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“Se eu quiser falar com Deus”
Este é o nome de uma das mais belas músicas compostas
por Gilberto Gil, um ícone da MPB. Um poema sobre o qual
quero fazer alguns comentários devidos não só ao seu
alto valor literário, mas também ao seu conteúdo
espiritualista.
Gil dá seu preceito de como “conversar com Deus”, que se
assemelha ao modo sugerido no capítulo XXVII de O
Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan
Kardec, onde se pode analisar as condições da prece.
Vejamos: Se eu quiser falar com Deus/Tenho que ficar
a sós/Tenho que apagar a luz/Tenho que calar a voz/Tenho
que encontrar a paz/Tenho que folgar os nós/Dos sapatos,
da gravata, dos desejos, dos receios/Tenho que esquecer
a data/Tenho que perder a conta/Tenho que ter mãos
vazias/Ter a alma e o corpo nus.
Se eu quiser falar com Deus/Tenho que aceitar a
dor/Tenho que comer o pão/Que o diabo amassou/Tenho que
virar um cão/Tenho que lamber o chão/Dos palácios, dos
castelos suntuosos do meu sonho/tenho que me achar
medonho/E apesar de um mal tamanho/Alegrar meu coração.
Se eu quiser falar com Deus/Tenho que aventurar/Tenho
que subir aos céus/Sem cordas pra segurar/Tenho que
dizer adeus/Dar as costas, caminhar/Decidido pela
estrada que ao findar vai dar em nada/Nada, nada, nada,
nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Do
que eu pensava encontrar.
“As condições da prece – afirma Kardec – foram
claramente definidas por Jesus. Quando orardes, diz ele,
não vos coloqueis em evidência, mas orai em secreto”. A
ideia de Gil é a mesma.
Orar em secreto significa orar com discrição, a sós,
observando elevação de propósito. Apagar a luz,
figuradamente, é o mesmo que desligar-se do mundo. Calar
a voz é dar prioridade ao pensamento, e este mais do que
as palavras, é o veículo da prece. Gil estabeleceu
assim, com perfeição, o recolhimento, o silêncio e a
concentração para ter “uma boa conversa com Deus”.
Para o poeta, folgar os nós dos sapatos, da
gravata, dos desejos, dos receios, esquecer a
data, perder a conta, ter mãos vazias, ter a alma
e o corpo nus, mais que relaxar o corpo, implica no
esquecimento completo das preocupações materiais, do dia
a dia, no desligamento mental do mundo exterior,
libertando o Espírito de amarras que possam impedir a
fluência livre do pensamento.
Nos versos: Se eu quiser falar com Deus/Tenho que
aceitar a dor/Tenho que lamber o chão/Dos palácios, dos
castelos suntuosos do meu sonho, Gil expressa a
aceitação da Lei, da vontade de Deus, numa posição de
humildade e resignação.
Reforça ainda essa ideia, quando assume sua (nossa)
condição de miséria e imperfeição, sentimento este que
se abranda na prece feita com alegria e confiança: Tenho
que me ver tristonho/Tenho que me achar medonho/E apesar
de um mal tamanho/Alegrar meu coração. “Orai, enfim,
com humildade, não com orgulho, diz Kardec. Examinai os
vossos defeitos, e não as vossas qualidades, e se vos
comparardes aos outros, procurai o que existe de mau em
vós”.
Na sequência, reproduzindo a ideia do imaginário cristão
de um Deus localizado “nos céus”, Gilberto Gil traduz
poeticamente o que seria o caminho espiritual da prece:
para “falar com Deus”, Tenho que subir aos céus/Sem
cordas pra segurar, o que vale dizer, alçar o
Espírito em pensamento, apenas com as forças
interiores. Dizer adeus/Dar as costas aos padrões
materiais da vida, e caminhar.
O final do poema surpreende e revela, no meu entender, a
perplexidade positiva ou negativa de quem chega ao “fim
da estrada”: se defrontar com o oposto do que Pensava
encontrar.
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