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por Bruno Abreu

 

O engodo da ideia da bondade


“Certo homem de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus.”
  - Lucas, 18:18-19.


Muitos de nós, que procuramos um crescimento espiritual, preocupamo-nos em ser bondosos, e isto é de suma importância para que possamos um dia viver em paz e amor.

Mesmo na bondade, algo que nos parece tão inofensivo, encontram-se das maiores armadilhas. Reparemos que o Mestre não se assumiu bondoso, o que deve ter deixado espantada a pessoa que perguntava, pois considerava o Mestre bondoso, tal como nós O consideramos.

Devemos colocar duas questões acerca da bondade:

1 – Por que quero ser bondoso?

2 – O que é a bondade?

Sei que parecem perguntas ridículas, pois pensamos que sabemos claramente o que é a bondade. Também achamos que sabemos tudo sobre nós mesmos e passamos a vida a surpreender-nos, de forma negativa ou positiva.

Normalmente queremos ser bondosos porque acreditamos que esse é o caminho do crescimento espiritual e porque desejamos ser grandes espiritualmente. Até nos traz satisfação sermos bondosos, esquecendo o ensinamento do Mestre, que nos diz que a mão esquerda não saiba o que dá a direita.

Este ensinamento da mão esquerda não saber o que a direita dá fala-nos precisamente sobre a ideia da bondade. Como poderá a mão, membro do corpo, não saber o que foi dado?

O ensinamento remete-nos para uma caridade em silêncio, não apenas o silêncio da visibilidade perante os outros, mas, em especial, o silêncio da própria mente, para não “ruminarmos” mentalmente sobre a ação praticada. Caso contrário, nascerá em nós uma sensação de satisfação connosco próprios, que é o “rabo” do orgulho escondido.

A ideia da bondade adoça a boca do ego, dando-nos a sensação de que estamos a crescer. Essa sensação parece tão inocente que não percebemos que é alimentada pelo orgulho, pois temos orgulho na bondade que espalhamos. Inocentemente, enganados pela “ideia da bondade”, criamos uma imagem de nós mesmos: a de pessoas bondosas.

Teremos de ir à segunda pergunta: o que é a bondade?

Um ato bondoso pode acontecer em um segundo. A bondade manifesta-se na ação, no decorrer do movimento da vida.

Um coração compassivo, pacífico e amoroso pratica atos de bondade que nascem do seu amor, do seu coração, sem querer ser bondoso, apenas pela natureza do que é.

Nós usamos o termo bondade ou bondoso como um rótulo. É como o rótulo de uma garrafa de água: nele está escrito “água”, mas não podemos beber o rótulo; ele não mata a sede.

Ser bondoso é a descrição de alguém que apenas terá atos bondosos em sua vida. Mas quem pode assegurar isso?

Tentar ser bondoso é criar uma imagem para o futuro; no entanto, os atos de bondade acontecem no presente, no decorrer da vida, que é tão rápida que muitas vezes nem percebemos os atos que refletem de nós para os acontecimentos da vida, por não estarmos em vigília constante.

A bondade é uma palavra que transmite uma ideia, e não uma realidade. Apegarmo-nos à ideia de sermos bondosos pode trazer muito sofrimento no futuro, seja pela expectativa que depositamos em nós mesmos, seja pelo orgulho que nasce da ideia de que somos bondosos.

As ideias podem parecer que são sobre a vida, mas não são a vida. É como o rótulo da água, que não é água.

Vivermos em torno de ideias é perdermos a vida. Desejar ser bondoso não é bondade; pelo contrário, por que o desejaríamos se já o fôssemos?

Ter a ideia de que somos bondosos não é garantia de que o sejamos no futuro.

O sábio vigia constantemente por saber que, a qualquer momento, pode acontecer a queda, a tentação, e vive próximo de Deus para ter forças para não cair.

Criarmos em nós a ideia de que somos bondosos é desviarmos a nossa atenção de nós próprios, pois passamos a acreditar que já o somos. Essa ideia esconde os nossos defeitos, porque ninguém observa ou dá atenção aos próprios pensamentos e ações se acredita ser uma pessoa bondosa.

É uma armadilha mental, criada pela arrogância dissimulada sob a pele do cordeiro.

Para vivermos a vida de forma pacífica e termos hipóteses de espalhar amor enquanto o presente decorre, temos de estar presentes, para nos apercebermos do que nasce em nossa mente e constrói as nossas ações.

A bondade como ideia, aquela que diz “eu sou uma pessoa bondosa”, não nos serve de nada. Pelo contrário, afeta a atenção que damos a nós próprios e afasta-nos da humildade, estado essencial ao crescimento espiritual.

Fique atento à vida e vigie, como o Mestre aconselhou. Vigie a vida e a si próprio, pois é em si que nasce a tentação; é em nós que nascem todos os problemas e tendências.

Essa vigília dar-nos-á a oportunidade de perceber o que nasce em nós, o que deve ser travado e o que podemos permitir que continue.

Essa vigília constante, que o Mestre nos aconselha, é a maior arma no combate às más tendências. É o início da bondade em si, pois permite-nos travar os atos errados e persistir nos corretos.

 

Bruno Abreu reside em Lisboa, Portugal.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita