
Como o movimento shaker moldou o
espiritualismo moderno e o espiritismo
O recente interesse pela trajetória de Ann Lee,
impulsionado pelo filme The Testament of Ann
Lee (O testamento de Ann Lee), lançado no Brasil em
março de 2026, revelou um capítulo praticamente
desconhecido do movimento espírita brasileiro: a
profunda influência da seita shaker (movimento
iniciado por Ann Lee no século 18) no surgimento do
espiritualismo moderno e, consequentemente, no
espiritismo.
Embora hoje sejam frequentemente lembrados por sua
arquitetura minimalista e vida comunitária, os shakers foram
os verdadeiros arquitetos do ambiente espiritual que
permitiu a explosão de fenômenos mediúnicos no século
19.
A conexão entre esses movimentos não é meramente
geográfica, mas profundamente de cunho espiritual e
prático. Estabelecidos no chamado “Distrito incendiado” (Burned-Over
District), no oeste de Nova York, os shakers haviam
familiarizado a população local com a ideia de
comunicações espirituais diretas décadas antes dos
eventos protagonizados em Hydesville. Entre 1837 e 1850,
o movimento viveu a “Era das manifestações”, com
intensos acontecimentos, que incluíam fenômenos de
transes, visões, escrita automática e mensagens de
entidades do mundo invisível.
Quando as irmãs Fox, em Hydesville, relataram as famosas
“batidas”, em 1848, o público já estava mais ambientado
para interpretar tais acontecimentos. Para eles, o mundo
espiritual não era uma morada distante, mas uma esfera
em constante interação com o mundo material. Essa visão
de “revelação contínua” – a crença de que o plano
espiritual continua a enviar novas verdades através de
médiuns e visionários – tornou-se o pilar central do
espiritualismo moderno.
Outro legado vital foi o protagonismo feminino. Ann Lee,
reverenciada como “a encarnação feminina de Cristo”,
estabeleceu uma estrutura de liderança igualitária entre
homens e mulheres, modelo que rompeu com o
patriarcalismo das igrejas tradicionais e abriu caminho
para que, no movimento espiritualista, as mulheres
assumissem papéis centrais como médiuns e oradoras
públicas, ganhando autonomia sem precedentes na época.
Os shakers eram conhecidos por seu pacifismo,
oposição à escravidão e defesa da igualdade entre os
seres humanos, valores herdados e amplificados pelos
espiritualistas em suas lutas pelo abolicionismo e pelo
sufrágio feminino.
Essa corrente de pensamento atravessou o Atlântico e
influenciou o desenvolvimento do espiritismo na França.
A ênfase na evidência empírica da imortalidade e na lei
do progresso contínuo da alma, elementos fundamentais da
doutrina espírita, ecoam as práticas e a cosmologia
vividas nas comunidades shaker. Embora o
movimento de Ann Lee tenha declinado em número de
membros, sua semente espiritual floresceu em religiões
globais que ainda hoje buscam a comunicação direta com o
invisível e a evolução individual.
Adair Ribeiro Jr. é curador do Museu
AKOL – AllanKardec.online.
Esta matéria foi publicada originalmente no jornal Correio
Fraterno, de São Bernardo do Campo (SP).