Entrevista

por Orson Peter Carrara

Depressão, a linguagem do acolhimento com um olhar diferenciado para os casos que se apresentam


Natural de São Bernardo do Campo (SP) e residente em São Paulo (SP), Paulo Cristiano Amaro (foto) é psicoterapeuta, escritor e palestrante. Formado em Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização pela PUC, possui extensão em Neurociência pela mesma instituição, além de certificações em Transtornos Ansioso-Depressivos pelo Hospital Albert Einstein, Comportamento Suicida pelo Hospital Sírio-Libanês e Processo de Luto pelo mesmo hospital.

Vincula-se a duas instituições espíritas: o Grupo Espírita Seareiros da Boa Vontade, em Sorocaba (SP), e o Grupo Espírita Amélia Nogueira, em Cesário Lange (SP), presidindo ambas as instituições.

 

Tendo nascido em família espírita, ao longo da vida, o que mais lhe chamou a atenção no Espiritismo?

O que mais me tocou no Espiritismo foi a forma como ele acolhe a dor humana sem julgamento. Desde cedo percebi que ali existia um espaço onde o sofrimento não era visto como vitimização, mas como parte do caminho da alma.

O Espiritismo me ensinou que existe um sentido maior por trás das experiências da vida. Que aquilo que vivemos não é castigo, mas, muitas vezes, algo que realmente precisamos atravessar. Que Deus é misericordioso e nunca abandona seus filhos, apesar de todas as suas imperfeições.

Mas, acima de tudo, o que mais me marcou foi perceber que ninguém está sozinho. Existe um amparo invisível, uma espiritualidade que cuida, orienta e sustenta, mesmo quando a pessoa sente que não aguenta mais. Isso mudou completamente a forma como enxergo a vida.

Como surgiu o interesse pela Psicologia e pela Psicoterapia?

O interesse nasceu da própria dor. Antes de ajudar outras pessoas, precisei entender o que acontecia dentro de mim. Vivi momentos muito profundos de sofrimento emocional, e isso despertou uma busca sincera por respostas.

No início, foi uma tentativa de me salvar. Mas, com o tempo, essa busca transformou-se em propósito. Percebi que muitas pessoas estavam passando por sentimentos parecidos — angústia, vazio, falta de sentido — e não sabiam nomeá-los nem lidar com eles.

A Psicologia e a Psicoterapia surgiram como ferramentas para organizar aquilo que, por dentro, parecia um caos. E, quando comecei a compreender minha própria história, senti um chamado muito forte para ajudar outras pessoas a percorrerem o mesmo caminho.

Hoje, não vejo isso apenas como profissão, mas como missão, especialmente por meio das palestras que tenho realizado pelo Brasil.

Tendo vivido uma experiência depressiva, como a descreve em seu caso?

A depressão, no meu caso, foi um silenciamento da vida. Não era apenas uma tristeza profunda. Era como se tudo perdesse o sentido. Coisas que antes tinham valor deixavam de tê-lo. O mundo continuava acontecendo, mas eu não conseguia me conectar com ele nem com Deus.

Era uma sensação de vazio muito grande, acompanhada de um profundo cansaço emocional e de uma imensa solidão, mesmo estando cercado de pessoas.

Era um esgotamento que não se resolve com descanso. E talvez o mais difícil fosse a sensação de incompreensão por parte daqueles que viviam comigo, sob o mesmo teto. Porque, por fora, muitas vezes ninguém percebia o que acontecia por dentro. Alguns achavam que era frescura, que eu queria chamar atenção, entre outras denominações que todos conhecemos.

A depressão me ensinou que a dor emocional pode ser invisível. Pode não provocar sangramento físico, mas é extremamente intensa e pesada. E que acolher essa dor, sem julgamento, é o primeiro passo para qualquer processo de transformação.

Relate a experiência mediúnica vivida diante de uma tentativa de suicídio.

Foi uma experiência muito marcante em minha vida. Durante um momento de extremo sofrimento, em que pensamentos de desistência estavam muito presentes, vivi uma experiência espiritual muito intensa, na qual senti claramente uma intervenção da espiritualidade e a certeza de que Deus realmente existe.

