O Cristianismo antes do Espírito Santo
trinitário
O Espírito Santo foi concebido para completar o trio
necessário à formulação da doutrina da Santíssima
Trindade. Essa doutrina foi instituída, em parte, para
aproximar o cristianismo das religiões trinitárias dos
gentios e, assim, facilitar sua aceitação da mensagem de
Jesus.
Antes da formulação da doutrina da Santíssima Trindade,
nos primeiros séculos do cristianismo, não existia a
crença no Espírito Santo como a Terceira Pessoa
trinitária. Jesus e os apóstolos não se referiam a essa
concepção, mas aos espíritos, que podem ser maus
(atrasados) ou bons (evoluídos).
A esse respeito, encontra-se em São João Evangelista
(Primeira Carta, 4:1) a orientação de que se devem
examinar os espíritos, para verificar se são bons ou
não, dando-se crédito apenas aos bons, pois o mundo já
estaria repleto de falsos profetas — entendidos como
médiuns que recebiam inspirações de espíritos
inferiores.
Essa ideia é associada também a passagens do Antigo
Testamento, como em Números 11:26, em que Eldade e
Medade, considerados “pneumatós” (médiuns), profetizavam
sob inspiração espiritual. Moisés, segundo o texto,
teria inclusive expressado o desejo de que todo o povo
pudesse profetizar.
Como se observa, tanto em João quanto em Moisés, haveria
a defesa do contato entre os espíritos e os chamados
vivos do nosso mundo, por intermédio dos “pneumatós”,
posteriormente denominados médiuns na codificação
espírita por Allan Kardec.
Contudo, é necessário, segundo essa visão, examinar os
espíritos manifestantes, dando crédito apenas aos bons e
evoluídos. Os espíritos inferiores, ainda em processo de
desenvolvimento moral e intelectual, seriam
identificados como “maus” ou “enganadores”, enquanto os
mais elevados corresponderiam aos chamados anjos. Entre
estes e aqueles haveria diferentes graus de evolução
espiritual, incluindo arcanjos e figuras reconhecidas
pela tradição religiosa como santos.
Os teólogos dos primeiros períodos de consolidação da
doutrina da Santíssima Trindade ensinavam que, para as
autoridades eclesiásticas — especialmente bispos
reunidos em concílios ecumênicos e o papa —, haveria
manifestações de espíritos santos. Com o tempo, a
repetição dessa ideia teria contribuído para a
consolidação da expressão “Espírito Santo” como
referência à Terceira Pessoa da Trindade.
Assim, segundo essa interpretação, o Espírito Santo
trinitário teria sido definido e sistematizado ao longo
da tradição teológica, tornando-se mais enfatizado na
doutrina oficial do que a concepção de espírito
universal ligado a Deus Pai, entendido como princípio
incriado.
Enquanto isso, o Espírito Santo da Terceira Pessoa
passou a ser compreendido como entidade distinta e
integrante da Santíssima Trindade, conforme a formulação
teológica posterior.
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