Alavanca da vida
Através do amor, nasce a criatura no berço que o mundo
lhe entretece, em fios de esperança e, com ele,
desenvolve-se, respirando a existência. E cedo, quase
sempre, por amor enceguecido, afeiçoa-se ao orgulho e,
por amor desgovernado, cede às teias da delinquência.
Além da morte, porém, o amor genuíno acorda o
discernimento anestesiado, e no amor vigilante,
convertido em remorso, volvemos todos nós às justas do
trabalho, ressarcindo o gravame que nos onera a vida.
É aí, nessas atormentadas províncias das sombras, que o
amor tange as almas no reajuste preciso…
Mães abnegadas que se iludiram, envenenando o mel da
ternura, pedem a bênção do recomeço, a fim de
recolherem, novamente, nos braços os filhos que
olvidaram na irreflexão e no vício; pais amigos, que
fizeram da proteção e da segurança sistema de tirania,
voltaram de novo à Terra, sofredores e penitentes, com a
missão de reunirem, a preço de mágoa e fel, o rebanho
das almas que dispersaram na rebeldia; grandes mulheres
que, por amor desorientado, intoxicaram a própria vida,
rogam tarefas de sacrifício em que lavam com as águas do
pranto as nódoas aflitivas que lhe marcam a rota, tanto
quanto homens notáveis, que por amor desvairado se
enredaram aos crimes da inteligência, suplicam as provas
da frustração ou da enfermidade com que arredam de si a
chaga da loucura e a dor do arrependimento.
É assim que por amor surge o charco da crueldade, mas
também por amor brota a fonte das lágrimas que, em tudo,
o purifica.
Procuremos na renúncia a nossa forma de amor, de vez que
somente amando a nossa oportunidade de erguer o bem para
os outros, sem cogitar do apego a nós, é que seremos
arrebatados ao sol do amor triunfante, que na Terra e
nos Céus é e será sempre a alavanca da vida.
Do livro Família, obra
psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
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