Nenhuma sociedade conhecida jamais existiu sem regras
sobre o sexo. É difícil, talvez impossível, descobrir o
que veio primeiro, os padrões sexuais culturais ou as
regras religiosas para o sexo.
O princípio que parece prevalecer na maioria das
religiões é que o sexo vaginal heterossexual em pessoas
casadas seria a única forma natural pela qual os seres
humanos deveriam conduzir-se. Quase todas as regras
relacionadas a sexualidade giram em torno disso, embora
exista uma enorme diversidade no perímetro de cada
religião.
Alguns de nós buscamos fundamentos para uma ética sexual
na moral cristã, e aí reside um imenso problema: Jesus,
tal qual Kardec, muito pouco falou sobre o tema. O que
temos de norte para a vida sexual decorre basicamente da
proposta do apóstolo Paulo e dos doutores da Igreja que
surgiram muito tempo depois dele. Propostas, muitas
vezes, contaminadas pelo legalismo judeu, pelo contexto
da época, ou por ideias próprias, sem nenhum embasamento
na filosofia moral de Jesus.
Paulo assumiu proeminência nesse particular, e quase
todas as regras e proibições relacionadas à função
sexual, muitas, ainda hoje, seguidas pela tradição
cristã, tiveram sua origem no pensamento paulino: sexo
antes do casamento, abstinência sexual,
homossexualidade, prostituição e coito anal, por
exemplo.
Não se encontram nos evangelhos referências diretas de
Jesus em torno de muitas dessas questões.
Neste texto, procuramos examinar o que Jesus disse e não
disse sobre o exercício sexual.
Abstinência sexual
O cristianismo, em sua origem, realçava o ideal de total
abstinência sexual como algo que elevaria o ser humano a
um patamar superior. Todo o sistema monástico cristão,
que subsiste nas igrejas católica e ortodoxa, baseia-se
na ideia de que abstinência sexual é um dos meios de
aproximar-se de Deus. O Judaísmo afirmava o oposto.
Espera-se de homens e mulheres que se casem – mais que
isso: é sua obrigação. O Judaísmo demonstrou, ao longo
de toda a sua história, uma postura bastante negativa em
relação ao celibato. O Islã compartilha a visão judaica
do casamento e do sexo conjugal como uma obrigação. [i]
Essa tradição cristã encontrou em Paulo o principal
idealizador, que desejava que “todos fossem como eu”,
isto é, abstinentes sexuais. [ii]Ele
era suficientemente esclarecido para saber reconhecer
que a proibição absoluta do sexo reduziria drasticamente
seu número de seguidores. Assim sendo, transmitia a
seguinte mensagem aos seus fiéis: Aos solteiros e às
viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim como
eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É
melhor casar do que abrasar-se.[iii]
No gnosticismo cristão, a ênfase na abstinência sexual
era ainda maior. Como os gnósticos repudiavam tudo que
pertencia ao mundo material, a quem consideravam
maligno, o gnosticismo tinha uma postura ainda mais
negativa que o próprio cristianismo tradicional em
relação ao sexo. O pior aspecto do sexo era o de
prorrogar a prisão do homem à matéria.[iv]
Jesus não apresentou a abstinência sexual como
moralmente “superior” à vida sexual,
embora tenha reconhecido que algumas
pessoas optam livremente pela abstinência sexual – “os
eunucos por amor ao Reino de Deus”, ou seja, pessoas que
abrem mão de uma vida afetiva/sexual, com objetivos
específicos relacionados ao seu progresso espiritual.
Jesus se referia a casos particulares, mas não fez disso
uma regra geral.
Sexo antes do casamento (fornicação)
Embora no Velho testamento não exista uma proibição
geral do sexo antes do casamento, o pressuposto cristão
sempre foi o de evitar o sexo fora do casamento, pura e
simplesmente. Seria preferível não fazer sexo nenhum,
mas, como apontou Paulo, o casamento é uma necessidade
para aqueles que não conseguem se manter em abstinência
sexual. Sexo antes do casamento não é uma escolha
possível para um cristão, afirmou ele, e os fornicadores
certamente não herdarão o reino de Deus.[v]
O casamento torna-se, assim, o fator que, do ponto de
vista cristão, determina em que extensão as mesmas
condutas sexuais podem ser condenáveis, aceitáveis (se
necessárias) ou abençoadas. O casamento, sem dúvida,
abre a possibilidade para um grau ainda maior de
controle religioso sexual.
De forma direta, não
há nos Evangelhos uma fala explícita de Jesus dizendo
que é proibido ter relações sexuais antes do casamento. Nos
Evangelhos, Jesus condena a porneía (Mc
7,21; Mt 15,19). Porneía é um termo
grego amplo, que pode significar prostituição,
exploração sexual, relações abusivas, infidelidade ou
práticas contrárias à dignidade do outro. [vi]
Monogamia/poligamia
O cristianismo é uma das poucas religiões que assumiu um
partido a favor da monogamia, mas é importante
considerar que nem Jesus nem Paulo se debruçaram sobre a
questão da poligamia, nem tampouco a condenaram.
A falta de interesse de ambos pode estar ligada ao fato
de que a lei romana permitia somente uma esposa a cada
homem, e essa também era a regra em vigor na Palestina
judaica. É igualmente relevante especular se o
cristianismo não transformou a monogamia em uma regra
religiosa simplesmente porque era essa a norma social
vigente quando a questão emergiu.
Alguns cristãos africanos, hoje, afirmam sem receio que
a poligamia é inteiramente compatível com o
cristianismo. Sua convicção baseia-se no Velho
Testamento, no qual a poligamia é permitida, e também no
Novo, que não a proíbe em nenhum momento.[vii]
Infidelidade conjugal
O adultério é uma das poucas condutas sexuais condenada
por praticamente todas as religiões.
Assim diz a Bíblia: Se se encontrar um homem dormindo
com uma mulher casada, todos os dois deverão morrer.
Assim tirarás o mal do meio de ti.[viii]
Os autores do Pentateuco mosaico podem simplesmente ter
sido influenciados pelo mais antigo código legal à
disposição na época, o Código de Hamurabi, escrito cerca
de 1.700 anos antes de Cristo. Ali está explicitado como
uma mulher infiel deve sucumbir com seu amante.
Jesus insistia que era possível ser culpado de
infidelidade sexual sem que os órgãos sexuais estivessem
envolvidos: Mas eu vos digo que todo aquele que
persiste em olhar para uma mulher, a ponto de ter paixão
por ela, já cometeu no coração adultério com ela. [ix]O
desejo não consumado configura um pecado sexual e é algo
que faz parte de uma longa tradição dentro do
cristianismo. Isso representou um novo conceito para
muitos povos com os quais os missionários cristãos
entraram em contato.
No entanto, a culpabilidade do desejo já havia sido
expressa no antigo testamento. No nono mandamento, se lê
que não se deve desejar a mulher do próximo. [x]
Masturbação
A masturbação, na tradição cristã, foi, em larga medida,
condenada por ser um ato sexual fora dos limites
matrimoniais. Tomás de Aquino, por exemplo, classificou
a masturbação como sexo “desnaturado”, pois, da mesma
maneira que o sexo anal, oral e qualquer prática
homossexual, simplesmente não permitia a procriação.[xi]
Jesus nada comentou a respeito.
Prostituição
Jesus indica a prostituição como uma das condições que
tornam o homem impuro: Porque do interior do coração
dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, a
prostituição, os homicídios [...] Todos estes males
procedem de dentro e contaminam o homem. [xii]
Divórcio
Jesus manifestou-se contrário ao divórcio. Na sua visão,
o adultério era a única razão legítima para o divórcio.
O ponto de partida para que jesus abordasse o divórcio
foram exatamente as leis do Antigo Testamento, pelas
quais um homem teria o direito de abandonar o casamento:
Jesus as rejeita de imediato, assumindo uma arrojada
posição em defesa dos direitos das mulheres.
Homossexualidade
Nenhuma das grandes religiões tem uma postura positiva
em relação à homossexualidade, no entanto, o
cristianismo se destaca como uma das mais agressivas. A
tradicional postura cristã diante da homossexualidade
foi de condenação e perseguição, das formas mais letais
possíveis. Com base em uns poucos versículos, a
cristandade construiu uma tradição de repressão ao sexo
entre pessoas do mesmo gênero, particularmente entre
homens. Enquanto o Judaísmo, que divide a mesma origem
bíblica, adotou uma postura mais tolerante ao sexo
intragênero, o cristianismo caracterizou-se por
empreender perseguições sangrentas ao longo de diversos
momentos históricos.
No Velho Testamento está
escrito que se um homem deitar com outro homem como se
fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável.
Serão punidos com a morte e levarão a sua culpa. [xiii]
O sexo lésbico é normalmente ignorado, por não ser
considerado sexo, na medida em que não existe
penetração. Nem a Bíblia nem o Alcorão trazem condenação
ao sexo entre mulheres; a primeira apenas determina pena
capital para o sexo anal entre homens.
A condenação, por Paulo,
da homossexualidade tanto masculina como feminina é
muito cara ao cristianismo. A absoluta intolerância ao
sexo entre homens que demonstrava é provavelmente um
resultado de sua formação judaica. Paulo acreditava que
a sexualidade intragênero era uma consequência lógica do
afastamento das pessoas de Deus. Mulheres fazendo sexo
com mulheres e sendo comparadas a homens fazendo sexo
com homens é um novo elemento que Paulo traz ao discurso
religioso. [xiv]
Ao contrário de Paulo, Jesus jamais proferiu palavra
contra o sexo homossexual.
Segundo alguns autores, a narrativa dos Evangelhos de
Mateus e Lucas sobre o centurião romano que vem até
Jesus porque seu criado, pais, está severamente enfermo,
pode sugerir uma postura de naturalidade de Jesus ante a
condição homoafetiva.[xv]
Pais é a palavra grega normalmente usada para designar o
jovem amante em uma relação entre dois homens. A imensa
ternura que o centurião demonstra por seu pais indica
que era exatamente esse o caso, e não de apenas um
serviçal menor ou escravo. Essa narrativa sobre o
centurião e seu pais significa que Jesus pode ter curado
um homem em uma relação homossexual sem censurar nenhum
dos parceiros; ao contrário, até exibe o centurião como
exemplo a ser seguido, por sua fé. [xvi]
Conclusão
Examinando os temas da esfera sexual tratados por Jesus
daqueles outros não tratados, destaca-se, na separação
fundamental entre eles, a dimensão ética. Sempre que a
prática sexual se acompanha do potencial dano ao
bem-estar de outra pessoa, Jesus pondera quanto ao certo
e errado (honestidade afetiva, respeito aos compromissos
assumidos, fidelidade etc.).
Todavia, quando a prática sexual implica uma relação do
indivíduo consigo mesmo, ou seja, quando se trata de uma
questão de foro íntimo, sem implicações morais para
terceiros, Jesus opta por não se manifestar (sexo antes
do casamento, masturbação, homoafetividade etc.)
Essa opção de Jesus nos leva a compreender adequadamente
a diferença entre atos morais e atos de foro íntimo. Os
primeiros implicam sempre em uma relação com outra
pessoa, enquanto os últimos se dão na dimensão do
próprio indivíduo.
Muitos de nós confundimos as coisas e passamos a
considerar como moralmente erradas atitudes que não são
da esfera da moralidade. Por exemplo: a cirurgia de
troca de sexo. Não se trata de uma questão moral, porque
não interfere no bem-estar de outras pessoas. Trata-se
de uma questão pessoal, que importa apenas à pessoa
envolvida. Está fora do escopo da ideia de certo e
errado.
Da mesma forma, a afetividade entre pessoas do mesmo
sexo, formas outras de sexo que não o sexo vaginal, ou a
prática sexual consentida entre pessoas adultas
descomprometidas fora de um contrato matrimonial
explícito. Não são problemas éticos, e, portanto, não
são relacionados por Jesus em sua filosofia moral.
[i] Sexo e
religião, Dag Øistein Endsjø
[iv] O
evangelho de Tomé, tradução de Hermínio Miranda
[vi] Sexo
e religião, Dag Øistein Endsjø
[vii] Sexo
e religião, Dag Øistein Endsjø
[x] Êxodo
20,1–17 Deuteronômio 5,6–21
[xi] Sexo
e religião, Dag Øistein Endsjø
[xiv] Ro
1,26-27 e I Co 6,9-10
[xv] Mt
8,5-13 e Lc 7,1-10
[xvi] Sexo
e religião, Dag Øistein Endsjø.