Em tempos de Inteligência Artificial (IA), alguns temas
do passado assombram o presente motivados pelo poder
sombrio da matéria, deixando rastros de que a Doutrina
Espírita pode ser um instrumento poderoso também para o
materialismo.
A Ciência Moral Espírita (CME) ou o Evangelho Redivivo
(ER) – acreditamos que esses dois públicos possam ser
alcançados por essas reflexões – perde espaço a passos
largos no movimento de divulgação doutrinária. Perde
espaço para quem ou para o quê?
Perde espaço para ações que nem de longe apresentam o
sentido de divulgação do trabalho desenvolvido por Allan
Kardec – a Doutrina dos Espíritos. Nesse momento o
objeto da discussão é o trabalho de Allan Kardec, com
todo respeito aos trabalhos clássicos e os que vieram
após Kardec.
Não se erige um edifício sem bases sólidas
matematicamente analisadas para sustentar o peso dos
desafios que a vida promove para o aprimoramento
espiritual. Alguns calculam, outros conferem, corrigem e
validam os cálculos para que a obra possa ser
desenvolvida com o rigor necessário para sua aplicação
prática corresponder aos cálculos teóricos empreendidos.
O Espiritismo não é, ou não deveria se transformar em
espetáculo e nem mesmo sobreviver da divulgação onerosa
de eventos e instituições.
A simplicidade do espaço cedido no próprio lar para
iniciar os estudos e análises dos fenômenos observados
por Allan Kardec, se perdeu quando o homem entendeu,
mais uma vez, o poder que o pensamento religioso
convencional provoca nas pessoas.
As lideranças que conduzem esses eventos já pararam para
pensar, por um momento, que seu papel seria exatamente
frear esses impulsos megalomaníacos que remetem a
eventos e convenções de religiões tradicionais que
aprisionam mais do que estimulam a educação? Afinal, nas
obras de Allan Kardec está claro que o esforço voluntário para
dominar tendências más é de suma importância para o
autodesenvolvimento.
Quer dizer então que um Congresso Espírita é uma ação má?
Vamos melhorar a pergunta para se compreender a
amplitude da questão: é possível desenvolver um
Congresso onde o menos favorecido na sociedade tenha
acesso livre a conteúdos que, teoricamente, são
edificantes e sejam acolhidos com a mesma fraternidade
daqueles que usufruem momentaneamente de condições
socioeconômicas para honrar com os custos de inscrição
no congresso, traslado entre cidades (origem – destino –
origem), hospedagem e alimentação em horários fora do
congresso?
Se não houver possibilidade de incluir todos, sobretudo
os menos favorecidos, qual o objetivo do Congresso?
Palestras, conferências, rodas de conversas, atividades
artísticas, espaço para encontros e reencontros
restritos ao mesmo grupo com qual fim? Qual a sua
utilidade?
Até a divulgação pela internet alguns congressos
restringem, de maneira que, só têm acesso os que são
cadastrados ou contribuem com algum tipo de mensalidade,
evidentemente, sem generalizar.
Por incrível que pareça, para os menos favorecidos
sobram vendas de produtos pelas redes sociais, a preços
“módicos”, como produtos devocionais. A Doutrina
Espírita não é contemplativa. A Filosofia Espírita tem
como base a fé raciocinada. Não se compreendem as
leis que regem a vida e o viver de maneira
contemplativa. O ser não se transforma de forma passiva pois
esse é o foco de uma ação “devocional”.
Devocional remete a ideia de rituais. Rituais de
leitura, rituais de rezas, preces ou orações, ainda que
seja estudando algum conteúdo espírita, que, diga-se de
passagem, pode conter a interpretação de alguém e aquilo
se tornar uma verdade absoluta, substituindo a fé
raciocinada empreendida por Allan Kardec por ideias
atravessadas, já que pode faltar o conhecimento dos
princípios doutrinários.
De onde surgem essas ideias devocionais, uma vez que não
são gratuitas ou são apresentadas, de acordo com os
mecanismos de marketing digital da atualidade? Com
pacotes “iscas” gratuito o algoritmo apresenta o
conteúdo ao usuário de acordo com suas curtidas (ou
“likes”) para, em seguida, fazer com que o
indivíduo consuma o produto. Ele consome o item gratuito
que é uma introdução. Contudo, se não consumir o próximo
passo ou o próximo serviço, ficará com um conteúdo
incompleto, sem continuidade e, portanto, sem sentido.
Pronto. O marketing digital com suas propagandas e
inserções movidas pelo algoritmo, criou uma necessidade que
nem existia no indivíduo que se vê agora em uma
encruzilhada: ou consome e paga a unidade de conteúdo ou
fica sem saber como termina o estudo.
Claro, isso tudo depois de fornecer seus dados pessoais
como endereço, telefone, e-mail e outros detalhes, de
maneira que, informações correlatas continuarão
aparecendo até que a pessoa interrompa aquele tipo de
serviço digital que prontamente será substituído por
outro, pois é assim que o Instagram e outras redes
sociais funcionam, ou encerre suas atividades em redes
sociais, algo que pode ser bom.
No passado, primeira metade do século XX, os Congressos
eram espaços para apresentação de teses e trabalhos
empíricos desenvolvidos nas casas espíritas, algo que se
assemelhava ao ambiente dos Congressos acadêmicos onde
se debate, discute e comenta o avanço (ou não) da
pesquisa em determinada área do conhecimento.
Congressos são marcos importantes quando conseguem
despertar o sentido do pertencimento. Como
proporcionar pertencimento aos que precisam e que não
possuem recursos para pertencer?
Embora a sociologia das religiões – uma área do
conhecimento externa ao Espiritismo, mas oportuna para a
reflexão – aborde que é necessário e até importante a
realização de eventos para a continuidade daquele
conteúdo/pensamento, como forma de ocupação de espaços
cada vez maiores para fixar balizas do conhecimento
daquilo que se divulga, a teoria parte da premissa de
que o evento é para compartilhar o conteúdo religioso.
No caso em análise, a premissa não é clara, e nem muito
menos os objetivos, embora os congressos tenham, em
tese, claro seu propósito ou pelo menos slogan daquilo
que será divulgado. Contudo, o conteúdo tem um apelo
dogmático, por diversos prismas, e distante do que
poderia ser doutrinário, seja na forma ou no fundo
(essência).
Os congressos, na atualidade, reúnem pessoas que se
tornaram conhecidas – sem muita convicção –, pelo
trabalho de divulgação espírita ou profissional, não
sabendo ao certo o que veio primeiro. Ou ainda, reúnem
pessoas que trocam favores entre si com o objetivo de
fortalecer aquele segmento de informações e veiculações
de produtos outros, desenvolvidos pelos parceiros,
visando, sempre, o trabalho de divulgação da obra.
Não se sabe sempre a qual obra os congressos apoiam e
nem nos interessamos em saber dos autores que dedicaram
tempo e recurso para desenvolver produtos devocionais no
meio Espírita, tornando ainda mais o Espiritismo
parecido com as religiões convencionais, em um
recrudescimento grotesco dos propósitos e objetivos
doutrinários. Contudo, é bom saber que existem pessoas
que não consomem esses produtos, não participam desses
congressos e observam, esses movimentos, com estranheza
pois é sinal de lucidez, entender que alguns caminhos
levam a multidão para a porta larga, enquanto se esforça
o indivíduo para encontrar a porta estreita do
desenvolvimento pessoal à luz da Doutrina Espírita.
A pandemia que assolou a humanidade apenas embotou, no
espírita congressista, o desejo por validar seu egoísmo
e as vaidades que locupletam sua personalidade na vida
presente. Pobre do indivíduo que não consegue abafar os
clamores do egoísmo e tornar seu trabalho digno do
consumo de todos, afinal, o trabalho maior é dos
Espíritos. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” (Eclesiastes,
12:8.)