Entrevista

por Orson Peter Carrara

Raciocínios lúcidos e reflexão grave nas respostas do
nosso entrevistado


Natural de Bebedouro (SP), onde também reside, Iberê Rodrigues Fernandes (foto) é graduado em Engenharia Civil pela Fundação Educacional de Bebedouro, espírita de infância e vinculado aos Centros Espíritas “Do Calvário ao Céu” e “Allan Kardec”, ambos da mesma cidade, atuando como colaborador e sem cargos diretivos. Conheçamos sua vivência espírita.

 

Tendo nascido em família espírita, o que mais lhe chamou atenção no Espiritismo durante a vida?

A possibilidade da fé raciocinada. O ensinamento de buscar ver o mundo com outros olhos, sem a pressão do tempo biológico que dispomos, de poder investir em metas por vezes consideradas inalcançáveis. Por fim, a sustentação emocional para continuar em frente, mesmo quando o caminho se apresentou íngreme e áspero.

E como situa a experiência de estudar o Espiritismo?

É imprescindível estudar qualquer campo do conhecimento humano que se queira atuar. Não poderia ser diferente como o Espiritismo, lembrando a orientação de Kardec: “Temos dito que a melhor maneira de adquirir conhecimentos sobre Espiritismo é estudar-lhe a teoria. Os fatos virão depois, naturalmente, e serão compreendidos, qualquer que seja a ordem que os tragam as circunstâncias.”  E assim tem sido.

E a atividade de diálogo com os espíritos, como a sente após esses anos de experiência?

Atividade fantástica, que nos dá inúmeras comprovações das afirmações da nossa Santa Doutrina. Sinto um misto de gratidão, de satisfação em poder participar das correntes do Bem, e a constante preocupação de estar suficientemente preparado para bem fazer o trabalho de orientação de almas em situação de extrema fragilidade emocional. É gratificante participar do esforço de toda equipe – material e espiritual – em auxiliar uma entidade, prisioneira das próprias imperfeições, a repensar e redirecionar caminhos.... São indescritíveis as emoções que cercam o ambiente quando se alcança sucesso nos casos atendidos. E, ainda que não se alcance sucesso, ouvir de uma entidade endurecida: “...não me convenci das suas propostas, mas, orem por mim!”, nos oferece as energias para continuar insistindo e crendo na premissa de S. Benedito (L dos Médiuns Cap XXXI, item V): “...crede que o mais céptico, o mais ateu, o mais incrédulo, enfim, tem sempre no coração um cantinho que ele desejara ocultar de si mesmo. Esse cantinho que é preciso procurar, é preciso achar. É o lado vulnerável que se deve atacar. É uma "brechazinha" que Deus intencionalmente deixa aberta, para facilitar à sua criatura o meio de Lhe voltar ao Seio. “

Como podemos entender uma autêntica Maturidade Espiritual?

Seria presunção de minha parte oferecer “receita” para uma autêntica maturidade espiritual. Parece-me razoável considerar que esta condição seja muito variável, ligada às características e nível evolutivo individual. Não dá para exigir de uma criança o mesmo comportamento de um adulto, tanto quando do indivíduo criado em um ambiente bruto, a fineza de outro crescido em meio socializado. O caminho está balizado. Creio que podemos atingir o grau de maturidade possível, para a nossa condição espiritual atual, na busca constante em cumprir as leis de Deus, resumida por Jesus no “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.”

Há uma receita prática para desenvolvê-la?

Instruir-se doutrinariamente, tanto quanto na formação acadêmica a que se dedica. Entender a vida física como escola instrutiva, fonte de experiências a serem somadas ao patrimônio espiritual de cada um e, os bens materiais como ferramentas de trabalho desse desenvolvimento. Caminhar exercendo sua liberdade com responsabilidade, fórmula segura de não deixar para trás vínculos infelizes, resultantes das ações inconsequentes. Avaliar constantemente o próprio comportamento e evolução naqueles pontos que sabemos ser portadores de deficiências, reconduzindo nossas vidas ao caminho balizado.

 Considera que o que mais nos falta é vontade perseverante e iniciativa nessa direção? Mas e as intensas influências externas tão variadas?

A leitura que faço é mais amena. Falta-nos estímulo ao desenvolvimento religioso. A escola de formação acadêmica nos prepara para sermos “guerreiros” do mundo material, sem a contrapartida das questões espirituais. A carga horária das grades curriculares, quando contemplam, nos parecem insuficientes para uma forte formação ética e filosófica capaz oferecer sustentação emocional diante das dificuldades do mundo material. Essa realidade influencia e contamina os interesses da grande maioria, que foca suas energias exclusivamente no “vencer” materialmente.  

 Considerando os diferentes estágios de maturidade espiritual entre nós encarnados e também entre os desencarnados, como conciliar uma vivência de paz e harmonia?

Promovendo paz e harmonia. Desenvolvendo comportamento que propicie esta condição íntima. Estar vigilante quanto aos estímulos e informações que permito, adentrem meu pensamento e sentimentos, bloqueando aqueles que possam estimular minhas imperfeições. Ter consciência de que entre os desencarnados com os quais estamos vinculados, existem aqueles que nos querem bem, outros que se aproximam por terem os mesmos interesses – viciosos ou saudáveis – e aqueles que vieram cobrar reparação ao mal que lhes causamos. Buscar sintonia com clima emocional de coragem, confiança em Deus e no fato de que é da vontade do Pai que alcancemos a felicidade – conquista do nosso esforço e merecimento. Enxergar na espiritualidade amiga o suporte às nossas necessidades de energia, não os executores das tarefas que nos competem.

De sua vivência nesses anos todos, o que mais se destaca a seu ver? Por que?

A evolução que, mesmo lenta, aos poucos se instala em todos os setores da sociedade. Deixamos a condição de nômades para o homem atual, que comercializa sementes que nem foram plantadas. O conceito de espiritualidade que adentra as diversas correntes da religião, eliminando preconceitos enfrentados nos primórdios da Codificação. Os relevantes estudos publicados sob o tema “medicina e espiritualidade”, que começam a ser divulgados sem embargo, indicando a reaproximação da ciência e religião. E que a Lei do Progresso se impõe, de forma gradual, malgrado as influências daqueles que se mantêm contrários às Leis de Deus, vencendo mesmo a nossa indisciplina em aplicar os conceitos adquiridos.

Algo marcante para relatar?

As confirmações do que está na codificação, em muitos episódios particulares. Dentre eles destaco uma comunicação recebida em um momento que atravessava, particularmente, uma situação muito difícil. O mentor, ao concluir mensagem a mim dirigida, faz uma observação muito interessante:

“...em tempo, este hábito que você mantém durante suas viagens e trabalho no campo, de raciocinar sobre os temas das exposições e diálogos que enfrentou dificuldades de argumentação, é muito salutar. Saiba que estamos juntos nesses momentos!”

 Este meu hábito não era, até então, conhecido por quaisquer dos presentes a esse encontro.

Suas palavras finais.

Há muita luz à nossa volta. A vida é um desafio constante. Não importa de que "lado” dela esteja o espírito. Intercala, consoante ao grau de aprimoramento individual, momentos de dificuldades, vitórias, tristezas e alegrias... Buscamos a iluminação que é a formação integral do ser alicerçada no desenvolvimento do intelecto tanto quanto da moral e dos sentimentos, sublimando os instintos, nos espiritualizando. Para tanto, ainda que não percebamos, há sim muita luz à nossa volta, embora nossos padrões interiores nos avizinhem, perigosamente, das sombras.  Somos uma centelha Divina que muitos, infelizmente, demoram a colocá-la a brilhar escondendo-a sob o guante de muitas imperfeições, reflexo do trabalho de educação por fazer.

Amadurecer, crescer, evoluir é tarefa árdua e não poderia ser diferente pois trata-se do embate mais aguerrido que podemos enfrentar - vencer a nós mesmos!

Assim quis Deus, para que o patrimônio do saber fosse conquista individual.

Não estamos sós, procuremos a luz à nossa volta para alcançar patamar de entendimento onde “a obediência às leis de Deus ocorra por concessão da razão e a devoção por concessão do coração”.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita