|
Natural de Recife (PE), onde reside, Bruno
Severo Gomes (foto) é
microbiologista, pós-doutor em Medicina Tropical
e professor do Centro de Ciências Médicas da
UFPE. Vincula-se ao Grupo Espírita Francisco de
Assis, de Jaboatão dos Guararapes (PE), como
trabalhador ativo da instituição.
Apesar de sua área específica de
especialização, implantou na universidade a
disciplina “Felicidade”, cujos desdobramentos
ultrapassaram o ambiente acadêmico. Sua visão
positiva sobre a vida levou-o também ao trabalho
voluntário como “doutor-palhaço” em hospitais,
despertando descontração e esperança durante as
visitas aos enfermos. Um relato que merece ser
conhecido.
De onde a dedicação ao tema felicidade em seus
variados desdobramentos?
A dedicação ao tema felicidade começou pela
atuação como professor e profissional de saúde,
áreas em que observava o sofrimento humano, as
frustrações e, muitas vezes, a falta de
esperança e de propósito de vida. Em 2019, como
docente da Universidade Federal de Pernambuco,
criei a disciplina “Felicidade”, que, desde
então, é ofertada para todos os cursos de
graduação da universidade. Hoje, a disciplina e
seus ensinamentos ultrapassaram os limites da
instituição, chegando a diversos ambientes.
Outro local em que a felicidade é “aplicada” é o
hospital, onde também atuo, desde 2000, como
doutor-palhaço, utilizando essa linguagem para
potencializar emoções positivas.
Nas circunstâncias atuais, como elaborar uma
felicidade sem egoísmo que também proporcione
felicidade a outras pessoas?
Praticar a generosidade de estar presente, pois,
muitas vezes, o maior presente não é material,
mas a escuta ativa. Estar 100% presente para
alguém valida a existência do outro, gerando
bem-estar mútuo sem exigir nada em troca. Também
é importante envolver-se em projetos ou hobbies
cujo sucesso dependa da colaboração. A
felicidade que nasce de uma conquista em grupo é
inerentemente menos egoísta, pois é
compartilhada. Ficar feliz com as conquistas dos
outros e sentir prazer diante da felicidade
alheia amplia nossa própria capacidade de ser
feliz. Em vez de competir, é possível criar o
hábito de celebrar as vitórias dos outros como
se fossem nossas.
E como esse olhar se conecta com o conhecimento
espírita?
Praticar o bem, perdoar e ser humilde são
caminhos infalíveis para a realização íntima,
pois o orgulho e o egoísmo estão na raiz de
muitos sofrimentos. Acreditar na reencarnação
transforma a vida em uma jornada eterna de
aprendizado, em que as dores representam
oportunidades de crescimento. Na Doutrina
Espírita, a felicidade é compreendida como um
estado de paz interior e evolução moral,
independente de bens materiais ou circunstâncias
externas. Ela se fundamenta no amor, na
caridade, na resignação diante das provas e na
certeza da imortalidade da alma, cultivando a
alegria por meio do cumprimento da lei de Deus.
Aliás, como se tornou espírita?
Pelo desejo de renovar sentimentos, pensamentos
e ações, tomando por base o exemplo de Jesus.
Acredito que tenha sido também pela curiosidade,
pelo estudo e pela visão holística que tenho
sobre espiritualidade, credos e crenças. O
Espiritismo, como filosofia racional, proposta
existencial e compromisso com Deus, com o
próximo e consigo mesmo, oferece o “combustível”
necessário para seguirmos firmes e esperançosos
em nossa caminhada.
O que mais se destaca, a seu ver, na Doutrina
Espírita?
A nossa responsabilidade no bem-estar do outro.
A felicidade humana é profundamente influenciada
pelos vínculos que construímos. O principal lema
do Espiritismo, amplamente reconhecido e
utilizado, é: “Fora da caridade não há
salvação”. Essa frase resume a essência moral da
doutrina, enfatizando que a evolução espiritual
não depende apenas da crença, mas sobretudo das
ações concretas de amor ao próximo, compaixão e
desprendimento.
Que principal experiência tem colhido nas
abordagens sobre o tema nas instituições
espíritas?
Quando se pratica a caridade, torna-se mais
fácil ser feliz. O Espiritismo ensina que, por
meio da reforma íntima e da prática do bem, é
possível alcançar uma felicidade relativa ou
suavizar os males da existência, tornando-a tão
feliz quanto possível. Em todas as casas
espíritas em que realizo palestras, observo que
a porta de entrada para a felicidade é a
gratidão. Ela é uma força transformadora que
altera a perspectiva de vida, direcionando o
olhar para o que há de positivo e gerando
felicidade, saúde mental e resiliência. Estudos
indicam que a prática diária da gratidão
favorece mecanismos associados ao bem-estar,
contribuindo para a redução do estresse e para o
fortalecimento dos relacionamentos. Agradecer,
mesmo diante das dificuldades, abre portas,
aumenta a motivação e nos leva a valorizar o que
possuímos, em vez de nos concentrarmos naquilo
que nos falta. Ser é mais importante do que ter.
E como professor, tem também destacado de alguma
forma essa temática junto aos alunos?
Sou microbiologista, faço parte do Centro de
Ciências Médicas da UFPE e atuo na área de
Medicina Tropical. Tenho 16 anos de docência
universitária. Nos cinco primeiros anos,
ministrava aulas apenas sobre doenças, até que
pensei: “Epa! Está na hora de fazer diferente”.
Foi então que criei outras disciplinas, como
“Felicidade” e “Humanização em Saúde”.
Posteriormente, fui convidado a participar de
outra disciplina, denominada “Morte e Morrer”.
Essa matéria é fundamental, especialmente na
área da saúde, por preparar profissionais para
lidar com o impacto emocional da morte e da
finitude. Ser professor vai além da transmissão
de conteúdos: envolve dedicação, afeto e
compromisso com a formação integral do aluno.
Significa acolher histórias, perceber silêncios,
inspirar sonhos e transformar vidas por meio da
escuta ativa e da empatia, fazendo da sala de
aula um espaço de encontro humano e construção
de futuros.
Vincule a psicologia à felicidade.
A Psicologia Positiva é o estudo científico do
funcionamento humano saudável, concentrando-se
no desenvolvimento do bem-estar, da resiliência
e das virtudes, indo além da simples cura de
doenças. Ela busca aumentar a qualidade de vida
por meio do cultivo de emoções positivas, do
engajamento e do propósito existencial,
equilibrando o foco tradicional dado aos
transtornos e sofrimentos. Seu objetivo é ajudar
as pessoas a avançarem para níveis mais elevados
de bem-estar e realização pessoal, e não apenas
reduzir o sofrimento. Além disso, identifica e
valoriza virtudes e forças cognitivas e
emocionais, como criatividade, curiosidade,
coragem e perdão, contribuindo para o aumento da
satisfação pessoal.
Algo marcante que gostaria de relatar?
Acredito que atuar na ciência da felicidade seja
uma missão. Assim, cada aula, encontro ou
palestra transforma-se em um movimento de
valorização da vida, promoção da cultura de paz
e incentivo à compaixão. O que mais me marca é
perceber, nos relatos que recebo, a mudança de
hábitos e a reconexão das pessoas com sua
própria essência humana.
Algo mais a acrescentar?
Os pilares da felicidade baseiam-se em emoções
positivas, engajamento, relacionamentos,
propósito e realização. A felicidade duradoura
envolve cultivar o otimismo, dedicar-se a
atividades significativas, manter vínculos
sociais saudáveis, encontrar sentido na vida e
experimentar a autorrealização, sempre com foco
no equilíbrio pessoal.
Suas palavras finais.
A verdadeira alegria advém da certeza da
imortalidade da alma e da compreensão da
reencarnação, cultivando a fé no futuro e a paz
interior, mesmo diante das adversidades. A
felicidade não depende do mundo exterior, mas da
harmonia da alma com as leis divinas. A questão
922 de O Livro dos Espíritos sintetiza a
medida exata da felicidade comum a todos os
homens, ao afirmar que, para a vida material,
ela consiste na posse do necessário e, para a
vida moral, na consciência tranquila e na fé no
futuro.
 |