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por Roni Ricardo Osorio Maia

 

Expiações terrenas


Acreditamos que, naquela Paris de 1865, nas últimas quatro décadas do século XIX, O Céu e o Inferno[1] lançado pelo Codificador (o quarto livro na sequência da série conhecida por obras básicas do Espiritismo) descortinou crenças, dogmas e postulados eclesiásticos em torno daquilo que o homem, desde remotas eras, via como uma ameaça: ele iria para o céu ou iria para o inferno. Com isso, também abalou o clero dominante em uma França abrangida pela religião católica apostólica romana.

O livro suprarreferido demonstra em todo o seu conteúdo a Justiça Divina em uma ótica abrangente, muito além dos véus do misticismo e dos postulados punitivos. Retira os rótulos de “anjos” e “demônios” e os apresenta como todos nós, criados pelo Pai de Amor e Bondade. Enaltece as penas e os sofrimentos como forma de superação da imperfeição espiritual e apresenta a plenitude destinada às criaturas, indistintamente – ninguém ficará à parte de evoluir.

Na Primeira Parte, intitulada “Doutrina”, estão organizados em capítulos os conceitos, as teorias e os pontos de vista que, naqueles tempos, dominavam o pensamento coletivo no mundo ocidental. Destaca-se o Velho Continente, com povos regidos por dominadores absolutistas, além de conceitos predominantes oriundos da Idade Média, marcados pelo obscurantismo.

Na Segunda Parte, 'Exemplos', são apresentados casos organizados por categorias, graus de conhecimento e condições espirituais de almas que retornaram à verdadeira pátria, com as devidas aquisições plasmadas em seus respectivos patrimônios espirituais. As entidades do plano espiritual foram catalogadas e agrupadas por Allan Kardec como: felizes, em condições medianas, sofredoras, suicidas, criminosas arrependidas, endurecidas e em expiações terrenas. Os exemplos trazem depoimentos descritos com objetividade.

Em face da conjuntura expiatória e provacional em que ainda se estagia o nosso orbe, apresentaremos dois casos selecionados  e extraídos da Segunda Parte, Capítulo VI – Expiações Terrenas:


Senhor Letil

O senhor Letil foi um industrial das cercanias da capital francesa. Desencarnou em abril de 1864, de forma trágica: uma caldeira com verniz em fervura caiu sobre seu corpo, incendiou-o, não foi possível auxiliá-lo; ele ainda se locomoveu, com ajuda de um jovem empregado, até a residência – em vão. O corpo consumido pelo fogo começou a se desfazer, as carnes se soltaram e ossos ficaram expostos – mas ainda conseguiu organizar seus negócios, nos últimos momentos, consciente.

Desencarnou com uma prece a Deus. Era um homem muito conceituado e bom. Um detalhe: ele havia se dirigido para o Espiritismo, sem atuar efetivamente, e havia sido médium. Evocado em 29 de abril de 1864, estava impactado com o desfecho da vida corpórea, muito trágica, e contou como se encontrava: abalado espiritualmente. Após ter o corpo queimado e destruído, sofria e clamava para que a esposa não chorasse por ele – revelava o conhecimento espírita adquirido. Identificou a permanência do espírito protetor ao seu lado, e o pesar se desanuviava.

O espírito revelou a causa daquela desencarnação acidental:

Há dois séculos mandei queimar uma jovenzinha, inocente como se é naquela idade. Ela tinha entre 12 e 14 anos. De que a acusavam? Ai de mim, de ser cúmplice em uma conspiração contra a política clerical. Eu era italiano e juiz inquisidor. Os carrascos não ousaram tocar o corpo da menina e fui eu mesmo seu juiz e algoz. Oh, como tu és grande, justiça divina! Submisso a ti, prometi não vacilar no dia do combate e fui forte o bastante para manter minha palavra. Não murmurei, e Vós me perdoastes, oh, meu Deus! Mas quando a lembrança de minha pobre e inocente vítima se apagará de minha memória? É isso que me faz sofrer. É preciso que ela também me perdoe. (KARDEC, 2019,  p. 288)

Caros leitores: se a causa não foi a última reencarnação – como a do senhor Letil –, a explicação de fatos como esse podem estar em outra vida; no caso, o espírito demarcado por aquele ato de extrema maldade recebeu uma morte semelhante na última existência física, quando ele era bondoso – sem razão aparente para uma desgraça como aquela, e tal e qual ele imputara àquela jovem, com o corpo queimado no passado. Ele relembrava o episódio trágico de outros séculos, contudo, ficou marcado para o devido ressarcimento com a Justiça de Deus.

Destacava a paciência e a coragem para suportar as recordações e se aprumar, como espírito, e agradecia ao amparo espiritual de seu protetor, constante ao seu lado. É um caso em que o espírito teve o entendimento e o esclarecimento espíritas na romagem terrena, e em que isso facilitou-lhe desembaraçar-se das peias da ignorância e compreender o seu momento expiatório, o qual culminou naquele tipo de morte, similar à que ele imputara ao semelhante no pretérito.


Szymel Slizgol

Szymel Slizgol foi um israelita que viveu em Vilna e desencarnou em maio de 1865. Mendigava para si e cuidou de doentes, crianças e outros necessitados, com auxílio de arrecadação monetária, pelas vias públicas. Na evocação, o espírito demonstrou agradecimento, com modéstia referiu-se ao seu trabalho filantrópico, e na sequência do diálogo revelou o seu passado. Ele fora um rei e senhor com absoluto poder sobre seus súditos, por isso, agiu com tirania, espoliou os carentes com impostos e arrecadou taxas até dos mendigos de seu tempo. Desencarnou de forma aterrorizante, e ficou por três séculos e meio na erraticidade, até que obteve a bênção de uma reencarnação expiatória:

“Enfim, cumpri uma existência que resgatou, pela abnegação e caridade, aquilo que a outra tivera de cruel e injusta. Nasci de pais pobres e, tendo ficado órfão em tenra idade, aprendi a ganhar o pão numa idade em que se é considerado incapaz de raciocinar. Vivi só, sem amor, sem afetos e experimentei desde o início a brutalidade que tinha exercido sobre os outros. Dizem que as somas por mim recolhidas foram todas consagradas ao alívio de meus semelhantes, e isso é exato. E devo acrescentar, sem ênfase nem orgulho, que muitas vezes, ao preço de privações relativamente pesadas, muito pesadas, ampliei o bem que permitia fazer à caridade pública.” (Idem, p. 275)

Szymel foi um impiedoso malevolente em vida pretérita. Aqueles pesarosos sentimentos o acompanharam na ligação projetada pelo perispírito, em relação ao antigo corpo que se decompunha; após o término da vida corpórea anterior, sofreu tormentos morais, reviu as vítimas torturadas por sua ignomínia. Na programação da existência concluída, como mendicante, teve a religião israelita, a qual foi a mais adequada para ele – naquele tempo era grande o preconceito contra os judeus, e isso foi um expurgo para o seu espírito culpado. Entre outras palavras relembramos a citação evangélica[2] que o espírito relembrou: “aquele que se eleva será rebaixado, e aquele que se humilha será elevado” (Idem, p. 275).

Nascido em um lar pobre e judeu, ele tornou-se órfão, necessitou trabalhar para o seu sustento; logo, passou a pedir esmolas, e desse recurso alternativo arrecadava também a fim de auxiliar outros pobres; com isso, obteve a consideração popular pelo ato caridoso, e aquele seu devotamento aos pedintes lhe favoreceu outra reputação social. No final da comunicação, o espírito agradeceu por meio de um texto repleto de palavras que nos remetem à humildade latente de Szymel Slizgol, um ser condolente e reerguido: “Concluirei essa longa comunicação dizendo-vos obrigado! Ainda não sou perfeito, mas, sabendo que todo mal conduz ao mal, farei novamente o bem, como já o fiz, para que possa colher a felicidade” (Idem, p. 277).  

Ambos os exemplos, se porventura se enquadrarem em um caso ou outro de alguém, mostram que as histórias se repetem: mudam-se locais, datas e pessoas. Todavia, a similaridade com as nossas imperfeições, em burilamentos adequados na Terra, nos faz reflexionar em torno dessas narrativas e de como eles se submeteram àquelas respectivas romagens terrenas, para os devidos ressarcimentos perante a impoluta e imparcial Justiça Divina.

 

Roni Ricardo Osorio Maia reside em Santa Rita de Jacutinga-MG.


 


[1] EME.

[2] Lucas 14:11.

 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita