Circunstâncias
fortuitas
De acordo com o
físico Leonard
Mlodinow[i] nossa
mente não se dá
bem com
incertezas. Por
essa razão,
buscamos
avidamente
segurança e
controle, duas
das mais
relevantes
necessidades
psicológicas.
Sentir-se seguro
e acreditar que
possui controle
sobre a própria
vida são
condições
associadas ao
bem-estar
mental. A falta
delas gera
sofrimento
psíquico,
aumento no
estresse e
surgimento de
doenças. Num
estudo, um grupo
de ratos foi
subitamente
privado de todo
o controle que
detinha sobre o
ambiente. Em
pouco tempo, os
animais pararam
de lutar pela
sobrevivência e
morreram.
A sensação de
controle foi
examinada em um
grupo de idosos
num asilo. Um
dos grupos teve
o poder de
decidir de que
modo seriam
dispostos os
móveis em seu
quarto e puderam
escolher uma
planta para
cuidar. Aos
integrantes do
outro grupo lhes
foi negado isso.
Em um estudo de
acompanhamento
realizado 18
meses depois,
verificou-se que
o grupo que não
exercera o
controle sobre o
ambiente
apresentara uma
taxa de
mortalidade de
30%, enquanto o
grupo que
exercera o
controle tivera
uma taxa de
apenas 18%
Por isso também
é que não
lidamos bem com
aleatoriedade. A
questão é que se
os eventos são
aleatórios, nós
não estamos no
controle, e se
estamos no
controle dos
eventos, eles
não são
aleatórios.
Portanto, há um
confronto
fundamental
entre nossa
necessidade de
sentir que
estamos no
controle e nossa
capacidade de
reconhecer a
aleatoriedade.
Esse embate é um
dos principais
motivos pelos
quais
interpretamos
erroneamente os
eventos
aleatórios,
procurando
encontrar
padrões em tudo
que acontece.
Em situações que
envolvem o
acaso, nossos
processos
mentais costumam
ser gravemente
deficientes.
Erramos feio
quando se trata
de opinarmos em
relação a coisas
que não seguem
padrões rígidos.
Assim, todos nós
criamos um olhar
próprio sobre o
mundo e o
empregamos para
filtrar e
processar nossas
percepções,
extraindo
significados do
oceano de dados
que nos inunda
diariamente.
Precisamos
encontrar
causas, sentidos
e finalidades. O
antropólogo
Harvey
Whitehouse
denomina tudo
isso de teleologia
promíscua.[ii] Segundo
Whitehouse, a
crença de que as
coisas se dão em
virtude de
forças causais,
dando um sentido
a tudo o que
acontece, é
verificada em
quase todas as
culturas
humanas, podendo
ser considerada
com um dos
universais das
intuições
religiosas.
No pensamento
espírita, a
teleologia
promíscua se
manifesta com
expressões como
por exemplo: o
acaso não existe ou tudo
tem uma razão de
ser. Faz bem
à alma acreditar
que as coisas
funcionam assim:
nos sentimos
seguros; e se
não possuímos
controle direto
sobre os fatos
de nossa vida,
alguém que detém
todo o poder e
nos ama
imensamente
(Deus) possui
esse controle e
só permitirá que
aconteça aquilo
que é melhor
para nós.
Allan Kardec,
mesmo se
identificando
com o pensamento
teleológico,
reconheceu a
ocorrência de
certo grau de
aleatoriedade
nos fatos da
vida.
A esse respeito,
destaca-se a
reflexão
proposta por
ele, no Livro
dos Espíritos,
quando é
considerada a
relevante
questão que
envolve a
causalidade dos
acontecimentos
da vida.
Ao formular
didaticamente a
questão[iii],
Kardec propõe:
Do fato de
pertencer
ao Espírito a
escolha
do gênero de
provas que deva
sofrer,
seguir-se-á que
todas as
tribulações que
experimentamos
na vida nós as
previmos e
buscamos?
Refletindo sobre
o tema, ele
admite que
muitos fatos que
se verificam em
nossa
experiência
corpórea foram
anteriormente
previstos, ou
até mesmo
escolhidos; são
eventos de
grande
significância e
que têm a ver
com as nossas
premências
evolutivas:
[...] previstos
só são os fatos
principais, os
que influem no
destino.
Outros fatos
decorrem não de
previsões
anteriores, mas
de escolhas
conscientes
efetuadas por
nós, na atual
experiência
corpórea:
[...] não
escolhestes e
previstes tudo
o que vos sucede
no mundo, até às
mínimas coisas
[...] as
particularidades
correm por conta
da posição em
que vos achais;
são, muitas
vezes,
consequências
das vossas
próprias ações
[...] Esses atos
resultam
do exercício da
sua vontade,
ou do seu livre-arbítrio.
Existem,
todavia, outros
eventos, segundo
Kardec, que não
se identificam
com nenhuma
dessas
possibilidades;
que não possuem uma
causa previsível e que
não seguem uma
ordem
determinada:
Os
acontecimentos
secundários se
originam das
circunstâncias e
da força mesma
das coisas. Se,
ao percorreres
uma rua, uma
telha te cair na
cabeça, não
creias que
estava escrito,
segundo
vulgarmente se
diz.
Não estamos
habituados em
pensar nessa
última
possibilidade. Quando
reconsideramos
detalhadamente
os
acontecimentos
de nossas vidas,
tendemos a
acreditar que
foram
minuciosamente
previstos,
preparados, ou
conduzidos por
Espíritos
desencarnados,
mas devemos
considerar que,
não raramente,
podemos
identificar
eventos
aleatórios
aparentemente
inconsequentes
que levaram a
grandes
acontecimentos.
Também aqui
podemos
reconhecer o
fenômeno
conhecido como efeito
borboleta,
com base na
ideia de que
ínfimas
alterações
atmosféricas
causadas pelo
bater das asas
de uma
borboleta,
poderiam ter um
grande efeito
nos subsequentes
padrões
atmosféricos
globais.
Pequenas
ocorrências
pouco
valorizadas
podem estar
implicadas em
situações muito
relevantes.
Leonard Mlodinow
sintetiza seu
pensamento nas
ideias
seguintes:
Muito do que nos
acontece – êxito
na carreira, nos
investimentos e
nas decisões
pessoais,
grandes ou
pequenas –
resulta tanto de
fatores
aleatórios,
quando de
habilidade,
preparação e
esforço.
Portanto, a
realidade que
percebemos não é
um reflexo
direto das
pessoas ou
circunstâncias
que a compõem, e
sim uma imagem
borrada pelos
efeitos
randomizantes de
forças externas
imprevisíveis ou
variáveis. Isso
não quer dizer
que a habilidade
não importe –
ela é um dos
fatores
ampliadores das
chances de
êxito-, mas a
conexão entre
ações e
resultados não é
tão direta
quanto
gostaríamos de
acreditar.
Mesmo
considerando
tudo isso, o
físico,
reconhece a
capacidade
humana de, em
qualquer
situação, fazer
prevalecer a sua
vontade e
determinação.
Segundo ele, as
pessoas
bem-sucedidas em
todas as áreas
quase sempre
fazem parte de
um certo
conjunto – o
conjunto das
pessoas que não
desistem.[iv]
A posição
assumida por
Kardec, que não
difere muito das
concepções de
Mlodinow, nos
encaminha no
sentido de, ao
examinarmos as
ocorrências da
vida, evitarmos
uma rigidez
cognitiva,
admitindo sempre
em nosso
raciocínio uma
rede variável de
possibilidades.
O ser humano é
extremamente
complexo; a vida
humana é
extremamente
complexa.
Examinar os
fatos que
envolvem a vida
humana com um
pensamento
simplório,
rígido e acabado
é, no mínimo,
ingenuidade.
O importante é
que vamos
encontrar também
nas
circunstâncias
fortuitas
oportunidades de
aprendizado;
porque o que
conta mesmo é
viver dignamente
as experiências
que nos são
propostas,
tenham elas sido
escolhidas,
previstas ou
não.