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por Ricardo Baesso de Oliveira

 

Circunstâncias fortuitas


De acordo com o físico Leonard Mlodinow[i] nossa mente não se dá bem com incertezas. Por essa razão, buscamos avidamente segurança e controle, duas das mais relevantes necessidades psicológicas. Sentir-se seguro e acreditar que possui controle sobre a própria vida são condições associadas ao bem-estar mental. A falta delas gera sofrimento psíquico, aumento no estresse e surgimento de doenças. Num estudo, um grupo de ratos foi subitamente privado de todo o controle que detinha sobre o ambiente. Em pouco tempo, os animais pararam de lutar pela sobrevivência e morreram.

A sensação de controle foi examinada em um grupo de idosos num asilo. Um dos grupos teve o poder de decidir de que modo seriam dispostos os móveis em seu quarto e puderam escolher uma planta para cuidar. Aos integrantes do outro grupo lhes foi negado isso. Em um estudo de acompanhamento realizado 18 meses depois, verificou-se que o grupo que não exercera o controle sobre o ambiente apresentara uma taxa de mortalidade de 30%, enquanto o grupo que exercera o controle tivera uma taxa de apenas 18%

Por isso também é que não lidamos bem com aleatoriedade. A questão é que se os eventos são aleatórios, nós não estamos no controle, e se estamos no controle dos eventos, eles não são aleatórios.  Portanto, há um confronto fundamental entre nossa necessidade de sentir que estamos no controle e nossa capacidade de reconhecer a aleatoriedade. Esse embate é um dos principais motivos pelos quais interpretamos erroneamente os eventos aleatórios, procurando encontrar padrões em tudo que acontece.

Em situações que envolvem o acaso, nossos processos mentais costumam ser gravemente deficientes. Erramos feio quando se trata de opinarmos em relação a coisas que não seguem padrões rígidos. Assim, todos nós criamos um olhar próprio sobre o mundo e o empregamos para filtrar e processar nossas percepções, extraindo significados do oceano de dados que nos inunda diariamente. Precisamos encontrar causas, sentidos e finalidades. O antropólogo Harvey Whitehouse denomina tudo isso de teleologia promíscua.[ii] Segundo Whitehouse, a crença de que as coisas se dão em virtude de forças causais, dando um sentido a tudo o que acontece, é verificada em quase todas as culturas humanas, podendo ser considerada com um dos universais das intuições religiosas.

No pensamento espírita, a teleologia promíscua se manifesta com expressões como por exemplo: o acaso não existe ou tudo tem uma razão de ser. Faz bem à alma acreditar que as coisas funcionam assim: nos sentimos seguros; e se não possuímos controle direto sobre os fatos de nossa vida, alguém que detém todo o poder e nos ama imensamente (Deus) possui esse controle e só permitirá que aconteça aquilo que é melhor para nós.

Allan Kardec, mesmo se identificando com o pensamento teleológico, reconheceu a ocorrência de certo grau de aleatoriedade nos fatos da vida.

A esse respeito, destaca-se a reflexão proposta por ele, no Livro dos Espíritos, quando é considerada a relevante questão que envolve a causalidade dos acontecimentos da vida.

Ao formular didaticamente a questão[iii], Kardec propõe:

Do fato de pertencer ao Espírito a escolha do gênero de provas que deva sofrer, seguir-se-á que todas as tribulações que experimentamos na vida nós as previmos e buscamos?

Refletindo sobre o tema, ele admite que muitos fatos que se verificam em nossa experiência corpórea foram anteriormente previstos, ou até mesmo escolhidos; são eventos de grande significância e que têm a ver com as nossas premências evolutivas:

[...] previstos só são os fatos principais, os que influem no destino.

Outros fatos decorrem não de previsões anteriores, mas de escolhas conscientes efetuadas por nós, na atual experiência corpórea:

[...] não escolhestes e previstes tudo o que vos sucede no mundo, até às mínimas coisas [...] as particularidades correm por conta da posição em que vos achais; são, muitas vezes, consequências das vossas próprias ações [...] Esses atos resultam do exercício da sua vontade, ou do seu livre-arbítrio.

Existem, todavia, outros eventos, segundo Kardec, que não se identificam com nenhuma dessas possibilidades; que não possuem uma causa previsível e que não seguem uma ordem determinada:

Os acontecimentos secundários se originam das circunstâncias e da força mesma das coisas. Se, ao percorreres uma rua, uma telha te cair na cabeça, não creias que estava escrito, segundo vulgarmente se diz. 

Não estamos habituados em pensar nessa última possibilidadeQuando reconsideramos detalhadamente os acontecimentos de nossas vidas, tendemos a acreditar que foram minuciosamente previstos, preparados, ou conduzidos por Espíritos desencarnados, mas devemos considerar que, não raramente, podemos identificar eventos aleatórios aparentemente inconsequentes que levaram a grandes acontecimentos.

Também aqui podemos reconhecer o fenômeno conhecido como efeito borboleta, com base na ideia de que ínfimas alterações atmosféricas causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. Pequenas ocorrências pouco valorizadas podem estar implicadas em situações muito relevantes.

Leonard Mlodinow sintetiza seu pensamento nas ideias seguintes:

Muito do que nos acontece – êxito na carreira, nos investimentos e nas decisões pessoais, grandes ou pequenas – resulta tanto de fatores aleatórios, quando de habilidade, preparação e esforço. Portanto, a realidade que percebemos não é um reflexo direto das pessoas ou circunstâncias que a compõem, e sim uma imagem borrada pelos efeitos randomizantes de forças externas imprevisíveis ou variáveis. Isso não quer dizer que a habilidade não importe – ela é um dos fatores ampliadores das chances de êxito-, mas a conexão entre ações e resultados não é tão direta quanto gostaríamos de acreditar.

Mesmo considerando tudo isso, o físico, reconhece a capacidade humana de, em qualquer situação, fazer prevalecer a sua vontade e determinação. Segundo ele, as pessoas bem-sucedidas em todas as áreas quase sempre fazem parte de um certo conjunto – o conjunto das pessoas que não desistem.[iv]

A posição assumida por Kardec, que não difere muito das concepções de Mlodinow, nos encaminha no sentido de, ao examinarmos as ocorrências da vida, evitarmos uma rigidez cognitiva, admitindo sempre em nosso raciocínio uma rede variável de possibilidades. O ser humano é extremamente complexo; a vida humana é extremamente complexa. Examinar os fatos que envolvem a vida humana com um pensamento simplório, rígido e acabado é, no mínimo, ingenuidade.

O importante é que vamos encontrar também nas circunstâncias fortuitas oportunidades de aprendizado; porque o que conta mesmo é viver dignamente as experiências que nos são propostas, tenham elas sido escolhidas, previstas ou não.                    


 

[i] O andar do bêbado.

[ii] Herança.

[iii] LE item 259.

[iv] O andar do bêbado.

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita