Experiência de
morte
compartilhada:
um fenômeno que
desafia
explicações
A morte
constitui uma
das experiências
mais universais
da condição
humana. Desde os
primeiros
registros da
História, homens
e mulheres
procuraram
compreender o
que acontece
quando a vida
física chega ao
fim. Religiões,
filosofias e
tradições
espirituais
ofereceram
respostas
variadas para
essa questão.
Nas últimas
décadas, porém,
um fenômeno
pouco conhecido
passou a
despertar o
interesse de
médicos,
psicólogos e
pesquisadores da
consciência: a
chamada
Experiência de
Morte
Compartilhada
(EMC).
Uma cena
frequentemente
relatada ajuda a
compreender o
assunto. Um
familiar
permanece ao
lado do leito de
uma pessoa
agonizante. O
ambiente é
silencioso. Os
profissionais de
saúde acompanham
os últimos
momentos do
paciente. De
repente, o
observador
experimenta uma
percepção
incomum. Ele
sente uma paz
intensa, percebe
uma luminosidade
difícil de
descrever ou tem
a impressão de
que pessoas
falecidas estão
presentes para
receber aquele
que se prepara
para partir.
Foi o médico
norte-americano
Raymond Moody
quem popularizou
a expressão
Experiência de
Morte
Compartilhada.
Conhecido
mundialmente por
suas pesquisas
sobre
Experiências de
Quase Morte
(EQM), Moody
percebeu que
alguns relatos
recebidos não se
enquadravam
nessa categoria.
Os protagonistas
permaneciam
vivos,
conscientes e
fisicamente
saudáveis. Ainda
assim, afirmavam
ter participado
de
acontecimentos
extraordinários
associados à
morte de outra
pessoa.
A distinção
entre EQM e EMC
é fundamental.
Na EQM, a
própria pessoa
se aproxima da
morte e retorna
para contar o
que vivenciou.
Na EMC, o
observador não
corre risco de
vida. Ele
testemunha
fenômenos que
parecem
acompanhar a
partida de
alguém.
Trata-se,
portanto, de
duas
experiências
diferentes,
embora possuam
alguns elementos
em comum.
Os relatos
descrevem
situações
variadas.
Algumas pessoas
afirmam ter
percebido
familiares já
falecidos
aguardando o
moribundo.
Outras relatam a
sensação de
acompanhar parte
de uma transição
para uma
realidade
diferente
daquela
conhecida pelos
sentidos
físicos. Há
também
testemunhos
envolvendo
percepções de
luz, expansão da
consciência e
profunda
serenidade
emocional.
O caso que
chamou a atenção
de Moody
envolveu uma
mulher que
acompanhava a
morte de uma
parente próxima.
Durante o
processo, ela
afirmou ter
vivenciado uma
experiência tão
intensa quanto
aquelas narradas
por pessoas que
haviam passado
por uma quase
morte. O relato
apresentava
características
próprias e
parecia
pertencer a uma
categoria ainda
não
identificada. A
partir daí,
novos
depoimentos
começaram a ser
reunidos e
comparados.
Muito antes de a
expressão
Experiência de
Morte
Compartilhada
surgir,
fenômenos
semelhantes já
apareciam em
cartas, memórias
familiares,
diários e obras
religiosas.
Diversas
culturas
registraram
episódios nos
quais parentes
afirmavam ter
percebido
presenças
espirituais ou
acontecimentos
incomuns no
momento da morte
de um ente
querido. Durante
séculos, essas
narrativas
permaneceram
dispersas. A
contribuição dos
pesquisadores
modernos
consistiu em
reuni-las e
examiná-las de
forma
sistemática.
Pesquisas e
relatos
À medida que
novos
testemunhos
surgiam,
tornou-se
evidente que não
se tratava de
casos isolados.
Familiares,
amigos, médicos,
enfermeiros e
cuidadores
começaram a
descrever
ocorrências
semelhantes.
Muitas dessas
pessoas
desconheciam
completamente a
existência do
fenômeno.
Algumas possuíam
formação
científica
rigorosa. Outras
não demonstravam
interesse
particular por
temas
espirituais.
Os cuidados
paliativos
transformaram-se
em um dos
principais
ambientes de
observação
dessas
experiências.
Profissionais
que acompanham
pacientes
terminais
convivem
diariamente com
os momentos
finais da
existência
física. Nesse
contexto,
surgiram
numerosos
relatos de
acontecimentos
considerados
incomuns. Muitos
deles foram
registrados por
pessoas
treinadas para
observar fatos
com
objetividade.
Alguns
enfermeiros
descrevem
situações nas
quais dois ou
três familiares
presentes ao
redor do leito
relataram
percepções
semelhantes no
mesmo instante.
Sem qualquer
combinação
prévia,
afirmavam sentir
uma atmosfera de
paz incomum ou
perceber a
presença de
pessoas já
falecidas. Esses
relatos não
constituem prova
definitiva de
sobrevivência da
alma. Ainda
assim, despertam
interesse porque
envolvem
múltiplas
testemunhas.
Existem também
experiências
ocorridas à
distância.
Pessoas situadas
em outra cidade
ou mesmo em
outro país
afirmam ter
vivenciado
sonhos
extraordinariamente
vívidos, visões
ou sensações de
despedida
relacionadas a
alguém muito
próximo. Somente
depois descobrem
que a morte
ocorreu naquele
mesmo período.
Esses episódios
figuram entre os
mais intrigantes
de toda a
literatura
especializada.
O pesquisador
William Peters
dedicou muitos
anos ao estudo
específico das
EMC. Após
entrevistar
centenas de
participantes,
observou a
repetição de
padrões
notavelmente
semelhantes.
Sensação de paz,
percepção de
luz, encontro
com familiares
falecidos e
profunda
transformação
posterior da
visão sobre a
morte aparecem
com frequência
em seus
levantamentos.
Para Peters, o
fenômeno merece
atenção muito
maior da
comunidade
científica.
Outro nome
importante é
Christopher
Kerr, médico
especializado em
cuidados
paliativos. Seu
trabalho
concentrou-se
principalmente
nos sonhos e
visões relatados
por pacientes
terminais nos
dias que
antecedem a
morte. Muitos
desses pacientes
descrevem
visitas de
parentes
falecidos que
parecem vir
recebê-los.
Embora esses
episódios não
sejam
classificados
como EMC,
apresentam
pontos de
contato que
ajudam a
compreender
melhor os
acontecimentos
observados ao
redor do leito.
Os pesquisadores
que buscam
explicações
psicológicas
apresentam
argumentos
respeitáveis. O
sofrimento
antecipado, a
expectativa
emocional e os
mecanismos
relacionados ao
luto podem
influenciar
profundamente a
percepção
humana. O
cérebro possui
extraordinária
capacidade de
produzir
experiências
subjetivas
intensas.
Nenhuma
investigação
séria pode
ignorar esses
fatores.
Ao mesmo tempo,
algumas
características
permanecem
difíceis de
enquadrar em
modelos
puramente
psicológicos.
Certos relatos
envolvem
informações
desconhecidas
pelos
participantes.
Outros
apresentam
coincidências
temporais
notáveis ou
percepções
compartilhadas
por mais de uma
pessoa. Essas
observações não
encerram o
debate. Apenas
mostram que o
fenômeno
continua
desafiando
explicações
simples.
O olhar espírita
A Doutrina
Espírita oferece
uma
interpretação
particularmente
interessante
para esse
conjunto de
relatos. Segundo
seus
ensinamentos, a
morte
corresponde à
libertação do
Espírito em
relação ao corpo
físico. Esse
processo não
ocorre de forma
instantânea em
todos os casos.
Existe um
desligamento
gradual
envolvendo os
laços que unem o
Espírito ao
organismo
material.
As obras
espíritas
descrevem
numerosos
episódios de
assistência
espiritual
durante a
desencarnação.
Amigos,
familiares e
benfeitores
seriam
encarregados de
acolher aquele
que conclui sua
jornada
terrestre. A
presença desses
Espíritos
ajudaria a
reduzir as
dificuldades da
transição e
favoreceria a
adaptação à nova
condição de
existência.
Dentro dessa
perspectiva, as
EMC adquirem uma
interpretação
coerente. Em
circunstâncias
especiais,
pessoas dotadas
de certa
sensibilidade
mediúnica
poderiam
perceber
aspectos do
processo que
normalmente
permanecem fora
do alcance dos
sentidos
físicos. Não se
trata
necessariamente
de uma faculdade
permanente. A
intensidade
emocional do
momento pode
favorecer esse
tipo de
percepção.
Um aspecto
particularmente
interessante
consiste no fato
de que algumas
experiências
envolvem mais de
uma testemunha.
Em determinadas
ocasiões, duas
ou três pessoas
presentes
descrevem
percepções
semelhantes
ocorridas ao
mesmo tempo. A
observação não
elimina a
possibilidade de
explicações
psicológicas.
Ainda assim,
reduz a
probabilidade de
que todos os
elementos do
fenômeno sejam
atribuídos
exclusivamente à
imaginação
individual.
A literatura
espírita
registrava
acontecimentos
muito
semelhantes
décadas antes da
criação da
expressão
Experiência de
Morte
Compartilhada.
Relatos de
familiares que
afirmavam ter
visto parentes
desencarnados
vindo receber
alguém prestes a
partir aparecem
em diferentes
épocas e
contextos
culturais. O
fenômeno pode
ser novo para a
terminologia
científica. Suas
manifestações,
porém, parecem
acompanhar a
Humanidade há
longo tempo.
O interesse por
esse tema não se
limita às
questões
filosóficas ou
religiosas.
Muitos
familiares que
vivenciaram uma
EMC relatam que
o episódio
suavizou o
sofrimento do
luto. A
impressão de que
a pessoa amada
foi acolhida e
prosseguiu sua
jornada produz
conforto difícil
de obter por
outros meios.
Mesmo quando
permanecem
dúvidas sobre a
natureza do
fenômeno, a
experiência
costuma deixar
marcas positivas
e duradouras.
Os profissionais
que trabalham
com pacientes
terminais também
passaram a olhar
essas
ocorrências com
maior atenção.
Hospitais e
equipes de
cuidados
paliativos vêm
reconhecendo que
experiências
subjetivas
relatadas por
pacientes e
familiares fazem
parte da
realidade humana
do processo de
morrer. O estudo
desses
acontecimentos
não substitui a
investigação
médica nem a
assistência
clínica. Ele
amplia a
compreensão de
um dos momentos
mais delicados
da existência.
A Medicina
continua
estudando o
cérebro. A
Psicologia
continua
investigando a
consciência. A
Espiritualidade
continua
refletindo sobre
a sobrevivência
da alma. Entre
esses três
campos surgiu a
EMC, um fenômeno
discreto, pouco
conhecido e
ainda cercado de
perguntas.
Talvez sua maior
contribuição não
seja fornecer
respostas
definitivas, mas
recordar que a
realidade pode
ser mais ampla
do que aquilo
que nossos
sentidos
registram nos
momentos comuns
da vida.
Mário Frigéri é
poeta, escritor,
autor e youtuber
com a mente e o
coração voltados
para o esplendor
do Evangelho e
da Doutrina
Espírita.
Campinas-SP.