Não foi algo visual, mas profundamente sentido. Uma presença, um amparo, uma sensação muito forte de que eu nunca estava sozinho, mesmo acreditando que estava.

Vou contar a história em partes para que todos possam compreendê-la.

Eu tinha uma grande amiga chamada Cida. Ela desencarnou há dez anos. Vivi um luto prolongado e muito profundo por sua perda. Sofri de uma forma que jamais imaginei sofrer. Ela foi uma das pessoas que me ajudaram a fundar o Grupo Espírita Seareiros da Boa Vontade, em Sorocaba (SP). Ligava para mim todos os dias, sem exceção, apenas para dizer que me amava. Guardem essa informação.

Naquela época, eu já havia perdido até mesmo a confiança em Deus, tamanho era o sofrimento. Estava na janela do 29º andar, pronto para pular e tirar a própria vida, quando desafiei a Deus e disse:

— E então, Deus? Você não é o Todo-Poderoso? Não é o Salvador? Venha me salvar agora. Prove que existe.

Nesse momento, surgiu um pensamento muito claro:

— Ligue para o CVV (Disque 188).

Pensei que seria minha última tentativa.

Liguei para o CVV, onde somos atendidos por voluntários que não conhecemos. Uma senhora atendeu a ligação e permaneceu comigo ao telefone por cinco horas. Eu não disse absolutamente nada. Apenas chorava. Estava em uma crise muito intensa e não conseguia me expressar.

Os voluntários do CVV seguem protocolos bastante rígidos. Em determinado momento, porém, aquela mulher disse:

— O negócio é o seguinte, Paulo...

Fiquei espantado, porque eu não havia dito meu nome em momento algum.

Ela continuou:

— Vou quebrar o protocolo do CVV, porque, do contrário, não vou conseguir ajudá-lo.

Pensei comigo:

— Faça o que quiser. Para mim, nem Deus existe mais.

Então ela disse:

— Paulo, há uma mulher aqui ao meu lado chamada Cida. Ela está pedindo para lhe dizer que não pule da janela.

Naquele instante, consegui respirar profundamente pela primeira vez. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Em nenhum momento havia mencionado que estava na janela. Parecia que ela estava vendo tudo o que acontecia.

E então veio a frase que mudou tudo:

— Ela também pede que eu lhe diga que não pode mais telefonar todos os dias, mas continua amando você.

Foi naquele momento que me afastei da janela.

Se não fosse aquela voluntária do CVV, talvez eu não estivesse aqui hoje dando este depoimento. E, se não fosse a Cida, também não estaria. Ela sabia que precisaria utilizar o amor que existia entre nós para me alcançar naquele momento.

Até hoje não sei quem era aquela mulher. Os voluntários do CVV não podem revelar sua identidade por questões éticas e de segurança. Tentei contato outras vezes, mas nunca consegui encontrá-la.

Essa experiência não eliminou imediatamente a dor, mas transformou algo dentro de mim. Trouxe um fio de esperança em meio ao caos. Com o tempo, compreendi que aquele foi um verdadeiro ponto de virada — um momento em que a espiritualidade me sustentou quando eu já não tinha mais forças.

Hoje, atendendo e confortando pessoas, como sente esse drama humano?

Eu o sinto com muito respeito. A dor das pessoas não é pequena, não é exagero nem fraqueza. Ela é real.

Cada pessoa que chega traz uma história, uma vivência e uma carga emocional que, muitas vezes, carrega sozinha há muito tempo. O que mais me chama a atenção é que, por trás de cada sofrimento, existe alguém querendo ser visto, ouvido e verdadeiramente acolhido.

Hoje, mais do que acolher, procuro estar presente. Porque, muitas vezes, o que a pessoa mais precisa não são respostas prontas nem fórmulas de solução, mas alguém que consiga sustentar aquele momento ao seu lado e lhe dizer, com sinceridade: “Estou aqui”.

O sofrimento humano precisa ser acolhido antes de ser transformado.

O que falta nos atendimentos humanos, médicos, terapêuticos e religiosos para mudar o rumo da apatia para a vivacidade?

Falta presença verdadeira.

Vivemos em um tempo de muita informação, muitas técnicas e inúmeros protocolos, mas, frequentemente, de pouco contato humano genuíno.

Hoje, essa chamada “felicidade tóxica”, que exige otimismo permanente e pensamentos positivos a qualquer custo, não ajuda quem está em sofrimento emocional e em estado de fragilidade.

A pessoa que sofre precisa sentir-se vista. Falta escuta sem pressa. Falta sensibilidade. Falta um olhar capaz de enxergar além do comportamento e alcançar a dor.

Quando alguém se sente verdadeiramente acolhido, algo em seu interior começa a se reorganizar. A transformação não começa pela imposição de soluções ou pela tentativa de enquadrar o outro naquilo que julgamos ideal. Ela nasce do vínculo, da presença e do encontro humano verdadeiro.

Também não ajuda julgar ou afirmar que a pessoa está utilizando a doença para chamar atenção ou fazer drama. Esse tipo de atitude apenas aprofunda o sofrimento.

O que seu coração diria aos atendentes fraternos das instituições espíritas?

Diria para jamais esquecerem que estão lidando com almas em sofrimento.

Por trás de cada pessoa existe uma história que desconhecemos. Mais do que orientar, é preciso acolher; mais do que falar, é preciso ouvir.

Às vezes, uma palavra inadequada pode ferir profundamente e fazer com que alguém retorne à estaca zero. Em contrapartida, uma escuta sincera pode abrir caminhos interiores de grande importância.

O atendimento fraterno é, muitas vezes, o primeiro contato da pessoa com o cuidado e com o acolhimento. Por isso, precisa ser conduzido com sensibilidade, humildade e amor.

Não se trata de ter todas as respostas, mas de estar verdadeiramente disponível.

Também considero importante refletirmos sobre certas frases que costumamos dizer a quem sofre. Muitas vezes ouvimos: “Vai passar”. Nem sempre passa. Algumas dores permanecem conosco por toda a vida.

Pergunte a um pai ou a uma mãe que perdeu um filho se a saudade desaparece. Ela pode tornar-se mais leve com o tempo, mas dificilmente deixa de existir.

Por isso, considero mais acolhedor dizer: “Vai ficar mais leve”.

Precisamos aprender a validar a dor do outro, reconhecendo sua legitimidade e oferecendo presença, apoio e respeito.

E o ambiente familiar e doméstico? Como pode contribuir para essa superação?

O ambiente familiar exerce papel fundamental nesse processo.

A família deveria ser a principal rede de apoio da pessoa em sofrimento. Quando há acolhimento, compreensão e respeito, ela se sente mais segura para enfrentar seus desafios emocionais.

Entretanto, muitas vezes os familiares também não sabem como agir e acabam julgando, pressionando ou tentando resolver tudo rapidamente.

O primeiro passo é compreender que sofrimento emocional não se resolve com cobranças.

Quantas vezes ouvi frases como: “Levante-se dessa cama”, “Vá caminhar”, “Faça academia”.

É importante lembrar que a atividade física contribui significativamente para a saúde mental. Contudo, uma pessoa em estado emocional gravemente comprometido pode não ter forças sequer para realizar tarefas básicas do cotidiano.

Escutar sem interromper, evitar comparações, respeitar o tempo do outro e oferecer companhia já representam uma ajuda valiosa.

Muitas vezes, o maior apoio que alguém pode oferecer é simplesmente estar presente, sem tentar consertar tudo. Apenas estando ao lado de quem sofre.

Algo marcante que gostaria de relatar dos atendimentos que tem feito?

O que mais me marca é perceber que, mesmo nas situações mais profundas de sofrimento, ainda existe vida dentro da pessoa.

Muitas vezes, quem pensa em suicídio não deseja propriamente morrer; deseja apenas que a dor cesse. Em seu sofrimento, acaba enxergando a morte como a única saída possível. É justamente aí que a rede de apoio se torna indispensável.

Mesmo quando alguém afirma não ter mais forças, quase sempre existe uma parte de si que ainda deseja continuar. Quando essa pessoa encontra acolhimento e espaço para se expressar, começa, pouco a pouco, a se reconectar consigo mesma.

Ver alguém que chegou completamente sem esperança reencontrar sentido para a vida, ainda que gradualmente, é algo que não tem preço. Isso me recorda diariamente a força que existe em cada ser humano, muitas vezes desconhecida até por ele próprio.

Fale de seu livro. Como adquiri-lo?

Meu trabalho como escritor nasce da mesma motivação que orienta meus atendimentos psicoterapêuticos e minhas palestras: acolher.

Escrevo sobre saúde emocional, sofrimento humano e caminhos de reconexão com a vida, utilizando uma linguagem simples, acessível e próxima das pessoas.

O livro Depressão: A Linguagem do Acolhimento pode ser adquirido por meio das minhas redes sociais (@institutopauloamaro), pelo site pauloamaro.com.br ou pelo telefone (15) 99612-9835, com Isabel.

Também mantenho uma plataforma na Hotmart, onde compartilho conteúdos sobre saúde mental e espiritualidade, oferecendo recursos destinados a auxiliar pessoas que atravessam períodos de sofrimento emocional.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Gostaria de compartilhar algo que trago muito forte dentro de mim e que também está presente em meu livro Depressão: A Linguagem do Acolhimento.

Muitas pessoas vivem em silêncio. Por fora, continuam funcionando; por dentro, lutam diariamente para se manter de pé. O que mais me sensibiliza é perceber que, muitas vezes, elas nem conseguem explicar o que sentem. Apenas sabem que algo não está bem.

Costumo dizer: "Nem toda dor sabe se explicar, mas toda dor precisa ser acolhida."

Fomos educados a esconder sentimentos, a demonstrar força o tempo todo, a seguir adiante mesmo quando tudo dentro de nós pede pausa. Entretanto, chega um momento em que a alma necessita de cuidado.

E esse cuidado nem sempre vem de fora. Muitas vezes começa quando aprendemos a olhar para nós mesmos com menos cobrança e mais compaixão.

Outra frase que sintetiza muito do que acredito é: "Você não precisa estar bem para começar a se cuidar. Precisa apenas decidir não se abandonar."

Se há algo que gostaria de deixar registrado é isto: parar de se abandonar já representa um recomeço.

Cuidar da saúde emocional não significa buscar perfeição, mas aprender a tratar a si mesmo com mais gentileza e compreensão.

Suas palavras finais.

Gostaria de encerrar com uma mensagem simples, mas sincera.

Se você estiver atravessando um período em que tudo parece pesado, confuso ou sem sentido, lembre-se de que não precisa resolver tudo hoje.

Muitas vezes nos cobramos por não estar bem, por não reagir ou por não conseguir acompanhar o ritmo que o mundo parece exigir. No entanto, há dias em que o gesto mais honesto que podemos realizar é simplesmente continuar.

E isso já é muito.

Às vezes, a força se manifesta de forma silenciosa. Não surge como entusiasmo ou motivação, mas como permanência. Você continua caminhando, mesmo sem compreender plenamente o que acontece, mesmo sem sentir segurança, mesmo sem saber exatamente como prosseguir.

Isso também é vida.

Se, em algum momento, sentir necessidade de apoio, acolhimento ou cuidado mais próximo, respeite essa necessidade. Não precisamos atravessar todas as experiências sozinhos.

Também é reconfortante perceber que existem espaços de escuta, diálogo e acolhimento, onde as pessoas podem, gradualmente, reencontrar a si mesmas — sem pressa, sem cobranças e respeitando o próprio tempo.

Porque, no fundo, é disso que se trata:

seguir… mesmo que devagar.
sentir… mesmo que confuso.
e, aos poucos, ir voltando para si.

E enquanto houver esse movimento, por menor que pareça, ainda há caminho. E eu estou aqui, de mãos dadas com você. Jamais soltarei suas mãos!


 

 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita