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por Cláudio Bueno da Silva

“Se eu quiser falar com Deus”


Este é o nome de uma das mais belas músicas compostas por Gilberto Gil, um ícone da MPB. Um poema sobre o qual quero fazer alguns comentários devidos não só ao seu alto valor literário, mas também ao seu conteúdo espiritualista.

Gil dá seu preceito de como “conversar com Deus”, que se assemelha ao modo sugerido no capítulo XXVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, onde se pode analisar as condições da prece.

Vejamos: Se eu quiser falar com Deus/Tenho que ficar a sós/Tenho que apagar a luz/Tenho que calar a voz/Tenho que encontrar a paz/Tenho que folgar os nós/Dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios/Tenho que esquecer a data/Tenho que perder a conta/Tenho que ter mãos vazias/Ter a alma e o corpo nus.

Se eu quiser falar com Deus/Tenho que aceitar a dor/Tenho que comer o pão/Que o diabo amassou/Tenho que virar um cão/Tenho que lamber o chão/Dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho/tenho que me achar medonho/E apesar de um mal tamanho/Alegrar meu coração.

Se eu quiser falar com Deus/Tenho que aventurar/Tenho que subir aos céus/Sem cordas pra segurar/Tenho que dizer adeus/Dar as costas, caminhar/Decidido pela estrada que ao findar vai dar em nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Do que eu pensava encontrar.

“As condições da prece – afirma Kardec – foram claramente definidas por Jesus. Quando orardes, diz ele, não vos coloqueis em evidência, mas orai em secreto”. A ideia de Gil é a mesma.

Orar em secreto significa orar com discrição, a sós, observando elevação de propósito. Apagar a luz, figuradamente, é o mesmo que desligar-se do mundo. Calar a voz é dar prioridade ao pensamento, e este mais do que as palavras, é o veículo da prece. Gil estabeleceu assim, com perfeição, o recolhimento, o silêncio e a concentração para ter “uma boa conversa com Deus”.

Para o poeta, folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receiosesquecer a dataperder a conta, ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus, mais que relaxar o corpo, implica no esquecimento completo das preocupações materiais, do dia a dia, no desligamento mental do mundo exterior, libertando o Espírito de amarras que possam impedir a fluência livre do pensamento.

Nos versos: Se eu quiser falar com Deus/Tenho que aceitar a dor/Tenho que lamber o chão/Dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho, Gil expressa a aceitação da Lei, da vontade de Deus, numa posição de humildade e resignação.

Reforça ainda essa ideia, quando assume sua (nossa) condição de miséria e imperfeição, sentimento este que se abranda na prece feita com alegria e confiança: Tenho que me ver tristonho/Tenho que me achar medonho/E apesar de um mal tamanho/Alegrar meu coração. “Orai, enfim, com humildade, não com orgulho, diz Kardec. Examinai os vossos defeitos, e não as vossas qualidades, e se vos comparardes aos outros, procurai o que existe de mau em vós”.

Na sequência, reproduzindo a ideia do imaginário cristão de um Deus localizado “nos céus”, Gilberto Gil traduz poeticamente o que seria o caminho espiritual da prece: para “falar com Deus”, Tenho que subir aos céus/Sem cordas pra segurar, o que vale dizer, alçar o Espírito em pensamento, apenas com as forças interiores. Dizer adeus/Dar as costas aos padrões materiais da vida, e caminhar.

O final do poema surpreende e revela, no meu entender, a perplexidade positiva ou negativa de quem chega ao “fim da estrada”: se defrontar com o oposto do que Pensava encontrar.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita