As competências essenciais do centro
espírita
Em um mundo turbulento e de difícil previsibilidade, as
organizações em geral precisam de um apoio teórico que
forneça direções claras para que o processo de adaptação
não seja impulsivo, mas harmônico e planejado. Dentro da
“selva” de teorias de estratégias organizacionais,
destaca-se a das competências essenciais, desenvolvida
pelos professores Gary Hamel e C.K. Prahalad no início
da década de 1990[1].
Mais do que simplesmente competir, é preciso que os
gestores foquem e deem atenção a aspectos que destacam
suas organizações e que consigam criar vantagens
competitivas que outras empresas não conseguirão
desenvolver. Em outras palavras, em um mundo complexo e
complicado, não adianta querer dar atenção a tudo. É
preciso ser seletivo e focar no que é essencial e que
cria valor, pois o custo de coordenação e esforços é
alto, e investir onde não se cria valor não adianta. É
fundamental saber o que realmente destaca sua
organização das demais e quais competências geram
vantagens naturais dentro dela. Toda organização tem
aptidões, talentos e “DNA” para certas atividades, que
permitem, caso os gestores invistam nessas áreas, de
criar um diferencial que se destaca em termos de
produtos e serviços a serem oferecidos para a sociedade.
De certo modo, tal literatura pode beneficiar a
compreensão do que realmente importa para as atividades
de um centro espírita, bem como o caminho do progresso
de forma harmônica em suas diversas ações. Pela teoria
de Hamel e Prahalad, o núcleo do centro espírita seria o
trabalho mediúnico, pois é o que destaca o Espiritismo
de outras religiões, filosofias e práticas científicas.
O centro espírita estuda e pratica a mediunidade com
base nas obras básicas de Allan Kardec. Além disso,
utiliza obras complementares, como “Recordações da
Mediunidade”, de Bezerra de Menezes com Yvonne Amaral
Pereira, e “Seara dos Médiuns”, de Emmanuel e Chico
Xavier. Nenhum outro lugar realiza essa combinação de
estudos e práticas.
Em outras palavras, é preciso que o centro espírita
tenha médiuns capazes de “dar conta do recado”, de
atender o “telefone” e de conversar com quem quer que
seja. O desenvolvimento mediúnico e a prática espírita
de intercâmbio entre os dois “mundos” constituem o
núcleo essencial do Espiritismo e devem ser tratados com
esmero pelos dirigentes das casas espíritas. Com essas
práticas, será possível desenvolver habilidades
extraordinárias de intercâmbio e formar mão de obra
especializada. Segundo Prahalad e Hamel, as competências
essenciais que sustentam a diferenciação são o que
mantém a vantagem da empresa no mercado. Não que o
centro espírita esteja em competição, mas é por meio
dessas competências essenciais que se pode angariar
condições para o progresso contínuo e o crescimento das
organizações, e não o contrário. Somente profissionais
habilitados do lado de cá permitirão que os espíritos do
lado de lá melhorem as obras, os serviços de intercâmbio
e suas influências, tanto quantitativa quanto
qualitativamente.
Já as atividades de palestras, distribuição de remédios,
comida e passes, apesar de importantes, não formam
trabalhadores especializados no intercâmbio, mas
contribuem de forma geral para o centro. Entretanto,
tais atividades são comuns a qualquer agremiação
religiosa e não destacam o centro espírita em relação a
outras entidades. Ou seja, são atividades
complementares, segundo Hamel e Prahalad. Devem existir,
mas sem tirar a centralidade do que é essencial.
Entretanto, entre teoria e prática há muitas diferenças.
Infelizmente, em um mundo de cliques e visualizações,
muitas vezes o púlpito ganha peso, assim como as fotos
instagramáveis de distribuição. O trabalho silencioso
dos médiuns, que muitas vezes não têm canudo, fica
rebaixado em um ambiente de eloquência e oratória.
Lembre-se que médiuns se calam para que outros falem e
emprestam mãos para que outros escrevam. Mas, é
essencial valorizar esses colaboradores. É importante
perceber que essa moeda de talento deve ser
multiplicada. Dessa forma, haverá mais riqueza e
abundância, e as portas do intercâmbio se tornarão cada
vez mais amplas, sofisticadas e frequentes.
Portanto, para que o centro espírita continue sendo o
motor de progresso dos dois planos, é vital termos em
mente as atividades centrais, bem como a necessidade de
prestar mais atenção ao que realmente importa. Sem
mediunidade, o centro torna-se um simples lugar de
interação social, rico em intenções, mas descuidado em
sua atividade-fim.
[1] Hamel,
G., & Prahalad, C.K. The core competence of the
corporation. Harvard Business Review,
May-June, 1-15.