Materializações
luminosas,
críticas
iluminadas?
Houve um tempo em que as discussões em torno do que se
divulgava a respeito do Espiritismo visavam,
principalmente, o aprendizado sobre a Doutrina. Entre
polemistas conhecidos do meio espírita, citaremos dois
dos mais profícuos e proeminentes: o Dr. Carlos
Imbassahy (1884-1969) e Herculano Pires (1914-1979).
Para além da vasta produção literária, ambos possuem
traços marcantes, sendo a ética o princípio
fundamental que se reflete em cada uma de suas obras.
O
espírita — aquele que estuda o Espiritismo como
mecanismo de transformação interior — sabe que Allan
Kardec, na Revista Espírita de novembro de 1858,
definiu as bases de uma polêmica espírita. A partir da
compreensão de que é necessário esclarecer o que é e o
que não é Espiritismo, Imbassahy e Herculano dedicaram
décadas de estudos e pesquisas para orientar a interpretação das
revelações doutrinárias.
Esta introdução abre espaço para contextualizar as
críticas que surgem na internet acerca do trabalho de
figuras históricas, sobretudo quando envolvem o nome de Chico
Xavier. Cabe ressaltar que esta reflexão não parte
de um olhar dogmático, embora reconheça a importância da
obra e do trabalho assistencial do médium mineiro.
É
inegável que o nome de "Chico Xavier" proporciona
visibilidade. Por isso, ao lado de pesquisadores sérios,
surgem abordagens que buscam o impacto do
"desmascaramento". É oportuno pontuar: Chico Xavier não
era infalível, e a própria Doutrina Espírita não
sustenta o conceito de "santidade" ou infalibilidade
para seus expoentes. Eventuais divergências em uma obra
de tamanha magnitude são esperadas em qualquer
trajetória humana.
No
entanto, quando análises se utilizam de um recorte
isolado que pode sugerir ou até induzir para generalizar
conclusões, é preciso cautela. A cautela não é em
relação a pessoas e sim como parte do processo de
aprendizado.
Em
um vídeo recente, um especialista analisa duas imagens
de materialização do médium Peixotinho (1905-1966) e
aponta o que considera serem evidências de produção
artificial, baseando-se na semelhança facial com atrizes
de revistas da época. O vídeo sugere que, por ter
assinado o verso das fotos, Chico Xavier poderia ter
sido conivente com uma possível fraude.
Para compreendermos essa semelhança iconográfica, é
fundamental recorrer à tese de Herculano Pires em sua
obra Mediunidade (Edicel, 1974). Herculano
esclarece que o ectoplasma possui uma natureza
essencialmente plástica e é moldado pelo pensamento —
processo conhecido como ideoplastia. Muitas vezes, o que
se manifesta não é a "face espiritual" em sua essência,
mas um simulacro ou mimetismo de imagens presentes no
campo mental do médium ou dos assistentes. Portanto, a
coincidência entre a forma materializada e uma imagem de
revista não é, sob a ótica da Ontopsicologia proposta
por Herculano em O Espírito e o Tempo (Edicel,
1964), uma prova de fraude, mas sim a evidência da lei
de plasticidade que rege o fenômeno.
Poder-se-ia alegar (em um contraponto puramente
materialista) que o testemunho de Chico Xavier e dos
demais presentes seria falho por não possuírem
instrumentos de perícia técnica. Entretanto, tal
argumento reduz a experiência fenomenológica a um mero
exame visual de uma foto estática.
O
que as nove assinaturas atestam não é a análise de uma
fotografia, mas a vivência de um fenômeno
sensorial-mediúnico. A experiência incluía a
percepção de batimentos cardíacos, variações térmicas e
interações diretas com as formas materializadas.
Atribuir conivência a Chico Xavier por ele ter
testemunhado um fato que a tecnologia de hoje
correlaciona a uma imagem de revista é um anacronismo
metodológico que ignora a totalidade do evento em favor
de um fragmento visual.
Em
suma, embora a técnica apresentada no vídeo aponte
correlações visuais curiosas, a conclusão de "fraude
deliberada" é uma interpretação subjetiva que ignora as
leis da ciência espírita estudadas por Herculano Pires.
O tom efusivo da denúncia parece servir mais ao
espetáculo das redes sociais do que ao esclarecimento
que a ética exige. Como diz o ditado: "devagar com o
andor, que o Santo é de barro". O legado de Chico
Xavier merece uma análise que considere a complexidade
dos fenômenos e a integridade de uma vida inteira
dedicada ao bem.