Especial

por Marcus De Mario

A natureza superior de Jesus


Muitos estudiosos do Evangelho, entre eles historiadores, teólogos e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, consideram Jesus apenas do ponto de vista histórico, tendo uma compreensão limitada sobre o mesmo, humanizando-o em demasia, ou divinizando-o e, portanto, colocando-o muito acima do ser humano. Para o Espiritismo essas duas posições estão equivocadas, pois a compreensão da doutrina espírita sobre Jesus é messiânica, ou seja, temos Jesus como o Messias, o Enviado de Deus, aquele que veio trazer a redenção através do ensino e da vivência da lei de amor. Não estamos falando do Jesus que veio nos livrar do pecado, que deu sua vida pela nossa salvação, e sim do ser superior que veio nos despertar para a realidade espiritual da vida, ao mesmo tempo em que nos ensinou que “a cada um é dado segundo suas obras”.

Várias doutrinas religiosas cristãs confundem Jesus com Deus, quando ele mesmo, em várias passagens do Evangelho, afirma que Deus é o Pai e Criador, e ele, o Cristo, é filho de Deus. A apresentação de Deus como pai de bondade, justiça e misericórdia é um divisor de águas na história humana, pois até então ou se acreditava na existência de muitos deuses, como sustentavam as mitologias de diversos povos, ou se acreditava num deus vingativo, guerreiro e parcial, como no judaísmo. Foi Jesus quem mostrou ser Deus a perfeição absoluta, e todos nós sendo seus filhos em evolução.

Para melhor compreensão desse tema à luz do Espiritismo, trazemos importante estudo publicado por Allan Kardec no livro A Gênese, em seu capítulo XV, que ele intitulou Superioridade da Natureza de Jesus, do qual vamos fazer alguns destaques e comentários, desde já convidando o leitor para a leitura completa do texto no livro citado.

No item 2, segundo parágrafo, lemos:

 

Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, cujo exame não entra no quadro desta obra, e não o considerando, por hipótese, senão como um Espírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo como um dos Espíritos de ordem mais elevada e, por suas virtudes, colocado muitíssimo acima da humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade somente confia a seus mensageiros diretos, para cumprimento de seus desígnios. Mesmo sem supor que Ele fosse o próprio Deus, mas um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias divino.

 

O entendimento de Kardec, depois de estudar os ensinos dos Espíritos, é o de que Jesus é um Espírito superior que veio à Terra cumprir uma missão especial, como enviado direto de Deus, portanto, é um Espírito muito superior. Devemos lembrar que um Espírito Superior, mesmo um Espírito Puro que chegou ao ápice da evolução, é uma criatura de Deus, foi criado por Deus simples e ignorantes, mas dotado de todo potencial divino, tendo feito em outros mundos e tempos seu progresso intelectual, moral e espiritual, como nós, os seres humanos, estamos fazendo neste momento. Nossa destinação é alcançar a perfeição relativa que comporta o estado de Espírito Puro. Não sabemos quando chegaremos a esse destino final, mas temos em Jesus um guia e modelo dessa perfeição.

Utilizando da razão e do bom senso, Kardec estabelece que Jesus teria sido mais do que um profeta, ou seja, ele teria sido mais do que um médium, mais do que um visionário, muito mais do que um intermediário entre os desencarnados e os encarnados. Na feliz expressão de alguns Espíritos, Jesus teria sido um “médium” de Deus.

Destaquemos agora o segundo parágrafo do item 2:

 

Como homem, tinha a organização dos seres carnais, mas como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual do que da vida corpórea, de cujas fraquezas não era passível. A superioridade de Jesus com relação aos homens não resultava das qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava a matéria de modo absoluto, e da do seu perispírito, haurido da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, item 9.) Sua alma não devia achar-se presa ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis. Constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vista, não só permanente, como de excepcional penetração e muito superior à que comumente possuem os homens comuns. O mesmo havia de dar-se nele com relação a todos os fenômenos que dependem dos fluidos perispiríticos ou psíquicos. A qualidade desses fluidos lhe conferia imensa força magnética, secundada pelo desejo incessante de fazer o bem.

 

É de notar-se que documentários, séries e filmes normalmente humanizam Jesus do ponto de vista moral, muitas vezes desconsiderando qualquer faceta espiritual, fazendo dele uma pessoa até certo ponto comum, mesmo com dúvidas existenciais, quando pela sua sabedoria e pelo seu amor, deu provas incontestáveis de sua imensa superioridade. O Espiritismo entende que essa superioridade não é um privilégio, mas uma conquista feita pelo Espírito ao longo do processo de evolução. E também entende que, apesar dessa imensa superioridade, Jesus não está distante, pois é nosso irmão e nosso mestre, motivo pelo qual a doutrina espírita rejeita a sua divinização.

Quem estudar sem prevenções o Evangelho, verá que os ensinos morais de Jesus estão ao alcance de todas as pessoas, sejam cristãs ou não, possuam ou não muitos conhecimentos. Do ignorante ao mais sábio, todos têm condições de entender o “amai-vos uns aos outros”, o perdão das ofensas, o devolver o mal com o bem, e assim por diante. São ensinos universais que precisamos absorver e colocar em prática para vivermos melhor na humanidade.

Finalizando nosso estudo, destaquemos agora o terceiro parágrafo:

 

Agiria como médium nas curas que operava? Poder-se-á considerá-lo poderoso médium curador? Não, visto que o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos

desencarnados. Ora, o Cristo não precisava de assistência, pois que era Ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, como, em certos casos, o podem fazer os encarnados, na medida de suas forças. Que Espírito, aliás, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se porventura ele recebia algum influxo estranho, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus.

 

Sem entramos em detalhes sobre o modo como se processam as curas espirituais, estudo esse feito por Allan Kardec nessa mesma obra, nesse mesmo capítulo XV, em conjugação com o capítulo XOV, que trata dos fluidos, damos razão ao codificador do Espiritismo, pois Jesus, pela sua superioridade espiritual, não podia ser intermediário de ninguém a não ser do próprio Deus. Ele veio nos ensinar a lei de amor, ele dava de si mesmo para aliviar nossas dores e sofrimentos, fossem morais ou físicas, pois dominava em plenitude a natureza humana e espiritual.

Os fatos relatados no Evangelho são um atestado eloquente da superioridade espiritual de Jesus, e de sua importante missão no mundo terreno, que cumpriu como planejado, impactando tão profundamente a todos nós, que se fez divisor da própria história humana antes e depois dele. O fato dele não ser Deus, que é o Pai e Criador, em nada o diminui, pelo contrário, o enaltece como o filho escolhido para fazer a humanidade avançar em seu progresso moral. É de nossa competência isso compreender, acionando a vontade para fazer dos seus ensinos e exemplos uma verdade bem vivida, estabelecendo a solidariedade, a fraternidade, a justiça e a paz na Terra.


Bibliografia
:

Gênese, A. Allan Kardec. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2ª edição, 2013.

 

Marcus De Mario é escritor, educador, palestrante; coordena o Seara de Luz, grupo on-line de estudo espírita; edita o canal Orientação Espírita no YouTube; é editor-chefe da Revista Educação Espírita; produz e apresenta programas espíritas na internet; possui 41 livros publicados.
 
 

     
     

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