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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

As religiões tornam os homens melhores?


Allan Kardec acreditava que a crença nos princípios espíritas pode auxiliar no melhoramento moral da humanidade. 
[i] Segundo Kardec, ao destruir o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, o Espiritismo faz os homens compreenderem onde está o seu verdadeiro interesse. [ii] Escreveu:

Não é à ausência de toda crença que se deve atribuir o relaxamento dos laços de família e a maior parte das desordens que minam a sociedade? [iii]      

Se as religiões tornam os homens moralmente melhores é questão que gera controvérsias em diversas disciplinas acadêmicas.

Phil Zuckerman é um sociólogo norte-americano conhecido por seus estudos sobre secularismo, ateísmo e a ausência de religião na sociedade. Seu trabalho se concentra especialmente em entender como pessoas e sociedades vivem sem religião — e se isso afeta valores morais, felicidade e coesão social. Ao investigar países com alta taxa de não religiosos, como Dinamarca e Suécia ele argumenta que sociedades menos religiosas podem apresentar altos níveis de bem-estar, confiança social e qualidade de vida.

Ele questiona a ideia de que a moralidade depende necessariamente da religião:

As nações mais religiosas hoje são as mais caóticas, miseráveis e corruptas, e a tendência é que as sociedades menos religiosas sejam as mais estáveis, seguras e humanas. Ao contrário do que muitos imaginam, a moralidade floresce mesmo sem uma crença religiosa dominante. [iv]

Nem todos, todavia, pensam como Zuckerman. Muitos veem benefícios éticos nas religiões, com algumas restrições: os resultados são discretos, não verificáveis em todos os estudos, muitas vezes, restritos aos membros da própria comunidade, e, quase que exclusivamente quando os crentes são lembrados dos seus “compromissos” religiosos. [v]

Um autor que vem se destacando nessa área de pesquisa é o psicólogo norte-americano David DeSteno, da Universidade de Northeastern. Nos últimos trinta anos, o foco de sua carreira de pesquisador tem sido encontrar maneiras de ajudar as pessoas a se tornarem mais corretas, mais compassivas e mais resilientes, e confessa ter ficado surpreso ao perceber que muitas das respostas que ia encontrando estavam em sintonia com as ideias religiosas. [vi]

Muito do que os psicólogos estavam revelando sobre como mudar as crenças, sentimentos e comportamentos das pessoas – de que modo as apoiar quando se entristecem, ou ajudá-las a encontrar conexões e a felicidade – parecia ecoar ideias e técnicas que as religiões já usavam havia milhares de anos. Os cientistas estão descobrindo coisas que as religiões têm compreendido e aplicado há muito tempo. Os líderes espirituais muitas vezes sabiam – de maneiras que nós agora conseguimos confirmar cientificamente – como ajudar as pessoas a viver melhor.  Segundo DeSteno, os cientistas sociais subiram no bonde só agora, querendo sentar na janelinha.

DeSteno afirma que a religião é um dos meios mais antigos (e um dos mais eficazes) de encorajar o bom comportamento.

Explica que, conforme a crença das pessoas em um deus que pune transgressões morais crescia, aumentava também a tendência a jogar limpo. Isto é, aqueles que acreditavam em um deus onisciente e moralizante tinham probabilidade muito menor de enganar pessoas, e também apresentaram maior tendência a compartilhar dinheiro com elas, do que os que acreditavam em uma divindade menos moralizadora. Portanto, crer que Deus deseja que você se comporte virtuosamente ajuda o fiel a ser um bom cônjuge, amigo e cidadão, com todos os benefícios práticos associados a esse comportamento.

Acrescenta que quando as pessoas pronunciam orações formalizadas – recitando o Pai-Nosso do catolicismo, ou as orações diárias do Islã e do judaísmo – os fiéis passam a saber que tipo de crença Deus exige delas e como ele quer que se comportem. As pessoas repetem várias vezes algumas frases, ajoelham-se ou se inclinam e cantam ou falam juntas. Esses atos ritualizados trazem à mente um conjunto de processos que não correspondem a um agrupamento aleatório de elementos: é um conjunto perfeito demais para ser casual. Repetir afirmações, até mesmo as falsas, faz com elas pareçam mais críveis. Os psicólogos reconhecem que a exposição contínua a afirmações tende a aumentar a crença das pessoas nelas. Quanto mais vezes você vir ou escutar algo, mais verdadeiro isso vai soar. Imagina, então, o poder que recitações diárias ou semanais de credos e orações podem ter sobre a crença.

O autor, no entanto, faz uma advertência: o que conta na verdade não são as crenças em si mesmas, mas o engajamento e as práticas, como as orações, relacionadas à fé.

Isso ficou evidente em um estudo onde observou-se a influência combinada da crença e da oração sobre a moralidade num experimento em que os pesquisadores deram aos participantes a oportunidade de “colar” em uma prova. Para que houvesse algum incentivo em favor da trapaça, os pesquisadores prometeram que quem respondesse mais questões corretamente ganharia cem dólares. Como as pessoas responderam às perguntas sozinhas, usando computadores com acesso à internet, “colar” era fácil; bastava procurar no Google. Mas, embora os participantes não soubessem, os pesquisadores tinham como saber se alguém trapaceasse.

É aqui que entra a oração. Antes da prova, os pesquisadores pediram a metade dos voluntários que formulassem uma oração. Os resultados foram impressionantes. Nem o fato de ser religioso nem o de fazer oração, isoladamente, afetaram de forma direta a probabilidade de alguém colar na prova. Mas certa combinação dessas duas coisas influenciaram o resultado. Entre aqueles que acreditavam em Deus, rezar antes de responder ao questionário fez com que eles ficassem mais honestos. Parece, portanto, que simplesmente se identificar como religioso ou adotar crenças religiosas nem sempre faz, por si só, as pessoas serem mais virtuosas. Às vezes, elas precisam também de um empurrãozinho ritualístico para refletir sobre a vontade de Deus, ressaltada, naquele momento, pela oração.

Um estudo coordenado por Dan Ariely, professor de psicologia de Harvard, mostrou resultados semelhantes. Ariely e seus colaboradores reuniram alunos de graduação e pediram que fizessem uma prova simples de matemática. A prova consistia em 20 problemas e eles ganhariam $10 a cada problema resolvido corretamente.  Alguns dos participantes entregavam as provas diretamente ao fiscal. Era o grupo controle. Os outros participantes corrigiam, eles próprios, as questões resolvidas a partir de um gabarito oferecido pelo examinador e não precisavam entregar a prova. Esses participantes, obviamente, foram os que tiveram a oportunidade de fraudar. Assim, dada a oportunidade de fraudar, os participantes fraudaram?  Sim, mas só um pouquinho. A primeira turma, onde não era possível a fraude o índice de acertos foi de 30%, enquanto na segunda turma o índice de acerto foi um pouco melhor: 40%.

O segredo da experiência era o que viria depois em uma terceira turma. Essa terceira turma seria como a segunda (eles próprios corrigiam suas questões e, portanto, poderiam ser ou não honestos), mas com uma diferença fundamental: antes de começarem a fazer a prova, eles deveriam escrever em uma folha o que se lembravam dos Dez mandamentos. Surpreendentemente os alunos a quem se pediu que se recordassem dos Dez mandamentos não colaram! O índice de acerto foi de 30%, à semelhança da primeira turma.

O que mais impressionou os pesquisadores foi que os alunos que só conseguiram lembrar um ou dois mandamentos foram tão afetados por eles quanto os alunos que se lembraram de quase todos. Isso indicava que não eram os mandamentos propriamente ditos que incentivavam a honestidade, mas a mera contemplação de algum tipo de referência moral. [vii]

Ao alisarmos os elos entre a religião e o comportamento ético, fica claro, então, segundo DeSteno, que práticas diárias e semanais têm grande impacto na hora de construir e manter o caráter. Se misturarmos todas as pessoas religiosas em um só pacote – juntando os mais devotos com aqueles que não são tão dedicados – e compararmos esse grupo com os ateus, não há diferenças no comportamento moral dos dois conjuntos. Mas, quando se faz uma análise mais particularizada, separando as pessoas religiosas pelo grau de engajamento em suas práticas e rituais de fé, um quadro muito diferente acaba emergindo.

Enquanto as crenças religiosas podem ter algum papel no estímulo ao comportamento ético, quanto mais as pessoas participarem dos rituais que apoiam esses ideais, melhor. Em outras palavras, é fácil esquecer ou ignorar aquilo em que você deveria acreditar ou fazer, a menos que seja lembrado dessas crenças. Um exemplo disso são os estudos que mostraram que os cristãos são mais generosos e assistem menos pornografia aos domingos, depois de sair da missa ou do culto, mas durante o resto da semana, não diferem desses aspectos das pessoas menos religiosas.

Participar dos rituais e das práticas de uma fé não apenas amenta a crença como também fortalece as motivações virtuosas em dado momento. Estudos mostram que os muçulmanos tendem a ser mais generosos nos instantes que seguem as suas orações (5 vezes ao dia). Mesmo no cotidiano, simples lembretes de religiosidade – aqueles que mal são registrados pela nossa consciência, por um segundo ou dois no máximo – podem ter efeito parecido. Um estudo mostrou que pessoas que fazem palavras-cruzadas com palavras religiosas deixavam mais do dobro de dinheiro para outros em relação aos que se valiam de palavras sem conotação religiosa.

Outro aspecto relevante a ser considerado: a gratidão. As religiões, via de regra sensibilizam os fiéis ao sentimento de gratidão, a Deus, aos bons Espíritos, aos ancestrais, à natureza como um todo. Quando a ideia é reforçar a moralidade, a gratidão amplifica o autocontrole. Quando as pessoas se sentem gratas, elas têm uma probabilidade muito menor de sucumbir às tentações, trapaceiam menos, e ajudam mais. Enquanto esses sentimentos de gratidão perduram, as pessoas se comportam de maneira mais generosa. Assim, quando uma pessoa agradece a Deus fazendo uma oração antes das refeições, recitando orações formais de ação de graças em cultos, ou mesmo acendendo velas, ou fazendo pequenas oferendas como sinal de agradecimento à divindade, a gratidão que sente já está levando-a a ser mais ética.

A conclusão do autor é óbvia: a crença pode nos ajudar a sermos pessoas melhores, mas precisa ser lembrada sempre. Dar um empurrãozinho na mente para que ela se concentre em Deus ou em símbolos religiosos estimula as pessoas a serem mais virtuosas. [viii]

 

 

[i] LE item 982.

[ii] LE item 799.

[iii] LE conclusão, item III.

[iv] Sociedades sem Deus, Phil Zuckerman.

[v] Comporte-se - R. Sapolsky.

[vi] Como Deus funciona – David DeSteno.

[vii] Previsivelmente irracional, Dan Ariely.

[viii] Como Deus funciona – David DeSteno.

  

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita