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por Paulo Hayashi Jr.

 

As competências essenciais do centro espírita


Em um mundo turbulento e de difícil previsibilidade, as organizações em geral precisam de um apoio teórico que forneça direções claras para que o processo de adaptação não seja impulsivo, mas harmônico e planejado. Dentro da “selva” de teorias de estratégias organizacionais, destaca-se a das competências essenciais, desenvolvida  pelos professores Gary Hamel e C.K. Prahalad no início da década de 1990[1]. Mais do que simplesmente competir, é preciso que os gestores foquem e deem atenção a aspectos que destacam suas organizações e que consigam criar vantagens competitivas que outras empresas não conseguirão desenvolver. Em outras palavras, em um mundo complexo e complicado, não adianta querer dar atenção a tudo. É preciso ser seletivo e focar no que é essencial e que cria valor, pois o custo de coordenação e esforços é alto, e investir onde não se cria valor não adianta. É fundamental saber o que realmente destaca sua organização das demais e quais competências geram vantagens naturais dentro dela. Toda organização tem aptidões, talentos e “DNA” para certas atividades, que permitem, caso os gestores invistam nessas áreas, de criar um diferencial que se destaca em termos de produtos e serviços a serem oferecidos para a sociedade.

De certo modo, tal literatura pode beneficiar a compreensão do que realmente importa para as atividades de um centro espírita, bem como o caminho do progresso de forma harmônica em suas diversas ações. Pela teoria de Hamel e Prahalad, o núcleo do centro espírita seria o trabalho mediúnico, pois é o que destaca o Espiritismo de outras religiões, filosofias e práticas científicas. O centro espírita estuda e pratica a mediunidade com base nas obras básicas de Allan Kardec. Além disso, utiliza obras complementares, como “Recordações da Mediunidade”, de Bezerra de Menezes com Yvonne Amaral Pereira, e “Seara dos Médiuns”, de Emmanuel e Chico Xavier. Nenhum outro lugar realiza essa combinação de estudos e práticas. 

Em outras palavras, é preciso que o centro espírita tenha médiuns capazes de “dar conta do recado”, de atender o “telefone” e de conversar com quem quer que seja. O desenvolvimento mediúnico e a prática espírita de intercâmbio entre os dois “mundos” constituem o núcleo essencial do Espiritismo e devem ser tratados com esmero pelos dirigentes das casas espíritas. Com essas práticas, será possível desenvolver habilidades extraordinárias de intercâmbio e formar mão de obra especializada. Segundo Prahalad e Hamel, as competências essenciais que sustentam a diferenciação são o que mantém a vantagem da empresa no mercado. Não que o centro espírita esteja em competição, mas é por meio dessas competências essenciais que se pode angariar condições para o progresso contínuo e o crescimento das organizações, e não o contrário. Somente profissionais habilitados do lado de cá permitirão que os espíritos do lado de lá melhorem as obras, os serviços de intercâmbio e suas influências, tanto quantitativa quanto qualitativamente.

Já as atividades de palestras, distribuição de remédios, comida e passes, apesar de importantes, não formam trabalhadores especializados no intercâmbio, mas contribuem de forma geral para o centro. Entretanto, tais atividades são comuns a qualquer agremiação religiosa e não destacam o centro espírita em relação a outras entidades. Ou seja, são atividades complementares, segundo Hamel e Prahalad. Devem existir, mas sem tirar a centralidade do que é essencial.

Entretanto, entre teoria e prática há muitas diferenças. Infelizmente, em um mundo de cliques e visualizações, muitas vezes o púlpito ganha peso, assim como as fotos instagramáveis de distribuição. O trabalho silencioso dos médiuns, que muitas vezes não têm canudo, fica rebaixado em um ambiente de eloquência e oratória. Lembre-se que médiuns se calam para que outros falem e emprestam mãos para que outros escrevam. Mas, é essencial valorizar esses colaboradores. É importante perceber que essa moeda de talento deve ser multiplicada. Dessa forma, haverá mais riqueza e abundância, e as portas do intercâmbio se tornarão cada vez mais amplas, sofisticadas e frequentes.

Portanto, para que o centro espírita continue sendo o motor de progresso dos dois planos, é vital termos em mente as atividades centrais, bem como a necessidade de prestar mais atenção ao que realmente importa. Sem mediunidade, o centro torna-se um simples lugar de interação social, rico em intenções, mas descuidado em sua atividade-fim.


 


[1] Hamel, G., & Prahalad, C.K. The core competence of the corporation. Harvard Business Review, May-June, 1-15.


  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita