Especial

por Ricardo Baesso de Oliveira

Sexualidade: o que Jesus disse e o que Jesus não disse


Nenhuma sociedade conhecida jamais existiu sem regras sobre o sexo. É difícil, talvez impossível, descobrir o que veio primeiro, os padrões sexuais culturais ou as regras religiosas para o sexo.

O princípio que parece prevalecer na maioria das religiões é que o sexo vaginal heterossexual em pessoas casadas seria a única forma natural pela qual os seres humanos deveriam conduzir-se. Quase todas as regras relacionadas a sexualidade giram em torno disso, embora exista uma enorme diversidade no perímetro de cada religião.             

Alguns de nós buscamos fundamentos para uma ética sexual na moral cristã, e aí reside um imenso problema: Jesus, tal qual Kardec, muito pouco falou sobre o tema. O que temos de norte para a vida sexual decorre basicamente da proposta do apóstolo Paulo e dos doutores da Igreja que surgiram muito tempo depois dele. Propostas, muitas vezes, contaminadas pelo legalismo judeu, pelo contexto da época, ou por ideias próprias, sem nenhum embasamento na filosofia moral de Jesus.

Paulo assumiu proeminência nesse particular, e quase todas as regras e proibições relacionadas à função sexual, muitas, ainda hoje, seguidas pela tradição cristã, tiveram sua origem no pensamento paulino: sexo antes do casamento, abstinência sexual, homossexualidade, prostituição e coito anal, por exemplo.

Não se encontram nos evangelhos referências diretas de Jesus em torno de muitas dessas questões.

Neste texto, procuramos examinar o que Jesus disse e não disse sobre o exercício sexual.

 

Abstinência sexual

O cristianismo, em sua origem, realçava o ideal de total abstinência sexual como algo que elevaria o ser humano a um patamar superior. Todo o sistema monástico cristão, que subsiste nas igrejas católica e ortodoxa, baseia-se na ideia de que abstinência sexual é um dos meios de aproximar-se de Deus. O Judaísmo afirmava o oposto. Espera-se de homens e mulheres que se casem – mais que isso: é sua obrigação. O Judaísmo demonstrou, ao longo de toda a sua história, uma postura bastante negativa em relação ao celibato. O Islã compartilha a visão judaica do casamento e do sexo conjugal como uma obrigação. [i]

Essa tradição cristã encontrou em Paulo o principal idealizador, que desejava que “todos fossem como eu”, isto é, abstinentes sexuais. [ii]Ele era suficientemente esclarecido para saber reconhecer que a proibição absoluta do sexo reduziria drasticamente seu número de seguidores. Assim sendo, transmitia a seguinte mensagem aos seus fiéis: Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se.[iii]

No gnosticismo cristão, a ênfase na abstinência sexual era ainda maior. Como os gnósticos repudiavam tudo que pertencia ao mundo material, a quem consideravam maligno, o gnosticismo tinha uma postura ainda mais negativa que o próprio cristianismo tradicional em relação ao sexo. O pior aspecto do sexo era o de prorrogar a prisão do homem à matéria.[iv]

Jesus não apresentou a abstinência sexual como moralmente “superior” à vida sexual, embora tenha reconhecido que algumas pessoas optam livremente pela abstinência sexual – “os eunucos por amor ao Reino de Deus”, ou seja, pessoas que abrem mão de uma vida afetiva/sexual, com objetivos específicos relacionados ao seu progresso espiritual. Jesus se referia a casos particulares, mas não fez disso uma regra geral.

 
Sexo antes do casamento (fornicação)

Embora no Velho testamento não exista uma proibição geral do sexo antes do casamento, o pressuposto cristão sempre foi o de evitar o sexo fora do casamento, pura e simplesmente. Seria preferível não fazer sexo nenhum, mas, como apontou Paulo, o casamento é uma necessidade para aqueles que não conseguem se manter em abstinência sexual. Sexo antes do casamento não é uma escolha possível para um cristão, afirmou ele, e os fornicadores certamente não herdarão o reino de Deus.[v]

O casamento torna-se, assim, o fator que, do ponto de vista cristão, determina em que extensão as mesmas condutas sexuais podem ser condenáveis, aceitáveis (se necessárias) ou abençoadas. O casamento, sem dúvida, abre a possibilidade para um grau ainda maior de controle religioso sexual.

De forma diretanão há nos Evangelhos uma fala explícita de Jesus dizendo que é proibido ter relações sexuais antes do casamento. Nos Evangelhos, Jesus condena a porneía (Mc 7,21; Mt 15,19). Porneía é um termo grego amplo, que pode significar prostituição, exploração sexual, relações abusivas, infidelidade ou práticas contrárias à dignidade do outro. [vi]


Monogamia/poligamia

O cristianismo é uma das poucas religiões que assumiu um partido a favor da monogamia, mas é importante considerar que nem Jesus nem Paulo se debruçaram sobre a questão da poligamia, nem tampouco a condenaram.

A falta de interesse de ambos pode estar ligada ao fato de que a lei romana permitia somente uma esposa a cada homem, e essa também era a regra em vigor na Palestina judaica. É igualmente relevante especular se o cristianismo não transformou a monogamia em uma regra religiosa simplesmente porque era essa a norma social vigente quando a questão emergiu.

Alguns cristãos africanos, hoje, afirmam sem receio que a poligamia é inteiramente compatível com o cristianismo. Sua convicção baseia-se no Velho Testamento, no qual a poligamia é permitida, e também no Novo, que não a proíbe em nenhum momento.[vii]


Infidelidade conjugal

O adultério é uma das poucas condutas sexuais condenada por praticamente todas as religiões.

Assim diz a Bíblia: Se se encontrar um homem dormindo com uma mulher casada, todos os dois deverão morrer. Assim tirarás o mal do meio de ti.[viii]

Os autores do Pentateuco mosaico podem simplesmente ter sido influenciados pelo mais antigo código legal à disposição na época, o Código de Hamurabi, escrito cerca de 1.700 anos antes de Cristo. Ali está explicitado como uma mulher infiel deve sucumbir com seu amante.

Jesus insistia que era possível ser culpado de infidelidade sexual sem que os órgãos sexuais estivessem envolvidos: Mas eu vos digo que todo aquele que persiste em olhar para uma mulher, a ponto de ter paixão por ela, já cometeu no coração adultério com ela[ix]O desejo não consumado configura um pecado sexual e é algo que faz parte de uma longa tradição dentro do cristianismo. Isso representou um novo conceito para muitos povos com os quais os missionários cristãos entraram em contato.

No entanto, a culpabilidade do desejo já havia sido expressa no antigo testamento. No nono mandamento, se lê que não se deve desejar a mulher do próximo. [x]


Masturbação

A masturbação, na tradição cristã, foi, em larga medida, condenada por ser um ato sexual fora dos limites matrimoniais. Tomás de Aquino, por exemplo, classificou a masturbação como sexo “desnaturado”, pois, da mesma maneira que o sexo anal, oral e qualquer prática homossexual, simplesmente não permitia a procriação.[xi]

Jesus nada comentou a respeito.


Prostituição

Jesus indica a prostituição como uma das condições que tornam o homem impuro: Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, a prostituição, os homicídios [...] Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem[xii]

 

Divórcio

Jesus manifestou-se contrário ao divórcio. Na sua visão, o adultério era a única razão legítima para o divórcio. O ponto de partida para que jesus abordasse o divórcio foram exatamente as leis do Antigo Testamento, pelas quais um homem teria o direito de abandonar o casamento: Jesus as rejeita de imediato, assumindo uma arrojada posição em defesa dos direitos das mulheres.


Homossexualidade

Nenhuma das grandes religiões tem uma postura positiva em relação à homossexualidade, no entanto, o cristianismo se destaca como uma das mais agressivas. A tradicional postura cristã diante da homossexualidade foi de condenação e perseguição, das formas mais letais possíveis. Com base em uns poucos versículos, a cristandade construiu uma tradição de repressão ao sexo entre pessoas do mesmo gênero, particularmente entre homens. Enquanto o Judaísmo, que divide a mesma origem bíblica, adotou uma postura mais tolerante ao sexo intragênero, o cristianismo caracterizou-se por empreender perseguições sangrentas ao longo de diversos momentos históricos.

No Velho Testamento está escrito que se um homem deitar com outro homem como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável. Serão punidos com a morte e levarão a sua culpa. [xiii]       

O sexo lésbico é normalmente ignorado, por não ser considerado sexo, na medida em que não existe penetração. Nem a Bíblia nem o Alcorão trazem condenação ao sexo entre mulheres; a primeira apenas determina pena capital para o sexo anal entre homens.

A condenação, por Paulo, da homossexualidade tanto masculina como feminina é muito cara ao cristianismo. A absoluta intolerância ao sexo entre homens que demonstrava é provavelmente um resultado de sua formação judaica. Paulo acreditava que a sexualidade intragênero era uma consequência lógica do afastamento das pessoas de Deus. Mulheres fazendo sexo com mulheres e sendo comparadas a homens fazendo sexo com homens é um novo elemento que Paulo traz ao discurso religioso. [xiv]

Ao contrário de Paulo, Jesus jamais proferiu palavra contra o sexo homossexual.

Segundo alguns autores, a narrativa dos Evangelhos de Mateus e Lucas sobre o centurião romano que vem até Jesus porque seu criado, pais, está severamente enfermo, pode sugerir uma postura de naturalidade de Jesus ante a condição homoafetiva.[xv] 
Pais é a palavra grega normalmente usada para designar o jovem amante em uma relação entre dois homens. A imensa ternura que o centurião demonstra por seu pais indica que era exatamente esse o caso, e não de apenas um serviçal menor ou escravo. Essa narrativa sobre o centurião e seu pais significa que Jesus pode ter curado um homem em uma relação homossexual sem censurar nenhum dos parceiros; ao contrário, até exibe o centurião como exemplo a ser seguido, por sua fé. [xvi]

 


Conclusão

Examinando os temas da esfera sexual tratados por Jesus daqueles outros não tratados, destaca-se, na separação fundamental entre eles, a dimensão ética. Sempre que a prática sexual se acompanha do potencial dano ao bem-estar de outra pessoa, Jesus pondera quanto ao certo e errado (honestidade afetiva, respeito aos compromissos assumidos, fidelidade etc.).

Todavia, quando a prática sexual implica uma relação do indivíduo consigo mesmo, ou seja, quando se trata de uma questão de foro íntimo, sem implicações morais para terceiros, Jesus opta por não se manifestar (sexo antes do casamento, masturbação, homoafetividade etc.)

Essa opção de Jesus nos leva a compreender adequadamente a diferença entre atos morais e atos de foro íntimo. Os primeiros implicam sempre em uma relação com outra pessoa, enquanto os últimos se dão na dimensão do próprio indivíduo.

Muitos de nós confundimos as coisas e passamos a considerar como moralmente erradas atitudes que não são da esfera da moralidade. Por exemplo: a cirurgia de troca de sexo. Não se trata de uma questão moral, porque não interfere no bem-estar de outras pessoas. Trata-se de uma questão pessoal, que importa apenas à pessoa envolvida. Está fora do escopo da ideia de certo e errado.

Da mesma forma, a afetividade entre pessoas do mesmo sexo, formas outras de sexo que não o sexo vaginal, ou a prática sexual consentida entre pessoas adultas descomprometidas fora de um contrato matrimonial explícito. Não são problemas éticos, e, portanto, não são relacionados por Jesus em sua filosofia moral.

 

[i] Sexo e religião, Dag Øistein Endsjø

[ii] I Co 7,7

[iii] I Co 7,8-9

[iv] O evangelho de Tomé, tradução de Hermínio Miranda

[v] I Co 6,9-10

[vi] Sexo e religião, Dag Øistein Endsjø

[vii] Sexo e religião, Dag Øistein Endsjø

[viii] Deuteronômio 22,22.

[ix] Mateus 5, 27-28

[x] Êxodo 20,1–17 Deuteronômio 5,6–21

[xi] Sexo e religião, Dag Øistein Endsjø

[xii] Marcos 7:21-23

[xiii] Levítico 20,13

[xiv] Ro 1,26-27 e I Co 6,9-10

[xv] Mt 8,5-13 e Lc 7,1-10

[xvi] Sexo e religião, Dag Øistein Endsjø.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita