Entrevista

por Orson Peter Carrara

Aprendizado mediúnico no ambiente hospitalar – médica relata percepções vivenciadas
na UTI


Natural de Recife (PE), onde reside, Rafaella de Almeida Freitas (foto) é formada pela Universidade Federal de Alagoas, com residência em clínica médica e terapia intensiva e área de atuação em cuidados paliativos. Vincula-se a três instituições espíritas de sua cidade, sem cargo diretivo, mas atuando como colaboradora em diversas frentes de trabalho. Entrevistamo-la sobre sua experiência e vivência espírita, considerando sua profissão e suas percepções mediúnicas.

 

Como se tornou espírita?

Costumo dizer que sou espírita por afinidade natural. Desde muito cedo, sempre tive uma compreensão intuitiva da existência de algo além da matéria e de um Deus não punitivo, mas como inteligência suprema e causa primária de todas as coisas. Nasci em um lar com influência espírita e frequentei a evangelização infantil, o que contribuiu para organizar e dar linguagem a ideias que, de certa forma, já faziam sentido dentro de mim. Ao longo da vida, tive momentos de maior e menor proximidade com a prática em casas espíritas, mas nunca me afastei verdadeiramente dos princípios da Doutrina, que sempre permaneceram como base íntima de compreensão da vida.

E o interesse pela Medicina?

O interesse pela Medicina também surgiu muito precocemente. Por volta dos 11–12 anos, eu já tinha convicção de que seguiria essa profissão, sem influência familiar direta ou motivação externa evidente. Não foi uma escolha construída ao longo do tempo — foi mais uma certeza interna, como um direcionamento. Hoje, olhando retrospectivamente, compreendo essa inclinação como profundamente alinhada com o propósito de cuidado ao próximo.

O que mais admira, tanto na Medicina quanto no Espiritismo?

O que mais admiro em ambas é a possibilidade de compreensão da vida em sua complexidade. O Espiritismo oferece uma base filosófica e moral que explica a relação entre o mundo material e o espiritual, enquanto a Medicina revela, de forma concreta, a inteligência e a harmonia presentes nos processos biológicos. Na prática médica, especialmente em contextos críticos, é muito difícil não perceber uma dimensão que transcende o puramente técnico. A integração entre corpo, mente e aspectos subjetivos da experiência humana se torna evidente, e isso dialoga diretamente com os princípios espíritas.

E sua mediunidade? Comente sobre ela. Quando começou a senti-la e como é na atualidade?

Minhas percepções começaram ainda na infância, inicialmente com experiências visuais pontuais e, principalmente, com uma sensibilidade emocional muito acentuada. Sempre tive grande facilidade para perceber estados emocionais — não apenas de pessoas ao meu redor, mas também do ambiente como um todo. Durante muitos anos, não compreendi essas experiências. Isso gerou desconforto e, em alguns momentos, tentativa de afastamento desse aspecto da minha vida. Cheguei a desejar não ter esse tipo de sensibilidade, justamente por não saber como lidar com ela.

O entendimento começou a se estruturar quando passei a estudar de forma mais sistemática a mediunidade dentro da Doutrina Espírita. Esse estudo trouxe um elemento fundamental: organização. Aprendi a diferenciar o que é próprio e o que é percebido do ambiente, além de compreender a importância do equilíbrio emocional, da disciplina mental e da reforma íntima. Atualmente, entendo minha mediunidade principalmente como uma sensibilidade ampliada, especialmente no campo emocional. Não a encaro como algo extraordinário, mas como uma faculdade que exige educação, responsabilidade e constante vigilância.

Atuando como médica de UTI, como são as percepções durante o atendimento?

A UTI é um ambiente de extrema intensidade — técnica, emocional e humana. São situações-limite, em que vida e morte estão frequentemente muito próximas. Do ponto de vista profissional, exige decisões rápidas, precisão técnica e raciocínio clínico constante. Paralelamente, há uma percepção subjetiva importante: muitas vezes, durante atendimentos críticos, existe uma sensação de clareza intuitiva — como um direcionamento para determinadas condutas, hipóteses diagnósticas ou intervenções. Isso não substitui o conhecimento técnico, de forma alguma, mas funciona como um complemento à experiência clínica, algo que muitos profissionais descrevem como “intuição clínica”. Com o tempo, aprendi a integrar essas percepções de forma equilibrada, sem mistificar, mas também sem ignorar o papel da percepção ampliada no cuidado.

O que se destaca mais à sua percepção no ambiente hospitalar?

O que mais me chama atenção no ambiente hospitalar é a intensidade emocional e humana que se concentra ali — especialmente em setores como a UTI. É um espaço onde convivem, ao mesmo tempo, esperança, medo, sofrimento, dedicação e, muitas vezes, exaustão. Do ponto de vista subjetivo, é um ambiente que amplifica estados internos. Profissionais sobrecarregados, familiares angustiados e pacientes em situações críticas criam um campo emocional muito denso. Para quem tem maior sensibilidade, isso se traduz em uma percepção muito clara de mudança de “clima” entre setores, turnos e até mesmo entre leitos.

Ao mesmo tempo, é também um ambiente onde se percebe com muita força a presença do cuidado genuíno. Equipes que trabalham com comprometimento, pequenos gestos de humanidade, decisões difíceis tomadas com responsabilidade — tudo isso gera uma atmosfera completamente diferente, mais organizada, mais leve, mesmo diante da gravidade dos casos. Com o tempo, compreendi que não se trata apenas de “um ambiente pesado”, mas de um ambiente altamente dinâmico, que responde diretamente à qualidade emocional, mental e ética das pessoas que ali atuam. Isso reforçou em mim a importância do autocuidado, da disciplina mental e da intenção com que entramos para trabalhar, porque isso impacta diretamente não só a nossa experiência, mas também a assistência prestada.

E na atividade mediúnica espírita, propriamente dita, fora do hospital, como a situa?

Fora do ambiente hospitalar, minha vivência mediúnica está atualmente centrada no estudo e no desenvolvimento gradual dentro da casa espírita. Participo de grupos de estudo sistematizado e atividades de caridade, que considero fundamentais para o equilíbrio. Entendo que a mediunidade não deve ser dissociada da reforma íntima e do compromisso ético. Mais do que manifestações ostensivas, valorizo hoje a mediunidade como ferramenta de sensibilidade, empatia e serviço ao próximo.

Algum relato marcante de sua atividade médica?

Ao longo da minha atuação em terapia intensiva e cuidados paliativos, alguns momentos se destacam não apenas pela complexidade clínica, mas pela forma como são percebidos subjetivamente. Em situações de fim de vida, por exemplo, é frequente eu perceber mudanças no ambiente que vão além dos parâmetros objetivos. Há pacientes em que, à medida que o desfecho se aproxima, ocorre uma espécie de “silenciamento” do entorno — uma sensação de desaceleração, como se o ambiente ao redor se organizasse de forma diferente.

Em outros casos, especialmente quando há maior sofrimento emocional envolvido, a percepção é oposta: um ambiente mais denso, inquieto, que muitas vezes se reflete também na dinâmica da equipe e da família. Um ponto que sempre me chamou atenção foi a mudança sutil na presença do paciente. Mesmo antes de alterações clínicas evidentes, por vezes existe uma percepção de que algo se modificou — como se o vínculo com o corpo estivesse diferente. Isso não substitui a avaliação médica, mas muitas vezes me leva a observar com mais atenção, antecipando mudanças que acabam se confirmando clinicamente.

Outro aspecto marcante são as reuniões com os familiares. Em algumas delas, há uma sensação muito clara de acolhimento e organização emocional do ambiente, o que facilita a comunicação, mesmo em notícias difíceis. Em outras, percebe-se uma carga emocional mais desestruturada, exigindo maior preparo interno para conduzir a conversa. Essas vivências nunca foram, para mim, elementos isolados ou místicos no sentido fantasioso, mas sim percepções que acompanham o cuidado em contextos de grande intensidade humana. Com o tempo, aprendi a integrá-las de forma equilibrada à prática médica, utilizando-as como sinalizadores complementares — sempre subordinados ao raciocínio clínico, mas úteis para ampliar a atenção e a qualidade do cuidado.

E suas percepções mediúnicas junto ao ambiente e aos pacientes?

Minhas percepções, no contexto assistencial, manifestam-se principalmente como uma sensibilidade ampliada ao estado emocional dos pacientes e do ambiente. Em muitos momentos, há uma percepção muito clara de mudança no padrão do paciente — não necessariamente baseada apenas em dados objetivos, mas em uma combinação de sinais clínicos com uma espécie de “leitura global” do quadro.

Isso se aproxima do que muitos profissionais descrevem como intuição clínica, mas, no meu caso, frequentemente vem acompanhado de uma percepção emocional associada.

Também percebo com bastante intensidade o impacto emocional dos familiares, especialmente em situações de sofrimento prolongado ou de tomada de decisões difíceis. Isso pode ser um recurso importante para conduzir melhor a comunicação e o acolhimento, mas exige cuidado para não haver sobrecarga.

Em fases mais iniciais da minha trajetória, eu absorvia essas percepções de forma pouco filtrada, o que levava a um desgaste significativo. Com o tempo e com o estudo, aprendi a estabelecer limites internos mais claros, entendendo o que é meu e o que é do outro. Hoje, procuro utilizar essa sensibilidade como ferramenta complementar ao raciocínio clínico, sempre ancorada na técnica e na ética médica. Quando bem manejada, ela contribui para uma abordagem mais empática e individualizada, sem perder a objetividade necessária ao cuidado.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Acredito que seja importante reforçar que espiritualidade e ciência não são campos opostos. A Medicina moderna já reconhece a importância de aspectos emocionais, psicológicos e até espirituais no processo de saúde e doença. A espiritualidade, quando vivida com equilíbrio e senso crítico, pode contribuir para uma prática médica mais humanizada. O fundamental é manter o discernimento, o estudo constante e o compromisso ético com o paciente.

Suas palavras finais.

Minha trajetória foi, em grande parte, um aprendizado sobre equilíbrio. Equilíbrio entre razão e sensibilidade, entre ciência e espiritualidade, entre cuidar do outro e cuidar de si.

Se há algo que posso compartilhar, especialmente com colegas da área da saúde que vivenciam percepções semelhantes, é que o caminho passa pelo estudo, pela disciplina e pelo autoconhecimento. A mediunidade, assim como a Medicina, exige responsabilidade. Quando bem conduzida, pode se tornar não um peso, mas uma ferramenta a mais para compreender e servir melhor ao próximo.

 
 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita