Neste mundo em transição as crises se avolumam e se
estendem a todas as dimensões da convivência humana. Os
desafios se agudizam ao ponto de nos aturdirmos em meio
ao cipoal de manipulações e mentiras, de falsas versões
que tendem a encobrir a realidade objetiva. A busca de
uma diretriz que nos ofereça razoável equilíbrio e paz
para dissipar as trevas da incerteza progressiva
tornou-se um desafio que parece insuperável.
Nestas breves reflexões cotejaremos as causas das
incertezas fomentadas pela mentira e as opções de
superação, ante os caminhos recomendados pela Doutrina
dos Espíritos.
I – Introdução.
Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.
Jesus (João: 8:32)1
Emmanuel, em Fonte Viva2, conduz-nos ao cerne
do dilema:
“A palavra do Mestre é clara e segura.
Não seremos libertados pelos ´aspectos da verdade´ ou
pelas ´verdades provisórias´ de que sejamos detentores
no círculo das afirmações apaixonadas a que nos
inclinemos.
Muitos em política, filosofia, ciência e religião, se
afeiçoam a certos ângulos da verdade e transformam a
própria vida numa trincheira de luta desesperada, a
pretexto de defendê-la, quando não passam de
prisioneiros do ´ponto de vista´.”
Em tempos de crises, como nas guerras, a primeira vítima
é a verdade. Como na célebre frase atribuída ao
dramaturgo grego Ésquilo (525-456 a.C.). “Na guerra, a
primeira vítima é a verdade.”
Ninguém hoje é incapaz de constatar que vivemos numa
época de transformações radicais, em todos os campos do
relacionamento humano, tal como os descreve Emmanuel; em
política, filosofia, ciência e religião. O que sobressai
nesse período é a simultaneidade de agudas mudanças e a
convergência dos seus efeitos, exatamente nos pontos em
que não é possível retroceder – ponto-de-não-retorno –
incidindo sobre a nossa visão de mundo e as escolhas de
cada um. O desafio é coletivo, a solução, ...
individual, personalíssima, inafastável.
Nada mais previsível, neste cenário, a tendência à
autopreservação diante das crescentes ameaças, desde a
camuflagem, o mimetismo, até a mentira; estratégias para
evitar danos e obter vantagem ou benefícios, ainda que
aparentes, ainda que breves.
Passo a passo, podemos nos aproximar da ambição suprema
da mentira: - parecer, a mais não poder, com a verdade,
... parecer, ... e não ser. Advertência de
Platão em A República e no diálogo Hipias
Menor, no qual a mentira mais perigosa não é aquela
que propaga um falso fato, mas aquela que consegue
imitar a verdade, a tal ponto de se tornar quase
indistinguível desta.
Na turbulência das crises, paradoxalmente, pode emergir
a luz possível para os que se esforçam por encontrá-la,
em consonância com a origem grega do vocábulo, Krísis3 , alteração,
desequilíbrio repentino, a exigir urgente ação de
julgar, discernir – separar o bom do ruim – evoluindo
para o latim, Crisis, momento de decisão.
O maior desafio, todavia, é coexistir, conviver, com a
necessidade de fazer escolhas obstadas pela ausência de
conhecimento, pelos erros de interpretação, pelo
incitamento ao mal, pelas falsidades e a hipocrisia que
ensombram os cenários nos quais vivemos.
II – Desenvolvimento. Da Ignorância à simulação e à
dissimulação.
Todos fomos criados simples e ignorantes4,
sem conhecimento e sabedoria, questão 115 d’ O Livro
dos Espíritos (LE), entretanto, impelidos à evolução
e ao progresso contínuos, ininterruptos e infinitos. Uma
força incoercível, inata, impulsiona-nos para a
perfeição plena. Questão 779 (LE), além das potências
individuais, os mais adiantados auxiliam o progresso dos
demais, pela simples convivência social. Três fontes se
revelam no princípio: - a Divina - fonte primária - a
individual e a coletiva.
Desde a origem têm os Espíritos, almas enquanto
encarnados, a capacidade de escolha, sem a qual não
seria possível ascender ou estagnar – mérito,
responsabilidade - não lhe sendo concedida a
possibilidade de decair, retroceder.
Nas escolhas, livres e voluntárias, mais ou menos
conscientes – nada obstante suficientes, para não aderir
ao mal - o ponto nodal da escalada (questão 122, LE). Há
sempre, desde a origem, reitere-se, a capacidade de
escolha, em virtude da sua livre vontade.
2.1. A Mentira.
A mentira e seus sucedâneos podem ser identificados
pelos graus de sua propagação, do silêncio à conduta
maliciosa.
O silêncio, porém, não pode ser considerado omissão da
verdade, somente em si e por si, no sentido de ocultar a
realidade, entretanto - e também - o confronto com a
impossibilidade de demonstrá-la, como vemos no diálogo
de Jesus com Pilatos, (João, 18:37).
“O que é a verdade?”, indagou Pilatos, sem a menor
intenção de obter uma resposta, um melhor
esclarecimento, porque afastou-se sem esperar a
explicação que dissimulou desejar, (João 18:38).
Jesus, momentos antes, dissera: Vim ao mundo para dar
testemunho da verdade. Quem é da verdade me ouve (João
18:37). Neste momento não proferia um conceito abstrato,
de difícil apreensão, revelava a Verdade concreta - um
fato que a realidade objetiva demonstrava à saciedade -
por suas palavras, ensinamentos e feitos, alguns
absolutamente extraordinários, tão excepcionais que
tornariam o seu nome conhecido em todo mundo e para
sempre.
Pilatos optou por relativizar o testemunho – inequívoco,
objetivo e factual - e camuflá-lo numa falsa dúvida
intelectual. Aqui os silêncios se revelam, o de Jesus,
verdadeiro, o de Pilatos, falso, dissimulado. O
aprofundamento do diálogo levaria Pilatos ao dilema que
não queria enfrentar, condenar alguém que sabia
inocente. O silêncio malicioso que se camufla em
conveniências pessoais e políticas.
A mentira, como ludibrio ou falsidade, sempre esteve
presente na história humana, surgindo, em sua origem,
pela necessidade de preservação da vida, desde os
primórdios da civilização. Nesse sentido, o ser humano
não é o único a servir-se dessa tática, para
instintivamente sobreviver, fazendo-se de morto ou
camuflando-se para melhor defender-se ou vencer seus
predadores. Pode-se afirmar que essa atitude é
conatural, peculiar à conduta humana. Sempre presente
nos jogos de sedução e conquista, afetiva ou social. A
grande questão que dela surge é o fim a que se destina,
o uso que se lhe dá, o motivo que a impulsiona, as
vantagens que persegue.
A intenção de enganar, com o fim de obter uma vantagem -
material ou moral - ou simplesmente induzir ao erro ou à
perda, à frustração, à queda de quem a recebe, é que
constitui o cerne do desvalor da mentira.
Constituindo-se de um não-ser, não possui
substância ou valor positivo para as relações humanas,
induzindo os que são ludibriados em consequências
adversas. Tolerada, apenas, como justificável nos atos
de compaixão e de cuidado, seus complexos matizes
enovelam-se na própria origem e motivação dos
pensamentos, dos sentimentos e da vontade.
Nada obstante, ainda na idade média, entre os séculos
XIV e XV, Ibn Khaldun (1332-1406)5, filósofo
árabe, precursor da filosofia da história, desenvolveu
uma teoria sobre a mentira, demonstrando como
esta se infiltra na história e, via de consequência,
como se evitar que esse artifício prevaleça. Quanto a
isso, indica sete causas para o seu aparecimento:
- “o apego dos homens a certas opiniões e a
certas doutrinas;
- a confiança ingênua nos relatos dos
informantes;
- a facilidade com que o homem se considera na
posse da verdade;
- a falta do conhecimento dos objetivos dos
´atores dos grandes acontecimentos´;
- a ignorância das relações entre os
acontecimentos e as circunstâncias;
- a tendência à bajulação dos personagens
ilustres e importantes;
- a ignorância da natureza dos fenômenos ´que
nascem da Civilização´”.
Foi o primeiro filósofo a haver comprovado a influência
das situações, objetivas e subjetivas - tanto
espontâneas, quanto por fontes exteriores – que projetam
seus singulares efeitos no meio social. Quanto a isso,
destaca José Herculano Pires, na obra antes indicada:
“Neste ponto, que é sumamente importante, como se vê,
Khaldun esclarece, com uma precisão que antecede até
mesmo Durkheim: ´Tudo o que acontece, seja
espontaneamente, seja por efeito de uma influência
exterior, possui um caráter próprio, tanto na sua
essência quanto nas circunstâncias que o
acompanham´.”(grifamos)
Embora não tenha exaurido todas as múltiplas causas da
mentira, fornece uma ampla base teórica para o início de
nossas reflexões sobre a existência e seus efeitos na
propagação da contrafação.
Mentir, voluntária e conscientemente, afasta-nos da
verdade, pior, incompatibiliza-nos com a luz,
confinando-nos em suas funestas trevas. A tal ponto, que
pode nos condenar à condição de não-retorno, pelo
comprometimento da personalidade que estiola e se anula,
quanto mais se reitera.
“O mundo está cheio de enganos dos homens abomináveis
que invadiram os domínios da política, da ciência e da
religião e ergueram criações chocantes para os espíritos
menos avisados; contam-se por milhões as almas com eles
arrebatadas às surpresas da morte e absolutamente
desequilibradas nos círculos da vida espiritual.”6 (Emmanuel)
Ai daqueles que optam pela abominação das mentiras na
política, na ciência e na religião, arrebatados pela
surpresa da morte – desde logo moral e, ao final, física
- ao absoluto desequilíbrio.
Condenam a si mesmos, à incompatibilidade com a
realidade objetiva, à repulsa à luz e à verdade,
precipitando-se no pântano do erro e das trevas que
criaram para si e em torno de si, ... eis o
ponto-de-não-retorno.
A mentira compromete a tal ponto o equilíbrio, a
estabilidade e o progresso das pessoas, das instituições
e das sociedades que está tornando-as disfuncionais, ao
incidir sobre a cultura, a ciência e a religião,
transformando-se na maior e mais insidiosa ameaça
contemporânea, como recentemente afirmou o Papa Leão
XIV, na Fundação do Observatório Vaticano, em Castel
Gandolfo:
“Hoje, no entanto, a ciência e a religião enfrentam uma
ameaça diferente, e talvez mais insidiosa: aqueles que
negam a própria existência da verdade objetiva”7
Dissimulada em formulações teóricas que visam a suprema
aspiração da mentira, como antes mencionado em Platão;
parecer a verdade, em seu grau máximo, ... e não ser a
verdade.
É o que se vê entre os cultores da Pós-verdade.
2.2. A Pós-verdade.
A palavra pós-verdade, recentemente criada, é, em
verdade, um subproduto da ambiência contemporânea
caracterizada como a Era da Mentira; forma
dissimulada e entorpecente para as mentes que optam por
debater-se nas ondas sombrias da negação da realidade,
criando uma esfera de afetação, de hipocrisia – hoje
chamadas “bolhas” - na qual a verdade restringe-se às
crenças e versões engendradas por interesses
inconfessáveis. Interesses que, há pouco tempo atrás,
eram contidos pela culpa, ocultados pela vergonha,
evitados pelo decoro e pela dignidade.
A expressão pós-verdade, ante a insólita propagação, foi
selecionada como a palavra do ano, pelo Dicionário
Oxford de Inglês, em 2016, a refletir um meio ambiente
cultural que desnuda o desvalor da mentira, na qual as
versões que apelam às emoções e crenças pessoais
alcançam maior valor e se sobrepõem à realidade
objetiva, aos fatos, à verdade afinal.
O presidente da Oxford Languages, Casper Grathwohl,
revelou que a estranha popularidade da expressão foi
impulsionada pelas mídias sociais, diante da
desconfiança dos fatos propalados pelas mídias
estabelecidas e comprometidas pelo establishment (grupos
que detêm o poder). 8
É o próprio Grathwohl que adverte que a pós-verdade se
tornaria uma palavra definidora do nosso tempo.
Afinal, nada acrescenta às formas através das quais a
mentira se infiltra na história, como teorizado por Ibn
Khaldun, no século XIV; um viés do relativismo moral que
recusa a existência de verdades universais e absolutas -
como a existência de Deus – e assola a humanidade com
todos os funestos consectários de um subjetivismo
cristalizado no materialismo.
Sob o ponto de vista da conduta individual, a
pós-verdade criou uma zona ética cinzenta,
permitindo-nos dissimular sem culpa; manipular a
verdade, mantendo positiva a autoimagem; normalizar a
mentira como ferramenta socialmente aceitável, para
contornar a realidade adversa e levar vantagem ou
proteger conveniências; e, por fim, o efeito mais
devastador, contaminar as relações pessoais, na família,
nas instituições e na sociedade.9
III. A Doutrina Espírita diante dos Desafios Atuais.
Tudo quanto existe e nos é possível inferir pode ser
resumido à matéria, ao espírito e ao Criador; Deus, eterno,
imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente
justo e bom. Criou o Universo, que abrange todos os
seres animados e inanimados, materiais e imateriais.4.1.
A fidelidade à Verdade exige uma consciência situacional
e um comportamento alinhados aos ensinamentos de Jesus,
enriquecidos pelo conhecimento do Consolador
Prometido, a Doutrina dos Espíritos.
Consciência de si mesmo e do meio no qual existimos –
consciência situacional - impõe um esforço de
autoconhecimento (LE, q. 919), um complexo processo de
auto-observação, autodisciplina, autoeducação e
autorrealização.
O esforço de autoconhecimento - em seus degraus iniciais
- demanda-nos um compromisso com a autenticidade, com a
sinceridade, que deve começar em nós, propagando-se de
nós e retornando para nós. Quem almeja estar com a
Verdade, não pode se permitir, em linha de princípio,
mentir para si mesmo. Quem mente para si mesmo provoca a
autossabotagem de seus anelos, debilita a própria
vontade. De par com isto, esforçar-se em não desnaturar
a realidade na qual vive, disseminando o vírus da
mitomania, que contamina, de imediato, aquele que o
propaga.
Por fim, em cada passo, dia a dia, aos poucos, mas
sempre - o ponto culminante da autorrealização - a
prática ininterrupta de benevolência para com todos,
indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das
ofensas (LE, q. 886), que resume o verdadeiro
sentido da caridade, como a entendia Jesus.
Dúvida alguma deve remanescer em nossa alma quanto ao
fidedigno caminho, da verdade e da vida, no qual
nos unimos a Jesus.
O verdadeiro espírita é aquele que se esforça em sua
transformação moral para o bem, emprega todas as suas
forças para domar suas más tendências.10 Sempre
atento às advertências das entidades venerandas que se
encontram com a Verdade em Jesus.
Toda resposta em assunto importante é remédio. É
indispensável saber dosá-lo, com vista aos efeitos. Cada
criatura tolerará, com benefício, determinada
dinamização. As próprias soluções da verdade e do amor
não devem ser administradas sem esse critério. Aplicada
em proporções inadequadas, a verdade poderá destruir,
tanto quanto o amor costuma perder... (Emmanuel)11
Referências bibliográficas.
1. Bíblia
de Jerusalém, ed.
Paulus, 1ª edição, 2002/SP, pg. 1865;
2. Fonte
Viva,
ed. FEB, 21ª ed. 1956/RJ, pg. 385;
3. Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa, Editora Nova
Fronteira, 2ª ed. 1989/RJ, pg. 228;
4. O
Livro dos Espíritos,
Editora FEB, 77ª ed. 1944/RJ, pg. 95;
4.1. O Livro dos Espíritos, Introdução, Ed. FEB,
77ª ed. 1944/RJ, pag. 23
5. Os
Filósofos,
José Herculano Pires, ed. FEESP/SP, 2000, pg. 181;
6. Vinha
de Luz, cap.
43. Emmanuel/Francisco Cândido Xavier. Ed. FEB/RJ, 2015,
pg. 111.
7. Catholic
News Agency, Gazeta do Povo, 12 mai 26. Papa
alerta: negação da verdade objetiva ameaça religião e
ciência.
8. Moniz,
Juliana, Adventist Record: LINK
1 - disponível em 6 abr 2026;
9. Keyes,
Ralph; A
Era da Pós-Verdade: Desonestidade e Enganação na Vida
Contemporânea (2004): LINK
2 - disponível em 22 mai 26;
10. Allan
Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed.
FEB/RJ, 112ª edição/1996, pag. 276;
11. Pão
Nosso.
Emmanuel, Francisco Cândido Xavier, Ed. FEB/RJ, 22ª
edição/2002, pag. 166.
Edmar Jorge de Almeida, expositor e trabalhador espírita
desde 1981, participa dos trabalhos da FEB e da Comunhão
Espírita de Brasília.