Quando a imprensa espírita surgiu no século XIX, por
meio da Revue Spirite de Allan Kardec, o jornal e
a revista impressos representavam o que havia de mais
moderno em comunicação cultural. O papel permitia
registrar ideias, sistematizar experiências e criar uma
ponte permanente entre estudiosos, leitores e
instituições. Durante mais de um século, esse modelo
sustentou a divulgação doutrinária em diversos países.
Contudo, a chegada da internet alteraria profundamente o
panorama da comunicação humana, abrindo caminho para uma
nova etapa da imprensa espiritualista.
Foi nesse contexto de transformação tecnológica que
nasceu, em 18 de abril de 2007, a revista eletrônica O
Consolador. A data escolhida não poderia ser mais
simbólica: celebravam-se os 150 anos de publicação de O
Livro dos Espíritos. O surgimento da revista parecia
estabelecer, naquele instante, uma ponte histórica entre
a imprensa pioneira de Kardec e a nova era digital que
começava a remodelar o planeta.
Naquele período, muitas instituições ainda observavam a
internet com cautela. Havia dúvidas quanto à
credibilidade do meio eletrônico, resistência cultural
ao abandono do impresso e incertezas sobre a capacidade
de uma revista virtual conquistar leitores fiéis.
Astolfo Olegário de Oliveira Filho e seus colaboradores,
porém, perceberam algo que poucos haviam compreendido
com clareza: a internet não era apenas uma inovação
técnica, mas um novo território para a circulação
mundial das ideias.
A decisão revelou-se visionária. Em vez de insistir no
modelo tradicional de impressão e distribuição postal —
caro, lento e limitado geograficamente — O Consolador nasceu
inteiramente digital, semanal e gratuito. A proposta
eliminava barreiras econômicas e permitia alcançar
leitores espalhados pelo Brasil e pelo exterior com
velocidade inédita para a imprensa espírita.
Mas talvez o aspecto mais admirável do projeto não tenha
sido apenas sua modernidade tecnológica. O que realmente
singularizou a revista foi a compreensão de que a
comunicação espírita precisava unir fidelidade
doutrinária, abertura cultural e senso de
responsabilidade moral. A internet, utilizada sem
critério, poderia transformar-se em espaço de
superficialidade e dispersão. Utilizada com equilíbrio,
porém, poderia converter-se em poderoso instrumento de
educação espiritual.
Desde suas primeiras edições, O Consolador demonstrou
clara linha editorial. A revista manteve compromisso com
a Codificação Espírita, sem se fechar ao diálogo com
temas contemporâneos, culturais, filosóficos e
científicos. Em vez de reduzir o Espiritismo a fórmulas
repetitivas ou discursos sectários, buscou apresentar
reflexão equilibrada, estudo sistemático e jornalismo
doutrinário sério. Essa coerência editorial tornou-se
uma de suas maiores forças.
Transpondo fronteiras
Dois anos após sua fundação, os números já
impressionavam. A revista alcançava leitores em 83
países distribuídos pelos cinco continentes. Downloads,
acessos e impressões de páginas cresciam continuamente,
revelando algo que ultrapassava o êxito técnico de um
site: havia demanda real por conteúdo espírita
consistente em escala internacional.
O fenômeno possui significado histórico importante.
Durante décadas, a imprensa espírita esteve condicionada
às limitações da circulação física. Mesmo periódicos
tradicionais de grande prestígio raramente conseguiam
atingir leitores espalhados pelo mundo com rapidez e
regularidade. A internet modificou radicalmente essa
lógica. Pela primeira vez, uma revista espírita
brasileira podia ser lida quase instantaneamente em
Portugal, Japão, Canadá, Suíça, Estados Unidos ou
Austrália.
Essa expansão internacional não ocorreu por acaso. Ela
decorreu da combinação entre acessibilidade gratuita,
regularidade editorial e qualidade doutrinária. Em um
ambiente digital frequentemente marcado pela
improvisação, O Consolador construiu reputação de
seriedade. O leitor encontrava ali continuidade,
estabilidade e clareza de princípios.
Outro aspecto relevante foi a crescente participação de
articulistas residentes no exterior. O intercâmbio
internacional ampliou horizontes culturais e fortaleceu
o diálogo entre diferentes experiências do movimento
espírita mundial. A revista deixou de ser apenas um
periódico brasileiro disponível na internet; tornou-se
ponto de encontro entre leitores e colaboradores
espalhados por diversos países.
Existe ainda dimensão humana particularmente tocante
nessa história. Em determinado momento, durante os
conflitos armados no Líbano, a revista recebeu mensagem
de uma leitora brasileira vivendo em meio à guerra. O
episódio revelou concretamente aquilo que muitas vezes
permanece abstrato nos debates sobre comunicação
digital: uma publicação espírita online pode tornar-se
amparo emocional e espiritual para pessoas situadas em
regiões de sofrimento e insegurança.
A cena possui força simbólica notável. Enquanto bombas
explodiam em um país distante, alguém buscava consolo e
esperança por meio de um veículo espírita acessado pela
internet. Nesse instante, a imprensa espiritualista
deixava de ser apenas instrumento de divulgação
doutrinária para converter-se em ponte de solidariedade
humana. O alcance moral do jornalismo espírita aparecia
ali em sua expressão mais elevada.
Energizando a imprensa espírita
Ao completar dezenove anos de existência, O
Consolador já pode ser considerado parte importante
da história da imprensa espírita brasileira. Sua
trajetória demonstra que tradição e inovação não são
forças opostas. A fidelidade ao pensamento kardequiano
não impediu modernização tecnológica; ao contrário,
encontrou nela meio eficaz de expansão.
O trabalho desenvolvido por Astolfo Olegário de Oliveira
Filho merece, nesse contexto, reconhecimento especial.
Seu percurso na imprensa espírita antecede a criação da
revista e revela dedicação de décadas ao jornalismo
doutrinário. A experiência acumulada em periódicos
anteriores permitiu compreender tanto as limitações do
modelo tradicional quanto as possibilidades abertas pela
comunicação digital.
Mas nenhum projeto dessa natureza se sustenta
individualmente. A continuidade da revista ao longo de
quase duas décadas evidencia existência de verdadeira
equipe de colaboradores movidos por ideal comum. A
permanência semanal de uma publicação exige disciplina
editorial, organização silenciosa e compromisso contínuo
com qualidade de conteúdo.
Há também aspecto cultural digno de reflexão. Em uma
época marcada pela comunicação instantânea, pela
polarização agressiva e pela superficialidade das redes
sociais, O Consolador manteve proposta de estudo,
equilíbrio e reflexão. Isso representa contribuição
significativa não apenas ao Espiritismo, mas à própria
cultura do diálogo responsável.
O mérito torna-se ainda maior quando se observa que a
revista jamais se apoiou em sensacionalismo ou
espetacularização do fenômeno espírita. Sua linha
permaneceu centrada na formação intelectual e moral do
leitor. Essa escolha talvez explique parte importante de
sua credibilidade e longevidade.
Ao lado de periódicos históricos como Reformador, O
Clarim, Revista Internacional de Espiritismo, Presença
Espírita e Revue Spirite, O Consolador passou
a integrar o conjunto de publicações que ajudam a
estruturar a memória editorial do Espiritismo
contemporâneo. Cada uma possui identidade própria; todas
compartilham a convicção de que a palavra escrita
continua sendo instrumento fundamental de educação
espiritual.
Entre a palavra e a esperança
Vivemos época paradoxal. Nunca houve tanta informação
disponível, mas raramente se viu tamanho grau de
dispersão mental. Multiplicam-se opiniões instantâneas,
conteúdos efêmeros e discursos agressivos. Nesse
cenário, a existência de espaços comprometidos com
reflexão equilibrada adquire importância crescente.
A imprensa espírita possui responsabilidade particular
nesse contexto. Não lhe basta divulgar notícias ou
repetir conceitos doutrinários. Sua missão inclui
estimular discernimento, fraternidade e amadurecimento
moral. Quando atua com equilíbrio, ajuda a elevar o
padrão cultural do debate espiritual.
Ao longo de dezenove anos, O Consolador procurou
cumprir exatamente essa tarefa. Sua contribuição não
pode ser medida apenas por estatísticas de acesso ou
quantidade de leitores espalhados pelo mundo. O
verdadeiro alcance de uma revista espiritualista
manifesta-se também nas consciências que ajudou a
esclarecer, nas inquietações que ajudou a pacificar e
nas reflexões que conseguiu estimular.
Existe ainda outro mérito silencioso: a demonstração de
que é possível oferecer gratuitamente conteúdo espírita
sério e de qualidade em escala internacional. Em tempos
nos quais quase tudo se converte em mercadoria, a
permanência desse ideal possui significado ético
profundo.
Não é exagero afirmar que a revista representa uma das
experiências mais bem-sucedidas da imprensa espírita
digital em língua portuguesa. Seu percurso evidencia que
a internet, quando utilizada com responsabilidade, pode
transformar-se em instrumento de aproximação humana e
difusão cultural de grande alcance.
Recentemente, em meu livro A História da Imprensa
Espírita e Espiritualista no Mundo(*),
tive a alegria de registrar o papel histórico
desempenhado por O Consolador no processo de
transição da imprensa espírita para o ambiente digital.
Ao fazê-lo, procurei reconhecer não apenas uma
publicação específica, mas uma etapa nova da própria
comunicação espírita contemporânea.
Hoje, ao celebrar os dezenove anos da revista, renovo
minha admiração pelo trabalho desenvolvido por Astolfo
Olegário e José Carlos Munhoz Pinto, fundadores do
periódico, por sua equipe e por seus numerosos
colaboradores espalhados pelo Brasil e pelo exterior.
Fui levado a essa revista pelas laboriosas mãos de meu
amigo jornalista Orson Peter Carrara e, desde então,
incluo-me com sincera honra e profunda gratidão entre
seus articulistas.
A trajetória de O Consolador demonstra que a
palavra continua sendo uma das grandes forças
civilizatórias da Humanidade. Mudam os suportes
tecnológicos, transformam-se os meios de difusão, mas
permanece viva a necessidade humana de esclarecimento,
consolo e esperança. Enquanto houver consciências
buscando luz para o entendimento da vida, iniciativas
como essa continuarão a desempenhar papel valioso na
construção de um mundo espiritualmente mais consciente e
moralmente mais fraterno.
(*) O livro A História da Imprensa
Espírita e Espiritualista no Mundo, mencionado neste
artigo, pode ser baixado gratuitamente da Biblioteca
Digital Frigéri clicando-se aqui: Biblioteca
Digital
Mário Frigéri é poeta,
escritor, autor e youtuber com a mente e o coração
voltados para o esplendor do Evangelho e da Doutrina
Espírita. Campinas-SP.