Muitos estudiosos do Evangelho, entre eles
historiadores, teólogos e pesquisadores de diversas
áreas do conhecimento, consideram Jesus apenas do ponto
de vista histórico, tendo uma compreensão limitada sobre
o mesmo, humanizando-o em demasia, ou divinizando-o e,
portanto, colocando-o muito acima do ser humano. Para o
Espiritismo essas duas posições estão equivocadas, pois
a compreensão da doutrina espírita sobre Jesus é
messiânica, ou seja, temos Jesus como o Messias, o
Enviado de Deus, aquele que veio trazer a redenção
através do ensino e da vivência da lei de amor. Não
estamos falando do Jesus que veio nos livrar do pecado,
que deu sua vida pela nossa salvação, e sim do ser
superior que veio nos despertar para a realidade
espiritual da vida, ao mesmo tempo em que nos ensinou
que “a cada um é dado segundo suas obras”.
Várias doutrinas religiosas cristãs confundem Jesus com
Deus, quando ele mesmo, em várias passagens do
Evangelho, afirma que Deus é o Pai e Criador, e ele, o
Cristo, é filho de Deus. A apresentação de Deus como pai
de bondade, justiça e misericórdia é um divisor de águas
na história humana, pois até então ou se acreditava na
existência de muitos deuses, como sustentavam as
mitologias de diversos povos, ou se acreditava num deus
vingativo, guerreiro e parcial, como no judaísmo. Foi
Jesus quem mostrou ser Deus a perfeição absoluta, e
todos nós sendo seus filhos em evolução.
Para melhor compreensão desse tema à luz do Espiritismo,
trazemos importante estudo publicado por Allan Kardec no
livro A Gênese, em seu capítulo XV, que ele
intitulou Superioridade da Natureza de Jesus, do qual
vamos fazer alguns destaques e comentários, desde já
convidando o leitor para a leitura completa do texto no
livro citado.
No item 2, segundo parágrafo, lemos:
“Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, cujo
exame não entra no quadro desta obra, e não o
considerando, por hipótese, senão como um Espírito
superior, não podemos deixar de reconhecê-lo como um dos
Espíritos de ordem mais elevada e, por suas virtudes,
colocado muitíssimo acima da humanidade terrestre. Pelos
imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste
mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que
a Divindade somente confia a seus mensageiros diretos,
para cumprimento de seus desígnios. Mesmo sem supor que
Ele fosse o próprio Deus, mas um enviado de Deus para
transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um
profeta, porquanto seria um Messias divino.”
O entendimento de Kardec, depois de estudar os ensinos
dos Espíritos, é o de que Jesus é um Espírito superior
que veio à Terra cumprir uma missão especial, como
enviado direto de Deus, portanto, é um Espírito muito
superior. Devemos lembrar que um Espírito Superior,
mesmo um Espírito Puro que chegou ao ápice da evolução,
é uma criatura de Deus, foi criado por Deus simples e
ignorantes, mas dotado de todo potencial divino, tendo
feito em outros mundos e tempos seu progresso
intelectual, moral e espiritual, como nós, os seres
humanos, estamos fazendo neste momento. Nossa destinação
é alcançar a perfeição relativa que comporta o estado de
Espírito Puro. Não sabemos quando chegaremos a esse
destino final, mas temos em Jesus um guia e modelo dessa
perfeição.
Utilizando da razão e do bom senso, Kardec estabelece
que Jesus teria sido mais do que um profeta, ou seja,
ele teria sido mais do que um médium, mais do que um
visionário, muito mais do que um intermediário entre os
desencarnados e os encarnados. Na feliz expressão de
alguns Espíritos, Jesus teria sido um “médium” de Deus.
Destaquemos agora o segundo parágrafo do item 2:
“Como homem, tinha a organização dos seres carnais,
mas como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de
viver mais da vida espiritual do que da vida corpórea,
de cujas fraquezas não era passível. A superioridade de
Jesus com relação aos homens não resultava das
qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu
Espírito, que dominava a matéria de modo absoluto, e da
do seu perispírito, haurido da parte mais
quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, item
9.) Sua alma não devia achar-se presa ao corpo senão
pelos laços estritamente indispensáveis. Constantemente
desprendida, ela decerto lhe dava dupla vista, não só
permanente, como de excepcional penetração e muito
superior à que comumente possuem os homens comuns. O
mesmo havia de dar-se nele com relação a todos os
fenômenos que dependem dos fluidos perispiríticos ou
psíquicos. A qualidade desses fluidos lhe conferia
imensa força magnética, secundada pelo desejo incessante
de fazer o bem.”
É de notar-se que documentários, séries e filmes
normalmente humanizam Jesus do ponto de vista moral,
muitas vezes desconsiderando qualquer faceta espiritual,
fazendo dele uma pessoa até certo ponto comum, mesmo com
dúvidas existenciais, quando pela sua sabedoria e pelo
seu amor, deu provas incontestáveis de sua imensa
superioridade. O Espiritismo entende que essa
superioridade não é um privilégio, mas uma conquista
feita pelo Espírito ao longo do processo de evolução. E
também entende que, apesar dessa imensa superioridade,
Jesus não está distante, pois é nosso irmão e nosso
mestre, motivo pelo qual a doutrina espírita rejeita a
sua divinização.
Quem estudar sem prevenções o Evangelho, verá que os
ensinos morais de Jesus estão ao alcance de todas as
pessoas, sejam cristãs ou não, possuam ou não muitos
conhecimentos. Do ignorante ao mais sábio, todos têm
condições de entender o “amai-vos uns aos outros”, o
perdão das ofensas, o devolver o mal com o bem, e assim
por diante. São ensinos universais que precisamos
absorver e colocar em prática para vivermos melhor na
humanidade.
Finalizando nosso estudo, destaquemos agora o terceiro
parágrafo:
“Agiria como médium nas curas que operava? Poder-se-á
considerá-lo poderoso médium curador? Não, visto que o
médium é um intermediário, um instrumento de que se
servem os Espíritos
desencarnados. Ora, o Cristo não precisava de
assistência, pois que era Ele quem assistia os outros.
Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal,
como, em certos casos, o podem fazer os encarnados, na
medida de suas forças. Que Espírito, aliás, ousaria
insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de
os transmitir? Se porventura ele recebia algum influxo
estranho, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo
definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus.”
Sem entramos em detalhes sobre o modo como se processam
as curas espirituais, estudo esse feito por Allan Kardec
nessa mesma obra, nesse mesmo capítulo XV, em conjugação
com o capítulo XOV, que trata dos fluidos, damos razão
ao codificador do Espiritismo, pois Jesus, pela sua
superioridade espiritual, não podia ser intermediário de
ninguém a não ser do próprio Deus. Ele veio nos ensinar
a lei de amor, ele dava de si mesmo para aliviar nossas
dores e sofrimentos, fossem morais ou físicas, pois
dominava em plenitude a natureza humana e espiritual.
Os fatos relatados no Evangelho são um atestado
eloquente da superioridade espiritual de Jesus, e de sua
importante missão no mundo terreno, que cumpriu como
planejado, impactando tão profundamente a todos nós, que
se fez divisor da própria história humana antes e depois
dele. O fato dele não ser Deus, que é o Pai e Criador,
em nada o diminui, pelo contrário, o enaltece como o
filho escolhido para fazer a humanidade avançar em seu
progresso moral. É de nossa competência isso
compreender, acionando a vontade para fazer dos seus
ensinos e exemplos uma verdade bem vivida, estabelecendo
a solidariedade, a fraternidade, a justiça e a paz na
Terra.
Bibliografia:
Gênese, A.
Allan Kardec. Tradução de Evandro Noleto Bezerra.
Brasília: FEB, 2ª edição, 2013.
Marcus De Mario é
escritor, educador, palestrante; coordena o Seara de
Luz, grupo on-line de estudo espírita; edita o canal
Orientação Espírita no YouTube; é editor-chefe da
Revista Educação Espírita; produz e apresenta programas
espíritas na internet; possui 41 livros publicados.