Especial

por Edmar Jorge de Almeida

A Verdade, a Pós-verdade e a Mentira. Desafios contemporâneos.


Neste mundo em transição as crises se avolumam e se estendem a todas as dimensões da convivência humana. Os desafios se agudizam ao ponto de nos aturdirmos em meio ao cipoal de manipulações e mentiras, de falsas versões que tendem a encobrir a realidade objetiva. A busca de uma diretriz que nos ofereça razoável equilíbrio e paz para dissipar as trevas da incerteza progressiva tornou-se um desafio que parece insuperável.

Nestas breves reflexões cotejaremos as causas das incertezas fomentadas pela mentira e as opções de superação, ante os caminhos recomendados pela Doutrina dos Espíritos.


I – Introdução.

 Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Jesus (João: 8:32)1

Emmanuel, em Fonte Viva2, conduz-nos ao cerne do dilema:

“A palavra do Mestre é clara e segura.

Não seremos libertados pelos ´aspectos da verdade´ ou pelas ´verdades provisórias´ de que sejamos detentores no círculo das afirmações apaixonadas a que nos inclinemos.

Muitos em política, filosofia, ciência e religião, se afeiçoam a certos ângulos da verdade e transformam a própria vida numa trincheira de luta desesperada, a pretexto de defendê-la, quando não passam de prisioneiros do ´ponto de vista´.”  

Em tempos de crises, como nas guerras, a primeira vítima é a verdade. Como na célebre frase atribuída ao dramaturgo grego Ésquilo (525-456 a.C.). “Na guerra, a primeira vítima é a verdade.”

Ninguém hoje é incapaz de constatar que vivemos numa época de transformações radicais, em todos os campos do relacionamento humano, tal como os descreve Emmanuel; em política, filosofia, ciência e religião. O que sobressai nesse período é a simultaneidade de agudas mudanças e a convergência dos seus efeitos, exatamente nos pontos em que não é possível retroceder – ponto-de-não-retorno – incidindo sobre a nossa visão de mundo e as escolhas de cada um. O desafio é coletivo, a solução, ... individual, personalíssima, inafastável.

Nada mais previsível, neste cenário, a tendência à autopreservação diante das crescentes ameaças, desde a camuflagem, o mimetismo, até a mentira; estratégias para evitar danos e obter vantagem ou benefícios, ainda que aparentes, ainda que breves.

Passo a passo, podemos nos aproximar da ambição suprema da mentira: - parecer, a mais não poder, com a verdade, ... parecer, ... e não ser.  Advertência de Platão em A República e no diálogo Hipias Menor, no qual a mentira mais perigosa não é aquela que propaga um falso fato, mas aquela que consegue imitar a verdade, a tal ponto de se tornar quase indistinguível desta.

Na turbulência das crises, paradoxalmente, pode emergir a luz possível para os que se esforçam por encontrá-la, em consonância com a origem grega do vocábulo, Krísisalteração, desequilíbrio repentino, a exigir urgente ação de julgar, discernir – separar o bom do ruim – evoluindo para o latim, Crisis, momento de decisão.

O maior desafio, todavia, é coexistir, conviver, com a necessidade de fazer escolhas obstadas pela ausência de conhecimento, pelos erros de interpretação, pelo incitamento ao mal, pelas falsidades e a hipocrisia que ensombram os cenários nos quais vivemos.


II – Desenvolvimento. Da Ignorância à simulação e à dissimulação.

Todos fomos criados simples e ignorantes4, sem conhecimento e sabedoria, questão 115 d’ O Livro dos Espíritos (LE), entretanto, impelidos à evolução e ao progresso contínuos, ininterruptos e infinitos. Uma força incoercível, inata, impulsiona-nos para a perfeição plena. Questão 779 (LE), além das potências individuais, os mais adiantados auxiliam o progresso dos demais, pela simples convivência social. Três fontes se revelam no princípio: - a Divina - fonte primária - a individual e a coletiva.

Desde a origem têm os Espíritos, almas enquanto encarnados, a capacidade de escolha, sem a qual não seria possível ascender ou estagnar – mérito, responsabilidade - não lhe sendo concedida a possibilidade de decair, retroceder.

Nas escolhas, livres e voluntárias, mais ou menos conscientes – nada obstante suficientes, para não aderir ao mal - o ponto nodal da escalada (questão 122, LE). Há sempre, desde a origem, reitere-se, a capacidade de escolha, em virtude da sua livre vontade.


2.1. A Mentira.

A mentira e seus sucedâneos podem ser identificados pelos graus de sua propagação, do silêncio à conduta maliciosa.

O silêncio, porém, não pode ser considerado omissão da verdade, somente em si e por si, no sentido de ocultar a realidade, entretanto  - e também - o confronto com a impossibilidade de demonstrá-la, como vemos no diálogo de Jesus com Pilatos, (João, 18:37).

“O que é a verdade?”, indagou Pilatos, sem a menor intenção de obter uma resposta, um melhor esclarecimento, porque afastou-se sem esperar a explicação que dissimulou desejar, (João 18:38).

Jesus, momentos antes, dissera: Vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade me ouve (João 18:37). Neste momento não proferia um conceito abstrato, de difícil apreensão, revelava a Verdade concreta - um fato que a realidade objetiva demonstrava à saciedade - por suas palavras, ensinamentos e feitos, alguns absolutamente extraordinários, tão excepcionais que tornariam o seu nome conhecido em todo mundo e para sempre.

Pilatos optou por relativizar o testemunho – inequívoco, objetivo e factual - e camuflá-lo numa falsa dúvida intelectual. Aqui os silêncios se revelam, o de Jesus, verdadeiro, o de Pilatos, falso, dissimulado. O aprofundamento do diálogo levaria Pilatos ao dilema que não queria enfrentar, condenar alguém que sabia inocente. O silêncio malicioso que se camufla em conveniências pessoais e políticas.

A mentira, como ludibrio ou falsidade, sempre esteve presente na história humana, surgindo, em sua origem, pela necessidade de preservação da vida, desde os primórdios da civilização. Nesse sentido, o ser humano não é o único a servir-se dessa tática, para instintivamente sobreviver, fazendo-se de morto ou camuflando-se para melhor defender-se ou vencer seus predadores. Pode-se afirmar que essa atitude é conatural, peculiar à conduta humana. Sempre presente nos jogos de sedução e conquista, afetiva ou social. A grande questão que dela surge é o fim a que se destina, o uso que se lhe dá, o motivo que a impulsiona, as vantagens que persegue.

A intenção de enganar, com o fim de obter uma vantagem - material ou moral - ou simplesmente induzir ao erro ou à perda, à frustração, à queda de quem a recebe, é que constitui o cerne do desvalor da mentira.

Constituindo-se de um não-ser, não possui substância ou valor positivo para as relações humanas, induzindo os que são ludibriados em consequências adversas. Tolerada, apenas, como justificável nos atos de compaixão e de cuidado, seus complexos matizes enovelam-se na própria origem e motivação dos pensamentos, dos sentimentos e da vontade.

Nada obstante, ainda na idade média, entre os séculos XIV e XV, Ibn Khaldun (1332-1406)5, filósofo árabe, precursor da filosofia da história, desenvolveu uma teoria sobre a mentira, demonstrando como esta se infiltra na história e, via de consequência, como se evitar que esse artifício prevaleça. Quanto a isso, indica sete causas para o seu aparecimento:

- “o apego dos homens a certas opiniões e a certas doutrinas;

- a confiança ingênua nos relatos dos informantes;

- a facilidade com que o homem se considera na posse da verdade;

- a falta do conhecimento dos objetivos dos ´atores dos grandes acontecimentos´;

- a ignorância das relações entre os acontecimentos e as circunstâncias;

- a tendência à bajulação dos personagens ilustres e importantes;

- a ignorância da natureza dos fenômenos ´que nascem da Civilização´”.

Foi o primeiro filósofo a haver comprovado a influência das situações, objetivas e subjetivas - tanto espontâneas, quanto por fontes exteriores – que projetam seus singulares efeitos no meio social. Quanto a isso, destaca José Herculano Pires, na obra antes indicada:

“Neste ponto, que é sumamente importante, como se vê, Khaldun esclarece, com uma precisão que antecede até mesmo Durkheim: ´Tudo o que acontece, seja espontaneamente, seja por efeito de uma influência exterior, possui um caráter próprio, tanto na sua essência quanto nas circunstâncias que o acompanham´.”(grifamos)  

Embora não tenha exaurido todas as múltiplas causas da mentira, fornece uma ampla base teórica para o início de nossas reflexões sobre a existência e seus efeitos na propagação da contrafação.

Mentir, voluntária e conscientemente, afasta-nos da verdade, pior, incompatibiliza-nos com a luz, confinando-nos em suas funestas trevas. A tal ponto, que pode nos condenar à condição de não-retorno, pelo comprometimento da personalidade que estiola e se anula, quanto mais se reitera.

“O mundo está cheio de enganos dos homens abomináveis que invadiram os domínios da política, da ciência e da religião e ergueram criações chocantes para os espíritos menos avisados; contam-se por milhões as almas com eles arrebatadas às surpresas da morte e absolutamente desequilibradas nos círculos da vida espiritual.”(Emmanuel)

Ai daqueles que optam pela abominação das mentiras na política, na ciência e na religião, arrebatados pela surpresa da morte – desde logo moral e, ao final, física - ao absoluto desequilíbrio.

Condenam a si mesmos, à incompatibilidade com a realidade objetiva, à repulsa à luz e à verdade, precipitando-se no pântano do erro e das trevas que criaram para si e em torno de si, ... eis o ponto-de-não-retorno.

A mentira compromete a tal ponto o equilíbrio, a estabilidade e o progresso das pessoas, das instituições e das sociedades que está tornando-as disfuncionais, ao incidir sobre a cultura, a ciência e a religião, transformando-se na maior e mais insidiosa ameaça contemporânea, como recentemente afirmou o Papa Leão XIV, na Fundação do Observatório Vaticano, em Castel Gandolfo:

“Hoje, no entanto, a ciência e a religião enfrentam uma ameaça diferente, e talvez mais insidiosa: aqueles que negam a própria existência da verdade objetiva”7

Dissimulada em formulações teóricas que visam a suprema aspiração da mentira, como antes mencionado em Platão; parecer a verdade, em seu grau máximo, ... e não ser a verdade.

É o que se vê entre os cultores da Pós-verdade.


2.2. A Pós-verdade. 

A palavra pós-verdade, recentemente criada, é, em verdade, um subproduto da ambiência contemporânea caracterizada como a Era da Mentira; forma dissimulada e entorpecente para as mentes que optam por debater-se nas ondas sombrias da negação da realidade, criando uma esfera de afetação, de hipocrisia – hoje chamadas “bolhas” - na qual a verdade restringe-se às crenças e versões engendradas por interesses inconfessáveis. Interesses que, há pouco tempo atrás, eram contidos pela culpa, ocultados pela vergonha, evitados pelo decoro e pela dignidade.

A expressão pós-verdade, ante a insólita propagação, foi selecionada como a palavra do ano, pelo Dicionário Oxford de Inglês, em 2016, a refletir um meio ambiente cultural que desnuda o desvalor da mentira, na qual as versões que apelam às emoções e crenças pessoais alcançam maior valor e se sobrepõem à realidade objetiva, aos fatos, à verdade afinal.

O presidente da Oxford Languages, Casper Grathwohl, revelou que a estranha popularidade da expressão foi impulsionada pelas mídias sociais, diante da desconfiança dos fatos propalados pelas mídias estabelecidas e comprometidas pelo establishment (grupos que detêm o poder). 8

É o próprio Grathwohl que adverte que a pós-verdade se tornaria uma palavra definidora do nosso tempo.

Afinal, nada acrescenta às formas através das quais a mentira se infiltra na história, como teorizado por Ibn Khaldun, no século XIV; um viés do relativismo moral que recusa a existência de verdades universais e absolutas - como a existência de Deus – e assola a humanidade com todos os funestos consectários de um subjetivismo cristalizado no materialismo.

Sob o ponto de vista da conduta individual, a pós-verdade criou uma zona ética cinzenta, permitindo-nos dissimular sem culpa; manipular a verdade, mantendo positiva a autoimagem; normalizar a mentira como ferramenta socialmente aceitável, para contornar a realidade adversa e levar vantagem ou proteger conveniências; e, por fim, o efeito mais devastador, contaminar as relações pessoais, na família, nas instituições e na sociedade.9


III. A Doutrina Espírita diante dos Desafios Atuais.

Tudo quanto existe e nos é possível inferir pode ser resumido à matéria, ao espírito e ao Criador; Deus, eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom. Criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais.4.1.

A fidelidade à Verdade exige uma consciência situacional e um comportamento alinhados aos ensinamentos de Jesus, enriquecidos pelo conhecimento do Consolador Prometido, a Doutrina dos Espíritos.

Consciência de si mesmo e do meio no qual existimos – consciência situacional - impõe um esforço de autoconhecimento (LE, q. 919), um complexo processo de auto-observação, autodisciplina, autoeducação e autorrealização.

O esforço de autoconhecimento - em seus degraus iniciais - demanda-nos um compromisso com a autenticidade, com a sinceridade, que deve começar em nós, propagando-se de nós e retornando para nós. Quem almeja estar com a Verdade, não pode se permitir, em linha de princípio, mentir para si mesmo. Quem mente para si mesmo provoca a autossabotagem de seus anelos, debilita a própria vontade. De par com isto, esforçar-se em não desnaturar a realidade na qual vive, disseminando o vírus da mitomania, que contamina, de imediato, aquele que o propaga.

Por fim, em cada passo, dia a dia, aos poucos, mas sempre - o ponto culminante da autorrealização - a prática ininterrupta de benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas (LE, q. 886), que resume o verdadeiro sentido da caridade, como a entendia Jesus.

Dúvida alguma deve remanescer em nossa alma quanto ao fidedigno caminho, da verdade e da vida, no qual nos unimos a Jesus.

O verdadeiro espírita é aquele que se esforça em sua transformação moral para o bem, emprega todas as suas forças para domar suas más tendências.10  Sempre atento às advertências das entidades venerandas que se encontram com a Verdade em Jesus.

Toda resposta em assunto importante é remédio. É indispensável saber dosá-lo, com vista aos efeitos. Cada criatura tolerará, com benefício, determinada dinamização. As próprias soluções da verdade e do amor não devem ser administradas sem esse critério. Aplicada em proporções inadequadas, a verdade poderá destruir, tanto quanto o amor costuma perder... (Emmanuel)11


Referências bibliográficas
.

1. Bíblia de Jerusalém, ed. Paulus, 1ª edição, 2002/SP, pg. 1865;

2. Fonte Viva, ed. FEB, 21ª ed. 1956/RJ, pg. 385;

3. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, 2ª ed. 1989/RJ, pg. 228;

4. O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 77ª ed. 1944/RJ, pg. 95;

4.1. O Livro dos Espíritos, Introdução, Ed. FEB, 77ª ed. 1944/RJ, pag. 23

5. Os Filósofos, José Herculano Pires, ed. FEESP/SP, 2000, pg. 181;

6. Vinha de Luz, cap. 43. Emmanuel/Francisco Cândido Xavier. Ed. FEB/RJ, 2015, pg. 111.

7. Catholic News Agency, Gazeta do Povo, 12 mai 26. Papa alerta: negação da verdade objetiva ameaça religião e ciência.

8. Moniz, Juliana, Adventist Record: LINK 1 - disponível em 6 abr 2026;

9. Keyes, Ralph; A Era da Pós-Verdade: Desonestidade e Enganação na Vida Contemporânea (2004): LINK 2 - disponível em 22 mai 26;

10. Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed. FEB/RJ, 112ª edição/1996, pag. 276;

11. Pão Nosso. Emmanuel, Francisco Cândido Xavier, Ed. FEB/RJ, 22ª edição/2002, pag. 166.

 
Edmar Jorge de Almeida, expositor e trabalhador espírita desde 1981, participa dos trabalhos da FEB e da Comunhão Espírita de Brasília.
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita