Expiações terrenas
Acreditamos que, naquela Paris de 1865, nas últimas
quatro décadas do século XIX, O
Céu e o Inferno lançado
pelo Codificador (o quarto livro na sequência da série
conhecida por obras básicas do Espiritismo)
descortinou crenças, dogmas e postulados eclesiásticos
em torno daquilo que o homem, desde remotas eras, via
como uma ameaça: ele iria para o céu ou iria para o
inferno. Com isso, também abalou o clero dominante em
uma França abrangida pela religião católica apostólica
romana.
O livro suprarreferido demonstra em todo o seu conteúdo
a Justiça Divina em uma ótica abrangente, muito além dos
véus do misticismo e dos postulados punitivos. Retira os
rótulos de “anjos” e “demônios” e os apresenta como
todos nós, criados pelo Pai de Amor e Bondade. Enaltece
as penas e os sofrimentos como forma de superação da
imperfeição espiritual e apresenta a plenitude destinada
às criaturas, indistintamente – ninguém ficará à parte
de evoluir.
Na Primeira Parte, intitulada “Doutrina”, estão
organizados em capítulos os conceitos, as teorias e os
pontos de vista que, naqueles tempos, dominavam o
pensamento coletivo no mundo ocidental. Destaca-se o
Velho Continente, com povos regidos por dominadores
absolutistas, além de conceitos predominantes oriundos
da Idade Média, marcados pelo obscurantismo.
Na Segunda Parte, 'Exemplos', são apresentados casos
organizados por categorias, graus de conhecimento e
condições espirituais de almas que retornaram à
verdadeira pátria, com as devidas aquisições plasmadas
em seus respectivos patrimônios espirituais. As
entidades do plano espiritual foram catalogadas e
agrupadas por Allan Kardec como: felizes, em condições
medianas, sofredoras, suicidas, criminosas arrependidas,
endurecidas e em expiações terrenas. Os exemplos trazem
depoimentos descritos com objetividade.
Em face da conjuntura expiatória e provacional em que
ainda se estagia o nosso orbe, apresentaremos dois casos
selecionados e extraídos da Segunda Parte, Capítulo VI
– Expiações Terrenas:
Senhor Letil
O senhor Letil foi um industrial das cercanias da
capital francesa. Desencarnou em abril de 1864, de forma
trágica: uma caldeira com verniz em fervura caiu sobre
seu corpo, incendiou-o, não foi possível auxiliá-lo; ele
ainda se locomoveu, com ajuda de um jovem empregado, até
a residência – em vão. O corpo consumido pelo fogo
começou a se desfazer, as carnes se soltaram e ossos
ficaram expostos – mas ainda conseguiu organizar seus
negócios, nos últimos momentos, consciente.
Desencarnou com uma prece a Deus. Era um homem muito
conceituado e bom. Um detalhe: ele havia se dirigido
para o Espiritismo, sem atuar efetivamente, e havia sido
médium. Evocado em 29 de abril de 1864, estava impactado
com o desfecho da vida corpórea, muito trágica, e contou
como se encontrava: abalado espiritualmente. Após ter o
corpo queimado e destruído, sofria e clamava para que a
esposa não chorasse por ele – revelava o conhecimento
espírita adquirido. Identificou a permanência do
espírito protetor ao seu lado, e o pesar se desanuviava.
O espírito revelou a causa daquela desencarnação
acidental:
Há dois séculos mandei queimar uma jovenzinha, inocente
como se é naquela idade. Ela tinha entre 12 e 14 anos.
De que a acusavam? Ai de mim, de ser cúmplice em uma
conspiração contra a política clerical. Eu era italiano
e juiz inquisidor. Os carrascos não ousaram tocar o
corpo da menina e fui eu mesmo seu juiz e algoz. Oh,
como tu és grande, justiça divina! Submisso a ti,
prometi não vacilar no dia do combate e fui forte o
bastante para manter minha palavra. Não murmurei, e Vós
me perdoastes, oh, meu Deus! Mas quando a lembrança de
minha pobre e inocente vítima se apagará de minha
memória? É isso que me faz sofrer. É preciso que ela
também me perdoe.
(KARDEC, 2019, p. 288)
Caros leitores: se a causa não foi a última reencarnação
– como a do senhor Letil –, a explicação de fatos como
esse podem estar em outra vida; no caso, o espírito
demarcado por aquele ato de extrema maldade recebeu uma
morte semelhante na última existência física, quando ele
era bondoso – sem razão aparente para uma desgraça como
aquela, e tal e qual ele imputara àquela jovem, com o
corpo queimado no passado. Ele relembrava o episódio
trágico de outros séculos, contudo, ficou marcado para o
devido ressarcimento com a Justiça de Deus.
Destacava a paciência e a coragem para suportar as
recordações e se aprumar, como espírito, e agradecia ao
amparo espiritual de seu protetor, constante ao seu
lado. É um caso em que o espírito teve o entendimento e
o esclarecimento espíritas na romagem terrena, e em que
isso facilitou-lhe desembaraçar-se das peias da
ignorância e compreender o seu momento expiatório, o
qual culminou naquele tipo de morte, similar à que ele
imputara ao semelhante no pretérito.
Szymel Slizgol
Szymel Slizgol foi um israelita que viveu em Vilna e
desencarnou em maio de 1865. Mendigava para si e cuidou
de doentes, crianças e outros necessitados, com auxílio
de arrecadação monetária, pelas vias públicas. Na
evocação, o espírito demonstrou agradecimento, com
modéstia referiu-se ao seu trabalho filantrópico, e na
sequência do diálogo revelou o seu passado. Ele fora um
rei e senhor com absoluto poder sobre seus súditos, por
isso, agiu com tirania, espoliou os carentes com
impostos e arrecadou taxas até dos mendigos de seu
tempo. Desencarnou de forma aterrorizante, e ficou por
três séculos e meio na erraticidade, até que obteve a
bênção de uma reencarnação expiatória:
“Enfim, cumpri uma existência que resgatou, pela
abnegação e caridade, aquilo que a outra tivera de cruel
e injusta. Nasci de pais pobres e, tendo ficado órfão em
tenra idade, aprendi a ganhar o pão numa idade em que se
é considerado incapaz de raciocinar. Vivi só, sem amor,
sem afetos e experimentei desde o início a brutalidade
que tinha exercido sobre os outros. Dizem que as somas
por mim recolhidas foram todas consagradas ao alívio de
meus semelhantes, e isso é exato. E devo acrescentar,
sem ênfase nem orgulho, que muitas vezes, ao preço de
privações relativamente pesadas, muito pesadas, ampliei
o bem que permitia fazer à caridade pública.” (Idem,
p. 275)
Szymel foi um impiedoso malevolente em vida pretérita.
Aqueles pesarosos sentimentos o acompanharam na ligação
projetada pelo perispírito, em relação ao antigo corpo
que se decompunha; após o término da vida corpórea
anterior, sofreu tormentos morais, reviu as vítimas
torturadas por sua ignomínia. Na programação da
existência concluída, como mendicante, teve a religião
israelita, a qual foi a mais adequada para ele – naquele
tempo era grande o preconceito contra os judeus, e isso
foi um expurgo para o seu espírito culpado. Entre outras
palavras relembramos a citação evangélica que
o espírito relembrou: “aquele que se eleva será
rebaixado, e aquele que se humilha será elevado” (Idem,
p. 275).
Nascido em um lar pobre e judeu, ele tornou-se órfão,
necessitou trabalhar para o seu sustento; logo, passou a
pedir esmolas, e desse recurso alternativo arrecadava
também a fim de auxiliar outros pobres; com isso, obteve
a consideração popular pelo ato caridoso, e aquele seu
devotamento aos pedintes lhe favoreceu outra reputação
social. No final da comunicação, o espírito agradeceu
por meio de um texto repleto de palavras que nos remetem
à humildade latente de Szymel Slizgol, um ser condolente
e reerguido: “Concluirei essa longa comunicação
dizendo-vos obrigado! Ainda não sou perfeito,
mas, sabendo que todo mal conduz ao mal, farei novamente
o bem, como já o fiz, para que possa colher a
felicidade” (Idem, p. 277).
Ambos os exemplos, se porventura se enquadrarem em um
caso ou outro de alguém, mostram que as histórias se
repetem: mudam-se locais, datas e pessoas. Todavia, a
similaridade com as nossas imperfeições, em burilamentos
adequados na Terra, nos faz reflexionar em torno dessas
narrativas e de como eles se submeteram àquelas
respectivas romagens terrenas, para os devidos
ressarcimentos perante a impoluta e imparcial Justiça
Divina.
Roni Ricardo Osorio Maia reside em Santa
Rita de Jacutinga-MG.
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