Entrevista

por Orson Peter Carrara

Experiência mediúnica mostra que a mediunidade requer disciplina e aprimoramento


Natural de Bauru (SP), onde também reside, Patrícia de Oliveira Bastos Bono (foto) é bacharel em Ciências Contábeis, pós-graduada em Finanças e Controladoria e atua profissionalmente como instrutora de Yoga. Vincula-se ao CEAC – Centro Espírita Amor e Caridade, na mesma cidade, atuando como voluntária. Já integrou a Diretoria no período de janeiro de 2022 a agosto de 2025, além de ter participado do Conselho Fiscal no biênio 2020/2021. Dedica-se também à divulgação espírita por meio de palestras na região de Bauru e participa, como médium, das reuniões mediúnicas da mesma instituição. Entrevistamo-la sobre sua experiência com a psicografia e a psicofonia.


Como conheceu o Espiritismo?

Conheci, nesta existência, a Doutrina Espírita ainda criança. Minha família não seguia nenhuma religião, mas todos eram simpatizantes do Espiritismo. Cresci com livros de Chico Xavier pela casa e li o primeiro aos 10 anos. Minha compreensão era, obviamente, muito limitada devido à pouca idade; no entanto, o que conseguia assimilar me parecia tão lógico que hoje percebo que o conhecimento espírita já havia sido adquirido anteriormente.

O que mais lhe chama atenção nesse conteúdo?

Todos os ensinamentos doutrinários merecem nossa atenção especial. Porém, a noção que os postulados da Doutrina Espírita nos trazem em relação à nossa responsabilidade diante da vida, entendendo que somos responsáveis pelas consequências que ela nos apresenta, é consoladora. Se a paz e a felicidade que desejamos sentir dependessem das decisões e atitudes alheias, a vida seria muito mais difícil. Por misericórdia e justiça da Lei Divina, isso depende única e exclusivamente de nós mesmos. É o que nos ensina o estudo da lei de causa e efeito.

E como percebeu as próprias faculdades?

A mediunidade deu seus primeiros sinais na infância. Aos 5 anos, tive minha primeira visão, faculdade que seguiu até a adolescência, quando também começaram os desdobramentos e uma intuição muito forte. A psicofonia e a psicografia tiveram início posteriormente. Cheguei a pensar, em determinado momento, que tanto uma quanto a outra faculdade se revelaram tardias, mas, pelo estudo atento que busquei e busco — e aí reforço essa necessidade para todos —, compreendi que o tempo é Deus. E “quando o trabalhador está pronto, o trabalho aparece”, como nos diz André Luiz.

O que é mais constante na prática: a psicofonia ou a psicografia? Detecta a causa da prevalência de uma sobre a outra?

A mediunidade de psicografia teve início um pouco após a mediunidade de psicofonia; no entanto, é a faculdade que se apresenta mais constante. Essa prevalência deve-se ao fato de a tarefa mediúnica para a qual fui chamada inicialmente estar ligada à psicografia. Tarefa essa que, com certeza, foi compromisso firmado na erraticidade e que tenho por responsabilidade cumprir.

E como é sua atual percepção do fenômeno após os estudos espíritas e a prática regular na instituição? E qual a maior dificuldade na prática?

O conhecimento realmente nos liberta, como nos disse o Mestre Jesus. Com os estudos, as dúvidas e perturbações que em alguns momentos se faziam presentes foram dissipadas e, em seu lugar, surgiram a compreensão e a certeza de tudo o que acontecia. O conhecimento adquirido com o estudo sério da doutrina me traz paz e me fortalece para as tarefas mediúnicas e doutrinárias. É importante salientar que o assunto não se encerra: o estudo continua. Ele deve ser constante. Apesar da busca pelo conhecimento, ainda preciso lidar com minhas imperfeições, e a disciplina é uma qualidade com a qual, vez ou outra, preciso me preocupar.

Comente sobre a experiência com palestras, online e presenciais, inclusive o retorno do público.

A tarefa de divulgação doutrinária me traz grande alegria. Além do fato de ser maravilhoso falar da Doutrina Espírita e do Evangelho de Jesus, ela me proporciona a oportunidade de ampliar meus estudos e de conhecer pessoas especiais, que se tornam muito queridas para mim. A felicidade e a entrega são as mesmas em palestras online e presenciais. O retorno do público presente, assim como os comentários nos vídeos, toca meu coração, por perceber que o sentimento de amor foi transmitido em cada palavra. No entanto, nada substitui o abraço afetuoso, carregado de boas energias, que recebo nos encontros presenciais.

Como vê o momento atual do movimento espírita?

Por um lado, a difusão dos ensinamentos espíritas pelas redes sociais, em forma de palestras, podcasts e estudos, é algo muito positivo. No entanto, preocupa-me o surgimento, em alguns conteúdos, de opiniões e teorias em desacordo com a Codificação, o que, na realidade, sempre ocorreu, mas cuja facilidade de acesso atualmente é incomparavelmente maior. A Doutrina Espírita é progressiva. Allan Kardec nos informa isso ao tratar da Natureza da Revelação Espírita em A Gênese; contudo, deixa claro que essa progressão se refere ao avanço do progresso aliado à ciência de observação, dentro do caráter universal. Estamos em processo de regeneração, o mundo passa por transformações e tudo se escancara diante de nossos olhos. A Doutrina Espírita é, em sua essência, consoladora. Às vezes me pergunto se estamos cumprindo esse papel como atuantes no movimento espírita. Não podemos permitir que a forma se sobreponha à essência. Já passou da hora de acolher, e as casas espíritas precisam sempre voltar o olhar para essa questão tão pertinente.

De suas vivências mediúnicas e de divulgação espírita, qual a lembrança mais marcante?

Foram muitas as vivências mediúnicas que me marcaram. Posso citar, em especial, um acontecimento relacionado ao meu pai, que estava com câncer à época e hoje já se encontra desencarnado. Meu pai morava sozinho, não muito longe de minha casa. Era noite, e eu retornava para casa com meus filhos pequenos. Naquele dia, não pretendia visitá-lo. Passando próximo à esquina em que deveria virar caso fosse vê-lo, enquanto dirigia, com o barulho das crianças e o rádio ligado, entrei numa espécie de transe e ouvi a voz de um amigo espiritual aconselhando-me a ir ver meu pai. Acatei o aviso. Encontrei-o praticamente desacordado. Ao chegar ao hospital, ele teve duas paradas cardíacas. Dois dias depois, faleceu segurando minha mão. Sou grata a esse amigo espiritual. Se não tivesse recebido o aviso, meu pai teria desencarnado sozinho naquela noite.

Em relação à divulgação espírita, houve também um fato muito marcante, envolvendo a mediunidade, que me emocionou profundamente. Ao finalizar uma palestra pela manhã, senti a presença de um amigo querido, com quem tive a alegria de conviver na casa espírita. Durante a palestra da tarde, ele permaneceu ao meu lado. Foi quase impossível conter a emoção.

Algum livro resultante da psicografia já foi publicado? Há outros em andamento?

Ainda não. Uma obra está concluída e aguarda revisão por parte da editora. Outra está em fase inicial. Existe uma programação, e tenho consciência de que seu cumprimento depende de minha dedicação e responsabilidade com a tarefa.

Algo mais a acrescentar?

Uma palavra aos médiuns que estão iniciando em suas tarefas mediúnicas: confiem em si mesmos! Porém, essa confiança não dispensa a orientação recebida, o estudo sério e a disciplina. Tenham fé e perseverem para serem bons instrumentos a serviço da espiritualidade. A mediunidade, como diz Emmanuel, é ensejo de serviço, aprimoramento, resgate e solução.

Suas palavras finais.

Gostaria de agradecer o convite para esta entrevista e dizer que ser espírita é ser feliz, é nutrir esperança, é saber encarar a vida da forma como ela se apresenta, driblando as imperfeições e aprendendo com elas; é tentar compreender o outro, respeitar a opinião alheia e buscar ser melhor a cada dia. Paz e luz a todos!


Nota do entrevistador
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