As religiões
tornam os homens
melhores?
Allan Kardec
acreditava que a crença nos princípios espíritas pode
auxiliar no melhoramento moral da humanidade. [i] Segundo
Kardec, ao destruir o materialismo, que é uma das chagas
da sociedade, o Espiritismo faz os homens compreenderem
onde está o seu verdadeiro interesse. [ii] Escreveu:
Não é à ausência de toda crença que se deve atribuir o
relaxamento dos laços de família e a maior parte das
desordens que minam a sociedade? [iii]
Se
as religiões tornam os homens moralmente melhores é
questão que gera controvérsias em diversas disciplinas
acadêmicas.
Phil Zuckerman é um sociólogo norte-americano conhecido
por seus estudos sobre secularismo, ateísmo e a ausência
de religião na sociedade. Seu trabalho se concentra
especialmente em entender como pessoas e sociedades
vivem sem religião — e se isso afeta valores morais,
felicidade e coesão social. Ao investigar países com
alta taxa de não religiosos, como Dinamarca e Suécia ele
argumenta que sociedades menos religiosas podem
apresentar altos níveis de bem-estar, confiança social e
qualidade de vida.
Ele
questiona a ideia de que a moralidade depende
necessariamente da religião:
As nações mais religiosas hoje são as mais caóticas,
miseráveis e corruptas, e a tendência é que as
sociedades menos religiosas sejam as mais estáveis,
seguras e humanas. Ao contrário do que muitos imaginam,
a moralidade floresce mesmo sem uma crença religiosa
dominante. [iv]
Nem
todos, todavia, pensam como Zuckerman. Muitos veem
benefícios éticos nas religiões, com algumas restrições:
os resultados são discretos, não verificáveis em todos
os estudos, muitas vezes, restritos aos membros da
própria comunidade, e, quase que exclusivamente quando
os crentes são lembrados dos seus “compromissos”
religiosos. [v]
Um
autor que vem se destacando nessa área de pesquisa é o
psicólogo norte-americano David DeSteno, da Universidade
de Northeastern. Nos últimos trinta anos, o foco de sua
carreira de pesquisador tem sido encontrar maneiras de
ajudar as pessoas a se tornarem mais corretas, mais
compassivas e mais resilientes, e confessa ter ficado
surpreso ao perceber que muitas das respostas que ia
encontrando estavam em sintonia com as ideias
religiosas. [vi]
Muito do que os psicólogos estavam revelando sobre como
mudar as crenças, sentimentos e comportamentos das
pessoas – de que modo as apoiar quando se entristecem,
ou ajudá-las a encontrar conexões e a felicidade –
parecia ecoar ideias e técnicas que as religiões já
usavam havia milhares de anos. Os cientistas estão
descobrindo coisas que as religiões têm compreendido e
aplicado há muito tempo. Os líderes espirituais muitas
vezes sabiam – de maneiras que nós agora conseguimos
confirmar cientificamente – como ajudar as pessoas a
viver melhor. Segundo DeSteno, os cientistas sociais
subiram no bonde só agora, querendo sentar na janelinha.
DeSteno afirma que a religião é um dos meios mais
antigos (e um dos mais eficazes) de encorajar o bom
comportamento.
Explica que, conforme a crença das pessoas em um deus
que pune transgressões morais crescia, aumentava também
a tendência a jogar limpo. Isto é, aqueles que
acreditavam em um deus onisciente e moralizante tinham
probabilidade muito menor de enganar pessoas, e também
apresentaram maior tendência a compartilhar dinheiro com
elas, do que os que acreditavam em uma divindade menos
moralizadora. Portanto, crer que Deus deseja que você se
comporte virtuosamente ajuda o fiel a ser um bom
cônjuge, amigo e cidadão, com todos os benefícios
práticos associados a esse comportamento.
Acrescenta que quando as pessoas pronunciam orações
formalizadas – recitando o Pai-Nosso do catolicismo, ou
as orações diárias do Islã e do judaísmo – os fiéis
passam a saber que tipo de crença Deus exige delas e
como ele quer que se comportem. As pessoas repetem
várias vezes algumas frases, ajoelham-se ou se inclinam
e cantam ou falam juntas. Esses atos ritualizados trazem
à mente um conjunto de processos que não correspondem a
um agrupamento aleatório de elementos: é um conjunto
perfeito demais para ser casual. Repetir afirmações, até
mesmo as falsas, faz com elas pareçam mais críveis. Os
psicólogos reconhecem que a exposição contínua a
afirmações tende a aumentar a crença das pessoas nelas.
Quanto mais vezes você vir ou escutar algo, mais
verdadeiro isso vai soar. Imagina, então, o poder que
recitações diárias ou semanais de credos e orações podem
ter sobre a crença.
O
autor, no entanto, faz uma advertência: o que conta na
verdade não são as crenças em si mesmas, mas o
engajamento e as práticas, como as orações, relacionadas
à fé.
Isso ficou evidente em um estudo onde observou-se a
influência combinada da crença e da oração sobre
a moralidade num experimento em que os pesquisadores
deram aos participantes a oportunidade de “colar” em uma
prova. Para que houvesse algum incentivo em favor da
trapaça, os pesquisadores prometeram que quem
respondesse mais questões corretamente ganharia cem
dólares. Como as pessoas responderam às perguntas
sozinhas, usando computadores com acesso à internet,
“colar” era fácil; bastava procurar no Google. Mas,
embora os participantes não soubessem, os pesquisadores
tinham como saber se alguém trapaceasse.
É
aqui que entra a oração. Antes da prova, os
pesquisadores pediram a metade dos voluntários que
formulassem uma oração. Os resultados foram
impressionantes. Nem o fato de ser religioso nem o de
fazer oração, isoladamente, afetaram de forma direta a
probabilidade de alguém colar na prova. Mas certa
combinação dessas duas coisas influenciaram o resultado.
Entre aqueles que acreditavam em Deus, rezar antes de
responder ao questionário fez com que eles ficassem mais
honestos. Parece, portanto, que simplesmente se
identificar como religioso ou adotar crenças religiosas
nem sempre faz, por si só, as pessoas serem mais
virtuosas. Às vezes, elas precisam também de um
empurrãozinho ritualístico para refletir sobre a vontade
de Deus, ressaltada, naquele momento, pela oração.
Um
estudo coordenado por Dan Ariely, professor de
psicologia de Harvard, mostrou resultados semelhantes.
Ariely e seus colaboradores reuniram alunos de graduação
e pediram que fizessem uma prova simples de matemática.
A prova consistia em 20 problemas e eles ganhariam $10 a
cada problema resolvido corretamente. Alguns dos
participantes entregavam as provas diretamente ao
fiscal. Era o grupo controle. Os outros participantes
corrigiam, eles próprios, as questões resolvidas a
partir de um gabarito oferecido pelo examinador e não
precisavam entregar a prova. Esses participantes,
obviamente, foram os que tiveram a oportunidade de
fraudar. Assim, dada a oportunidade de fraudar, os
participantes fraudaram? Sim, mas só um pouquinho. A
primeira turma, onde não era possível a fraude o índice
de acertos foi de 30%, enquanto na segunda turma o
índice de acerto foi um pouco melhor: 40%.
O
segredo da experiência era o que viria depois em uma
terceira turma. Essa terceira turma seria como a segunda
(eles próprios corrigiam suas questões e, portanto,
poderiam ser ou não honestos), mas com uma diferença
fundamental: antes de começarem a fazer a prova, eles
deveriam escrever em uma folha o que se lembravam dos
Dez mandamentos. Surpreendentemente os alunos a quem se
pediu que se recordassem dos Dez mandamentos não
colaram! O índice de acerto foi de 30%, à semelhança da
primeira turma.
O
que mais impressionou os pesquisadores foi que os alunos
que só conseguiram lembrar um ou dois mandamentos foram
tão afetados por eles quanto os alunos que se lembraram
de quase todos. Isso indicava que não eram os
mandamentos propriamente ditos que incentivavam a
honestidade, mas a mera contemplação de algum tipo de
referência moral. [vii]
Ao
alisarmos os elos entre a religião e o comportamento
ético, fica claro, então, segundo DeSteno, que práticas
diárias e semanais têm grande impacto na hora de
construir e manter o caráter. Se misturarmos todas as
pessoas religiosas em um só pacote – juntando os mais
devotos com aqueles que não são tão dedicados – e
compararmos esse grupo com os ateus, não há diferenças
no comportamento moral dos dois conjuntos. Mas, quando
se faz uma análise mais particularizada, separando as
pessoas religiosas pelo grau de engajamento em suas
práticas e rituais de fé, um quadro muito diferente
acaba emergindo.
Enquanto as crenças religiosas podem ter algum papel no
estímulo ao comportamento ético, quanto mais as pessoas
participarem dos rituais que apoiam esses ideais,
melhor. Em outras palavras, é fácil esquecer ou ignorar
aquilo em que você deveria acreditar ou fazer, a menos
que seja lembrado dessas crenças. Um exemplo disso são
os estudos que mostraram que os cristãos são mais
generosos e assistem menos pornografia aos domingos,
depois de sair da missa ou do culto, mas durante o resto
da semana, não diferem desses aspectos das pessoas menos
religiosas.
Participar dos rituais e das práticas de uma fé não
apenas amenta a crença como também fortalece as
motivações virtuosas em dado momento. Estudos mostram
que os muçulmanos tendem a ser mais generosos nos
instantes que seguem as suas orações (5 vezes ao dia).
Mesmo no cotidiano, simples lembretes de religiosidade –
aqueles que mal são registrados pela nossa consciência,
por um segundo ou dois no máximo – podem ter efeito
parecido. Um estudo mostrou que pessoas que fazem
palavras-cruzadas com palavras religiosas deixavam mais
do dobro de dinheiro para outros em relação aos que se
valiam de palavras sem conotação religiosa.
Outro aspecto relevante a ser considerado: a gratidão.
As religiões, via de regra sensibilizam os fiéis ao
sentimento de gratidão, a Deus, aos bons Espíritos, aos
ancestrais, à natureza como um todo. Quando a ideia é
reforçar a moralidade, a gratidão amplifica o
autocontrole. Quando as pessoas se sentem gratas, elas
têm uma probabilidade muito menor de sucumbir às
tentações, trapaceiam menos, e ajudam mais. Enquanto
esses sentimentos de gratidão perduram, as pessoas se
comportam de maneira mais generosa. Assim, quando uma
pessoa agradece a Deus fazendo uma oração antes das
refeições, recitando orações formais de ação de graças
em cultos, ou mesmo acendendo velas, ou fazendo pequenas
oferendas como sinal de agradecimento à divindade, a
gratidão que sente já está levando-a a ser mais ética.
A
conclusão do autor é óbvia: a crença pode nos ajudar a
sermos pessoas melhores, mas precisa ser lembrada
sempre. Dar um empurrãozinho na mente para que ela se
concentre em Deus ou em símbolos religiosos estimula as
pessoas a serem mais virtuosas. [viii]
[iii] LE
conclusão, item III.
[iv] Sociedades
sem Deus, Phil Zuckerman.
[v] Comporte-se
- R. Sapolsky.
[vi] Como
Deus funciona – David DeSteno.
[vii] Previsivelmente
irracional, Dan Ariely.
[viii] Como
Deus funciona – David DeSteno.