de Divaldo Franco nos estados de São
Paulo, Minas Gerais, Goiás e, na época, também
no Paraná, passei a integrar a Equipe do Livro
de Divaldo.
Nosso trabalho consistia em manter contato com
os anfitriões de cada cidade, auxiliando na
organização do local, do sistema de som e de
toda a estrutura necessária, sempre zelando para
que os eventos ocorressem de forma gratuita,
organizada e acolhedora.
Atuando na área doutrinária, inclusive na
divulgação, como sente essa experiência
acumulada ao longo de tantos anos?
Atuar na área doutrinária é uma bênção de Deus.
No início, quando já realizava palestras, houve
um momento em que não me julgava capaz de falar
em público, pois sentia que ainda não praticava
plenamente aquilo que dizia. Com o tempo e o
estudo, compreendi que, se esperássemos a
perfeição para falar do bem, não haveria
oradores, pois todos ainda somos Espíritos em
aprendizado e sujeitos aos erros.
Com o amadurecimento doutrinário, entendi que o
estudo aliado ao esforço contínuo nos capacita
para o trabalho no bem.
A felicidade de ajudar os jovens na Mocidade
sempre foi uma grande motivação. A juventude é
encantadora, e contribuir para a formação do
caráter por meio do estudo e dos valores
espirituais é profundamente gratificante. Além
disso, a convivência com os jovens também nos
proporciona aprendizado e renovação.
Na área de divulgação, atuo nas comunicações
doutrinárias e nas redes sociais, atividade que
me traz muita alegria por permitir a
disseminação de conteúdos que agreguem valores
ao nosso Centro e levem reflexão e
esclarecimento às pessoas.
O que mais lhe chama a atenção, em sua visão, na
atividade doutrinária desenvolvida pelo Bezerra?
Sem dúvida, acredito que o estudo é o grande
transformador do indivíduo. Os cursos, de todos
os tipos, têm o poder de esclarecer, acolher e
renovar as pessoas. Muitos dos que iniciam os
estudos acabam tornando-se trabalhadores da
Casa. Alguns chegam por curiosidade; outros,
buscando compreender os sofrimentos e desafios
que a vida lhes apresenta. Poder esclarecer,
orientar e oferecer algo que faça sentido é
extremamente gratificante.
A transformação do ser humano reflete-se
diretamente no núcleo familiar e nos demais
grupos sociais, contribuindo, pouco a pouco,
para a transformação do mundo.
Por isso, acredito que o pão material,
representado pela assistência social, é muito
importante, mas o pão do espírito é o que
contribui para que o pão material jamais falte.
Como você vê o pensamento espírita diante dos
desafios da atualidade?
O homem de hoje, em sua maioria, tornou-se
materialista e imediatista, vivendo sempre com
pressa e sem tempo para a espiritualidade. Com
esse ritmo de vida, muitas pessoas acabam não
encontrando espaço para refletir sobre as
questões espirituais e, muitas vezes, sequer
percebem o quanto essa necessidade existe dentro
de si.
Ao longo da vida, porém, muitos passam a buscar
respostas para os "porquês" da existência e
acabam se aproximando da espiritualidade em
busca de esclarecimento. Nesse caminho surgem as
diversas denominações religiosas, entre elas o
Centro Espírita.
O que muitos ainda não sabem é que o Espiritismo
liberta, ensina, orienta e fortalece nossa fé no
futuro, ajudando-nos a compreender melhor os
desafios e acontecimentos do cotidiano. Por
isso, costumamos dizer que o Espiritismo não é a
religião do futuro, mas o futuro das religiões.
E como palestrante, fale dessa experiência. Como
escolhe os temas? Como se prepara para o
público?
Como disse anteriormente, fiz os cursos de
Espiritismo e de Oratória e iniciei minhas
palestras ainda cheia de conflitos entre o saber
e o praticar. Com o tempo, porém, esse
sentimento amadureceu e compreendi que o
importante é o esforço permanente de
transformação.
Com o apoio da USE – União das Sociedades
Espíritas do Estado de São Paulo –, iniciei um
ciclo de palestras que me proporcionou grande
aprendizado. Normalmente, as Casas Espíritas
definem os temas, mas procuro sempre imprimir
minha marca pessoal em cada exposição.
Sou admiradora de Joanna de Ângelis, mentora de
Divaldo Franco, cujos ensinamentos abordam
profundamente a Psicologia Transpessoal. Também
nutro profundo amor por Jesus, por sua vida e
por seus ensinamentos. Naturalmente, essas
influências estão presentes em minhas palestras
e na forma como procuro transmitir a mensagem
espírita.
De sua vivência espírita, qual foi a experiência
mais marcante?
Foram muitas, mas destaco uma vivida com Divaldo
Franco.
Certa vez, eu estava com a tarde livre e, à
noite, haveria uma palestra. Conversando com uma
das organizadoras do evento, o telefone tocou.
Era uma pessoa insistindo para falar com
Divaldo, mas a organizadora explicava que ele
não atenderia, por ser muito ocupado e não poder
privilegiar ninguém.
Depois de desligar, ela me contou que se tratava
de um casal que havia perdido o filho em um
acidente e se encontrava em profundo desespero.
Naquele momento, senti vontade de ajudar e pedi
que comparecessem mais cedo ao local da
palestra, dizendo que tentaria encontrar uma
maneira de eles conversarem com Divaldo.
Quando chegaram, eu ainda não havia dito nada a
ele. Porém, ao entrar no salão, Divaldo olhou em
direção ao casal e disse imediatamente: "Chamem
aquele casal."
Fiquei surpresa. Ele os recebeu, conversou
longamente e trouxe notícias do filho,
mencionando nomes, lugares e detalhes do próprio
acidente. Ao final, aqueles pais deixaram o
local muito mais consolados e serenos. Foi uma
experiência que jamais esqueci e que me mostrou,
mais uma vez, como Deus age em nossas vidas.
O que dizer do esforço do casal Sardano à frente
da instituição ao longo de tantas décadas, agora
que ambos retornaram à Pátria Espiritual? Qual o
maior legado que deixaram aos continuadores?
Miguel e Terezinha sempre foram pessoas
extraordinárias. Todos os que conviveram com
eles conheciam sua competência, dedicação e,
principalmente, o profundo amor que dedicavam à
Doutrina Espírita. Guardo por ambos um carinho e
uma gratidão muito especiais.
Terezinha, em especial, deu-me grandes lições de
vida, muito além do Espiritismo. Nossa
convivência sempre foi muito próxima e acredito
que construímos uma relação semelhante à de mãe
e filha.
Nosso Centro completou, em maio, cinquenta anos
de existência. Segundo orientação do Dr. Bezerra
de Menezes, transmitida por intermédio da
psicografia de Divaldo Franco, chegou a um
pequeno grupo a mensagem de que havia chegado o
momento de fundar um Centro Espírita.
Miguel e Terezinha Sardano permaneceram à frente
desse trabalho durante décadas. Terezinha, com
firmeza e dedicação, jamais permitiu que nos
afastássemos da Doutrina Espírita. Acompanhava
amorosamente os trabalhadores, promovia a união
e incentivava continuamente o estudo.
Tanto isso é verdade que consta em nosso
Estatuto Social, como objetivo da Sociedade, o
estudo da Doutrina Espírita, sua divulgação e a
prática da caridade e da filantropia, oferecendo
apoio material e espiritual em conformidade com
os princípios da Doutrina Espírita.
Quanto ao legado deixado aos novos dirigentes,
acredito que o maior deles seja a necessidade de
refletirmos, diante de cada decisão, sobre como
Jesus agiria naquela situação. Sempre com
firmeza, mas igualmente com amor e acolhimento,
para que a Instituição permaneça fiel aos
objetivos com os quais foi criada.
Algo mais a acrescentar?
Já falei bastante de mim e, sinceramente, não me
considero uma pessoa tão interessante assim. Mas
fui honrada com o convite recebido e, por isso,
aceitei compartilhar um pouco da minha
trajetória.
Acredito que contar os fatos de nossa vida não
diminui nossa humildade, principalmente quando
reconhecemos as bênçãos recebidas e percebemos o
quanto ainda precisamos aprender e melhorar.
Hoje consigo enxergar minha transformação e o
quanto a espiritualidade contribuiu para que eu
me tornasse uma pessoa melhor do que fui ontem.
Quando somos jovens, muitas vezes não temos
dimensão das lições que a vida pode nos
oferecer. Com o passar do tempo, porém, as
experiências, as dores, os aprendizados e os
desafios tornam-nos mais conscientes, mais
sensíveis e, sobretudo, mais humildes.
Suas palavras finais.
Se posso deixar um conselho a todos, digo: nunca
deixem de estudar. O estudo do Espiritismo é uma
proposta educativa que desperta, ilumina e
transforma. É colocar o coração no Evangelho e a
inteligência sob a orientação de Allan Kardec.
Não se trata de um estudo para exibição, nem de
um conhecimento voltado ao orgulho, mas à
humildade. Não é teoria para debates, mas
aprendizado destinado à renovação interior.
Muita paz a todos!
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