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O engodo
da ideia da bondade
“Certo homem de posição
perguntou-lhe: Bom
Mestre, que farei para
herdar a vida eterna?
Respondeu-lhe Jesus: Por
que me chamas bom?
Ninguém é bom, senão um,
que é Deus.”
- Lucas, 18:18-19.
Muitos de nós, que
procuramos um
crescimento espiritual,
preocupamo-nos em ser
bondosos, e isto é de
suma importância para
que possamos um dia
viver em paz e amor.
Mesmo na bondade, algo
que nos parece tão
inofensivo, encontram-se
das maiores armadilhas.
Reparemos que o Mestre
não se assumiu bondoso,
o que deve ter deixado
espantada a pessoa que
perguntava, pois
considerava o Mestre
bondoso, tal como nós O
consideramos.
Devemos colocar duas
questões acerca da
bondade:
1 – Por que quero ser
bondoso?
2 – O que é a bondade?
Sei que parecem
perguntas ridículas,
pois pensamos que
sabemos claramente o que
é a bondade. Também
achamos que sabemos tudo
sobre nós mesmos e
passamos a vida a
surpreender-nos, de
forma negativa ou
positiva.
Normalmente queremos ser
bondosos porque
acreditamos que esse é o
caminho do crescimento
espiritual e porque
desejamos ser grandes
espiritualmente. Até nos
traz satisfação sermos
bondosos, esquecendo o
ensinamento do Mestre,
que nos diz que a mão
esquerda não saiba o que
dá a direita.
Este ensinamento da mão
esquerda não saber o que
a direita dá fala-nos
precisamente sobre a
ideia da bondade. Como
poderá a mão, membro do
corpo, não saber o que
foi dado?
O ensinamento remete-nos
para uma caridade em
silêncio, não apenas o
silêncio da visibilidade
perante os outros, mas,
em especial, o silêncio
da própria mente, para
não “ruminarmos”
mentalmente sobre a ação
praticada. Caso
contrário, nascerá em
nós uma sensação de
satisfação connosco
próprios, que é o “rabo”
do orgulho escondido.
A ideia da bondade adoça
a boca do ego, dando-nos
a sensação de que
estamos a crescer. Essa
sensação parece tão
inocente que não
percebemos que é
alimentada pelo orgulho,
pois temos orgulho na
bondade que espalhamos.
Inocentemente, enganados
pela “ideia da bondade”,
criamos uma imagem de
nós mesmos: a de pessoas
bondosas.
Teremos de ir à segunda
pergunta: o que é a
bondade?
Um ato bondoso pode
acontecer em um segundo.
A bondade manifesta-se
na ação, no decorrer do
movimento da vida.
Um coração compassivo,
pacífico e amoroso
pratica atos de bondade
que nascem do seu amor,
do seu coração, sem
querer ser bondoso,
apenas pela natureza do
que é.
Nós usamos o termo
bondade ou bondoso como
um rótulo. É como o
rótulo de uma garrafa de
água: nele está escrito
“água”, mas não podemos
beber o rótulo; ele não
mata a sede.
Ser bondoso é a
descrição de alguém que
apenas terá atos
bondosos em sua vida.
Mas quem pode assegurar
isso?
Tentar ser bondoso é
criar uma imagem para o
futuro; no entanto, os
atos de bondade
acontecem no presente,
no decorrer da vida, que
é tão rápida que muitas
vezes nem percebemos os
atos que refletem de nós
para os acontecimentos
da vida, por não
estarmos em vigília
constante.
A bondade é uma palavra
que transmite uma ideia,
e não uma realidade.
Apegarmo-nos à ideia de
sermos bondosos pode
trazer muito sofrimento
no futuro, seja pela
expectativa que
depositamos em nós
mesmos, seja pelo
orgulho que nasce da
ideia de que somos
bondosos.
As ideias podem parecer
que são sobre a vida,
mas não são a vida. É
como o rótulo da água,
que não é água.
Vivermos em torno de
ideias é perdermos a
vida. Desejar ser
bondoso não é bondade;
pelo contrário, por que
o desejaríamos se já o
fôssemos?
Ter a ideia de que somos
bondosos não é garantia
de que o sejamos no
futuro.
O sábio vigia
constantemente por saber
que, a qualquer momento,
pode acontecer a queda,
a tentação, e vive
próximo de Deus para ter
forças para não cair.
Criarmos em nós a ideia
de que somos bondosos é
desviarmos a nossa
atenção de nós próprios,
pois passamos a
acreditar que já o
somos. Essa ideia
esconde os nossos
defeitos, porque ninguém
observa ou dá atenção
aos próprios pensamentos
e ações se acredita ser
uma pessoa bondosa.
É uma armadilha mental,
criada pela arrogância
dissimulada sob a pele
do cordeiro.
Para vivermos a vida de
forma pacífica e termos
hipóteses de espalhar
amor enquanto o presente
decorre, temos de estar
presentes, para nos
apercebermos do que
nasce em nossa mente e
constrói as nossas
ações.
A bondade como ideia,
aquela que diz “eu sou
uma pessoa bondosa”, não
nos serve de nada. Pelo
contrário, afeta a
atenção que damos a nós
próprios e afasta-nos da
humildade, estado
essencial ao crescimento
espiritual.
Fique atento à vida e
vigie, como o Mestre
aconselhou. Vigie a vida
e a si próprio, pois é
em si que nasce a
tentação; é em nós que
nascem todos os
problemas e tendências.
Essa vigília dar-nos-á a
oportunidade de perceber
o que nasce em nós, o
que deve ser travado e o
que podemos permitir que
continue.
Essa vigília constante,
que o Mestre nos
aconselha, é a maior
arma no combate às más
tendências. É o início
da bondade em si, pois
permite-nos travar os
atos errados e persistir
nos corretos.
Bruno
Abreu reside em Lisboa,
Portugal.
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