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Natural de Recife (PE), onde reside, Rafaella de
Almeida Freitas (foto) é formada pela
Universidade Federal de Alagoas, com residência
em clínica médica e terapia intensiva e área de
atuação em cuidados paliativos. Vincula-se a
três instituições espíritas de sua cidade, sem
cargo diretivo, mas atuando como colaboradora em
diversas frentes de trabalho. Entrevistamo-la
sobre sua experiência e vivência espírita,
considerando sua profissão e suas percepções
mediúnicas.
Como se tornou espírita?
Costumo dizer que sou espírita por afinidade
natural. Desde muito cedo, sempre tive uma
compreensão intuitiva da existência de algo além
da matéria e de um Deus não punitivo, mas como
inteligência suprema e causa primária de todas
as coisas. Nasci em um lar com influência
espírita e frequentei a evangelização infantil,
o que contribuiu para organizar e dar linguagem
a ideias que, de certa forma, já faziam sentido
dentro de mim. Ao longo da vida, tive momentos
de maior e menor proximidade com a prática em
casas espíritas, mas nunca me afastei
verdadeiramente dos princípios da Doutrina, que
sempre permaneceram como base íntima de
compreensão da vida.
E o interesse pela Medicina?
O interesse pela Medicina também surgiu muito
precocemente. Por volta dos 11–12 anos, eu já
tinha convicção de que seguiria essa profissão,
sem influência familiar direta ou motivação
externa evidente. Não foi uma escolha construída
ao longo do tempo — foi mais uma certeza
interna, como um direcionamento. Hoje, olhando
retrospectivamente, compreendo essa inclinação
como profundamente alinhada com o propósito de
cuidado ao próximo.
O que mais admira, tanto na Medicina quanto no
Espiritismo?
O que mais admiro em ambas é a possibilidade de
compreensão da vida em sua complexidade. O
Espiritismo oferece uma base filosófica e moral
que explica a relação entre o mundo material e o
espiritual, enquanto a Medicina revela, de forma
concreta, a inteligência e a harmonia presentes
nos processos biológicos. Na prática médica,
especialmente em contextos críticos, é muito
difícil não perceber uma dimensão que transcende
o puramente técnico. A integração entre corpo,
mente e aspectos subjetivos da experiência
humana se torna evidente, e isso dialoga
diretamente com os princípios espíritas.
E sua mediunidade? Comente sobre ela. Quando
começou a senti-la e como é na atualidade?
Minhas percepções começaram ainda na infância,
inicialmente com experiências visuais pontuais
e, principalmente, com uma sensibilidade
emocional muito acentuada. Sempre tive grande
facilidade para perceber estados emocionais —
não apenas de pessoas ao meu redor, mas também
do ambiente como um todo. Durante muitos anos,
não compreendi essas experiências. Isso gerou
desconforto e, em alguns momentos, tentativa de
afastamento desse aspecto da minha vida. Cheguei
a desejar não ter esse tipo de sensibilidade,
justamente por não saber como lidar com ela.
O entendimento começou a se estruturar quando
passei a estudar de forma mais sistemática a
mediunidade dentro da Doutrina Espírita. Esse
estudo trouxe um elemento fundamental:
organização. Aprendi a diferenciar o que é
próprio e o que é percebido do ambiente, além de
compreender a importância do equilíbrio
emocional, da disciplina mental e da reforma
íntima. Atualmente, entendo minha mediunidade
principalmente como uma sensibilidade ampliada,
especialmente no campo emocional. Não a encaro
como algo extraordinário, mas como uma faculdade
que exige educação, responsabilidade e constante
vigilância.
Atuando como médica de UTI, como são as
percepções durante o atendimento?
A UTI é um ambiente de extrema intensidade —
técnica, emocional e humana. São
situações-limite, em que vida e morte estão
frequentemente muito próximas. Do ponto de vista
profissional, exige decisões rápidas, precisão
técnica e raciocínio clínico constante.
Paralelamente, há uma percepção subjetiva
importante: muitas vezes, durante atendimentos
críticos, existe uma sensação de clareza
intuitiva — como um direcionamento para
determinadas condutas, hipóteses diagnósticas ou
intervenções. Isso não substitui o conhecimento
técnico, de forma alguma, mas funciona como um
complemento à experiência clínica, algo que
muitos profissionais descrevem como “intuição
clínica”. Com o tempo, aprendi a integrar essas
percepções de forma equilibrada, sem mistificar,
mas também sem ignorar o papel da percepção
ampliada no cuidado.
O que se destaca mais à sua percepção no
ambiente hospitalar?
O que mais me chama atenção no ambiente
hospitalar é a intensidade emocional e humana
que se concentra ali — especialmente em setores
como a UTI. É um espaço onde convivem, ao mesmo
tempo, esperança, medo, sofrimento, dedicação e,
muitas vezes, exaustão. Do ponto de vista
subjetivo, é um ambiente que amplifica estados
internos. Profissionais sobrecarregados,
familiares angustiados e pacientes em situações
críticas criam um campo emocional muito denso.
Para quem tem maior sensibilidade, isso se
traduz em uma percepção muito clara de mudança
de “clima” entre setores, turnos e até mesmo
entre leitos.
Ao mesmo tempo, é também um ambiente onde se
percebe com muita força a presença do cuidado
genuíno. Equipes que trabalham com
comprometimento, pequenos gestos de humanidade,
decisões difíceis tomadas com responsabilidade —
tudo isso gera uma atmosfera completamente
diferente, mais organizada, mais leve, mesmo
diante da gravidade dos casos. Com o tempo,
compreendi que não se trata apenas de “um
ambiente pesado”, mas de um ambiente altamente
dinâmico, que responde diretamente à qualidade
emocional, mental e ética das pessoas que ali
atuam. Isso reforçou em mim a importância do
autocuidado, da disciplina mental e da intenção
com que entramos para trabalhar, porque isso
impacta diretamente não só a nossa experiência,
mas também a assistência prestada.
E na atividade mediúnica espírita, propriamente
dita, fora do hospital, como a situa?
Fora do ambiente hospitalar, minha vivência
mediúnica está atualmente centrada no estudo e
no desenvolvimento gradual dentro da casa
espírita. Participo de grupos de estudo
sistematizado e atividades de caridade, que
considero fundamentais para o equilíbrio.
Entendo que a mediunidade não deve ser
dissociada da reforma íntima e do compromisso
ético. Mais do que manifestações ostensivas,
valorizo hoje a mediunidade como ferramenta de
sensibilidade, empatia e serviço ao próximo.
Algum relato marcante de sua atividade médica?
Ao longo da minha atuação em terapia intensiva e
cuidados paliativos, alguns momentos se destacam
não apenas pela complexidade clínica, mas pela
forma como são percebidos subjetivamente. Em
situações de fim de vida, por exemplo, é
frequente eu perceber mudanças no ambiente que
vão além dos parâmetros objetivos. Há pacientes
em que, à medida que o desfecho se aproxima,
ocorre uma espécie de “silenciamento” do entorno
— uma sensação de desaceleração, como se o
ambiente ao redor se organizasse de forma
diferente.
Em outros casos, especialmente quando há maior
sofrimento emocional envolvido, a percepção é
oposta: um ambiente mais denso, inquieto, que
muitas vezes se reflete também na dinâmica da
equipe e da família. Um ponto que sempre me
chamou atenção foi a mudança sutil na presença
do paciente. Mesmo antes de alterações clínicas
evidentes, por vezes existe uma percepção de que
algo se modificou — como se o vínculo com o
corpo estivesse diferente. Isso não substitui a
avaliação médica, mas muitas vezes me leva a
observar com mais atenção, antecipando mudanças
que acabam se confirmando clinicamente.
Outro aspecto marcante são as reuniões com os
familiares. Em algumas delas, há uma sensação
muito clara de acolhimento e organização
emocional do ambiente, o que facilita a
comunicação, mesmo em notícias difíceis. Em
outras, percebe-se uma carga emocional mais
desestruturada, exigindo maior preparo interno
para conduzir a conversa. Essas vivências nunca
foram, para mim, elementos isolados ou místicos
no sentido fantasioso, mas sim percepções que
acompanham o cuidado em contextos de grande
intensidade humana. Com o tempo, aprendi a
integrá-las de forma equilibrada à prática
médica, utilizando-as como sinalizadores
complementares — sempre subordinados ao
raciocínio clínico, mas úteis para ampliar a
atenção e a qualidade do cuidado.
E suas percepções mediúnicas junto ao ambiente e
aos pacientes?
Minhas percepções, no contexto assistencial,
manifestam-se principalmente como uma
sensibilidade ampliada ao estado emocional dos
pacientes e do ambiente. Em muitos momentos, há
uma percepção muito clara de mudança no padrão
do paciente — não necessariamente baseada apenas
em dados objetivos, mas em uma combinação de
sinais clínicos com uma espécie de “leitura
global” do quadro.
Isso se aproxima do que muitos profissionais
descrevem como intuição clínica, mas, no meu
caso, frequentemente vem acompanhado de uma
percepção emocional associada.
Também percebo com bastante intensidade o
impacto emocional dos familiares, especialmente
em situações de sofrimento prolongado ou de
tomada de decisões difíceis. Isso pode ser um
recurso importante para conduzir melhor a
comunicação e o acolhimento, mas exige cuidado
para não haver sobrecarga.
Em fases mais iniciais da minha trajetória, eu
absorvia essas percepções de forma pouco
filtrada, o que levava a um desgaste
significativo. Com o tempo e com o estudo,
aprendi a estabelecer limites internos mais
claros, entendendo o que é meu e o que é do
outro. Hoje, procuro utilizar essa sensibilidade
como ferramenta complementar ao raciocínio
clínico, sempre ancorada na técnica e na ética
médica. Quando bem manejada, ela contribui para
uma abordagem mais empática e individualizada,
sem perder a objetividade necessária ao cuidado.
Algo mais que gostaria de acrescentar?
Acredito que seja importante reforçar que
espiritualidade e ciência não são campos
opostos. A Medicina moderna já reconhece a
importância de aspectos emocionais, psicológicos
e até espirituais no processo de saúde e doença.
A espiritualidade, quando vivida com equilíbrio
e senso crítico, pode contribuir para uma
prática médica mais humanizada. O fundamental é
manter o discernimento, o estudo constante e o
compromisso ético com o paciente.
Suas palavras finais.
Minha trajetória foi, em grande parte, um
aprendizado sobre equilíbrio. Equilíbrio entre
razão e sensibilidade, entre ciência e
espiritualidade, entre cuidar do outro e cuidar
de si.
Se há algo que posso compartilhar, especialmente
com colegas da área da saúde que vivenciam
percepções semelhantes, é que o caminho passa
pelo estudo, pela disciplina e pelo
autoconhecimento. A mediunidade, assim como a
Medicina, exige responsabilidade. Quando bem
conduzida, pode se tornar não um peso, mas uma
ferramenta a mais para compreender e servir
melhor ao próximo.
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